Nem scuts, nem portagens, nem gasolina se quer. António Ferreira transformou um conto 12 páginas em 80 minutos de filme. Embargo, estreia-se dia 30, é a mais recente adaptação ao cinema da obra de Saramago, depois de Ensaio sobre a Cegueira e Jangada de Pedra. O conto, incluído no livro Objeto Quase (1984), ilustra a dependência do homem do automóvel. O realizador de Coimbra, autor de Esquece tudo o que te disse, acrescentou-lhe todo o resto, personagens, histórias, contextos e até uma mensagem: tentar é preciso

 

Tentar foi o que António Ferreira fez. E conseguiu. Recebeu um apoio para uma curta-metragem e esticou-o para uma longa. Contra ventos e marés, produziu e distribuiu o seu próprio filme, que, a partir de dia 30, pode ser visto, não só em Lisboa e no Porto, mas um pouco por todo o país. Chegar às pessoas, com um filme "amigo do público", é o seu objetivo. Para isso também contribui uma campanha hilariante, que inclui, por exemplo, sketches com Bruno Aleixo.

O próprio filme tem momentos hilariantes, sobretudo através dos diálogos escritos por Tiago Sousa. Mostra atores pouco conhecidos do público, como o próprio protagonista Filipe Costa, e envolve-nos num mundo surpreendente e desolado. Depois de Esquece Tudo o que te disse e da curta Respirar (Debaixo d'Água), António Ferreira, mostra-nos uma visão alternativa no cinema português, que não se fecha às elites nem se rende ao sucesso fácil

 

JL: O conto de Saramago é muito pequeno, no fundo só tem duas ideias fortes: um embargo de gasolina e um homem que não consegue sair do carro. O projeto inicial de curta-metragem era mais fiel ao livro?

António Ferreira: A curta inicial era bastante fiel. Quando passámos para longa, tivemos que arranjar uma história para a personagem, um objetivo, uma família e foram surgindo essas ideias todas.

 

No livro, o carro ganha vontade própria e, desobedecendo ao dono, encaminha-se sempre para as filas da gasolina, apesar de já ter o depósito cheio. Porque não aproveitaste esta ideia?

Isso iria mudar bastante as coisas. Quando estávamos a definir que rumo seguir, vimos filmes como Christine, do James Cameron. Se fôssemos por esse caminho, o carro tornar-se-ia absolutamente central no filme. Entraríamos mais a fundo no domínio do fantástico e não o quisemos fazer. Quisemos dar relevo ao nosso protagonista, o Nuno. E toda a sua paranoia, a obsessão pela máquina que inventou, a forma como ele se esquece um pouco da família... O próprio motivo que o leva a ficar preso no carro, que nunca é explicado no filme, tem mais a ver com a própria personagem, é uma questão psicológica, a sua fobia, se calhar o medo que tem da sociedade, e o medo de falhar.

 

Contudo, a ideia do carro com vontade própria manteve-se, de forma mais subtil, com o autorrádio que, de vez em quando, misteriosamente, decide ligar-se sempre com a mesma música...

Ficou esse resquício que dá alguma personalidade ao carro e mostra que algo de bizarro se passa com a viatura.

 

Há meia dúzia de anos, com a greve dos camionistas, experimentámos um pouco de como pode ser grave viver sem gasolina. Que é algo que não afeta apenas os carros, mas todo um sistema, incluindo o abastecimento de bens essenciais nos supermercados. Contudo, tal como o Saramago, este é um ponto que não te interessou. Porquê?

No fundo foi isso que motivou o filme. Lembrei-me da curta Embargado, com uns amigos, em 1994, mal saí da escola de cinema, mas aquilo não deu em nada. Quando houve a greve dos camionistas e, em apenas três dias, começou a faltar comida em alguns supermercados, apercebi-me que aquilo estava mesmo a acontecer. Por isso recuperei a história.

 

Mas não dessa forma. Porque não te interessou o drama das famílias, da falta de comida?

O filme tem algumas referências a isso, ouvem-se notícias, que, na verdade, são retiradas dos jornais da época, referentes ao embargo dos anos 70. Mas o embargo funciona como um pano de fundo, um contexto. Sente-se mais pela ausência, as pessoas desapareceram, fecharam-se nas suas casas, o mundo ficou suspenso, como se tivesse embargado. Também é verdade que com as limitações orçamentais tornou-se difícil criar grandes filas nas bombas de gasolina. Por isso optámos por dar a ideia de que o embargo já decorria há muito tempo e já nem filas havia. O filme começou com o orçamento de uma curta-metragem. O Ensaio sobre a Cegueira custou 25 milhões de dólares, este custou 200 mil euros. Um das coisas que pedi ao argumentista foi não usar demasiada figuração, nem décors. Filmámos em 23 dias.

 

É também por isso que tem um ar de western explícito, logo desde a primeira cena?

Curiosamente essa cena foi filmada no fim, porque o embargo tinha ficado muito para trás, então resolvemos começar com um roubo de gasolina, para dar a ideia de que o mundo está à beira do caos. A nossa ideia, em termos de direção de arte, foi colocá-lo num tempo indefinido. Parece anos 70, só que depois vemos um telemóvel. Para mim, é um certo futuro em que o mundo começou a reciclar coisas velhas, uma espécie de Mad Max, caracterizar um mundo suspenso, em que já pouco ou nada funciona.

 

No conto do Saramago a personagem nem nome tem, mas tu puseste-a a vender uma máquina que digitaliza pés. Não lembra ao diabo. Como surgiu essa ideia?

Foi necessário arranjar-lhe uma história. A ideia até veio de Em Busca da Felicidade [de Gabriele Muccino, 2006], que a personagem andava sempre com a geringonça atrás dele. Achámos que se aplicava. O mundo está suspenso, ele inventou uma máquina espetacular, mas ninguém lhe passa cartão. Enfim, ele é um bocado culpado daquilo. É bem-intencionado, mas não tem jeito, é azarado, aquele tipo de pessoa que tropeça sempre à entrada da reunião e estraga tudo.

 

O Saramago também tem a sua ironia, vocês conceberam um filme com um humor hilariante.

Isso é mérito do Tiago. Um grande escritor, ainda para mais muito jovem. Eu invejo aquela cabecinha. Ele tem esse sentido de humor. E eu dei-lhe carta-branca. Às vezes até o picava, para ver se ia um bocado mais longe. Chegámos a pensar: "o que será que o Saramago vai achar disto?" Mas ele tem sentido de humor nos seus livros, o Caim ou A Viagem do Elefante têm coisas que nos fazem mesmo rir. Por isso achámos, seja o que Deus quiser, fizemos tudo com gosto e honestidade. Penso que a melhor maneira de falar de um assunto sério é com ironia e sentido de humor. Não temos que aborrecer a pessoas. Nós também somos assim. A campanha que fizemos para o filme é um pouco maluca.

 

Saramago chegou a ver o filme?

Eu só lhe queria mostrar a versão finalizada. Curiosamente, ele faleceu na altura em que estávamos a acabar. O Zeferino Coelho [editor da Caminho]já viu o filme diz que gostou muito. Estamos expectantes de qual vai ser a reação da Pilar. É uma adaptação do livro e teria sempre de ser assim. Quando os realizadores se agarram demasiadamente aos livros dá asneira. A literatura e o cinema são meios completamente diferentes. Ou se adapta ou o filme é chato.

 

Neste caso, falar em adaptação talvez até seja excessivo. Está lá a sátira da dependência do homem do automóvel, que é a ideia chave do livro, mas uma mensagem importante do filme é a determinação daquela personagem, que tenta sempre, mesmo quando tudo falha e isso é só vosso. O livro não é antes um ponto de partida?

Sem uma história para o nosso protagonista não teríamos filme. No livro a personagem é o carro. Mas tentámos manter as ideias centrais, a dependência que temos das coisas. Passámos 12 páginas para 80 minutos, teve que ser assim. 

 

Tem um grande elenco, sobretudo o Filipe Costa. Onde o descobriste?

Pode-se chamar uma revelação, apesar de ele já ter feito muito teatro. Já o conhecia pessoalmente das bandas, como os Bunny Ranch, de que fazia parte. Vi-o várias vezes no teatro e achei espetacular. É daqueles atores que se percebe logo que têm algo fora do comum, um olhar, uma força natural. Desenhámos a história já a pensar nele. Não digo que ele seja como a personagem, mas tem qualquer coisa de natural que está ali, aquela inquietação, o nervosismo. Além da técnica, há ali algo que é dele. É muito talentoso. Mesmo quando mostramos o filme lá fora, falam-me sempre do seu desempenho que é excecional. Espero que a vida lhe corra bem. Este filme não tem duplos, ele fez todas as cenas de ação, inclusivamente aquela em que o carro quase cai da ribanceira abaixo. Por isso, ele já diz que se não arranjar trabalho como ator fica para duplo.

 

Voltamos à história do baixo orçamento... O que ainda dá mais mérito ao filme.

Tenho quase 40 anos e já começo a ficar cansado de trabalhar nestas condições. Mas a verdade é que as restrições obrigam-nos muitas vezes a ser mais imaginativos. O projeto também se dava isso. O filme não se recente muito da falta de dinheiro.

 

Isso é uma espécie de cinema de guerrilha?

Sim, mas para ser franco, começo ficar farto desta coisa do respeito - quero que me deem dinheiro. Bastava complicar um bocadinho o argumento para que o filme já não fosse possível. Tivemos esse cuidado com o orçamento logo na escrita.

 

A verdade é que isso nem sempre resulta. Nem todos conseguem dar a volta por cima. E há filmes de baixo orçamento que são efetivamente muito maus.

Há a ideia feita de que não se pode fazer filmes para o grande público com um orçamento reduzido. Mas é mentira. Há muitos filmes de alto orçamento que são um flop, e filmes de baixo orçamento que são grandes sucessos. Mais importante do que ter efeitos especiais ou um ator caríssimo, é uma boa história. As pessoas vão ao cinema porque se querem emocionar, rir ou chorar. Têm que se relacionar com o filme, de outra forma não o aconselham aos amigos.

 

Outra coisa que tornou o filme possível é a tua relação com a cidade de Coimbra. Como é que foi a tua interação com o meio? Muitos amigos, muitos contactos?

Atenção que foi um filme profissional, em que toda a gente foi paga, até o figurante mais pequeno. Agora, obviamente foi muito mais fácil falar em Coimbra. Trabalhamos lá, sabemos a quem telefonar, sai-nos tudo mais barato. E é o meu ambiente natural. Quando leio o guião vejo logo onde quero filmar.

 

Muitas vezes o cinema português parece dividido entre filmes de elite que não chegam ao público, e filmes objetivamente comerciais de qualidade duvidosa. Com os teus dois filmes pareces ter descoberto um meio-termo... Pode agradar a todos.

Sempre achei estéril a discussão entre cinema de autor e comercial. Porque o cinema comercial é aquele que vende bilhetes, mas um autor pesadão como o Lars Von Trier vende bilhetes no mundo inteiro. E o cinema de autor chama-se assim porque alguém o escreveu. Mas todos os filmes foram escritos por alguém. Não sou elitista. Os filmes são para ser vistos pelo público. Já se sabe que nunca se agrada a gregos e troianos. Eu tento ser coerente. Sei o que quero dizer com o meu filme, cena por cena. Não há uma imagem que esteja ali por acaso. Mas sim, tenho a ambição de chegar a um público mais lato.

 

Tens algum projeto irrealizável?

Tenho um projeto muito ambicioso, mas espero conseguir chegar lá, A Conquista da Europa. É a história de um grupo de aborígenes. Morrem todas as mulheres da sua tribo e decidem fazer-se ao mar. Vão dar a uma cidade, Europa, rodeada de muros e fechada ao exterior e avacalham aquilo tudo. O próximo projeto também é ambicioso. A Trança de Inês é a adaptação do livro da Rosa Lobato Faria, envolve três épocas, passado, presente e futuro. É uma grande produção.

 

O filme tem uma estratégia ousada de promoção e distribuição. Em quantas salas vai estrear?

Falámos com quatro distribuidores grandes que não mostraram grande interesse no filme. Então distribuímos nós. Estamos a ter esse encargo financeiro, na expectativa de ter o retorno. Vamos estrear em 20 salas por todo o país - Braga, Porto, Vila Real Viseu, Aveiro, Coimbra, Covilhã, Leiria, Lisboa, Almada e Portimão. É uma estreia muito grande para um filme português. Mas acho que tem potencial, porque é amigo do público. Estamos a fazer um trabalho local, com visionamentos e campanhas em todas essas cidades. Lisboa refere-se à província como se fosse um todo. Mas Vila Real é diferente de Aveiro. Com esse trabalho específico poderemos ter bons resultados. Lisboa é 40 por cento do mercado, mas o resto do país tem o seu peso.

 

Para terminar, uma curiosidade, às tantas o amigo do Nuno tem uma ideia para o tirar do carro. Depois têm uma conversa tonta e nunca ficamos a saber. Que solução era essa?

[Risos] São aquelas coisas absurdas que o Tiago Sousa gosta muito de escrever. Eu também lhe perguntei, qual é a solução? Enfim, como ele não disse, nós também não ficámos a saber.