A escolha do cão de um Presidente americano é um tema próximo de um assunto de Estado. O Presidente pode vestir Ermenegildo Zegna ou Joseph Abboud, pode usar Rolex ou Blacpain,  sapatos feitos à medida em Savile Row ou encomendados a Salvatore Ferragamo, gravatas Vicri ou Hermés. Haverá momentos para escrutinar essas escolhas, que, como referiu Michelle Obama antes de fazer flexões em direto no programa televisivo de Ellen DeGeneres, não são do Presidente, mas de uma equipa bem treinada.

 

Um cão de companhia tem um poder próprio de imposição de imagem e um poder que se associa a quem com ele partilha essa companhia.  O Presidente Kennedy, sendo alérgico a cães, tinha 9, um dos quais Pushinka, oferecido pelo Primeiro Ministro soviético Nikita Krushchev. O Presidente Hoover, em 1928, usa um cão polícia para mostrar a sua determinação. Os "Barney Cam" vídeos (mostrando a Casa Branca na perspetiva do terrier escocês de George W Bush) ajudaram a humanizar a imagem de um Presidente "fabricado" no laboratório de uma família poderosa (do lado dos Democratas, JFK já tinha passado pela experiência). Depois do sucesso de Barney, Barak H Obama e a sua equipa tinham de encontrar uma opção vencedora para as fotografias de família, fotografias e os vídeos do Presidente em pose distendida e  momentos de partilha de intimidade com a América e o Mundo.

 

Poderia ter sido escolhido um cão americano? O pitbull passaria uma imagem de agressividade inaceitável. O cocker americano seria uma possibilidade, mas é demasiado grande e excessivamente afável e submisso e daria a ideia de uma América de costas voltadas para o resto do Mundo. Um cão inglês? Há um leque extenso de possibilidades, mas não só poderia parecer a manutenção de uma linha, depois da escolha  do terrier escocês do anterior Presidente, como passar uma mensagem de excessiva proximidade com uma Nação que é já um aliado natural, como a História tem demonstrado. Um poodle francês? Bem, para lá de poder dar um ar enfeminado ao Presidente (que, provavelmente não quer parecer Audrey Hepburn regressando de Paris em "Sabrina"), irritaria os ingleses e daria excessivo protagonismo aos franceses. Um schnauzer? Cães com qualidades excepcionais, mas poderia justificar-se um cão germânico? E um cão italiano? Difícil, com Berlusconi. Na linha dos terriers, que tal um simpático terrier brasileiro? Não, demasiado perigoso, a América Latina é um barril de pólvora em câmara lenta. Um Chihuahua? Jamais, podia incentivar a imigração ilegal dos mexicanos. JFK tinha um cão russo oferecido por um primeiro ministro russo - mas podia Obama comprar um husky siberiano? Rapidamente a Rússia, ela própria, e os países dos antigos sovietes se sentiriam humilhados - a América, mais uma vez, quer trazer o orgulho russo pela coleira. E na Ásia? Um Shar Pei? Não, podia passar uma mensagem errada à China. Um Lhasa Apso? Um cão tibetano na Casa Branca era o pior que podia acontecer às relações bilaterais com o gigante asiático. Um galgo afegão? O idiota que sugerisse tal enormidade no dia seguinte não teria de comparecer ao serviço.

Julgo que ficam poucas possibilidades. O maltês, por exemplo - um cão dócil e inteligente, cujo nome, justificado por Estrabão no início da era cristã, o associa a uma ilha que não suscita hoje grandes acintes. Mas o "cão das damas romanas" talvez seja bombom demais para o Commander-in-Chief.

Chegamos ao nosso cão de água. Uma das qualidades divulgadas pela Casa Branca sobre Bo, o português na Casa Branca, é o ser um cão hipoalergénico. O First Dog de raiz lusa não causa comichão.

Depois do curso canídeo pelo planeta, percebe-se que raros são os pouco alérgicos. Entre espirros, urticária e eripsela, muitos destes animais podem causar perturbações.

Não assim com um simpático cão de água português - afinal, a quem pode morder um animal luso?