De que matéria são feitas a vida e obra de um Nobel da Literatura? Fernando Gómez Aguilera procurou responder a essa pergunta, ao conceber, na Fundação César Manrique, em Lanzarote, a exposição José Saramago -La Consistencia de los Sueños, patente ao público até 16 de Janeiro. Ao longo de 700 metros quadrados, mostram-se manuscritos (muitos dos quais inéditos), textos dactilografados, primeiras edições em Português e Espanhol de todas as suas obras, traduções, estudos críticos, teses de doutoramentos, documentos gráficos, audiovisuais, recortes de imprensa, cartas de escritores e leitores. Neste número, o JL publica um artigo de Carlos Reis, reitor da Universidade Aberta e nosso colunista, com vários ensaios publicados sobre a obra de José Saramago, falou com o comissário da exposição e ouviu o escritor sobre a importância desta homenagem, decerto uma das maiores que alguma vez lhe foi prestada

Sou um homem antigo que, em princípio, não se deslumbra com as novas tecnologias, mas, com esta exposição, tenho de admitir que me rendi à evidência das suas grandes potencialidades.
O que é que um escritor tem para mostrar ao visitante de uma iniciativa cultural que se estende por uma área de 700 metros quadrados? Papéis, livros, algumas fotografias e pouco mais, mas em La Consistencia de los Sueños vemos coisas tão surpreendentes como a projecção de um fluxo de nomes, que são os das minhas personagens. A digitalização de um manuscrito como Clarabóia permite, por exemplo, que o visitante o leia como se as páginas estivessem lá, como se as pudesse tocar e voltar, e, na verdade, não estão. Descobrir este mundo novo foi qualquer coisa de maravilhoso para mim, tal como o foi refazer todo um período de vida que recordava com pouca precisão. Quando o Fernando Gómez Aguilera me propôs fazer esta exposição, pareceu-me uma ideia difícil, senão impossível, de concretizar. Agora, sinto uma imensa gratidão porque, nesta fase da minha vida, foi-me permitido viver algo de único.
O plano de La Consistencia de los Sueños estava praticamente pronto quando surgiram mais umas quantas caixas em que a Pilar e eu não mexêramos desde que nos mudáramos para Lanzarote. Abriram-se e apareceram manuscritos e outros materiais que eu recordava, mas que pensava serem de datas muito posteriores. Claro que são textos do final da adolescência e do princípio da idade adulta, com um valor literário muito relativo (não são exactamente o Memorial do Convento), mas são importantes para a reconstrução de todo um período da minha vida. O paradoxo é que isto aconteça numa ilha em que escolhi viver, mas na qual não tenho raízes. Por outro lado, se nenhuma instituição portuguesa quiser levar esta exposição a Lisboa, ou a qualquer cidade portuguesa, não sei muito bem o que hei-de pensar.

Depoimento recolhido oralmente