Durante 17 dias, de 27 de julho a 12 de agosto, vão estar no centro das atenções, a representar Portugal entre competidores de 204 nações. Mas para conquistarem um lugar entre os melhores do mundo, passaram os últimos quatro anos a treinar intensamente, desafiando os limites dos seus corpos e, tantas vezes, arriscando a saúde. Que lições nos podem dar os atletas olímpicos em matéria de persistência, coragem, sacrifício, alegria, esperança e sentido coletivo? O exemplo de um grupo de portugueses que se recusou a desistir. Em nome de objetivos que podem ser de todos. Hoje damos a conhecer Sara Moreira: Nos próximos dias, apresentamos outros atletas

 

Sara Moreira: "Quem nos dá valor são as pessoas das nossas terras, das nossas aldeias e cidades. Gostava que os nossos governantes estivessem mais atentos"

Há quatro anos, em Pequim, tremeu. Eram os primeiros Jogos da sua vida e Sara Moreira não estava preparada para o impacto. "Quando entrei no estádio, fiquei deslumbrada e intimidada. Bloqueei de tal maneira que nem me lembro das últimas cinco voltas à pista", reconhece a atleta, de 27 anos.

A experiência amadureceu-a. Londres verá "outra" Sara: sem tanto frio na espinha e com as pernas menos bamboleantes. Nos últimos meses, treinou sem limites, conquistou a medalha de bronze nos 5 mil metros dos Europeus de Helsínquia e chegará aos Jogos com outra alma para enfrentar os 10 mil metros. "Nas provas mais curtas, gosto de ir logo para a cabeça do touro, mas vou deixar a corrida desenrolar-se até aos seis, sete quilómetros, e, depois, verei o que posso fazer", revela, apostada em ficar entre as oito primeiras. Alguns, que bem a conhecem, esperam também apreciar a elegância do seu correr, algo que amiúde é destacado nas suas prestações.

Foi quando viu Fernanda Ribeiro a conquistar o ouro em Atlanta, em 1996, que Sara soube mesmo o que queria fazer na vida. Tinha 10 anos e o pai foi dar com ela a chorar diante da televisão, feliz. Nascida em Roriz, Santo Tirso, a atleta do Maratona Clube de Portugal que deixou o curso de Fisioterapia a meio, controla bem a espiral de sentimentos e emoções que se adivinham. Por vontade dela, a família nem sequer andará por perto. "Apoia-me muito, sempre, mas prefiro que fique em casa. Não gosto de os ver a sofrer por mim, fico nervosa e pressionada. Gosto de chegar a casa e dizer: ganhei!" Nas derrotas, também é de bom trato. Esmiúça o que correu mal, mas não fica com mau feitio.

Para Londres, levará o sorriso que tem estampado permanentemente no rosto. Levará também o iPod com hits de Espanha e do Brasil, talvez um livro de Paulo Coelho, e dormirá bem quase de certeza. Só sentirá saudades de uma coisa: "Francesinhas! Adoro. É das coisas de que sinto mais falta quando estou fora." Disso e dos mimos de quem manda. "Quem nos dá valor são as pessoas das nossas terras, das nossas aldeias e cidades. Gostava que os nossos governantes estivessem mais atentos. Bastava uma palavra." Por isso, guarda na memória os afetos de Laurentino Dias, ex-secretário de Estado do Desporto. "Sabia tudo, estava mais presente. Recebia sempre um telefonema ou uma mensagem dele quando acabava uma prova." Mesmo que dos Jogos venham medalhas e glórias, Sara correrá sempre com os pés assentes na terra, nunca nas nuvens. "No nosso país, as pessoas pensam que o desporto é coisa fácil, não têm noção daquilo de que abdicamos. E porque isto não é futebol, qualquer resultado que façamos não vai interferir na autoestima do País."