A Grande Cidade

Angkor Thom, que se encontra a uns escassos 1500 metros a norte do Templo de Angkor Wat e que, ao contrário deste, não foi apenas um templo religioso, mas a última capital de Angkor, embora partilhem a mesma composição - um plano quadrado, murado, com um fosso em redor que simboliza os Oceanos, as muralhas representando a Terra e as cinco torres que se erguem no centro (o Bayon) e que representam os picos do Monte Meru. O retiro Himalaia dos deuses Hindus, na sua cosmologia religiosa. Mas Angkor Thom, que ocupa um espaço muito maior, como cidade, possuiu lojas, comércio, sistemas de esgotos, canalizações, hospitais e escolas, de que a rainha Pranhã Paramitta, também chamada Tara, mulher de Jayavarman VII, era patrona.

Saindo do centro físico e religioso, o Bayon, percorremos um terreno que nos leva ao Terraço dos Elefantes, também chamado Terraço Real, que foi começado por Suryavarman I (1002-1050) e terminado também por Jayavarman VII. É uma estrutura com mais de 300m e três plataformas principais, além de duas outras inferiores. Crê-se que era usado pela família real e os seus ministros para assistirem a paradas das tropas ou outros espectáculos. Decorado de forma muito elaborada, não são apenas os elefantes, onde na linha de baixos-relevos parecem surgir como fantasmas de pedra calcária, mas também tigres, leões, "nagas" (serpentes) "garudas" (meio-pássaro meio- homem), gansos sagrados e flores de lótus.

E daí seguimos para norte, para o Terraço do Rei Leproso (Leper King). Mais um legado de Jayavarman VII, este dedicado ao Budismo. À parte uma estátua sem cabeça, o terraço é fabuloso pela sua estrutura amuralhada com cerca de 6m de altura, suportada por uma base com 25m de cada lado. O exterior destas muralhas está profusamente adornado com baixos-relevos magníficos que incluem "nagas", "garudas", gigantes com vários braços, soldados, elefantes e até peixes - mas principalmente "apsaras". Duas galerias de baixos-relevos contornam o terraço. Quando estava a ser restaurado descobriram que dentro dessas muralhas haviam outras que se tinham desmoronado. Hoje restauradas, estas paredes dão origem a uma estreita passagem por detrás das muralhas exteriores, também ricamente esculpidas.

Saímos de Angkor Thom pela porta norte e deixámos para uma segunda visita os Templos de Preah Khan, Ta Prohm e finalmente Angkor Wat, de que vos falarei na próxima crónica. 

É que nestas paragens, pelo menos durante o mês de março em que aqui estivemos, o calor e a humidade, que chegou a atingir os 90%, se torna quase insuportável! Estávamos permanentemente encharcadas, o que nos podia levar rapidamente à desidratação (não fosse a guia passar todo o tempo a levar-nos ao carro, para beber água engarrafada (e morna!) ou coca-cola); andar torna-se extremamente cansativo e tudo o que apetece é passar o resto da tarde na magnífica piscina do nosso encantador Hotel - La Résidence d'Angkor - da cadeia Orient Express! E foi o que fizemos!

 

Outros templos de Angkor 

Na segunda visita entrámos pela parte a norte de Angkor Thom, na floresta, continuámos para Ta Prohm, o mais espantoso dos locais, também na floresta e finalizámos a visita com a "jóia da coroa", o ex-libris do Cambodja - Angkor Wat, que será a última crónica

PREAH KHAN

Também fundado por Jayavarman VII e construído ao estilo do Bayon, em finais do século XII, Preah Khan que significa "Templo da Espada Sagrada", foi dedicado à memória do seu pai como um templo budista, serviu como mosteiro e local de ensino e crê-se que foi temporariamente a capital durante a construção de Angkor Thom.

É um imenso complexo, que só não aparenta sê-lo devido à proximidade da ainda maior cidade de Angkor Thom. O local cobre 57 hectares. Uma parede com cerca de 3km rodeia o complexo. A cada 45m existe uma "garuda" que guarda o local. E sempre, sempre as "apsaras". Num canto a nordeste encontramos uma raridade na arquitectura khmer, um extraordinário edifício de dois andares que era a biblioteca e que alguns arqueólogos acreditam que possa ter albergado a "Excalibur Asiática". É um local que ainda se encontra muito devastado e que aos poucos vai sendo recuperado.

TA PROHM

"Com os seus milhões de membros nodosos, a floresta abraça as ruínas num amor violento" - Élie Faure

A floresta cambojana, alimentada pelas monções, rapidamente reclamou os templos. As sementes da "ficus gibbosa" e da "banyan" (principalmente estas duas), transportadas pelos pássaros, germinaram nas torres e nos telhados das galerias, enviando as suas raízes em busca do solo que, no seu caminho, envolveram as paredes de pedra. Estas, sem nada que as impedisse, estenderam-se e engrossaram, partindo a pedra, mantendo a alvenaria apertada no seu abraço... mas depois a árvore morre e esta armadura de madeira apodrece e, então, o edifício desintegra-se.

Este templo verdadeiramente extraordinário foi, talvez devido à sua proximidade à natureza, o mais mágico! Ta Prohm aparece-nos como um local encantado, perdido no tempo, abraçado pelas gigantescas raízes das "banyan" e das "kapok" e abandonado pelos homens! Talvez que o que o torna tão especial tenha sido essa decisão invulgar em arqueologia, de ter cortado apenas uma parte da selva, deixando os edifícios envoltos e apertados entre a teia das raízes das árvores! Mas para mim também foi, de certeza, a luz dourada do fim da tarde, esse jogo mágico entre sombra e raios luz que se filtram por entre as pedras e as árvores, que tanto contribuiu para o meu encantamento!

Mas não foi sempre assim. Uma "stela" encontrada e agora guardada no conservatório de Angkor, conta-nos imenso sobre Ta Prohm. Também construído por JayavarmanVII, foi dedicado à memória da sua mãe. Aqui neste imenso complexo de edifícios baixos, só o principal templo budista, chegou a albergar 3 140 aldeias, mantidas por 79 365 pessoas, incluindo 18 sacerdotes, 2 740 oficiais, 2 202 assistentes e 615 bailarinas! Gravada na pedra, ficou a ênfase da riqueza e prosperidade deste espectacular templo, hoje em ruínas à espera de restauro.