O leitor que tome nota: se isto fosse a Dinamarca já o caldo estava entornado. Jovem que chegue a Helsingør para as exéquias do pai e dê com a mãe casada com o tio, desata a planear homicídios e a monologar. Em Portugal, nada. E, no entanto, há tantas razões para inquietação aqui como lá. O facto de se tratar de uma inquietação romântico-legislativa inquieta ainda mais. O que se passa é o seguinte: José Sócrates está demasiado contente. Não me conformo com esta alegria, esta cordialidade, este bom perder. Quero vê-lo espernear, recriminar os adversários, lançar um último insulto a Manuela Moura Guedes. Que contentamento é este? Trata-se de uma boa disposição que ofende. Magoa até quem, como eu, nunca votou nele. Afinal foi Portugal que se livrou de José Sócrates ou José Sócrates que se livrou de Portugal?

Sócrates tem a desfaçatez de se comportar como aquelas namoradas que aceitam muito bem a notícia de que o namoro acabou. Não há lágrimas, não há ranho, não há nada. O fim da relação não é um drama, é um alívio. Ficam mais soltas, mais leves, mais vivas. E têm finalmente tempo para ir para França tirar aquele curso de Filosofia que sempre quiseram frequentar. Amigo leitor, não era José Sócrates que estava a entravar o nosso desenvolvimento, éramos nós que estávamos a entravar o desenvolvimento de José Sócrates.

Assim como vamos sabendo das antigas namoradas através dos amigos, vamos sabendo de José Sócrates através do Expresso. E remoemos as informações com azedume. Que ideia é esta de ir estudar para Paris? E filosofia? Não faz sentido. Uma pessoa chamada Sócrates decidir estudar filosofia é como um tipo chamado Eusébio querer fazer carreira no futebol. É má ideia, proporciona comparações desagradáveis.

E não podemos deixar de sentir que Sócrates não vai para França para nos esquecer. Na verdade, Sócrates já nos esqueceu. E, ao contrário da generalidade dos emigrantes, Sócrates não parte em busca de melhores condições de vida. José Sócrates não vai emigrar para fugir de José Sócrates - até porque, em princípio, José Sócrates vai com José Sócrates. Sócrates vai emigrar para fugir de nós. Alguém que lhe apreenda o passaporte, por favor. Era o que faltava. Obriguem-no a aguentar as medidas da troika até ao fim. Só pode sair do País quando o memorando estiver cumprido.