A embaixada continua em polvorosa e o embaixador talvez vá corrido para Kiev, onde terá de se contentar com um cargo menos prestigioso e um triste salário numa repartição do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia. Tudo isto porque, enquanto ele andava a delirar com a minha mãe pelo Egipto, alguém fez chegar aos ouvidos do primeiro secretário (uma espécie de censor nas diplomacias dos países da antiga URSS) a informação de que ele teria andado a espalhar por Lisboa, e não só, o boato de que a melhor vodka do mundo era a moscovita. Numa altura em que as relações entre os dois países estão no pé em que estão, com a Ucrânia a querer entrar a qualquer custo para qualquer coisa que vá contra os interesses da Rússia e Moscovo a construir gasodutos entre a Sibéria e a União Europeia, anulando a trajectória ucraniana do gás russo - o que vai pôr fim à mama que tão bem tem sabido a tanto político e empresário ucraniano - , não é de estranhar que as palavras absolutamente inócuas do embaixador tenham causado um impacto tão negativo junto daqueles cuja principal missão é zelar pelos actos dos mais altos representantes da nação no estrangeiro.
A minha mãe está inconsolável com esta reviravolta, o que é compreensível uma vez que, inspirado pelos ares do Nilo, o embaixador lhe jurara que iria deixar a esposa para se juntar com ela, mas para Kiev é que a minha mãe não vai nem morta.
Mas há mais novidades na arena internacional. Salvador ligou-me. Os espanhóis querem a minha cara de volta. O público, um pouco por toda a Europa, mas sobretudo em Espanha, sente-se ludibriado. Aquelas pernas, dizem, não podem ser da Eva de la Sena, onde é que já se viu uma miúda com pouco mais de metro e meio ter umas pernas daquele tamanho? Só numa semana, houve uma quebra de 85% no volume de vendas de meias. Ora numa altura em que o Outono está à porta e ainda por cima com o tempo que tem feito na Península, não é de admirar que a Secret Garden esteja interessada em remediar o pontapé que me deu. Desde que me paguem o valor que me deviam ter pago pela campanha, a qual lhes ficou por uma bagatela por motivos sobejamente conhecidos, podem voltar a pôr lá a minha cara à vontade.
- Está bem, então amanhã mando-te o contrato por fax - disse Salvador, preparando-se para terminar a chamada.
- Então, e como é que vai a tua vida? - perguntei por pura e genuína curiosidade.
- Fiz as pazes com a mãe da Pilar... - perante tal resposta, não fiz mais perguntas, não fosse ele pensar que ainda estivesse interessada.
A seguir a esta conversa, a Secret Garden procedeu rapidamente aos acertos necessários e três dias depois a estrela do spot passei a ser eu, o que deixou a minha mãe felicíssima da vida, apesar das contendas em que andava com o corpo diplomático.
- O que é que eu sempre te disse, Nádia? - disse ela enquanto apreciávamos em conjunto o meu anúncio, refasteladas no sofá. - Não te disse sempre que tu darias uma excelente actriz?
Perante esta questão, o que fiz foi ir buscar chá, pois fiquei tão abismada que nem sabia o que dizer. Quando regressei à sala, remata ela:
- Mas se pensas que és a única celebridade da família estás enganada...
- Quando começas com esses mistérios...
- O Pietro Basso quer-me em Milão.
- E tu vais?
- Fazes com cada pergunta...
- E o embaixador?
- O embaixador que vá para a Ucrânia, com a mulher dele.
O pior é que parece que um embaixador sem embaixada não servia os interesses de nenhuma parte, pois a esposa acabara também por lhe pedir o divórcio. Isto contara-me o próprio quando me procurou muito desolado, na esperança de que eu pudesse intervir junto da minha mãe e fazê-la mudar de ideias, pois como ele dizia não era justo que precisamente agora que ia divorciar-se da mulher ela lhe desse com os pés.
- Mas a sua esposa é que quer o divórcio, não é?
- Sim, mas é por causa da tua mãe.
- Mas se a sua esposa ainda o quisesse, você ficava com ela?
- Claro.
- Então, na realidade você nunca pensou em divorciar-se dela...
- É óbvio que não!
- Então, porquê que andou a meter disparates na cabeça da minha mãe?
- Faz parte de ser amante dizer certas coisas...
- E de casado, não fazer outras!
Sempre estava para ver o que diria Másha se soubesse da conversa desta arara. Aqui, não podia ela aplicar a teoria da galadela à portuguesa, mas também agora que ela andava tão ocupada a tratar do noivado com o filho do imã e em estudos de mercado para o negócio das roupas, nem valeria a pena perguntar-lhe o que achava deste galo romanisco, que foi assim que passei a chamar o embaixador a partir dali, e diga-se, era alcunha que não lhe ficava mal de todo, dado o tufo de cabelo que tinha no alto da cabeça e que mais parecia uma crista.
O volte-face do anúncio dos collants passou praticamente despercebido em Portugal, embora tenha havido um número reduzido de pessoas, quase todas pertencentes ao mundo da moda, que me deram os parabéns, os quais recebi com alegria moderada na medida em que aquela campanha, da qual tanto me tinha inicialmente vangloriado, começara de repente a parecer-me trivial e ridícula. Talvez por isso, quando as pessoas me congratulavam, a minha reacção era duvidar da sua honestidade e foi com grande espanto que recebi o seguinte convite:
- Nádia, pago-te o que for preciso, mas aceita fazeres um spot para o clube! - disse-me Valentina numa manhã em que resolveu aparecer sem avisar e apenas para me fazer esta proposta.
- Só uma louca é que não aceitaria - disse Másha.
- Não sei, tenho de me aconselhar primeiro com a Rute, pois para todos os efeitos ela ainda é a minha agente...
Valentina, inspirada pelos criativos da Secret Garden, tinha já ideado o seu slogan: Nem que morram!, que era como quem diz nem que se matem não nos ganham, uma mensagem que só alguém completamente desequilibrado ou com excesso doentio de autoconfiança podia proclamar, pois nestas coisas do desporto a sorte, como se sabe, também tem uma palavra a dizer e nem sempre está em harmonia com os desejos dos donos dos clubes, por mais ricos e poderosos que eles sejam. Os gestos que ela fazia... Punha-se a desenhar frases no ar com as mãos, a fazer de conta que tinha um quadro à frente, depois afastava-se e ficava a observar os escritos imaginários, a coçar o queixo, a emitir huns e hãs como se estivesse em puro processo criativo e cheia de pequenas dúvidas. Se calhar tinha ficado eléctrica com a morte do marido. Assim dava para perceber porque só agora se lembrava de fazer contas com o Estado português. Coitada, nem parecia má pessoa. Se calhar as confusões que andara a arranjar nos últimos tempos eram isso mesmo: um bálsamo para a solidão.
- Vália - disse Másha tratando-a pelo diminutivo de Valentina, o que me pareceu um despropósito. - Tem de vir à festa da minha sogra...
- Tenho lá eu paciência para festas, Máshinka! - respondeu-lhe, tratando-a com igual mimo. - A minha vida é só chatices!
- Então? - disse Másha.
- Então, não vês a burla que o Estado português me pregou? - disse ela. - Apoderaram-se da fortuna do meu avô e agora não ma largam nem por nada... Depois, não temos uma embaixada em condições nem ninguém que interceda por nós, pobres ucranianos, e, olha, é nisto que dá...
- Mas a Vália gosta de morar cá, não gosta? - perguntou Másha.
- Ó filha, eu até gostaria de cá morar, sim senhora, que o país é bonito, e todo ele parece um resort, seja a norte seja a sul, mas, assim não! - disse ela, gesticulando como um maestro.
- Se calhar o melhor era esquecer essas querelas com o Estado... - disse Másha.
- Depois do que eu fiz por este país? - indignou-se ela. - Levantei aquele clube da lama, Másha! O clube do próprio presidente da República! Para quê? Só faltou foi chamarem-me larápia! Desdenhosos! Mal-agradecidos! Ora se o meu tetravô não sabia da nossa existência, como é que ele havia de nos deixar herança? Naquela altura o mundo era diferente e nós não podíamos andar por aí a viajar como viajamos hoje... Nádia, tu achas que eu sou uma larápia?
- Não, mas... - disse eu.
- A única coisa que eu pedi foi justiça para honrar a memória da minha pobre tetravó... Nádia, tu achas que eu sou uma exploradora? - perguntou.
- Eu sou uma pessoa que retribuo sempre a quadruplicar o bem que me fazem. Vá pronto, no mínimo em dobro. Não sou nenhuma vigarista, se digo que sou neta é porque sou! ADN, querem eles... Onde é que agora lhes vou buscar as amostras para análise? Agora, que o mais certo é estarem todas comidas pela bicharada...
Ser comido pela bicharada era o destino de todos nós. Talvez por isso não valesse a pena empunhar machados em quezílias pecuniárias. Por um lado, percebia que ela quisesse fazer aquela homenagem póstuma à avó, mas agora que benefícios tiraria a pobre velha da luta da neta? Será que a vida não tinha zelado prontamente pelo exercício da justiça ao fazer de Valentina a milionária que ela era?