Herman Tulp é um dos mais reputados detectives de arte do mundo. Não daqueles que investigam roubos de arte ou pilhérias de sacristia, mas sim um especialista em decifrar os segredos encriptados e os mistérios ocultos nas pinturas dos grandes mestres.

Foi ele que, consultando os arquivos do seu antepassado Dr. Tulp, descobriu que o cadáver usado para a famosa aula de anatomia era de Marco van Rijn, líder de um seita judaica que se dedicava ao assassínio religioso, através do estrangulamento de protestantes ricos.

Após a minuciosa consulta dos arquivos do seu egrégio avô, foi possível a Tulp especular que aquela aula pretendia estudar os músculos do braço do estrangulador para estabelecer uma correlação entre a anatomia e a propensão para o crime. 

II

Frank van Ruytenberg é um bilionário americano que fez fortuna com capitais de risco em Wall Street. É também um dos maiores coleccionadores de quadros misteriosos, fanático de Rembrandt e um grande mecenas do Rijkmuseum.

O encontro entre os dois homens ocorre numa discreta coffee shop em Amsterdão, onde um ciclista francês enrola charros de erva para os clientes ao som de Haydin. "Música para os reais fogos de artifício"... adequado.

Tulp aspira longas baforadas num potente canhão de white widow, enquanto escuta a tentadora proposta de van Ruytenberg.

O milionário americano patrocina uma grande exposição sobre "Os mistérios de Rembrandt", e precisa que Tulp inicie uma grande investigação para descobrir a identidade dos 14 personagens desconhecidos do quadro "A Ronda da Noite", visto que das 32 pessoas que integram a milícia de mercadores do capitão Frans Banning Cocq, apenas 18 estão identificadas.

Para Ruytenberg, o essencial é saber qual dos milicianos é um auto-retrato de Rembrandt, quem o pai da criança de vestido branco no centro do chiaroscuro, e sobretudo, saber o nome do cão, porque precisava de baptizar o seu novo e caríssimo Mastim Tibetano (o cão mais caro do mundo).

Tulp, visivelmente tolhido pela névoa de erva, limitou-se a replicar laconicamente:

- Ora essa é fácil. O cão chamava-se Piruças.