Rui Morrison é o ator de Fernando Lopes desde O Delfim. De alguma forma serve-lhe de espelho, sobretudo nos últimos filmes, em que experiências pessoais do realizador tomaram conta das personagens. À volta de uma chávena de café, o protagonista de Em Câmara Lenta conversou com o JL sobre a personagem, o cinema e a poesia de Fernando Lopes

JL: Tem sido o ator de Fernando Lopes assim como o Leonardo DiCaprio de Scorsese. Os papéis que tem interpretado têm muito do próprio realizador lá dentro?
Rui Morrison: Não é exatamente um alter-ego. Mas estes dois últimos filmes do Fernando têm uma componente pessoal muito forte. São temas diretamente ligados a situações da vida dele. N'Os Sorrisos do Destino parte de uma experiência pessoal. E este Em Câmara Lenta tem a ver com o seu universo, as suas preocupações e o seu olhar sobre a vida e sobre a morte.

Há um sentido de despedida?
Espero que não.

Tem uma ideia poética, de nadar até ao fim do mundo.
Não tem nada a ver com Os Sorrisos do Destino, que era um filme mais naturalista. Este tem uma componente poética maior, a própria linguagem utilizada não é coloquial. Portanto, é um filme que ganha outra dimensão para além do realismo.

Quase todas as personagens bebem uísque.
Isso é uma marca pessoal que o Fernando põe nos filmes. Eu bebo uísque nos seus filmes desde O Delfim.

Há uma grande proximidade entre os dois?
Desde o primeiro filme que fiz com ele criou-se uma cumplicidade única. Quase que não é preciso conversar. Compreendo-o muito bem. Conheço bem o seu cinema. A certa altura, quando ele faz o plano, sei logo o que ele pretende. Os próprios temas dos filmes são muito fáceis de entender, de entrar neles. Há uma grande compreensão de parte a parte. Não houve grandes conversas para descobrir a personagenm. Foi tudo muito fácil. Ele também me conhece muito bem, sabe o que posso dar.

Esta personagem não é simpática, apesar de, a determinada altura, sentirmos alguma compaixão.
Ele próprio acaba por se deitar na cama que fez, neste caso, no mar. É um indivíduo egoísta, independentemente do trauma principal forte que o marca. Além da culpabilidade, a perda do irmão leva-o a não se entregar. Não é um egoísmo puro, é um medo de voltar a perder. Não se entrega nem à mulher, nem à amante. Apesar de gostar dela, não abdica de uma certa distância, de um local de conforto, revelando até alguma covardia.

O filme tem poesia de forma explícita, concretamente através de citações do Alexandre O'Neill.
Claramente. Há ali uma influência óbvia. O filme poderia ser dedicado ao Alexandre O'Neill. A minha personagem é um admirador do O'Neill, tal como o Fernando. O poeta também é uma referência para a personagem no que concerne à sua relação com as mulheres. É assim que ele se justifica.

Neste caso o filme partiu de um livro, adaptado pelo Rui Cardoso Martins. O guião está muito distante do original?
Não li o livro. Há alguns casos em que é importante ler o livro. Aqui, segundo o Rui Cardoso Martins me disse, é uma adaptação bastante livre. Há uma distanciação e, por isso, não me ia interessar muito lê-lo. Há outros casos em é importante fazê-lo, como O Delfim, claro, ou A Morte de Carlos Gardel, adaptado pela Solveig Nordlund. O livro é um livro e um filme é um filme.

É um filme cheio de fantasmas.
Sim, aquelas pessoas andam todas à deriva. É como um navio que anda à deriva, com os fantasmas na borda. Aliás, a Ma Vie é a única personagem positiva, que vai para a frente. Todos os outros são autodestrutivos.

Como é que é trabalhar com o Fernando Lopes?
Ele dá uma liberdade que muitos realizadores não dão. Espera que os atores tragam coisas. Acontece várias vezes eu dizer-lhe: "Pensei em fazer isto assim". Se ele não gosta da ideia diz logo que não funciona; caso contrário deixa experimentar. Isso é muito estimulante para o ator. Sentimo-nos mais integrados no projeto. N'Os Sorrisos do Destino escrevi, entre aspas, alguns diálogos, porque o que estava lá não batia certo com a personagem. O Fernando aceita facilmente essas alterações.

Como é que correu a rodagem?
Correu bem, não foi complicado. Para mim fazer um filme é sempre difícil, há um jogo, às vezes acerta-se outras não. Nunca senti que os filmes com o Fernando fossem complicados ou difíceis. Ele consegue tornar as coisas fáceis.