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Tudo ou Nádia. 37 O Sal da Terra

O último capítulo de Tudo ou Nádia, o romance em folhetim, de Ana Grichetchkine, que o JL on-line tem vindo a publicar semanalmente. Ilustrações de Branca Aurora
37

O sal da terra

- Qual o valor do sal? - perguntava a viúva depois de ter recebido o cheque das mãos do príncipe  e anunciado o destino que iria dar ao dinheiro do prémio. - O sal queima a boca, esteriliza a terra, não tem nenhum valor em si mesmo. O sal serve apenas para realçar o sabor dos alimentos. É como este cheque - dizia pegando-lhe pelas pontas e esticando o braço na direcção da plateia -, só terá serventia se for bem aplicado e der frutos.
E assim explicava ela porque iria mandar erguer a primeira escola de Lisboa para o ensino das artes e ciências e tolerância entre os povos do mundo. Palmas, palmas.
O Sol devia estar quase a pôr-se, mas a festa ainda mal começara. Bem dissera a viúva que não me preocupasse com o tempo, que seria São Martinho e nada podia correr mal. O fórum estava cheio e parecia uma autêntica tenda do deserto. Bem pensado. Tochas e candelabros pelos jardins, para acender mais tarde, os bancos de pedra cobertos com mantas que pareciam tapetes persas, chafarizes por tudo quanto era sítio e os empregados do buffet pela roupa pareciam marroquinos, mas eram de Leste. A viúva tinha dirigido bem o tempo de duração das actividades, não se podia dizer que não. Parlapié, muito pouco. O concerto era para ser rápido, evitando o choque auditivo com os mais sensíveis e menos habituados a ritmos exóticos.
Seguiam-se os comes e bebes alcohol free ao ar livre, que as tochas certamente ajudariam a transformar em substâncias e néctares divinos.  A rapariga cantava e dançava e estrebuchava em cima do palco que nem uma Madonna das Arábias, e o público vá de abanar a cabeça e de bater palmas e alguns até cantarolavam. A ver se aquilo acabava. Agora que finalmente tinha recuperado a minha forma, estava desejosa de provar aquelas iguarias que tinha visto à entrada.
Quando as portas começaram a abrir-se para o jardim, a sensação que tive foi de estar no Éden. Tudo iluminado, o ar tépido, uma espécie de tanque rectangular com uns 50 metros de comprimento e palmo e meio de profundidade estendia-se diante de mim, como se eu fosse uma sereia e ele a minha passadeira e os azulejos mouriscos, as conchas. Com certeza não o teriam construído de propósito para a festa, e, no entanto, era a primeira vez que o via. Ao tanque e a bem dizer ao minarete, cujo topo se sobrepunha em cerca de 10 metros à linha dos edifícios circundantes. Parecia de ouro, aquela coroa. Bonita. E as mesas à volta daquele espelho de água? Então, era para nos sentarmos?
Estava eu nestas divagações, quando ouço:
- Olá, Nádia, como vai? - Era o presidente da Telecomunicadora.
- Que surpresa! - respondi, deveras surpreendida.
- Temos parcerias com países árabes - explicou ele - e certas obrigações para com a sociedade civil...
- Muito bem - respondi.
- Está sozinha? - perguntou. - Quer fazer-me companhia?
O ambiente estava perfumado com aromas florais e doces. Jasmim, talvez? A musica fluía suavemente entre as mesas, por cima da cabeça das pessoas, fazendo-lhes cócegas nas costas, nos pés... O pudim de tâmaras estava divino. Ao milionário é que tinha perdido de vista. Raptado pelas odaliscas da Península? Mas quem seria aquele casal acabado de chegar? A minha mãe e o embaixador? Não podia ser...
- Olha, sempre viemos - disse ela, muito risonha, ao chegar ao pé de mim. - Estava a dar na televisão, não resistimos.
- A minha mãe, o embaixador da Ucrânia, JP - disse eu, procedendo às apresentações e sem me conseguir lembrar do nome dele.
- JP?... - repetiu a minha mãe, ao mesmo tempo que lhe estendia a mão.
- Jonas Policarpo - disse ele amavelmente, indo ao encontro da mão dela.
- Está demais, esta festa - disse o embaixador, refastelando-se numa cadeira. - E ainda bem que não há aqui bebidas alcoólicas...
- Gostam, os meninos? - disse a minha mãe, exibindo um magnífico anel de noivado.
- E Milão? - perguntei-lhe.
- Não deu em nada... - disse ela. - E agora que o conflito diplomático está resolvido, vamos mas é ficar em Lisboa.
- E que cidade melhor que Lisboa para se viver? - disse JP.
- Se calhar, vou para Madrid - disse eu.
- Não vai nada para Madrid! - respondeu ele.
Entretanto, a minha mãe e o embaixador levantaram-se, dizendo que iam cumprimentar o rabino Salomão e sua esposa, o que me deixou perplexa. Como é que ele teria conseguido arrancar a mulher de casa? Será que lhe prometera finalmente levá-la a Almeria, a pátria histórica dos seus antepassados, que ela ansiava conhecer? Será que ela viera por cautela? Para evitar que o marido se extraviasse em algum harém? Quiçá quisesse apenas fazer jus aos antigos habitantes da Espanha multiétnica, de mundividência pacifista e cosmopolita...
Ainda mais espantosa do que a inesperada aparição de Almerinda era a reconciliação da minha mãe com o embaixador. Não esperava voltar a vê-los juntos e no entanto pareciam contentes na companhia um do outro. Ninguém diria que tinham estado à beira da ruptura definitiva ainda tão recentemente.
- Damos um passeio? - perguntei a JP. - Isto é grande, vai até lá abaixo...
O ar parecia cada vez mais tépido à medida que descíamos. Não é que as mulheres tivessem aderido completamente à ideia dos trajes arábicos, mas quase todas ostentavam ouro e jóias e uma quantidade infinita de xailes e lenços de seda, cheios de pérolas, missangas, medalhinhas. Algumas usavam-nos amarrados à cintura ou caídos sobre os quadris. Outras - na cabeça, com os pendentes sobre a testa. Quanto a mim, a única jóia que tinha era o meu N da sorte e um vestido de chiffon entre o dourado e o cor de mel, que parecia areia do deserto. Esvoaçante, cingindo-me delicadamente pela cintura e descendo até aos joelhos. Os cabelos davam-me pelos aos ombros, e agora usava-os ondulados, com nuances douradas. À medida que íamos avançando o relevo começava a precipitar-se sobre a encosta, por entre oliveiras e tochas de fogo. As minhas faces deviam estar vermelhas. Ardiam. Era um fogo que vinha de dentro. Íamos caminhando suavemente em silêncio, quando de repente uma mulher grita o meu nome. Era Valentina, aparentemente felicíssima por me ver.
- Imaginas quem encontrei aqui? - disse ela, alheia à presença de JP e do homem que deixara cerca de meio metro atrás de si. - O meu querido Waed!
- Aquele? - perguntei, erguendo as sobrancelhas na direcção do príncipe.
- Sim! - respondeu ela. - Há anos que não o via, vê lá tu...
O príncipe era simpático e educado e parecia tão acessível que nem parecia um príncipe de verdade. Conhecia Valentina através dos negócios que no passado fizera com o falecido, comprara-lhe fortunas em semimanufacturados de ferro e aço, pelo que ela dizia. E agora, que estavam ambos viúvos, porque não aproveitarem o acaso e fazerem daquele encontro mais do que uma agradável coincidência? Ele pedira que ela fosse com ele para o Dubai, e ela ia.
- Então e o clube e o processo contra o Estado português? - perguntei.
- Ah! Quero lá saber disso... - desvalorizou ela, erguendo as mãos no ar e baixando-as logo de seguida para abraçar o príncipe pela cintura.
JP afinal também conhecia o milionário. Mas não percebi de onde. Seria das telecomunicações? Podiam ser outros negócios ou talvez algo relacionado com o lazer.
- Vi o seu anúncio - disse ele repentinamente. - Ia morrendo de susto.
- Mas não era de susto que era para morrer - disse eu a rir.
- Não quis fazer a novela... - disse ele. - Assim, continuo em dívida consigo.
- Não, deixe lá isso - disse eu.
- Então, vai para Madrid fazer o quê? - perguntou.
- Ainda não sei se vou - respondi, ajeitando uma mecha de cabelo que a brisa teimava em trazer-me para a cara. - Mas se for, vou fazer o mesmo que faço cá.
- E gosta do que faz? - perguntou ele, parando à minha frente, com as mãos nas algibeiras.
- Gostava era de ser dona de casa... - respondi. - mas isso não pode ser.
- Porque não? - perguntou ele, chegando-se tão perto de mim que a bainha do meu vestido seria capaz de roçar nas calças dele, se a brisa soprasse mais forte nem que fosse um milímetro.
Se os meus olhos não me enganavam, era Rute e Mariska a virem lá de baixo. Seria possível que elas não me tivessem avisado que estavam em Portugal?
- Olha, onde ela anda... - disse Mariska, apontando para mim. - Já corremos tudo à tua procura!
- Mas o que é que vocês fazem aqui? Porque é que não me avisaram que vinham? - disse eu.
- Foi tudo decidido em cima da hora - disse Rute, ao mesmo tempo que me dava um grande abraço. - Desculpa, meu anjo...
- Ainda bem que voltaste! - disse eu. - Já não aguentava mais aquela agência e agora a Másha...
- Já sei disso tudo - disse ela, segurando-me nas mãos. - Não te preocupes que na segunda retomo as rédeas do negócio!
Apresentei-as a JP. Mariska piscou-me o olho, em sinal de aprovação. Abanei a cabeça que não, que não era o que ela pensava. Ignorando o esclarecimento, Rute também fez questão de emitir o seu parecer, espetando o polegar para cima, toda divertida. Achei melhor não lhes dar luta e simplesmente mudei de assunto:
- E a tua filha, Mariska?
- Ficou no Restelo a dormir com a ama.
- Ah, ela também veio...
- Sim, agora ficamos cá a morar.
Bem que ela sempre afirmara que gostaria de morar em Portugal. E para a criança também devia ser bom. Podia apanhar sol quase durante o ano inteiro e brincar na rua o tempo que lhe apetecesse...
- E você, tem filhos? - disse, virando-me para JP, assim que elas voltaram costas.
- Sim, dois gémeos - disse ele. - Têm 10 anos.
- Eu não tenho...
- Sou divorciado - disse ele.
Caminhámos uns metros e sentámo-nos. A brisa começava a arrefecer e de repente um cheiro a castanhas assadas incorporou-se na música e veio até nós. De onde viria? Da festa não era. Alguém nas redondezas se lembrara de que era São Martinho... Arrefecia. Sem saber o que fazer às mãos,  friccionei os braços. Ele despiu o casaco e colocou-o nos meus ombros, demorando-se gentilmente enquanto me aconchegava. Quando parecia que o silêncio se antecipava a todas as palavras que desejávamos dizer, ele sugeriu:
- Vamos se não ainda se constipa - E oferecendo-me a mão, ficou pacientemente à espera que eu me levantasse.
Depois chamou o motorista e mandou que viesse apanhar-nos ao portão de baixo. Que me levava a casa. Que não me preocupasse com o carro, que depois pedia a alguém que mo viesse buscar.
O carro dele era preto e espaçoso, mas sem parecer uma limusina. Ele fechou a divisória que nos separava do motorista e disse:
- A festa correu bem, não acha?
- Muito - respondi. - A Leila fez um trabalho genial e o filho também tem jeito para estas coisas.
- Não vá para Madrid - sussurrou ele, virando-se para mim, tocando com os joelhos nas minhas pernas. - Não me faça ir a Espanha à sua procura.
- Porque iria você à minha procura? - disse eu com o coração a bater de forma esquisita.
- Gosto de si - disse ele, agarrando-me na mão.
- Também não desgosto de si - respondi-lhe com um sorriso, ao mesmo tempo que o meu estômago se incendiava.
Depois o carro dele afastou-se e eu ainda me demorei dois ou três minutos na rua antes de entrar no prédio. Podia tê-lo beijado. Mas não. Assim tinha sido melhor. Que fossemos com calma que a pressa nestas coisas nunca me tinha levado a bom porto.
Dormi a sorrir. Os arabescos dançando nos meus sonhos. Na manhã seguinte eram nove horas quando me batem à porta.
Era um homem de meia-idatde, baixo e barrigudo, de boné e uniforme cinzento:
- O senhor engenheiro mandou entregar estas chaves e isto também - disse ele, entregando-me um pequeno vaso de flores.
Pus as chaves no bolso do roupão. Encostei-me à porta do lado de dentro durante uns instantes e depois fui a correr ver se ainda tinha aquele envelope. Tinha. A flor era a mesma, não era? Era, era. Okay. No nos olvidaremos, JP!

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Ana Grichetchkine | | 9 comentários

Tudo ou Nádia 36. En Sha Allah!

O trigésimo sexto capítulo de Tudo ou Nádia, o romance de Ana Grichetchkine, que o site do JL publica semanalmente. Ilustrações de Branca Aurora
- O?alá corra tudo bem, filha! - disse o padre Gedeão quando lhe liguei a perguntar se queria ir comigo à festa do minarete, mas ele que não, que tinha de ir a Roma tratar dos assuntos do congresso interconfessional que pretendia realizar no Santuário de Fátima.
- Porque é que os muçulmanos chamaram Nossa Senhora de Fátima ao fórum? - aproveitei para me esclarecer.
- Ó rapariga, achas que só e?iste uma Maria no mundo?
- Então, é outra Fátima, é isso?
- Pois claro, Fátima Zahra, a iluminada, a filha de Maomé.
Assim sendo o mais certo era o topónimo número 1 do top dos devotos nacionais ter raízes islâmicas, o que não era de admirar dados os oito séculos de domínio árabe sobre a Península, coisa que certamente não os terá denegrido aos olhos da Virgem, uma vez que, pelas palavras de Gedeão, a própria seria partidária da camaradagem ecuménica e ansiava por abrir as suas portas a vários credos.
Que poderiam ter os muçulmanos ou judeus em comum com os católicos? A partilha da oração, seria? Bem, fosse como fosse, ir para a festa sozinha era coisa que não me inspirava mesmo nada. Másha tinha companhia, a minha mãe mais que fazer, Libério fora pregar noutra freguesia, Rute não estava, Salvador ocupado a salvar outra, com o pessoal da moda eu não contava e até Malasarte recusara a minha companhia dizendo que já tinha convidado a georgiana do Bolshoi e tinha grandes planos para aquela noite. Assim, se calhar o melhor que eu tinha a fazer, era ficar em casa, o que talvez fosse uma grande desfeita para a viúva, mas paciência. De qualquer forma, ainda tinha uma noite e um dia inteiro pela frente e até podia mudar de ideia...
O filho do imã, apesar de ser médico, tinha olho para o marketing. A televisão não se calava com o evento, os jornais a mesma coisa e a rádio, então, até enjoava, era Najwa Karam dia e noite. Bem, se calhar qualquer pessoa com um cheque de 3 milhões seria capaz de operar maravilhas junto da comunicação social, mas não, notava-se que havia interesse genuíno por parte dos jornalistas e do público em geral em relação a tudo o que dizia respeito à família do imã e àquele insólita iniciativa. Que o minarete era o mais alto da Europa, que arabescos tão perfeitos, que rendilhado tão original, que cúpula tão magnífica, que só era pena não ter adhans, os chamamentos para as orações, pois a população autóctone também gostaria de ouvir o pregão do muezim. De facto, pregão nunca tinham tido, com receio de ferirem as susceptibilidades da vizinhança, disseram-me uma vez a viúva. A sinagoga ainda era pior, da rua nem parecia um templo religioso, mas pronto, parece que fora construída em pleno Estado Novo.
Másha já tem apalavradas as instalações da sua confecção, 2 mil metros quadrados e vista para o rio. Parece que antigamente fora uma fábrica de conserva de pei?e, não sei, ela diz que vai comprar por uma pechincha, espaço para atelier e venda ao público não lhe faltará e luz também não, uma vez que o sol bate ali praticamente durante o dia todo.
Rute continua sem dizer se regressa, e eu sem saber o que fazer. Se tivesse marido para me sustentar, dedicava-me às lides domésticas e a ser mãe, pois que mais poderá uma mulher desejar da vida? Mas assim, o mais certo é aceitar a renovação do contrato com os espanhóis e talvez vá para Madrid. Que me prende a Lisboa, agora que a minha mãe vai para Itália? Da agência, definitivamente não quero saber, não tenho habilidade para os negócios. Assim que Rute der ao manifesto, entrego-lhe as chaves e pronto, que se desenrasque, que estou e?austa. Depois, olha, vou fazendo anúncios, dois ou três por ano chegarão para me sustentar. Se forem como os da Secret Garden, um basta. Foi triste ter desperdiçado tanto tempo com Libério, Rui era o que lhe devia ter chamado desde sempre, mas não, tinha de começar a inventar disfarces desde o início. Que viu um anjo, o parvo. Eu nunca vi nenhum, e gostava.
Tantos homens e nenhum que se tenha aproveitado. Salvador, talvez. Mas de que me servia sem amá-lo? Trinta anos. Na Ucrânia, numa idade destas já não me casava. Mas aqui, ainda podia ser. Másha não era praticamente da minha idade? Então... O problema é que eu nunca me casaria com um muçulmano. O minarete não é que fosse feio, mas quanto mais não preferia eu as cúpulas da Ucrânia, mesmo as ortodo?as. Não ter Deus no coração tem algumas vantagens, especialmente quando se pratica o mal. Fica-se isento do Inferno e Purgatório e de outras represálias, o que não assusta tanto a consciência. Mas no meu caso, que não fazia mal a uma mosca, de que me adiantava não acreditar em Deus?
Às vezes dizia Deus queira isto e aquilo e até fazia algumas orações. Pedidos, geralmente. Tinham sido atendidos? Não era que pedisse grande coisa nem muitas vezes. O meu mal era esse, dizia o padre Gedeão.
- Então, mas se Deus e?istisse, acha que ele não saberia do que preciso? - dizia-lhe eu.
- Mas pede, vá, e?perimenta! - insistia ele. - Sê específica nos pedidos. Mas não digas: quero três mil euros, quero arranjar um homem alto e louro. Diz antes: quero ser feliz, casar-me com um homem bom.
Se fossem três milhões, mesmo que fosse de dólares, estava bem, agora três mil euros... E se me convertesse? Ao Islão, jamais. Ao Budismo? Mas não é no Tibete que há mulheres poliândricas? Não, isso também não. Que faria eu com mais de um marido? Judaísmo? Nação e religião juntas é que não. Pouco mais me restava que o Cristianismo. Ortodo?o ou católico? Por muitos laços culturais que tivesse à ortodo?ia russa, Lviv sempre fora o epicentro do catolicismo eslavo, se não contarmos com a Polónia, é claro, e nunca me fora completamente adverso, se virmos bem. Era como se tivesse sido criada no seio de uma família benquista, mas sem ligar a futebol. Mesmo assim, não me iria pôr a apoiar o Sporting, pois não?
Quando o padre voltar, vou baptizar-me. Entretanto, talvez peça uns favores adiantados ao Senhor, mas vou rezar como Gedeão me ensinou. Diz ele que "o?alá" deriva do árabe en sha allah, assim Deus queira. Para mim, marido e filhos e as alegrias da vida conjugal na sua mais elevada plenitude.

Ana Grichetchkine | | 2 comentários

Tudo ou Nádia 35 Conflitos internos e interiores

O trigésimo terceiro capítulo de Tudo ou Nádia, o romance de Ana Grichetchkine, que o site do JL publica semanalmente. Ilustrações de Branca Aurora
A embaixada continua em polvorosa e o embaixador talvez vá corrido para Kiev, onde terá de se contentar com um cargo menos prestigioso e um triste salário numa repartição do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia. Tudo isto porque, enquanto ele andava a delirar com a minha mãe pelo Egipto, alguém fez chegar aos ouvidos do primeiro secretário (uma espécie de censor nas diplomacias dos países da antiga URSS) a informação de que ele teria andado a espalhar por Lisboa, e não só, o boato de que a melhor vodka do mundo era a moscovita. Numa altura em que as relações entre os dois países estão no pé em que estão, com a Ucrânia a querer entrar a qualquer custo para qualquer coisa que vá contra os interesses da Rússia e Moscovo a construir gasodutos entre a Sibéria e a União Europeia, anulando a trajectória ucraniana do gás russo - o que vai pôr fim à mama que tão bem tem sabido a tanto político e empresário ucraniano - , não é de estranhar que as palavras absolutamente inócuas do embaixador tenham causado um impacto tão negativo junto daqueles cuja principal missão é zelar pelos actos dos mais altos representantes da nação no estrangeiro.
A minha mãe está inconsolável com esta reviravolta, o que é compreensível uma vez que, inspirado pelos ares do Nilo, o embaixador lhe jurara que iria deixar a esposa para se juntar com ela, mas para Kiev é que a minha mãe não vai nem morta.
Mas há mais novidades na arena internacional. Salvador ligou-me. Os espanhóis querem a minha cara de volta. O público, um pouco por toda a Europa, mas sobretudo em Espanha, sente-se ludibriado. Aquelas pernas, dizem, não podem ser da Eva de la Sena, onde é que já se viu uma miúda com pouco mais de metro e meio ter umas pernas daquele tamanho? Só numa semana, houve uma quebra de 85% no volume de vendas de meias. Ora numa altura em que o Outono está à porta e ainda por cima com o tempo que tem feito na Península, não é de admirar que a Secret Garden esteja interessada em remediar o pontapé que me deu. Desde que me paguem o valor que me deviam ter pago pela campanha, a qual lhes ficou por uma bagatela por motivos sobejamente conhecidos, podem voltar a pôr lá a minha cara à vontade.
- Está bem, então amanhã mando-te o contrato por fax - disse Salvador, preparando-se para terminar a chamada.
- Então, e como é que vai a tua vida? - perguntei por pura e genuína curiosidade.
- Fiz as pazes com a mãe da Pilar... - perante tal resposta, não fiz mais perguntas, não fosse ele pensar que ainda estivesse interessada.
A seguir a esta conversa, a Secret Garden procedeu rapidamente aos acertos necessários e três dias depois a estrela do spot passei a ser eu, o que deixou a minha mãe felicíssima da vida, apesar das contendas em que andava com o corpo diplomático.
- O que é que eu sempre te disse, Nádia? - disse ela enquanto apreciávamos em conjunto o meu anúncio, refasteladas no sofá. - Não te disse sempre que tu darias uma excelente actriz?
Perante esta questão, o que fiz foi ir buscar chá, pois fiquei tão abismada que nem sabia o que dizer. Quando regressei à sala, remata ela:
- Mas se pensas que és a única celebridade da família estás enganada...
- Quando começas com esses mistérios...
- O Pietro Basso quer-me em Milão.
- E tu vais?
- Fazes com cada pergunta...
- E o embaixador?
- O embaixador que vá para a Ucrânia, com a mulher dele.
O pior é que parece que um embaixador sem embaixada não servia os interesses de nenhuma parte, pois a esposa acabara também por lhe pedir o divórcio. Isto contara-me o próprio quando me procurou muito desolado, na esperança de que eu pudesse intervir junto da minha mãe e fazê-la mudar de ideias, pois como ele dizia não era justo que precisamente agora que ia divorciar-se da mulher ela lhe desse com os pés.
- Mas a sua esposa é que quer o divórcio, não é?
- Sim, mas é por causa da tua mãe.
- Mas se a sua esposa ainda o quisesse, você ficava com ela?
- Claro.
- Então, na realidade você nunca pensou em divorciar-se dela...
- É óbvio que não!
- Então, porquê que andou a meter disparates na cabeça da minha mãe?
- Faz parte de ser amante dizer certas coisas...
- E de casado, não fazer outras!
Sempre estava para ver o que diria Másha se soubesse da conversa desta arara. Aqui, não podia ela aplicar a teoria da galadela à portuguesa, mas também agora que ela andava tão ocupada a tratar do noivado com o filho do imã e em estudos de mercado para o negócio das roupas, nem valeria a pena perguntar-lhe o que achava deste galo romanisco, que foi assim que passei a chamar o embaixador a partir dali, e diga-se, era alcunha que não lhe ficava mal de todo, dado o tufo de cabelo que tinha no alto da cabeça e que mais parecia uma crista.
O volte-face do anúncio dos collants passou praticamente despercebido em Portugal, embora tenha havido um número reduzido de pessoas, quase todas pertencentes ao mundo da moda, que me deram os parabéns, os quais recebi com alegria moderada na medida em que aquela campanha, da qual tanto me tinha inicialmente vangloriado, começara de repente a parecer-me trivial e ridícula. Talvez por isso, quando as pessoas me congratulavam, a minha reacção era duvidar da sua honestidade e foi com grande espanto que recebi o seguinte convite:
- Nádia, pago-te o que for preciso, mas aceita fazeres um spot para o clube! - disse-me Valentina numa manhã em que resolveu aparecer sem avisar e apenas para me fazer esta proposta.
- Só uma louca é que não aceitaria - disse Másha.
- Não sei, tenho de me aconselhar primeiro com a Rute, pois para todos os efeitos ela ainda é a minha agente...
Valentina, inspirada pelos criativos da Secret Garden, tinha já ideado o seu slogan: Nem que morram!, que era como quem diz nem que se matem não nos ganham, uma mensagem que só alguém completamente desequilibrado ou com excesso doentio de autoconfiança podia proclamar, pois nestas coisas do desporto a sorte, como se sabe, também tem uma palavra a dizer e nem sempre está em harmonia com os desejos dos donos dos clubes, por mais ricos e poderosos que eles sejam. Os gestos que ela fazia... Punha-se a desenhar frases no ar com as mãos, a fazer de conta que tinha um quadro à frente, depois afastava-se e ficava a observar os escritos imaginários, a coçar o queixo, a emitir huns e hãs como se estivesse em puro processo criativo e cheia de pequenas dúvidas. Se calhar tinha ficado eléctrica com a morte do marido. Assim dava para perceber porque só agora se lembrava de fazer contas com o Estado português. Coitada, nem parecia má pessoa. Se calhar as confusões que andara a arranjar nos últimos tempos eram isso mesmo: um bálsamo para a solidão.
- Vália - disse Másha tratando-a pelo diminutivo de Valentina, o que me pareceu um despropósito. - Tem de vir à festa da minha sogra...
- Tenho lá eu paciência para festas, Máshinka! - respondeu-lhe, tratando-a com igual mimo. - A minha vida é só chatices!
- Então? - disse Másha.
- Então, não vês a burla que o Estado português me pregou? - disse ela. - Apoderaram-se da fortuna do meu avô e agora não ma largam nem por nada... Depois, não temos uma embaixada em condições nem ninguém que interceda por nós, pobres ucranianos, e, olha, é nisto que dá...
- Mas a Vália gosta de morar cá, não gosta? - perguntou Másha.
- Ó filha, eu até gostaria de cá morar, sim senhora, que o país é bonito, e todo ele parece um resort, seja a norte seja a sul, mas, assim não! - disse ela, gesticulando como um maestro.
- Se calhar o melhor era esquecer essas querelas com o Estado... - disse Másha.
- Depois do que eu fiz por este país? - indignou-se ela. - Levantei aquele clube da lama, Másha! O clube do próprio presidente da República! Para quê? Só faltou foi chamarem-me larápia! Desdenhosos! Mal-agradecidos! Ora se o meu tetravô não sabia da nossa existência, como é que ele havia de nos deixar herança? Naquela altura o mundo era diferente e nós não podíamos andar por aí a viajar como viajamos hoje... Nádia, tu achas que eu sou uma larápia?
- Não, mas... - disse eu.
- A única coisa que eu pedi foi justiça para honrar a memória da minha pobre tetravó... Nádia, tu achas que eu sou uma exploradora? - perguntou.
- Eu sou uma pessoa que retribuo sempre a quadruplicar o bem que me fazem. Vá pronto, no mínimo em dobro. Não sou nenhuma vigarista, se digo que sou neta é porque sou! ADN, querem eles... Onde é que agora lhes vou buscar as amostras para análise? Agora, que o mais certo é estarem todas comidas pela bicharada...
Ser comido pela bicharada era o destino de todos nós. Talvez por isso não valesse a pena empunhar machados em quezílias pecuniárias. Por um lado, percebia que ela quisesse fazer aquela homenagem póstuma à avó, mas agora que benefícios tiraria a pobre velha da luta da neta? Será que a vida não tinha zelado prontamente pelo exercício da justiça ao fazer de Valentina a milionária que ela era?
Ana Grichetchkine | | 2 comentários

Tudo ou Nádia. 34 Outono em flor

O trigésimo quarto capítulo de Tudo ou Nádia, o romance de Ana Grichetchkine, que o site do JL publica semanalmente. Ilustrações de Branca Aurora

É Outubro, mas em Lisboa tem chovido como se fosse Inverno. Em contrapartida, na Califórnia, o tempo está morno e seco e os ipês-roxos, que deviam ter morrido em Agosto, continuam floridos e vivazes. Rute diz que sempre gostou da Califórnia no Outono, do cheiro das camélias e magnólias, de ver desabrochar uma série de plantas exóticas e garridas, numa época do ano em que o estado de Nova Iorque se prepara para ver cair as primeiras folhas. Mas este Outono era tão especial que nem as andorinhas se queriam ir embora e fora provavelmente graças ao facto de ter rumado para lá que Rute se livrara de uma grande anemia. Tudo isto devido ao estranho hábito de lascar troncos de ipês, para chupar farripas.
Diz que fora fazer umas análises de rotina ao laboratório nova-iorquino onde costumava ir antigamente e que depois se metera a caminho da Costa Leste sem fazer caso dos resultados. Até que lhe liga o analista. Que ela estava com falta de glóbulos vermelhos, o que podia ser sintoma de talessemia, uma doença grave do sangue provocada pelo contacto com o Mediterrâneo, e que deveria dirigir-se rapidamente ao hospital, que foi a bem dizer o que ela fez, na medida em que não estava para estragar o período mais bonito da sua vida com uma hospitalização desnecessária devido a desleixos. A menos de duas milhas do local onde ela se encontrava a lanchar com Mariska, perto da beira-rio, na guapíssima localidade de Santa Ana, havia um centro médico, e foi exactamente para lá que ela se deslocou mal acabou de receber esta chamada.
- Os níveis de hemoglobina estão absolutamente normais - disse o médico chegando-se à beira da cama dela.
- Tem a certeza? - perguntou ela.
- 13 g/dl - disse ele, mostrando-lhe o resultado do hemograma.
- Não percebo então... - disse Rute.
- Por acaso você andou a beber pau-d'arco? - perguntou o médico.
- Não - respondeu Rute -, isso é coisa que nunca bebi...
Perante o resultado dos exames que tinha na mão, o médico não se inibiu de a mandar para casa, ignorando por completo o aviso do outro clínico, recomendando-lhe apenas uma dieta à base de ferro, ácido fólico e muita alegria.
Quando Rute chegou à sala de espera, contando a Mariska a conversa que tivera com o médico, esta disse:
- Foi da casca do ipê...
- Como assim?
- Não há melhor no combate à anemia...
Fosse da casca, erro laboratorial, milagre, o que fosse, a verdade é que Rute estava óptima e mais desabrochada era impossível, o que era natural, pois há três dias que se encontrava em lua-de-mel com a sua noiva Mariska.
Destas novidades ficara eu a saber pela própria Rute quando ela finalmente me ligou para dar a boa-nova, dizendo que afinal a felicidade nasce connosco e que nós só temos de descobrir o caminho até ela e que o mesmo era dizer até nós.
- Mas há mais surpresas... - cochichou ainda.
Se não fosse pela idade e pelo facto de se ter casado com uma pessoa do mesmo sexo, o que eu teria pensado ao ouvi-la dizer isto era que ela estivesse de esperanças. Mas não. O assunto era o livro que escrevera na prisão e do qual nunca mais me tinha lembrado.
- Está na lista do New York Times há uma semana - disse ela.
- Mas estás aí só há quinze dias, como é que tiveste tempo para isso tudo? - disse eu.
- Ó Nádia, isto é a América...
Fiquei tão embasbacada com aquela informação que a única coisa que me ocorreu foi dizer-lhe que não se preocupasse com a agência, que estava tudo a correr bem. Que título dera ao livro e quando regressaria a Portugal foram questões que me escaparam completamente da ideia e só quando desliguei o telefone é que percebi que nem os parabéns lhe tinha dado.
O livro de Rute chamava-se O mundo ao Avesso e disso fiquei a saber cerca de 15 minutos depois de ter falado com ela, quando a minha mãe, numa grande excitação, me bate à porta, com duas malas de viagem na mão e toda esguedelhada. Já não devia ir à minha casa há uns três anos, por isso surpreendida que me tivesse aparecido naquela figura, sem aviso prévio, e para mais numa altura em que a julgava com o embaixador, no Egipto.
- Então, o que é que aconteceu? - perguntei sem preocupação, pois pela cara dela via-se que nada de mal podia ter acontecido.
- O embaixador recebeu uma chamada para regressar urgentemente à embaixada e olha, tivemos de vir mais cedo - disse ela com a respiração entrecortada, tal não era a sua agitação.
- E estavas com saudades minhas tu, não? - perguntei, enquanto punha a chaleira ao lume.
- Não me pôde levar. Parecia um tiro a caminho do Restelo, parece que está tudo em pé de guerra na embaixada - disse ela.
- Ao menos gostaste do Egipto?
- Não vais acreditar, os poemas da Rute são um êxito - disse ela, contando-me que o embaixador tinha lido a notícia num jornal de língua inglesa, no Cairo. - Nunca me enganou, aquela Rute, sempre reparei que era uma pessoa sensível e talentosa.
Ai sim? Desde quando? O ar do Nilo devia ter-lhe dado cabo da memória, mas pronto, não era eu que lha havia de avivar.
- Então, são bonitas as pirâmides?
- Olha, só as vimos da janela... - disse ela com a maior naturalidade do mundo.
- Então, porquê?
- O embaixador, todo o tempo lhe era pouco... - sussurrou, com a boca repuxada na minha direcção.
Ficámos ainda um bom bocado sentadas à mesa da cozinha, num silêncio quebrado apenas pelo tilintar das xícaras nos pires e pela avidez com que ela sorvia o chá. Não me atrevia a perguntar-lhe mais nada, com receio que ela se pusesse a contar os pormenores sexuais da sua viagem ao Egipto. Até que ela agarrou no molho de papelada que eu tinha dentro de uma cestinha no centro da mesa e se pôs a bisbilhotar.
- JP?... - disse, sacudindo o envelope que o presidente da Telecomunicadora deixara na minha caixa de correio há uma eternidade. Lá lhe expliquei o que era aquilo, e ela soletrou em tom aprovador:
- Mi-o-só-tis?
- Então? - perguntei, levada pela curiosidade.
- Non-ti-scordar-di-me... - respondeu ela.
- Estás a variar? - disse eu.
- Forget-me-not, na língua inglesa... - disse ela.
- Estás a falar de quê? - perguntei.
- Os miosótis têm também o nome de não-te-esqueças-de-mim e simbolizam a fidelidade e o amor verdadeiro. Só não podem é ser azuis.
Ana Grichetchkine | | 4 comentários

Tudo ou Nádia. 33 Liberdade Incondicional

O trigésimo terceiro capítulo de Tudo ou Nádia, o romance de Ana Grichetchkine, que o site do JL publica semanalmente. Ilustrações de Branca Auror
Rute foi posta em liberdade cerca de 48 horas depois das declarações do youtubista terem sido divulgadas. O próprio Malasarte se encarregou de ir buscá-la à cadeia, recusando de forma inesperada a minha companhia.
- Ela não quer lá ninguém, não posso contrariá-la - desculpou-se ele.
- Nem a mim? - insisti.
- Não, ninguém - reafirmou.
Que estranha atitude seria aquela? Será que, depois de tanto tempo enjaulada, Rute tinha perdido a capacidade (ou o gosto) de se relacionar normalmente com as pessoas? Será que estava deprimida? Doente? Será que não tinha saudades de ninguém? A resposta a estas questões era um mistério, mas não havia outra solução senão esperar até ao dia seguinte, pois o advogado deixara bem claro que ela não queria ser incomodada absolutamente por ninguém naquela tarde.
Na manhã seguinte, em vez de lhe telefonar, resolvi ir directamente à casa dela, que era praticamente ao pé da minha, mas na zona chique do Restelo. O portão estava aberto, a relva orvalhada e pingos de rossio choveram pela minha cabeça abaixo quando tentei afastar do caminho as pernadas de uma laranjeira. Apesar deste incidente, que me fez soltar um palavrão e me empurrou da calçada por onde caminhava para a areia molhada, deixando-me com os saltos completamente atascados, dei por mim a ter saudades da moradia que tinha às moscas na Margem Sul. Se pudesse pegar nela e trazê-la para ali, não hesitaria, mas deixar a cidade é que não. Até parecia um desperdício que Rute morasse ali sozinha. Um jardim daqueles pedia crianças, pelo menos três, umas churrascadas, um marido para cortar a relva, uma família, enfim.
A cozinha dela parecia a do Palácio da Vila, só que mais moderna. Até eu, que nunca tive uma relação de grande proximidade com o fogão, seria capaz de me converter numa cozinha assim. A primeira coisa em que me iniciava era logo na confecção de bolos, talvez até de bolinhos secos. Talvez me dedicasse também às compotas. Será que se podia semear mirtilo no jardim? O mirtilo é uma espécie de uva silvestre, tão rara aqui no Sul. Que saudades que eu tinha das framboesas, das groselhas, das amoras, das bagas silvestres da minha Ucrânia. Se calhar, estava na hora de ir até Lviv. Não, que agora metia-se o Outono. Mas na próxima Primavera, lá pelas vésperas de São Gregório, havia de voltar à minha pátria, sim senhor.
Para que quereria Rute uma casa tão grande? Eu também gostava de espaço à minha volta, mas não de espaço vazio. Para viver numa casa assim, eu teria de a encher de gente, de filhos. Mas claro, Rute tinhas as suas heranças e não havia de se desfazer delas só porque era solteira e sozinha. Subi os degraus que davam para a entrada principal e ia para tocar à campainha, quando a porta se abriu, como se tivesse adivinhado a minha chegada. Era Libério.
- Entra, Nádia, entra - disse ele.
- Então onde está a Rute? - perguntei, chegando à sala.
- Não está - respondeu.
- Então onde está? - perguntei.
- Foi para Nova Iorque esta madrugada - disse ele.
- Mas está tudo bem com ela? - perguntei, surpreendida.
- Está, mas diz que tinha muitas saudades daquilo e lá foi.
Antes assim, pronto. Só esperava que ela voltasse, caso contrário não saberia que rumo dar à agência e com Másha desejosa para abrir o seu negócio, não seria fácil manter a porta aberta. - Queres um chá? - perguntou ele precisamente no momento em que estava para lhe dizer que assim sendo me ia embora. Um chá. Não sabia se queria ou se não. Não nos víamos há tanto tempo e os desaforos tinham sido tantos e tão grandes que agora nem sabia se ainda valeria a pena estar com conversas com ele.
- Então, é chá ou café? - insistiu ele.
- Pode ser café - respondi, achando que o melhor era ficar alerta para não me deixar hipnotizar mais uma vez.
Trouxe o café e sentou-se numa poltrona à minha frente. Olhava para mim como se se tivesse esquecido completamente das pelejas e das ofensas e dos beijos e da chama e de tudo o que tínhamos vivido juntos. Era como se me conhecesse apenas vagamente, contemplando-me com moderação e delicadeza.
- Vou consagrar a minha vida à Igreja - disse ele. - A partir do mês que vem, começo a ministrar sermões. Se quiseres, vem assistir.
Já lá estava e tudo. Tinha ouvido nas notícias que ele se estaria a preparar para vir a ser o chefe da Igreja de Deus dos Santos dos Últimos Dias de Lisboa, e que se encontrava no Brasil em formação teológica intensiva, mas pensei que aquilo era hipérbole jornalística. Afinal...
- Pensava que ainda pudesses voltar ao futebol - disse eu.
- Não, essa etapa está morta e enterrada - disse ele.
- Mas estás feliz?
- Estou em paz, que é praticamente a mesma coisa - disse ele, muito suavemente.
A serenidade, as palavras muito cadenciadas, as pausas nos sítios certos, tudo nele me parecia estranho e renovado. Será que tinha tido aulas de teatro? Até respirava de maneira diferente, de forma educada. Tinha outra expressão corporal, ou o que era. Seria do cabelo, mais curto e penteado? Não... O olhar é que era outro. Tinha perdido a arrogância. E o tronco? Mais direito era impossível. Nunca o tinha visto assim sentado, parecia um mestre Zen em pose de meditação.
- Então, e continuas com a brasileira? - disse eu, descendo à terra.
- Sim, com a Regina - disse ele, lançando-me um olhar que não era nem altivo, nem desafiador, nem tímido, nem colérico, mas apenas amigável, para tornar tudo ainda mais insólito.
- E a Adélia, que é feito dela? - perguntei.
- Os programas dela estão a ser um êxito na América, e tudo graças ao azeite Andorinha, que diz que opera milagres em tudo o que seja doença inflamatória do intestino e não só...
Pois... Por morrer uma andorinha não acabava a Primavera, isso via agora eu. Até me parecia impossível que tivesse chegado a perder a vontade de viver por causa daquele melro. Andorinha. Gosto de andorinhas. Fazedoras do bem e protégées das forças divinas, fêmeas de um só macho e mães de numerosos filhos. Apaixonadas e amadas, defensoras da humanidade desde a Arca de Noé. O amor, quando o conhecem, é para a vida e as suas alianças matrimoniais só se desfazem perante a morte. Sim, quem me dera ser uma andorinha.

Ana Grichetchkine | | 2 comentários

Tudo ou Nádia 32 A segunda confissão

O trigésimo segundo capítulo de Tudo ou Nádia, o romance de Ana Grichetchkine, que o site do JL publica semanalmente. Ilustrações de Branca Aurora

Duzentos e setenta dias após a explosão do McDonald's, chega ao YoutTube um vídeo em que ninguém queria acreditar: Um rapaz, que dizia chamar-se Carlos, morar em Loures e ter 18 anos, reivindicava a autoria do atentado que levara à reclusão de Rute e do imã. O vídeo estava na Internet há vários dias sem ter despertado o interesse dos internautas, do Google ou da polícia, quando um jornalista da TVI o descobriu, lançando-o, logo a seguir, no noticiário da noite. O jovem contava em pormenor como fizera o engenho, onde arranjara o material e como lhe surgira a ideia de rebentar com um dos restaurantes da mais famosa multinacional de fast-food. Contudo, horas depois da transmissão desta notícia a polícia continuava sem se pronunciar sobre a matéria, enquanto o povo comentava, nos cafés, em casa, à entrada do prédio e em tudo o que era sítio, que a única salvação do país era, sem dúvida nenhuma, o canal de Carnaxide.
Mal tinha acabado de dar esta reportagem, eis que me liga Malasarte:
- Viu o noticiário?
- Aquilo era brincadeira, não?
- Ó Nádia, você às vezes tem com cada uma que até me deixa azoado...
Na opinião dele, a declaração do rapaz era tudo menos bluff. Mas custava-me a acreditar que o miúdo fosse assim tão burro ao ponto de ir para a Internet confessar um crime e por isso sentia-me mais inclinada a pensar que tudo aquilo não passava de uma grande gozação.
- Se ele lá tivesse posto a bomba, acha que ele dizia, não?
- Dizia, para ficar famoso.
- Oh, grande coisa, ficar famoso por um crime.
- Há pessoas capazes de tudo para aparecerem na televisão.
Custava-me a engolir a teoria dele, mas o certo é que a bomba não explodira por ordem do Espírito Santo e Rute é que não a tinha posto lá de certeza absoluta.
- Vou pôr um detective privado a investigar isto - disse ele.
- Para quê? - perguntei.
- A ver se o moço não leva sumiço - respondeu.
- Quem é que lhe daria sumiço?
- A polícia, com medo de ser ridicularizada, é claro.
Que a polícia cometesse erros, era uma realidade que eu podia aceitar e até compreender, mas que a polícia fosse capaz de sacrificar a liberdade de pessoas inocentes para encobrir as suas falhas, só para não ser exposta ao escárnio e à maledicência, era uma atrocidade na qual eu me recusava a acreditar, embora a ínfima possibilidade de que isso pudesse ser verdade me tivesse atormentado toda a noite.
Para meu descanso e grande alegria na manhã seguinte, ouvindo a TSF a caminho do trabalho, acabei por verificar que os receios de Malasarte eram completamente infundados. A PJ declarava, em conferência de imprensa a partir da sua sede de em Lisboa, existirem, de facto, fortíssimos indícios que apontavam para a veracidade do testemunho postado no YouTube, pelo que o Ministério Público havia emitido, ainda de madrugada, um mandado de captura, o qual todavia não fora possível cumprir até ao momento por se desconhecer o paradeiro do confesso criminoso.
Ao chegar à agência fui a correr ao YouTube, mas o vídeo tinha sido removido.
- Vamos aos sites russos, que encontramos de certeza! - sugeriu Másha, apoderando-se do computador e começando a digitar qualquer coisa ponto ru.  
Instantes depois lá estávamos perante o vídeo do rapaz. À primeira vista, ninguém diria que aquele lingrinhas, de óculos redondos e marrafinha ao lado, fosse capaz de rebentar outra coisa que não fossem as borbulhas cheias de pus que tinha na cara, quanto mais um edifício de aço e betão, com milhares de toneladas de cimento armado em cima das costas. Mas não.  Que tinha sido mesmo ele. Dois quilos de pólvora surripiados à fábrica de pirotecnia dos pais, um tubo metálico bem fechado e pouco mais fora preciso. Pronto, a perícia era um componente indispensável, mas essa tinha ele praticamente desde que viera ao mundo, pois passara a vida a ver o pai a fazer foguetes. A descontracção dele: "... depois foi só pegar na mochila e sentar-me numa pedra à espera de ver sair o último empregado, accionar o detonador e fugir dali para fora".
- Bem, ao menos teve o bom senso de não matar ninguém - disse Másha.
Tão bonzinho que ele era, por sua causa o imã perdera a vida e Rute estava a apodrecer na prisão. Que não chateassem a família, que tinha roubado a pólvora sem ninguém dar por isso e que escusavam de o procurar, pois só voltaria a aparecer quando o crime prescrevesse, para lançar o livro que pretendia escrever nos próximos anos e que se chamaria "Táctica definitiva de combate ao Islão na Península Ibérica".
Se o estupor do empregado do McDonald's tivesse tanta habilidade para esmiuçar a casa de banho dos homens como tinha para a das mulheres, nem Rute nem o imã se teriam visto nos apuros que sabemos e se calhar nem tinha chegado a haver explosão nenhuma, uma vez que a bomba fora colocada precisamente dentro do tecto falso do WC, para o qual, dez minutos antes do fecho do estabelecimento, se dirigiu o malfeitor, de mochila aos ombros, todo muito selecto. Depois foi só pôr-se em cima da sanita, levantar uma placa, deixar lá o engenho e sair dali para fora como se não fosse nada com ele. Que sim, que a sua intenção fora incriminar o imã. Que sendo Abu-Nassim quem era e tendo ele a mesquita onde tinha não era difícil de prever a reacção da polícia face ao sucedido.
As revelações pareciam surpreender tudo e todos. A professora de História dizia à TVI:
- Aplicadíssimo, educado, do mais disciplinado que se possa imaginar...
- Sempre teve as melhores notas da turma. Gostava especialmente de Nietzsche, mas não se pode ver nisso o prelúdio de uma doutrina chauvinista, até porque Nietzsche continua a ser muito mal interpretado... - dizia a professora de Filosofia.
- Não se pode dizer que fosse um aluno excepcional à minha disciplina, mas sempre foi um rapaz assertivo, às vezes até engraçado... Dizia que a rainha Vitória também tinha governado a Inglaterra durante 46 anos e nunca souber inglês na perfeição... - declarava uma professora de origem britânica.
Não me admirava nada que o canalha fosse capaz de se safar, e que o seu livro viesse mesmo a ser um êxito de vendas. Afinal não é preciso grande coisa para escrever um best-seller, basta que se tenha aparecido duas ou três vezes na televisão e sabido despertar a curiosidade das pessoas, nem que seja por motivos pouco meritórios. Bandido, era o que ele era. Seria uma grande injustiça ele não ter de pagar por Rute estar onde estava há quase um ano sem telefone, sem direito a enviar ou receber correio, sem receber visitas, sem ver ninguém, a não ser Malasarte e os guardas que a vigiavam noite e dia.

 
Ana Grichetchkine | | 4 comentários

Tudo ou Nádia. 31 Grande prémio

O trigésimo primeiro capítulo de Tudo ou Nádia, o romance de Ana Grichetchkine, que o site do JL publica semanalmente. Ilustrações de Branca Aurora

- O minarete ficou em primeiro lugar! - disse Másha irrompendo pelo meu gabinete adentro, numa grande euforia.
- Não acredito...
- A sério, o Nassim ligou-me agora mesmo, vem amanhã do Cairo para celebrar.
- Essa é boa... - disse eu, espantada por saber que o filho do imã continuava a dar-se com ela.
- Quem é que podia adivinhar um coisa destas? - disse ela.
- Podes crer - respondi, tentando perceber como é que ela teria fisgado o príncipe do Egipto.
- Imagina, pediu-me em casamento...
- E tu? - perguntei.
- O que é que achas, Nádia? Aceitei é claro.
- Vê lá não seja um daqueles casamentos temporários dos muçulmanos, o zawaz al mut'a, ou lá o que é, que servem apenas para ter sexo. Depois, para repudiarem a mulher basta enviarem uma mensagem sms com a palavra "talaq", divórcio, e pronto, assunto arrumado.
- O Nassim não é desses e nós havemos de superar todas as dificuldades com amor e respeito. - afiançou.
- E a distância, como é que estás a pensar superá-la? Estás a pensar morar em África?
- Não, ele muda-se para Lisboa, em Setembro!
- Sim senhora... - disse eu, tentando mostrar-me desinteressada.
- Tenho a impressão que a partir de agora é que vou começar a ser feliz a sério... Não apenas por ter encontrado o Nassim, mas também porque em breve estarei em condições de abrir a minha loja - anunciou.
- Mas que loja?
- Sabes que tenho andado a frequentar um curso de Estilismo, não sabes?
- Não - Que me lembrasse nunca tinha ouvido tal coisa.
- Então, mas eu contei-te, tu é que não ligas nenhuma ao que te digo.
Talvez. Sim, se calhar era capaz de me ter dito qualquer coisa, mas o mais certo era eu não ter feito caso.
- Pensava que te sentias bem aqui na agência... - disse eu.
- E sinto, mas ser estilista sempre foi o meu sonho - respondeu ela, soltando o cabelo, como se fosse a estrela do anúncio publicitário do melhor champô do ano.
Estilista. Mas e o tempo? Onde fora ela arranjar disponibilidade para aqueles projectos todos?
Tinha a parte administrativa da agência quase toda às costas, preparava e assistia a reuniões de negócios, fazia prospecção de mercado, frequentava cursos em horário pós-laboral, não tinha automóvel nem empregada e nem sequer morava em sítio propício ao desenvolvimento da criatividade artística, e agora desenhava roupas e preparava-se para lançar a sua própria marca? Como? Precisava de ousadia, talento, sentido empresarial e auto-confiança. Será que possuía todos os ingredientes para embarcar numa aventura destas ou seria o futuro marido a patrocinar as suas ambições?
- Então, o Nassim é que te vai dar o dinheiro para a loja?
- Achas? Desde os 18 anos que trabalho e até hoje nunca fui pessoa de grandes gastos... É claro que tenho capital para começar o meu negócio.
Mas que tempos fascinantes e imprevistos. Quem é que podia supor que o minarete de Odivelas fosse tão magnífico ou que Másha fosse tão talentosa? Já para nem falar da prisão de Rute nem da pancada de Libério.
Sim, Másha sempre gostara de costurar. Antigamente até me chegara a fazer umas peças de roupa, ainda que eu não lhas tivesse encomendado. Embrulhara-as em papel de seda e colocara-as no saco de pano-cru com as iniciais do nome dela bordadas a dourado. Eram tecidos grosseiros, que não me despertaram o interesse e nem sei que sumiço terá levado essa roupa. Bem, o gosto também se educa. Para quem não gastava um tostão, ela até costumava andar bem vestida, se calhar era indumentária de fabrico próprio.
- Queres dar uma vista de olhos na minha colecção de fim de curso? - pergunto ela, cheia de entusiasmo.
Foi buscar um álbum e sentou-se ao meu lado. Fiquei impressionada com o romantismo e a sensualidade dos modelos. As silhuetas eram todas estreitíssimas, de contornos anatómicos.
- Gosto das formas e das cores... - disse eu.
- Adoro a paleta dos castanhos toupeira e ouro claro - respondeu ela.
- E os materiais, são o quê? - perguntei, olhando para uma foto repleta de variados quimonos.
- Fios rústicos, lã, algodão, linho...
Ninguém é perfeito, pensei. Mas pronto, a colecção era dela e ela também tinha direito às suas opões artísticas.
Ainda naquela tarde recebi um convite da mulher do imã para tomar chá e lá fui eu de novo ter com ela ao Senhor Roubado. Encontrei-a radiante. Pudera. Era o prémio, era o marido absolvido do crime de suicídio, era o fim do luto, o regresso do filho, só coisas boas a baterem-lhe à porta.
O assunto que levara ao convite desta feita era o seguinte: o milionário saudita pretendia vir a Odivelas para conhecer a mesquita e entregar-lhe pessoalmente o prémio, e ela, influenciada pelo filho, queria aproveitar a ocasião para fazer uma festa das Arábias, aberta à comunidade, com o intuito de mostrar aos leigos as maravilhas da cultura islâmica, esperançada em dar o seu singelo contributo para desfazer mitos e preconceitos. De mim, desejava apenas ouvir uma opinião:
- Será que a Rute leva a mal?
- A Rute gosta é de ver toda a gente bem-disposta e feliz.
- Por minha vontade, fazíamos a festa só quando ela saísse da cadeia, mas o príncipe tem uma agenda dificílima e o Nassim acha melhor aproveitarmos a vinda dele, para termos mais cobertura mediática. Afinal, um príncipe é sempre um chamariz para qualquer evento...
- Mas qual príncipe?
- O Waed Bin-Abdulá!
- Mas ele também é príncipe?
- Olha, não sabias? Quarenta anos, viúvo, bem-parecido, amigo das artes e do saber... - E multimilionário, não se esqueça, acrescentei para comigo.
As celebrações arrancariam nas instalações do Fórum Fátima, mãe dos sábios imãs de Meca,
com uma curta conferência sobre arte islâmica em Portugal, a que se seguiria a entrega do prémio e logo depois um concerto de vinte e cinco minutos com Najwa Karam, uma das vozes de ouro da canção árabe. Depois, vinham os comes e bebes, mas no jardim, que se estendia das portas do fórum à freguesia da Ramada, por mais de um hectare de terreno, que era pertença da mesquita ia para dois anos.
- Sabe o que é que devia fazer? - disse eu. - Apelar às pessoas para virem vestidas à árabe...
- Ó Nádia, não quero fazer um Carnaval... - replicou.
- Quem é que não gosta do mundo da fantasia, Leila?
- E se me aparece alguém vestido de odalisca?
- Aparece nada, as pessoas têm bom senso!
- Bem, é capaz de não ser má ideia. De certo modo a cultura islâmica sempre despertou um certo fascínio nos Europeus, quer dizer, pelo menos até à morte do comunismo - disse ela.
- Até à morte do comunismo, como?
- Então, antes o bicho papão não era a União Soviética? - respondeu. - Agora somos nós...
- Acho que tem é de arranjar uma relações públicas eficiente, que lhe trate dos assuntos relacionados com os media e o público... - aconselhei.
- Isso não será um gasto desnecessário? - disse ela.
- Desnecessário é a Leila correr o risco de ser mal interpretada e depois ter de pagar uma factura ainda mais elevada.
- Tens razão. Vamos lá fazer disto um acontecimento inesquecível! - disse ela.
- Então, e que me diz do seu filho e da Másha? - atirei, picada pela inveja.
- Eles é que sabem - disse ela.
- Ela nem muçulmana é... - disse eu.
- Isso é um pormenor de somenos - retorquiu. - O que importa na verdade é o amor.
- Acha que o amor tudo pode?
- Se não pode, é porque não é amor - disse ela.
Sentia-me cada vez menos qualificada para debater o amor e por isso calei-me.
- Põe-te mas é bonita que o príncipe até pode engraçar contigo, especialmente agora que tens o cabelo mais comprido.... - disse ela, adivinhando a solidão que ia no meu coração.
- Quero lá saber do príncipe! - disse eu.
- Então, uma menina tão bonita a desdenhar? - censurou ela jocosamente.
Waed Bin-Abdulá podia ter o role de qualidades que ela enunciara e até merecer o cognome de perfeito, mas eu não me estava a ver apaixonada por um homem do deserto, por mais predicados que ele tivesse.





Ana Grichetchkine | | 1 comentário

Tudo ou Nádia 30. A Primeira Confissão

O trigésimo capítulo de Tudo ou Nádia, o romance de Ana Grichetchkine, que o site do JL publica semanalmente. Ilustrações de Branca Aurora
Quando Malasarte telefonou ao técnico superior do sistema interno de videovigilância de Vale de Judeus, convocando-o para uma pequena reunião ao fim da tarde, a primeira reacção dele foi recusar dizendo que não tinha absolutamente nada a acrescentar às questões do advogado e que por isso não pretendia reunir-se com ele nem naquela tarde nem nunca.

   - Nesse caso - disse Malasarte -, não me resta outra opção senão desbobinar tudo o sei ao      telefone e depois seguir os trâmites legais de modo a conseguir a sua condenação por...       

- Ó doutor, tenha lá calma consigo, que exaltados não vamos a lado nenhum! Deixe estar que eu mais logo passo aí, pronto!

O encontro ficou marcado para o fim do dia. O advogado foi à polícia requerer a instalação de microfones, de modo a registar a conversa delatora que esperava ter mais tarde com o técnico, mas o juiz não deferiu a autorização e a instalação ficou sem efeito, o que acabou por não prejudicar em nada os planos de Malasarte, uma vez que o técnico vinha decidido a confessar toda a verdade e a fornecer-lhe provas irrefutáveis, que corroboravam em cem por cento os factos anteriormente postos a nu pela sua amante.

 Deviam ser umas seis da tarde quando o técnico tocou à campainha do escritório. Vinha transpirado e ofegante, com bolhas de água na testa e ilhéus de suor projectando ziguezagues molhados por debaixo dos sovacos da camisa.

- Está um calor que não se pode - disse assim que Malasarte lhe abriu a porta.

- Dizem que é por causa da camada do ozono - disse o advogado.

- Ó doutor, isto sempre houve calor! Há cinco mil anos até havia elefantes na Arrábida, e nessa altura ainda ninguém se tinha lembrado do buraco do ozono, pois não? - retorquiu o técnico, entregando-lhe um CD.

- Que é isto?  - perguntou Malasarte sem querer acreditar na sua sorte. - Não me diga que são as imagens do...

- Exactamente - respondeu o outro.

- Pensava que as tivesse apagado e não as pudesse recuperar... - disse o advogado.

- Apaguei-as, mas antes fiz esta cópia de segurança.

Malasarte encaminhou o técnico para o seu gabinete e disse à secretária que não queria ser incomodado e ela, ao contrário do que costumava fazer, não o interrompeu, pois estava a ver a sua telenovela favorita na televisão e mal conseguia dar pelo que acontecia à sua volta.

- Então, para que fez uma cópia tão comprometedora? - perguntou o advogado. - Não me diga que queria chantagear o seu cunhado...

- Deus me livre, doutor! Foi daquelas coisas que uma pessoa faz sem saber porquê, ou empurrado por uma mão divina ou lá o que é... - disse o técnico.

- Sabe que pode ser condenado por cumplicidade na morte do imã, não sabe? - perguntou o advogado.

- Conto consigo para que isso não me venha a acontecer - respondeu o técnico.

- A que é que se deve a sua mudança tão repentina de atitude? Ainda esta manhã não queria colaborar comigo e agora até me traz uma prova de cuja existência eu nem suspeitava.

- Estive a falar com a minha colega e resolvi seguir o conselho dela. O meu cunhado pode ter lá as razões dele, mas daí até andar a chamar nomes às outras pessoas...

- Bem, se calhar é melhor  certificarmo-nos do conteúdo deste disco - disse o advogado pegando no CD. - Isto dá para ver no computador?

O técnico fez que sim com a cabeça e depois seguiram-se vinte minutos de pura tragédia grega,  com momentos hilariantes à mistura. Isto, a crer nas palavras de Malasarte e tendo em conta que pessoa mais dada à pândega do que ele é difícil de encontrar.

O filme começava com uma frase, a itálico, que ocupava toda a parte central do monitor e dizia:

 

"O take oculto e a morte do mártir."

 

- Mas que folclore é este? - perguntou o advogado impacientemente, girando o monitor na direcção do técnico.

- Todo o homem que morre à sexta-feira, no Islão, é considerado mártir, ainda por cima assassinado, e tendo escrito as palavras do profeta... Oh, oh, tem tudo para ser beatificado, aquele imã é o que tem - disse ele.

- Mas por que raio é que você resolveu dar título a isto, homem? - perguntou Malasarte. O técnico encolheu os ombros e sorriu timidamente, deixando-se escorregar pela cadeira abaixo.

O filme propriamente dito começava com o imã deitado na tarimba a tossir. O guarda aproximando-se com o chá nas mãos. O imã dá um pulo, sobressaltado. O guarda diz, num timbre tão doce que parecia açúcar:

   - Não se assuste, trago-lhe aqui um chazinho com mel a ver se essa tosse acalma...

- Não era preciso incomodar-se, senhor guarda.

- Ora  essa, temos de ser uns para os outros.

- Que alma tão delicada a sua... Que Alá ilumine o seu caminho e lhe conceda, a si e à sua família, as melhores graças divinas.

- Você passa os dias sentado no chão frio, depois não é de admirar que tussa que nem um cão. Até se me parte o coração de o ouvir ganir assim! Vá, tome lá este chazinho, a ver se isso arrebita - disse o guarda.

O imã aceitou ou chá e agradeceu.

- Não tem de agradecer coisa nenhuma - respondeu o guarda.  - Não lhe dei nada que você não merecesse.

- Muito me apraz que o senhor assim pense - disse o imã. - Sou um pobre inocente abandonado à justiça dos  homens e se passo tantas horas no chão é a rezar, talvez Alá me perdoe por não ser capaz de entender esta detenção... Pergunto-me se terei mesmo de pagar por crimes que não  cometi e receio pelas repercussões que tudo isto poderá ter na minha família, nos fiéis...

- Vai ver que tudo se há-de resolver mais depressa do que espera - respondeu o guarda.

- Não sei, não tenho bons pressentimentos... - disse o imã.

- Olhe, tome este comprimidinho - disse o guarda, esticando a mão - que há bocado, com a conversa, até me esqueci de lho dar. Para a tosse, não há melhor remédio.

- Não costumo tomar medicamentos - disse o imã, recusando a cápsula.

- Ó senhor, não me faça essa desfeita! - disse o guarda. - Engula lá esta bodega se faz favor!

O imã pegou na cápsula e, ou porque não quisesse melindrar o guarda ou porque realmente se quisesse ver livre daquela tosse, levou-a devagarinho à boca, enquanto o carrasco seguia todos os seus movimentos com uma atenção fora do normal.

- Vamos lá a ver se funciona - disse o imã, engolindo a cápsula e devolvendo a chávena ao guarda.

- Oh, se funciona... - disse o guarda, cheio de alegria.

O que veio a seguir de engraçado nada teve e condizia na íntegra com o quadro anteriormente retratado a Malasarte. O final da fita parecia remeter, porém, para a comédia e estava artisticamente sinalizado com a frase: "Para lá todos caminhamos...", e depois, no canto inferior direito do monitor, "Fim", escrito com umas letras tão minúsculas, que quem estivesse a mais de cinquenta centímetros do PC dificilmente poderia decifrar aquela palavra.

- Você tem mesmo a mania que é artista, não? - disse o advogado retirando o disco do computador.

- Então, gosto de polir as minhas imagens, o que é que quer?

O técnico jurou a pés juntos que ia continuar a colaborar na defesa de Rute e que outra solução não tinha, agora que sabia que o cunhado andara a difamar a sua amiga. Só não estava, dizia ele, era para ir bater com os costados à prisão, pois o único crime que cometera fora o de ter tido pena de um familiar que tanto vira sofrer com a perda do filho. O advogado também fez as suas juras:

- Esteja descansado que farei os possíveis e os impossíveis para o safar.

Despediram-se cheios de mesuras e Malasarte não podia estar mais satisfeito. Foi para casa, fez várias cópias do CD, enviou-as por e-mail a amigos e colegas, ligou para o seu contacto na imprensa  diária e mais tarde, quando se foi deitar, adormeceu quase de imediato, que era coisa que ele não se podia vangloriar de lhe acontecer com frequência.

Na manhã seguinte, a manchete do Correio da Manhã era "Imã assassinado por guarda prisional", e em antetítulo a pergunta "Será que Abu-Nassim era mesmo terrorista?"

Assim que vi o jornal, liguei a Malasarte:

 - Porque é que não passa antes por aqui para irmos almoçar? - desafiou, antes de eu ter tempo     de lhe dar os bons-dias.  

   - Queria ir à manicura à hora de almoço...

- Não me diga que põe as vaidosices à frente dos assuntos da Rute...

- Se soubesse o estado em que tenho as mãos, não dizia isso!

- Estou a ver que o Rui é que tem razão... 

- Como assim?

- Disse que você era uma peneirenta...

Peneirenta? Nem sabia o que aquilo queria dizer. Mas está bem. Daquela cabeça, podia vir tudo e mais alguma coisa. Aceitei ir almoçar com ele, levada pela curiosidade de saber novidades de Libério.

Ao meio-dia em ponto, depois de ter acabado uma penosíssima reunião com uma marca de cosméticos que não quis de maneira nenhuma renovar o contrato de longa data que tinha com a agência, levantei-me da secretária com a intenção de esganar quem me aparecesse à frente. O primeiro a habilitar-se foi Malasarte.

- A sua assessora disse que eu podia entrar...

Rica vida, sim senhora. Assessora? Mas que faria ele ali? Afinal, não tínhamos combinado que eu passava no escritório dele por volta da uma da tarde?

- Então, senhor Malasarte? - disse eu, fazendo uma força sobrenatural para me conter. - Não tínhamos combinado que eu ia ter consigo?

- Menina Marchenko, quer acompanhar o repasto de um homem solitário, amenizando-lhe a existência árida? Vamos ali ao Bolshoi? - respondeu, ignorando a minha pergunta.

Já que era para ir ao Bolshoi, que fôssemos imediatamente, pois dali a meia hora não se devia poder lá entrar com tanto deputado esfomeado. Mal chegámos, pedimos o mesmo de sempre, seguindo o ritual do costume e passando pelos inevitáveis afagos da dona do restaurante.

- Esta georgiana dá cabo de mim - disse Malasarte com os olhos presos ao traseiro dela.

- Então, conte lá, que conversa era aquela da peneirenta?

- Ah... - disse ele recostando-se o mais que pôde na cadeira e acariciando a sua barriga de Sancho Pança. - É que ele estava a queixar-se da Adélia o ter deixado e eu disse que você também fazia um par jeitoso...

- E então?

- Que não! Que você é um pernilongo, que tem a mania que é mais do que as outras, que é uma peneirenta, e que ele não a quer nem carregada de ouro...

- Estamos quites, que eu também não o quero para nada!

- Faz bem, Nádia - disse ele. - O Rui ultimamente não anda bom do juízo.

- O repolhinho está bom? - perguntei, vendo-o devorar o prato acabado de chegar à mesa.

- Divinal! - disse ele com a boca cheia.

- E o testemunho do técnico sempre vai servir para libertar a Rute ou não? - perguntei.

- A Rute não está presa por ter matado o imã, mas com a revelação deste assassínio a teoria da acusação começa a ficar um bocado frouxa e, tremelique aqui, tremelique ali, vai para o maneta não tarda nada...

- Finalmente, uma boa notícia! - regozijei.

- Deus tarda, mas não falha, menina! - disse ele.

- E será que o imã era inocente? - perguntei.

- Não me admirava nada, mas isso não é coisa que me tire o sono - disse ele.

- Então, o que é que lhe tira o sono, Malasarte?

- Olhe, a solidão, por exemplo. Se pelo menos tivesse filhos, mas não. Chego a casa e só encontro é paredes à minha espera. Se soubesse o que sei hoje, tinha-me casado com uma mocita da Lousã, que chorou baba e ranho quando vim para Lisboa, tinha-a trazido comigo e pronto - disse ele.

- Não a trouxe porquê?

- Pensava que podia arranjar melhor... E assim se passaram os anos, e eu sempre à espera de encontrar uma cada vez melhor do que outra. Para quê?...

Ana Grichetchkine | | 2 comentários

Tudo ou Nádia 29 O dia das revelações

O vigésimo nono capítulo de Tudo ou Nádia, o romance de Ana Grichetchkine, que o site do JL publica semanalmente. Ilustrações de Branca Aurora

- Ainda bem que veio sozinha - disse Malasarte quando lhe fui levar o dicionário para Rute.

- Então, porquê? - perguntei.

- Queria contar-lhe uma coisa, mas ao pé do Rui uma pessoa até tem medo de abrir a boca. Desde que anda metido com os chanfrados dos mórmones nunca mais foi o mesmo, o rapaz.

A revelação que se seguiu parecia uma bomba. O imã tinha sido mesmo assassinado. Como se não bastasse, pelo que o advogado dizia, o autor do crime fora, e esta era a parte que mais me espantava, o guarda  prisional de serviço à sua cela, na madrugada em que o delito ocorrera.

- Mas porquê? - perguntei, tentando perceber o motivo do guarda.

- O filho morreu-lhe naquele atentado à bomba que houve há dois anos no metropolitano de Londres, não se lembra? - disse Malasarte.

- Mas o que é que isso tem a ver com o imã?...

- Então, não dizem que ele foi o cérebro dessa operação?

A acreditar nas palavras do advogado, assim que soube que o imã seria colocado em Vale de Judeus, o guarda, sedento de vingança, terá começado a matutar num plano para lhe acabar com a vida, o que acabou por fazer ao nonagésimo sétimo dia de cativeiro, aproveitando-se do valente resfriado que o clérigo tinha apanhado. A cela era toda de betão, as paredes, o tecto, o chão, tudo. Por isso não era de admirar que o imã, que passava horas a fio sentado no chão, virado para Meca, a rezar ou simplesmente em meditação, se tivesse constipado. Tossia que se fartava. Na sua última noite de vida, o guarda, chegando-se às grades da sua cela com falinhas mansas e uma chávena de chá de doce-lima com mel e uma cápsula, disse:

- Trago-lhe aqui uma mezinha, que me dá dó vê-lo ganir assim.

A visita do guarda, àquelas horas da madrugada, terá, imagino eu, causado alguma surpresa ao imã, mas creio que depressa se terá regozijado ao ver que estava perante uma alma compassiva e talvez tivesse até começado a filosofar sobre a propensão bondosa da natureza humana. Assim, não é de admirar que tenha aceitado de boa vontade a fatal oferenda, pois a cápsula o que continha era nada mais nada menos que sete gramas de cianureto de potássio.

Cerca de meio minuto depois de ter ingerido a cápsula, o imã, ou porque começou a sentir os primeiros sintomas do envenenamento ou porque, olhando para o assassino, terá pressentido a cilada que lhe fora armada, meteu a mão à boca e tentou vomitar. Logo a seguir, correu esbaforido para a pequena mesa de ferro, situada ao lado da sua tarimba, e lançando-se sobre papel e uma caneta, escreveu: "Não há outro Deus senão Alá", e num zás caiu ao chão inconsciente e aí permaneceu cerca de quinze minutos num estado entre a vida e a morte, até que deu um grande ronco e se apagou definitivamente. A seguir, o guarda prisional, pegando nas chaves, abriu a cela e, calçando um par de luvas, começou a limpar os vestígios do crime. Retirou o anel do dedo do defunto, tirou o diamante lá de dentro e engoliu-o. Depois, pulverizando o interior do anel com o veneno, voltou a enfiá-lo no dedo do defunto e saiu da cela. Antes de sair, porém, foi examinar por precaução o que o imã tinha escrito e, talvez pensando que não havia nada a temer, deixou ficar o papel em cima da mesa.

Tudo isto tinha sido gravado pelo circuito interno de televisão e contado com a benevolência do técnico de serviço, que era cunhado do assassino. Segundo o advogado, o técnico  comprometera-se a apagar a parte do disco rígido que continha estas imagens, coisa que realmente fizera. No entanto, consumido pelos remorsos, cheio de dúvidas em relação à culpabilidade de Abu-Nassim e sequioso de conforto, terá ido desabafar o sucedido com a amante, que era também sua colega de trabalho e inimiga secreta do guarda prisional, desde que o ouvira chamar-lhe vaca numa conversa que ele nem sonhava que ela escutara. Aproveitando a informação do amante para se vingar do cunhado dele, mas sem querer ser metida ao barulho, a mulher terá procurado Malasarte, na esperança de que ele fosse capaz de engavetar o seu ofensor.

- Temos de mandar prendê-lo! - exigi, ainda boquiaberta com o relato de Malasarte.

- Por enquanto, não podemos - respondeu ele -, não temos provas.

   - Então e o técnico que gravou tudo?

   - Esse não quer falar...

   - Então, assim de que nos vale saber a verdade?

   - Deixe-me pensar...

  Enquanto ele pensava, fui andando. Mas não sem antes ter de inventar um role de desculpas para me livrar de ir jantar com ele. Percebia que se sentisse só, como tantos outros homens que chegam à sua idade sem nunca se terem dedicado verdadeiramente a ninguém, mas não tinha paciência  para ser sua muleta naquela noite e, para mais, já tinha planeado o meu jantar: kefir e torradas com azeite e pasta de alho, a ver se purificava o sangue e fustigava os demónios. Plano furado. Ao chegar a Belém tive uma surpresa que acabou por me tirar por completo o apetite.

  Debaixo do alpendre do meu prédio, encostado a uma coluna, estava um homem com aparência de trinta e poucos  anos, corpulento, moreno, casaco de cabedal aberto no peito e mãos nas algibeiras. Assim que o vi, tive a sensação de que o conhecia de algum lado. Ignorando-o, meti as chaves à fechadura e preparava-me para entrar no prédio, quando ele disse, em russo:

- Então, Nádia, já não me conheces?

 No exacto momento em que ele disse estas palavras, dando o primeiro passo na minha direcção, percebi de quem se tratava. Era Andrey, o investigador georgiano cujos serviços tinha contratado através do meu advogado, na  tentativa de descobrir como é que a Telecomunicadora se tinha apoderado da minha fotografia.

- Olha, ainda és vivo?

- Podemos conversar um bocadinho?

Demos meia-volta pelo Jardim Vasco da Gama e depois sentámo-nos num banco virado para o

McDonald's e ele disse:

- A ver se este não vai também pelos ares...

- Era o que faltava - respondi.

 

- Já sei quem é que rapinou o retrato, mas como não pude cumprir com os prazos, sente-te livre para declinares a informação.

- Estamos a falar de quanto?

- Dadas as circunstâncias, vendo-ta por um preço simbólico.

- Quanto?

- Três mil euros.

- E achas que vale a pena? - perguntei por perguntar, pois aquele valor não era nada comparado com a exorbitância que o meu advogado me tinha querido cobrar.

- Se vale a pena? - repetiu ele. - Bem, se estiveres disposta a chatear-te...

Para masoquista, tinha eu jeito, disso não tinha dúvida nenhuma. Fechámos negócio. Passei-lhe o cheque, ele passou-me o DVD.

- Vê, ficas a perceber tudo - afiançou ele.

Vi, mas mais valia que não tivesse visto. Filme sórdido (e tórrido). Paulo e o director de Postos Públicos numa escaldante sessão de porno gay, na cave da nossa moradia, onde o falecido tinha uma espécie de sala de relaxamento, equipada com todos os apetrechos, desde televisão a frigorífico, cama e mesa. Era um mundo que eu não comungava por pensar que ele também tinha direito à sua privacidade. Só não podia era imaginar que o mundo dele se resumisse àquilo nem que ele fosse tão desinibido e flexível em termos de posições coitais. Estava estarrecida a olhar para aquele espalhafato, quando ouço Paulo dizer:

"Tenho a solução perfeita para o teu cartaz", e nisto saltou inesperadamente do leito do amor.

 

"Agora? Agora não, biscoito", respondeu o director.

Mas Paulo foi a correr para as escadas e o senhor director lá teve de esperar se queria voltar a pôr o biscoito na boca. Dois minutos depois, lá estava Paulo de regresso, com a minha fotografia nas mãos. "Quem é essa campónia?", perguntou o outro. "A Nádia", respondeu Paulo a rir-se. "E achas que ela não se importa?", quis saber o director como se tivesse ficado interessado na fotografia.

"Dás-me o graveto, que eu trato dela", disse Paulo.

A gravação não acabava ali, mas não tive estômago para ver mais e desliguei. Uma coisa era certa, Paulo devia ter um autêntico estúdio naquela cave e olho para o cinema também não lhe faltava, pois fazer uma realização daquela envergadura não era para qualquer amador.

Viktor tinha desencadeado as suspeitas que sabemos, mas agora o director vinha esclarecer definitivamente até os espíritos mais incrédulos e eu não tinha outra alternativa senão conformar-me com o facto de ter estado casada aqueles anos todos com um autêntico trapaceiro. Tinha saído do duche e preparava-me para me meter na cama, quando o telefone tocou. Número suprimido? Era Andrey:

- Espero que não te tenha acordado.

- Não, diz lá.

- Viste aquilo?

- Sim.

- Há quanto tempo é que não vais a Azeitão?

- Desde que o Paulo morreu praticamente nunca mais lá fui...

- Olha, é assim: tens lá um estúdio que nem todas as escolas de Cinema. Não sei se sabes, mas já tinha andado lá alguém a espiolhar aquilo antes de mim, e quem lá foi sabia ao que ia, pois dei pela falta de uma série de gravações. Penso que quem lá foi o tenha feito há bastante tempo, talvez há três ou quatro anos, mas mesmo assim, fica atenta, não vás ter mais surpresas...

- Então foram lá e deixaram ficar este DVD?

- É que esse estava mais escondido...

- Onde?

- Debaixo do assento do tractor de cortar relva, na garagem.

Enfim, cada  maluco com as suas taras, cada tarado com as suas manias. Que insólitas descobertas me estariam ainda reservadas? Por quanto tempo poderia eu ainda assegurar que Libério era um livro cuja leitura já nada me dizia? A seguir a uma página negra, vem sempre uma página branca. A seguir ao sofrimento vem sempre um bafejo de felicidade. Da próxima vez que me apanhar em maré de sorte hei-de inventar uma maneira de não virar a página. Ah, hei-de, hei-de... 

 

 

Ana Grichetchkine | | 2 comentários

Tudo ou Nádia. 28 O pedofóbico

O vigésimo oitavocapítulo de Tudo ou Nádia, o romance de Ana Grichetchkine, que o site do JL publica semanalmente. Ilustrações de Branca Aurora

Não sei se foi mal que veio por bem, mas a verdade é que as suspeitas dos médicos em relação à minha  gravidez  acabaram por se confirmar e agora, treze dias decorridos sobre a primeira consulta, eis-me de novo não grávida. A minha mãe não podia estar mais contente, pois sempre foi contra o meu relacionamento com Libério e acha que um filho dele não podia trazer nada de positivo à minha vida. Quanto a Salvador, nem vale a pena, pois seria praticamente impossível, depois do sucedido, voltar a andar com ele e nem eu queria. Não sei se a morte do embrião se deu por ordem do meu corpo ou da minha cabeça. O que é certo é que talvez tenha tido demasiadas dúvidas em relação a esta gravidez e também desejos sombrios e pensamentos desaconselháveis a qualquer mãe que queira dar à luz um filho saudável. Seja como for, sinto-me aliviada com o desfecho desta situação e não pretendo martirizar-me com  remorsos e arrependimentos, pois problemas que me cheguem já eu tenho com fartura.

Os quilos a mais são a minha chatice número um, depois da prisão de Rute, e uma vez que já estou habituada a Libério não gostar de mim. Estou determinada a emagrecer, pois quero continuar a ser requisitada e a ter as portas abertas ou pelo menos a ser capaz de as abrir. Foi com esta ideia que, no dia a seguir a ter feito aquela espécie de aborto, resolvi passar pela Fnac do Chiado, à procura de um livro de dietas milagrosas, cuja eficácia tinha sido pessoalmente comprovada por uma amiga de Másha, e também para comprar o dicionário de rimas para Rute, pois o irmão dela, embora tivesse prometido que o comprava, nunca mais se tinha lembrado de tal coisa.

Quando ia à Fnac gostava de me sentar no café a saborear um bolo e a folhear uma revista, mas naquele dia dirigi-me imediatamente para a caixa, pois não queria cair na tentação de me render aos prazeres (tão falazes) do creme pasteleiro. Ia a sair da loja, vinha Adélia a entrar. Mesmo que quisesse fazer que não a tinha visto, não podia, porque ela cumprimentou-me imediatamente com um beijo muito repenicado, o que me pareceu estranho, pois não era costume dela. Mas esta estranheza não foi nada comparada com o que acabei por saber na sequência desse beijo.

- Vou deixar o irmão da tua amiga - declarou, e depois desatou a chorar.

Fiquei sem saber o que dizer e impremeditadamente acabei por lhe perguntar se queria lanchar comigo. Sentámo-nos no canto mais recatado que conseguimos encontrar e eu deixei-me ficar calada, pois nestas coisas, já se sabe, quanto mais perguntas se fazem, mais o outro tende a chorar.

- Estou mesmo decepcionada com ele - disse ela, assoando o nariz a um guardanapo de papel. Deixa estar que não és a única, disse para comigo.

- Imagina, é pedofóbico - fungou.

O coração caiu-me aos pés. Pedófilo?!, repeti mentalmente.

- Sabes o que é?

Que pergunta a dela. Nos tempos que correm quem é que não sabia o que aquilo queria dizer?

- Tem pavor às crianças - disse ela. - Fez uma vasectomia há quatro meses, mas só agora é que eu soube. Não quer ter filhos por nada deste mundo...

Então, mas afinal que conversa era aquela? Será que ele não queria ter filhos para evitar o abuso sexual que sabia de antemão não poder controlar?

- Não sabia que os pedófilos tivessem esse tipo de preocupação - confessei.

- Pedofóbico, pedofóbico! O Rui tem aversão às crianças, odeia-as! Não é pedófilo, é pedofóbico!

- Desculpa, nunca tinha ouvido falar nisso - disse eu.

- A procriação é um dos mandamentos básicos da nossa Igreja; se  ele não queria fazer filhos, por que raio se casou comigo?

- Se calhar gosta de relações poligâmicas...

- Defendemos a poligamia não por libertinagem, mas por uma questão de honestidade; ou tu pensas que os monogâmicos não acabam sempre por ter relações extra-conjugais? Além do mais,  só assim conseguirmos garantir um número aceitável de nascimentos por família.

 

- E a Regina não se importa de ele não querer ter filhos? - perguntei.

- Parece que sofre do mesmo mal dele; diz que matou o próprio filho à facada, com a desculpa de ser sonâmbula.

- E não foi presa?

- Sabes que os malucos safam-se sempre...

Bem, pelo menos ela não era tão maluca como parecia, queria divorciar-se, dizia que não podia continuar casada com um homem que usara a sua boa-fé para o deboche, e que ter filhos era uma bênção da qual não pretendia abdicar nem mesmo por amor a Libério.

Será que aquela história era mesmo verdadeira? É certo que ele reagira sempre mal quando, no passado, eu lhe dera a notícia de estar grávida, mas daí até sofrer de um distúrbio mental daquela gravidade... Por outro lado, o tio dele também não era assim? Seria mal hereditário? Curioso não deixava de ser que afinal e contra todas as suspeitas de Rute não fosse por causa da falta de saúde de Adélia que o irmão não lhe dava sobrinhos.

 Pensava que Adélia tinha esgotado a sua capacidade de me surpreender, pelo menos naquela manhã, mas estava enganada. Ia dedicar-se, dizia ela, à produção e apresentação de programas de culinária, com enfoque na gastronomia mediterrânica, para doentes com colite ulcerosa. Aliás, fora por esse motivo que tinha ido à Fnac, para comprar uns livros sobre os benefícios do azeite, antes de o programa piloto ir para o ar, o que deveria  acontecer sensivelmente dali a três semanas. Criatividade não lhe faltava. Mas que viabilidade poderia ter um  projecto daquela natureza? Afinal, quantos doentes com colite ulcerosa havia em Portugal?

- Qual Portugal?, o meu show vai é para os Estados Unidos!

- Excuse me?...

- Pois, Estados Unidos!- repetiu ela.

De acordo com os seus dados, mais de quatro milhões de americanos padeciam daquela enfermidade. Até já tinha agente e contrato assinado com um canal de medicina e saúde da TV Cabo. Sempre imaginei que ela fosse uma rapariga desenrascada, mas não a este ponto...

Passei o resto do dia a pensar em Libério. Seria verdade aquilo que ela me contara? À noite, dava voltas e mais voltas na cama. Até que resolvi tirar a prova dos nove e liguei-lhe, pedindo que viesse ter comigo, com a desculpa de ter uma coisa do interesse dele para lhe contar.

- Sabes que horas são? - perguntou, contrafeito.

- Vem lá, é mesmo importante - disse eu, num tom intrigante.

 Lá o convenci. O plano era anunciar-lhe que estava grávida e depois esperar para ver se a reacção dele revelava indícios de perturbação mental. 

- Espero que o que tenhas para me dizer valha mesmo a pena - disse ele, mal entrando no meu apartamento cerca de 45 minutos após o telefonema.

- Entra, entra.

- Amanhã tenho de me levantar cedo e ando completamente estourado!

Será que ele alguma vez me tinha amado? Tinha vindo ter comigo apenas porque pensava que eu soubesse de alguma coisa que lhe dissesse respeito. De algo relacionado com a irmã, ou talvez com o clube e a nova patroa. Via-se bem, nada ali lhe interessava, nem mesmo o sexo.

- Estou grávida de quatro meses - disse eu, de supetão.

- O quê? - exclamou ele, completamente  surpreendido e afastando-se de mim até bater com as costas na parede.

- Estou grávida de quatro meses - repeti, com uma calma maquiavélica.

Tu és é uma serpente diabólica! Não tenho nada a ver com esse rebento maligno e não voltes a pôr-te à minha frente, dás-me nojo! - E nisto saiu porta fora.

Escusado será dizer que depois desta cena é que eu não consegui mesmo pregar olho. Passei a noite inteira a tentar perceber o que é que eu poderia ter visto naquele homem que me tivesse feito amá-lo tanto e tão cegamente, mas tudo o que via era uma miragem.

Ana Grichetchkine | | 1 comentário
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