As últimas eleições legislativas puseram fim a um ciclo político e abriram outro. A esquerda democrática deu lugar à direita conservadora e neoliberal, como se tem vindo a passar em toda a União Europeia. Mas não vale a pena agora falar do passado. A poeira do tempo fará esquecer muitas críticas, erros e acusações. Tudo isso pertence à história. E, naturalmente, o que neste momento, mais nos interessa - a todos - é o presente e o que aí vem no próximo futuro. Vamos ou não sair da crise que nos afeta?

A um governo minoritário de esquerda democrática vai substituir-se uma coligação maioritária de dois partidos de direita, com grandes diferenças entre si, como se viu durante a campanha eleitoral. Mas a grande crise monetária e económica, desencadeada pelos mercados especulativos que atacaram Portugal, depois da Grécia e da Irlanda, não parece poder resolver-se, facilmente, com os empréstimos - e os altos juros - com que a troika nos brindou. Eis um problema sério. Há compromissos a que nos obrigámos - não só os partidos que estão no poder, também o PS - e datas a cumprir. Não o podemos esquecer. Mas a principal responsabilidade incumbe agora ao governo, do qual se espera competência, rapidez na ação, bom senso e coragem.

A tarefa, todos o sabemos, não vai ser nada fácil. O dinheiro escasseia e as exigências da troika são demasiado monetaristas, embora de momento necessárias. Por isso, temos também de saber evitar a recessão, diminuindo drasticamente o desemprego, o despesismo, em todos os domínios, e dar de novo confiança às pessoas. Se assim não for, juntamos às crises com que nos debatemos - incluída a política - uma crise social que pode ser gravíssima. Vejamos com atenção o que se tem passado na Grécia, em vários países europeus e na própria Espanha, a braços, também, com uma mudança política à vista e um manifesto mal-estar.

Em Portugal, os partidos da esquerda radical, com o seu irrealismo, parece terem perdido o rumo e os horizontes políticos. O terem recusado falar com a troika foi um erro que lhes vai custar caro, porque lhes retirou a idoneidade política. Em relação ao PCP, julgo que Álvaro Cunhal não teria praticado um erro semelhante. Tinha outra elasticidade tática, como várias vezes demonstrou. Quanto ao Bloco de Esquerda, além da perda significativa de votos, provocou uma crise interna que não vai ser fácil esquecer.

O PS, no plano político, continua a ser a grande força da Oposição. Mas menos - diga-se - no plano social. O que deve ser corrigido. A saída voluntária de Sócrates foi um ato de bom senso e abriu a porta a dois candidatos a líder que têm a vantagem de ser pessoas inteligentes, experientes e honestas. Não se irão zangar, penso, qualquer que seja o resultado. Julgo até que serão capazes de colaborar, como é conveniente que façam.

O PS precisa de se unir e de uma refundação política e ideológica. Os tempos mudaram e vão continuar a mudar muito. É um imperativo de sobrevivência. A União Europeia vai ter de mudar radicalmente, sob pena de se desintegrar. É outro dos nossos grandes problemas. O PS deve ter uma conceção própria do que será a União Europeia de amanhã e tem de saber bater-se por ela. Tem de participar ativamente no plano político, ideológico e também social, no Partido Socialista Europeu e de ter em grande atenção o movimento social europeu (sindicatos, cooperativas e associações cívicas). Porque é por estes dois pilares que vai passar o futuro. O PS e os seus militantes devem preparar-se, neste intervalo salutar do poder, para participar ativamente no futuro europeu que aí vem, necessariamente. E, assim, poder contribuir, no momento próprio, para a construção do nosso futuro português.