Portugal está em chamas, de norte a sul, mobilizando bombeiros, militares, populares, meios aéreos próprios e emprestados. Há vítimas a lamentar, assim como vários feridos e prejuízos incalculáveis em área florestal e agrícola. Muita gente irá, seguramente, questionar o acerto e eficácia das decisões tomadas no terreno e nos gabinetes ministeriais, a começar pelo atraso ou não do pedido de ajuda internacional. Mas não é isto o que realmente interessa. O que é público e notório é o esforço e a mobilização de muita gente no combate inglório aos fogos. Tão grande quanto inglório, porque ele é, sobretudo, um combate inconsequente.

É verdade que não se pode decretar o fim dos fogos, que eles acontecem por todo o mundo e, por vezes, com muito mais violência ainda do que em Portugal. Que temos um clima e uma organização territorial e económica que favorece os incêndios florestais. E que teremos, também, a fazer fé no que se ouve ano após ano, interesses obscuros que são a mão criminosa na origem de muitos fogos.

Mas o que realmente conta está, como sempre, muito antes da chegada das tragédias. É certo e sabido que, em Portugal, em matéria de incêndios, desgraça após desgraça, nova desgraça irá acontecer. E esta certeza já não tem nada a ver com o clima ou com negócios da madeira. Já não tem a ver com as grandes chuvadas que começam por prometer grande crescimento dos matos ou com as grandes secas que os vão depois tornar em matérias altamente inflamáveis. Tem apenas a ver com o estado de abandono das nossas florestas, com a certeza de que tudo, ou quase tudo, continuará como estava antes da tragédia - exceto, claro, nos casos em que as chamas trataram do assunto.

Existem inúmeros proprietários sem um tostão para tomarem conta dos seus terrenos. Existem muitos outros que nem sabem de que terrenos são ou não proprietários. E um Estado que é, ele próprio, o exemplo acabado do proprietário que não se recomenda. O problema não é de fácil resolução, mas alguma coisa podia e devia ser feita. A começar por uma mão-cheia de pequenas medidas e a acabar, claramente, nas expropriações, em caso de comprovado abandono...

A questão, em matéria de incêndios, é que os fogos do verão de 2013 já começaram a aquecer.

E em Portugal arde também outro fogo que não se vê mas que já tresanda. As certezas de Passos Coelho no seu discurso da rentrée política não batem certo com os grandes números da economia portuguesa, nem com a execução orçamental, nem com as fissuras que já se começam a notar na coligação com o CDS-PP.

As afirmações de que tudo é para continuar como está não são consistentes com os recados que chegam do seu parceiro em várias áreas da governação, da fiscalidade à Lei Eleitoral Autárquica, da privatização da RTP aos muitos amargos de boca criados por Relvas. A verdade é que os "desencontros" chegaram mais cedo do que seria de esperar, fazendo adivinhar um final de mês de setembro especialmente quente, altura em que a coligação terá de amarrar as últimas pontas de um orçamento de difícil quadratura.

E não batem certo, por último, se considerarmos o distanciamento progressivo do PS. Se é verdade que o Governo não precisa do PS para aprovar o próximo Orçamento, todos nós precisamos do "consenso nacional alargado" que vendemos ao exterior, aquele trunfo que compensa fragilidades económicas e derrapagens de receitas. E o que temos tido, nos últimos dias, é exatamente o contrário, um crescendo de conflitualidade que oscila entre a mensagem autista do chefe do Governo e as respostas de um líder da oposição que é empurrado cada vez mais para um discurso a que sempre procurou fugir, em nome da responsabilidade política.

E é no meio desta falta de sentido de Estado das lideranças social-democrata e socialista, a que se soma um défice orçamental fora de controlo, que nos visita, nesta semana, uma delegação da troika surpreendentemente dialogante e aberta a sugestões. Estaremos finalmente a chegar àquele ponto em que os factos falam por si? Àquele ponto em que a troika tomará a iniciativa de suavizar o calendário das obrigações portuguesas? Terão eles mais noção do que Passos Coelho de que anda fumo no ar? Um fumo que não promete nada de bom?

E é também nesta mesma semana que nos surge um Banco Central Europeu a prometer avançar com programas de assistência direta aos países do euro em dificuldades. Mesmo que essa ajuda seja condicionada e limitada a financiar dívida de curto prazo, trata-se de boas notícias por duas ordens de razões distintas. A primeira tem a ver com o efeito dessa ajuda, que será essencial para aliviar as pressões "especulativas" que incidem sobre vários membros da Zona Euro, como poderá muito bem ser o caso de Portugal. A segunda tem a ver com a afirmação de autonomia do BCE enquanto banco central de todos os países do euro, dando provas de que consegue não ser uma simples sucursal do Bundesbank, a autoridade monetária alemã.

Tirando Passos Coelho, que continua convictamente agarrado ao plano A, as coisas estão a mudar. E, diga o que disser, o primeiro-ministro acabará por apanhar este novo comboio, nem que seja por imposição externa. Tão certo quanto a fatalidade anual dos fogos em Portugal.