Historicamente, as esquerdas dividiram-se sobre os modelos de socialismo e as vias para os realizar. Não estando o socialismo, por agora, na agenda política, as esquerdas em várias regiões do mundo dividem-se sobre os modelos de capitalismo. À primeira vista, esta divisão faz pouco sentido pois, por um lado, há neste momento um modelo global de capitalismo, de longe hegemónico, dominado pela lógica do capital financeiro, assente na busca do máximo lucro no mais curto espaço de tempo, quaisquer que sejam os custos sociais ou o grau de destruição da natureza. Por outro lado, a disputa por modelos de capitalismo deveria ser mais uma disputa entre as direitas do que entre as esquerdas.

De facto, assim não é. Apesar da sua globalidade, o modelo de capitalismo agora dominante assume características distintas em diferentes regiões do mundo, e as esquerdas têm um interesse vital em discuti-las, não só porque estão em causa as condições de vida, aqui e agora, das classes populares que são o suporte político das esquerdas, como também porque a luta por horizontes pós-capitalistas - de que algumas esquerdas ainda não desistiram, e bem - dependerá muito do capitalismo real de que se partir.

Curiosamente, ao contrário do que se passa em outras regiões do mundo, há um consenso perturbador entre as esquerdas europeias. As esquerdas europeias parecem estar de acordo em que o crescimento é a solução para todos os males da Europa. A aposta no crescimento económico é o que as distingue das direitas, apostadas na consolidação orçamental e na austeridade. O crescimento significa emprego e este a melhoria das condições de vida das maiorias.

Este consenso é perturbador porque não problematizar o crescimento implica a ideia de que qualquer crescimento é bom, inclusive aquele que é obtido à custa da exploração desenfreada dos recursos naturais, da destruição ambiental e dos modos de vida de populações inteiras no mundo, seja europeu ou extraeuropeu, precisamente o tipo de crescimento que divide, por exemplo, a esquerda latino-americana.

 

Ora, a ideia de que todo o crescimento é bom é suicida para as esquerdas. Por um lado, as direitas facilmente a aceitam (como já estão a aceitar, por estarem convencidas de que será o seu tipo de crescimento a prevalecer). Por outro lado, significa um retrocesso histórico grave em relação aos avanços das lutas ecológicas das últimas décadas. Ou seja, omite-se o facto hoje comprovado de que o modelo de crescimento dominante é insustentável. Em pleno período preparatório da Conferência da ONU Rio+20, não se fala de sustentabilidade, não se questiona o conceito de economia verde, mesmo que, para além da cor das notas de dólar, seja difícil imaginar um capitalismo verde.

Este consenso entre as esquerdas europeias decorre do "pacto colonial" que sempre subscreveram, segundo o qual os avanços do capitalismo valem por si, mesmo que tenham sido (e continuem a ser) obtidos à custa da opressão de tipo colonial dos povos extraeuropeus. Nada de novo na frente ocidental enquanto for possível fazer o outsourcing da miséria humana e da destruição da natureza. Mesmo quando é cada vez mais visível que este outsourcing se complementa com o insourcing, isto é, com o empobrecimento e a miséria humana dos europeus.

 

É urgente que as esquerdas europeias ponham em causa o consenso do crescimento, o qual ou é falso ou significa uma cumplicidade repugnante com uma injustiça histórica. É imperioso recomeçar a discutir a questão da sustentabilidade, pôr em causa o mito do crescimento infinito e a ideia da inesgotável disponibilidade da natureza, assumir que os crescentes custos socioambientais do capitalismo não são superáveis com imaginárias economias verdes, defender que a prosperidade e a felicidade da sociedade dependem menos do crescimento do que da justiça social e da racionalidade ambiental, ter a coragem de afirmar que a luta pela redução da pobreza é uma burla para disfarçar a luta que não se quer travar contra a concentração da riqueza.