Convite aos Leitores: Deixe aqui a sua Opinião
Página inicial | Opinião | Ricardo Araújo Pereira

Página 1 de 20 1 | 2 | 3 | 4 | 5 |

24 de Abril, sempre. Democracia nunca mais

Celebram-se este mês os 40 anos da morte do 25 de Abril. Ou talvez não seja bem isto. Mas parece

Celebram-se este mês os 40 anos da morte do 25 de Abril. Ou talvez não seja bem isto. Mas parece. Não se sabe ao certo como vão ser comemoradas as quatro décadas de democracia. Suspeita-se apenas que a cerimónia vai ser pobre, triste, e presidida por gente que não mexeu uma palha para que a Revolução acontecesse. Os capitães de Abril não estarão presentes. Durante o Estado Novo, as pessoas que fizeram o 25 de Abril não podiam falar na Assembleia da República. Ao fim de 40 anos de democracia, continuam a não poder. Podem estar presentes, desde que seja só para enfeitar. Mas não querem. É pena. Sugiro um friso de capitães de Abril feito de fotografias em tamanho real, recortadas em cartão. Faz o mesmo efeito que os organizadores da cerimónia pretendiam, e podem usar-se fotografias dos tempos em que os capitães de Abril estavam mais novos e mais magros. É uma maneira de termos um 25 de Abril ainda mais próximo do original. E de plástico, que é mais barato.

Outra ideia, um pouco mais subversiva, mas igualmente respeitadora da ordem e do silêncio: todos os democratas presentes na Assembleia para a cerimónia comemorativa do 25 de Abril levam no bolso uma máscara do Vasco Lourenço. E, quando a corja topa da tribuna do hemiciclo, põem a máscara. Talvez pregue um susto suficiente para que alguns dos organizadores da festa corram a comprar um bilhete para o Brasil. As agências de viagens bem precisam de um incentivo destes.

Entretanto, e creio que já no âmbito das festividades, Durão Barroso afirmou que, antes do 25 de Abril, "apesar de algumas liberdades cortadas, havia na escola uma cultura de mérito, exigência, rigor, disciplina e trabalho" que se perdeu. Realmente, havia algumas liberdades cortadas. E algumas goelas, também. Mas, para o presidente da União Europeia, o regime em que havia uma polícia política que prendia, torturava e matava tinha um ensino muito bom. Parece que, na antiga RDA, o desporto também era óptimo. Dizem que Jack, o Estripador, tinha uma linda colecção de selos. E, como se sabe, os nazis tinham marchas lindas.

De facto, e com muita pena minha, o ensino do Estado Novo era melhor e mais exigente. Cito, por exemplo, o Livro de Leitura da 3.ª Classe, de 1958: "Com o Estado Novo abriu-se para Portugal uma época de prosperidade e de grandeza, comparável às mais brilhantes de toda a sua história. (...) Construíram-se muitas escolas, e hão-de construir-se as que forem precisas para que todas as crianças em idade escolar tenham onde educar-se e instruir-se." A prova de que o ensino era bom é que Durão Barroso memorizou estas palavras do livro único e não mais as esqueceu. É pena que, aparentemente, os primeiros-ministros que governaram Portugal após o 25 de Abril não tenham conseguido manter este nível de excelência nas nossas escolas. Não sei se Durão Barroso conhece algum. Mas todos eles merecem uma palmatoada. E deviam decorar os nomes dos rios e caminhos-de-ferro de Angola, para castigo.

 

 

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1102, de 16 de abril | | Comente

Responsabilidade, colheita de 2014

Esperemos que o nosso povo tenha o bom senso de recusar este aumento, que só o prejudica, e permaneça intransigente na vontade de continuar a receber um salário que o mantém na mais sensata e responsável miséria

Enquanto não sai a muito aguardada edição em DVD dos melhores debates da Assembleia da República, o público tem de contentar-se com alguns excertos avulsos disponíveis na internet. Esta semana, quando o primeiro-ministro disse que estava pronto para discutir o aumento do salário mínimo, alguns internautas tiveram a generosidade de retirar tempo à contemplação de filmes marotos e foram procurar um debate ocorrido há um ano e um mês. À sua maneira, também é um filme maroto. Nessa memorável sessão parlamentar, Passos Coelho recusava uma proposta da oposição por ser demagógica e irresponsável. Essa proposta era o aumento do salário mínimo. Segundo o primeiro-ministro, numa sociedade com o nível de desemprego da nossa, o que faria sentido era diminuir o salário mínimo. Com esforço, e um pouco contrariado por não poder beneficiar mais ainda os trabalhadores, Passos Coelho tinha-se limitado a manter o salário mínimo no mesmo valor. Mas, há um ano e um mês, aumentar o salário mínimo não seria apenas irresponsável, seria ceder à demagogia fácil.

Esta posição é curiosa por duas razões. A primeira é o persistente repúdio que a classe política dedica à demagogia fácil. Não se ouve uma palavra contra a demagogia difícil, o que acaba por ser justo. Sendo embora demagogia, é difícil, e portanto merecedora de respeito.

O demagogo que se dedica à demagogia mais requintada não costuma ser tão criticado, o que revela que Portugal também valoriza o mérito. Por sorte, no debate político, os adversários enveredam sempre pela demagogia fácil, que também é a mais fácil de combater.

A segunda razão é a questão da responsabilidade. O que em Março de 2013 era irresponsável, em Abril de 2014 parece ser sensato. No entanto, no essencial nada mudou. O desemprego continua muito elevado. Diminuir o salário mínimo continua a ser o que faz mais sentido, de acordo com a teoria económica do Governo. Mas passou um ano, e o que era irresponsável passou a ser responsável. Não será do clima, porque a altura do ano é a mesma. É capaz de ser uma questão de colheita, como os vinhos. A responsabilidade deste ano já está muito apurada no início de Abril, enquanto a responsabilidade de 2013 ainda estava azeda em Março. Esperemos que o nosso povo tenha o bom senso de recusar este aumento, que só o prejudica, e permaneça intransigente na vontade de continuar a receber um salário que o mantém na mais sensata e responsável miséria.

Ricardo Araújo Pereira | | 14 comentários

História do presente

Passos Coelho: Como é que estamos em relação àquela minha ideia de moer funcionários públicos para almôndegas? Paula Teixeira da Cruz: Parece que é inconstitucional.
'Ministros cinco horas a discutir cortes' 
in Expresso, sobre o Conselho de Ministros de segunda-feira, 31 de março

Maria Luís Albuquerque: Bom, de acordo com o manual de instruções que o professor Vítor Gaspar me deixou quando saiu do Governo, é preciso fazer mais cortes este ano.

Paulo Portas: Impossível. Não pactuarei mais com este saque. Estamos a ultrapassar fronteiras que me recuso a transpor. Demito-me irrevogavelmente.

Passos Coelho: Está bem. Até já. Então onde é que se há-de rapar

Paulo Macedo: Ó Pedro, então o teu pai deu uma entrevista a dizer que o País está mal, pá?

Passos Coelho: A sério? Vamos cortar-lhe a reforma. Já cortámos reformas?

Maria Luís Albuquerque: Esta semana, não.

Passos Coelho: Então é isso.

Pedro Mota Soares: Eu tenho os bens dos velhos portugueses todos inventariados, e parece-me que ainda há espaço para cortar. Há um casal em Mafamude que tem 37 euros em moedas numa caixa de biscoitos, por trás da máquina de café.

Passos Coelho: Têm uma máquina de café? Alguém anda a viver acima das suas possibilidades. Diz-lhes para venderem isso no OLX e ainda fazemos mais alguma receita.

Paulo Portas: Então? Já há decisões desagradáveis das quais eu me possa demarcar, usufruindo assim do duplo benefício de estar no Governo enquanto ao mesmo tempo o critico?

Pedro Mota Soares: Sim. Há uns velhotes em Mafamude que vão ficar sem a máquina de café.

Paulo Portas: Nunca! Eu não transponho a fronteira da máquina de café. Demito-me irrevogavelmente.

Maria Luís Albuquerque: Está bem. Digam-me só uma coisa: estes cortes que estamos a decidir hoje são secretos ou aquele meu secretário de Estado pode revelá-los à Imprensa?

Marques Guedes: Desculpem interromper, tenho aqui o Marques Mendes ao telefone a perguntar se já decidimos alguma coisa, porque ele vai fazer o programa na SIC em breve e ainda não tem novidades para dar em primeira mão.

Passos Coelho: Agora não, pá. Como é que estamos em relação àquela minha ideia de moer funcionários públicos para almôndegas?

Paula Teixeira da Cruz: Parece que é inconstitucional. 

Paulo Portas: Para almôndegas? Não era para hambúrgueres?

Passos Coelho: Mudou-se para almôndegas.

Paulo Portas: Nesse caso, demito-me irrevogavelmente. Eu não transponho a fronteira da almôndega.

Maria Luís Albuquerque: Alguém vê algum sítio, no aparelho de Estado, onde se possa cortar um gasto supérfluo?

Passos Coelho: Não me ocorre nada. Ainda ontem estive a pensar nisso com o meu adjunto, que tinha falado com o seu assessor, que tinha estado reunido com os seus três consultores, cada um dos quais tinha nomeado um gabinete de estudos, mas nenhum deles chegou a qualquer conclusão.

Paulo Portas: Só se cortarmos mais reformas e salários. Nem pensar. Demito-me. Desculpem. Isto vicia.

Ricardo Araújo Pereira | | 1 comentário

007 contra gold visa

Temos de ser mais agressivos a disputar os investidores estrangeiros às prisões chinesas, caso contrário este país não avança

O caso do cidadão chinês com visto gold que foi preso na semana passada envergonha Portugal. Um homem é condenado a dez anos de prisão por fraude, na China, e nem o facto de possuir um visto de residência em Portugal o consegue livrar de ser detido. Nesse caso, para que serve residir em Portugal? Os vistos gold oferecem vários benefícios aos seus titulares, incluindo o acesso à autorização de residência permanente e até à nacionalidade portuguesa. No entanto, parece que não conseguimos deixar de tratar estes estrangeiros como portugueses de segunda. Entregar a um estrangeiro um documento que lhe dá praticamente todas as vantagens de ser português excepto a de escapar à prisão, roça a xenofobia. Para este chinês não houve prescrição de coimas, recursos sucessivos em processos judiciais eternos nem anulação de provas por causa de detalhes técnicos. Foi mesmo julgado, condenado e preso - apesar de já ser mais ou menos português há cerca de seis meses. Houve justiça para Xiaodong Wang, o que significa que não houve justiça para Xiaodong Wang. Se o estatuto jurídico-legal dos estrangeiros ricos é equivalente ao dos portugueses pobres, não vale a pena investir no nosso país.

O que Portugal faz a estes vigaristas de luxo é, na verdade, uma vigarice de luxo. É uma burla de Estado. Portugal é o Frank Abagnale dos países. Leva os vigaristas a acreditar que são, para todos os efeitos, cidadãos portugueses, e depois frustra-lhes as expectativas retirando-lhes um dos direitos fundamentais. Bem sei que não há honra entre ladrões, mas isto é capaz de ser demais.

O visto gold é atribuído a quem exerça pelo menos uma das seguintes actividades de investimento: aquisição de um imóvel no valor mínimo de meio milhão de euros; transferência de capital no montante mínimo de um milhão de euros; ou criação de, pelo menos, dez postos de trabalho. Até ao fim de 2013, 0 (zero, aquele número imediatamente anterior ao um) vistos foram concedidos por causa da criação de empregos. Xiaodong Wang obteve o seu depois de ter adquirido uma vivenda de luxo com dinheiro que, ao que parece, não lhe pertencia. Mas, se lhe tivessem dado tempo e oportunidade, poderia ter juntado ao investimento a criação de dez empregos, contratando uma equipa jurídica formada por uma boa dezena de advogados. E ainda hoje Xiaodong Wang estaria a investir em Portugal. Temos de ser mais agressivos a disputar os investidores estrangeiros às prisões chinesas, caso contrário este país não avança.

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1099, de 27 de março) | | 2 comentários

Ricardo Araújo Pereira entrevista... Ricardo Araújo Pereira

"Parece que está tudo bastante mais ou menos", diz Ricardo Araújo Pereira, na autoentrevista publicada na Edição Especial de aniversário da VISÃO

Ricardo Araújo Pereira é um dos mais proeminentes humoristas surgidos na segunda metade do terceiro trimestre da primeira década deste século. Colunista da VISÃO há cerca de dez anos, deixou de ter coisas para dizer há mais de sete. Preocupa-se com a gestão inteligente da sua imagem, para não cansar o público, e por isso mantém apenas um programa na TSF que também passa várias vezes na TVI 24, uma rubrica diária na Rádio Comercial, está prestes a estrear um programa na TVI de segunda a sexta com um compacto ao sábado e, nos intervalos dos programas, também aparece em anúncios. Nesta entrevista exclusiva, volta a mostrar que é muito mais do que apenas uma cara bonita. 

Ricardo, já reparou na tendência que estas auto-entrevistas têm para redundar no mais aborrecido cabotinismo?

Estava precisamente a pensar nisso, Ricardo. Essa observação é muito perspicaz. Antevejo uma excelente entrevista.

Obrigado. Mas acha que o facto de estarmos a reconhecer que as auto-entrevistas são ridículas vai impedir que esta se torne ridícula?

Não, mas as pessoas acreditarão mais facilmente que se trata de um ridículo intencional, depois de termos feito esta desconstrução que reputo de extremamente moderna.

Qual foi a pergunta que nunca lhe fizeram?

Essa não é uma delas, curiosamente. Já me perguntaram muitas vezes qual foi a pergunta que nunca me fizeram. É difícil responder, na medida em que o universo de questões que nunca me foram colocadas é muito mais vasto do que o daquelas a que já tive de responder. Mas nunca me perguntaram, por exemplo, qual é o PIB do Bangladesh.

Qual é?

747,34 dólares per capita.

Incrível. Como é que se definiria?

Em princípio, não me definiria, na medida em que sou demasiado complexo, como sabe. Mas, em traços muito gerais, posso dizer-lhe que sou forte no jogo aéreo e nas desmarcações, e tenho alguma facilidade em jogar de costas para a baliza, embora me falte capacidade de explosão.

É capaz de identificar o seu maior defeito?

Agradeço que me faça essa pergunta, porque me dá a oportunidade de responder de uma forma que julgo ser inédita. Normalmente, os entrevistados dão uma de duas respostas a esta pergunta: ou apontam um defeito menor (em geral, a teimosia), ou conseguem transformar o seu maior defeito num defeito dos outros (por exemplo: confiar demais nas pessoas). Gostaria então de dizer que, da vasta lista de defeitos que a minha personalidade me coloca à disposição, hoje escolho estes: sou preguiçoso e guardo rancores. Sempre são dois pecados mortais. Gostava muito de juntar a luxúria, mas não pratico tanto quanto desejaria.

Qual é o seu tipo de humor?

Mais uma vez, vou ser polémico. O meu tipo de humor é o que tem como objectivo fazer rir. Está cada vez menos em voga, parece-me. O riso tem má reputação e, por isso, há duas grandes escolas de comédia que tentam reformá-lo. A primeira é a escola da Miss Universo, formada por humoristas que desejam um mundo muito lindo. Pretendem endireitar o mundo através do poder infalível das piadas. Rir, sim, mas só se o riso tiver uma utilidade prática qualquer, se servir um objectivo considerado importante por um pequeno Zhdanov ou Goebbels . Caso contrário, riso é parvoíce. Há que educar as pessoas, dar-lhes lições de moral e aplicar-lhes o correctivo que merecem. O extraordinário poder do humor, que ingénuos como eu relativizam, está bem documentado historicamente. Todos recordamos a piada que acabou com a escravatura, a rábula de vaudeville que deu o direito de voto às mulheres, o programa cómico que determinou o fim da Segunda Guerra Mundial...

Que taxinomia curiosa. E qual é a segunda escola?

Agradeço o seu interesse. Ficaria surpreendido com a quantidade de gente que considera entediante ouvir-me falar sobre o poder da comédia. A segunda escola é a do anti-humor. O humor está muito visto. O que tem graça é não ter graça. Até porque o riso é parvoíce. Chaplin, Groucho Marx e Woody Allen estavam a ver mal as coisas. Há dias, li um crítico elogiar um programa cujo autor "se tinha esforçado por não fazer piadas". Imagino o esforço requerido por essa dura tarefa.

Como vê a actual situação do País?

Vejo com alguma esperança. O Governo diz que o País está melhor, o que é óptimo, embora as pessoas estejam piores, o que é péssimo. Fazendo a média entre o estado do País e o das pessoas, o resultado é razoável. Ou seja, parece que está tudo bastante mais ou menos. Não é mau.

Qual é a sua opinião sobre a co-adopção?

Sou a favor para todos os tipos de casal, menos para os que incluam parlamentares. As crianças precisam de um ambiente estável, e um parlamento que começa por aprovar uma lei para vir a chumbá-la meses depois é formado por pessoas instáveis, que não têm maturidade para criar uma criança. Ao contrário do que algumas pessoas defendem, acredito que ser deputado não é um desvio nem uma aberração, e até julgo que os deputados deveriam poder casar. Mas creio que a nossa sociedade ainda não está preparada para que certos deputados possam adoptar crianças. Basta pensar no estigma social sofrido por uma criança que, na escola, dissesse ser criada por um destes deputados.

Finalmente, Ricardo, o que levaria para uma ilha habitada?

Um tigre, porque prefiro ilhas desertas.

Ricardo Araújo Pereira | | 10 comentários

Posfácio

Cavaco é o primeiro autor a conseguir conciliar a ficção científica com o Quadro Financeiro Plurianual 2014-2020

Quem gosta de ficção científica deve ler o prefácio de Cavaco Silva ao livro que reúne os seus discursos. E quem aprecia uma boa noite de sono deve ler os discursos. São muito repousantes. Mas o prefácio é uma pequena pérola de criatividade e imaginação. Sobressalta e inquieta, como toda a boa ficção, mantém o leitor agarrado ao enredo, e no entanto contém expressões como "sustentabilidade da dívida pública", "crescimento anual do produto nominal" e "monitorização da política económica". Uma proeza de que Ray Bradbury e Phillip K. Dick nunca foram capazes. Bradbury tentou, em tempos, imaginar um futuro distante em que máquinas, homens e o crescimento anual do produto nominal batalhavam pelo domínio do planeta, mas nunca passou do primeiro capítulo. E Dick chegou a esboçar um romance acerca da sustentabilidade da dívida pública no planeta Zordon, mas acabou por desistir. Cavaco é o primeiro autor a conseguir conciliar a ficção científica com o Quadro Financeiro Plurianual 2014-2020.

A grande ideia do prefácio é a seguinte: Cavaco imagina o Portugal de 2035, um país em que a dívida, em grande medida, já foi paga, e desceu para um valor próximo dos 60% do PIB. Para que isso aconteça, há que seguir a estratégia que, nos últimos anos, fez com que a dívida subisse de 90% para 120% do PIB. De acordo com as contas do Presidente, Portugal precisará de crescer 3% ao ano durante 20 anos seguidos para atingir este objectivo. No entanto, segundo pessoas que foram consultar dados, nos últimos 40 anos Portugal não conseguiu crescer 3% uma única vez. Tenho de ir reler o prefácio, porque não dei pela parte em que seres de outros planetas visitam o nosso país e o colocam no caminho do crescimento económico inédito, partindo dos escombros deixados por uma das maiores crises de sempre. É capaz de estar nas entrelinhas e eu, que sou um leitor pouco sofisticado, não percebi. Tenho dado por mim a lamentar que o meu pensamento seja tão rústico. A questão da Rússia e da Ucrânia vai ou não iniciar uma guerra mundial? Confesso que não sei. Se não assassinarem um arquiduque ou invadirem a Polónia, não consigo perceber se vai haver conflito global.

O aspecto mais corajoso do prefácio é o facto de Cavaco não ter medo de ser desmentido pela realidade. Quando hoje assistimos à série Espaço 1999 não podemos deixar de rir com a ideia que os seus autores faziam do que o mundo seria há 15 anos. Mas Cavaco aposta num mundo extraordinariamente fantasioso já a médio prazo. Politicamente, nunca primou pela coragem, mas como escritor é um valente.

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1097, de 13 de março | | 3 comentários

O nosso homem no FMI

Miguel Relvas reapareceu, sacudindo poeira e teias de aranha, para integrar um órgão do PSD. Tive pena que o regresso não tivesse sido acompanhado por música porque, a fazer fé em certo videoclip do Michael Jackson, os mortos-vivos dançam todos muito bem

O grande erro das pessoas que dizem falar com os mortos é o aparente sucesso da comunicação. Eu tenho muita dificuldade em falar com os vivos, em perceber o que dizem, em fazer-me entender. No entanto, a comunicação com os mortos faz-se sempre sem problemas. Não há equívocos, mal-entendidos, pequenas imprecisões. Nenhum morto diz: "Não me recordo", "Pode repetir a pergunta?", "Desculpe, enganei-me, não era bem isso que eu queria dizer." O leitor de jornais tem experiências de comunicação muito mais estranhas e até misteriosas. Ainda esta semana me aconteceu. Primeiro, ouvi uma voz do Além. Vítor Gaspar, que eu julgava já não estar entre nós, deu uma entrevista em que dizia: "É insultuoso ser considerado o quarto elemento da troika." Dias depois, apareceu uma notícia intitulada: "Gaspar confirmado em alto cargo do FMI". É possível achar insultuoso ser considerado um elemento da troika enquanto se integra um organismo da troika? Talvez. Nada me impede de achar insultuoso que me chamem palhaço quando estiver no palco, com o nariz vermelho, sapatos muito grandes e uma flor na lapela que esguicha água. Resta esperar que Gaspar possa fazer por nós, junto do FMI, apenas metade do que fez pelo FMI junto de nós.

Mais ou menos na mesma altura, Miguel Relvas reapareceu também, sacudindo poeira e teias de aranha, para integrar um órgão do PSD. Tive pena que o regresso não tivesse sido acompanhado por música porque, a fazer fé em certo videoclip do Michael Jackson, os mortos-vivos dançam todos muito bem. Após o ressurgimento de Relvas, a imprensa voltou a registar fenómenos estranhos: os comentadores disseram não compreender o mistério de Relvas ter sido convidado para voltar à política; Relvas disse que ia explicar aos comentadores o mistério de ter aceitado o convite. Não sei se a confusão ficou clara. Relvas não precisa de explicar porque é que aceita convites. Já sabemos que os aceita quase todos. Misterioso é o facto de ele continuar a ter convites para aceitar. Foi por isso que tomei nota de mais este caso de falhas de comunicação entre pessoas relativamente vivas.

Antes de tudo isto, já Jorge Coelho tinha aparecido no PS. Tinha saído do Governo na sequência da queda da ponte de Entre-os-Rios, "para que a culpa não morresse solteira". Entretanto, a culpa, após o matrimónio de conveniência com Coelho, deve ter falecido, e o antigo ministro foi CEO da Mota-Engil já viúvo da culpa. Até porque seria estranho que um homem casado com a culpa por um episódio de desmoronamento de uma construção fosse comandar uma empresa de construções. Coelho, Relvas e Gaspar, cada um à sua maneira, casaram todos com a culpa. Mas foram casamentos breves, e os divórcios muito amigáveis.

Ricardo Araújo Pereira | | 12 comentários

Migalhas e circo

A grande diferença entre a festa do PSD no Coliseu de Lisboa e as antigas festas no Coliseu de Roma é que, no Coliseu de Lisboa, só compareceram os leões

A grande diferença entre a festa do PSD no Coliseu de Lisboa e as antigas festas no Coliseu de Roma é que, no Coliseu de Lisboa, só compareceram os leões. Os cristãos ficaram em casa, a acompanhar o espectáculo pela televisão. É certo que vimos a alegria dos leões, no palco, e adivinhamos o medo dos cristãos, em casa. Mas, para a plateia, é mais compensador assistir ao confronto dos leões com os cristãos, no mesmo recinto.

Senti falta de emoção. Não teria sido difícil encontrar dois ou três desempregados e pensionistas, soltá-los em frente à mesa do Conselho Nacional, e deixar que Passos Coelho os devorasse vivos, na alcatifa cor de laranja.

Os organizadores do Congresso sabem que as massas apreciam pão e circo, e o circo que montaram estava bastante bom, mas o pão vai sendo cada vez menos.

O circo parece, aliás, aumentar à mesma velocidade a que o pão diminui. A grande conclusão do Congresso foi exactamente esta ideia, mas vertida para linguagem política. Fica assim: o País está melhor, mas as pessoas estão pior. O País e as pessoas são duas entidades distintas.

O PSD, coitado, tem feito os possíveis para melhorar o País, e com muito êxito.

Mas as pessoas, por uma razão qualquer, resolveram regredir. Se o País não tivesse pessoas, os problemas de Portugal estavam resolvidos. Infelizmente, vivemos num daqueles países que incluem pessoas.

Confesso que não sei se o País, no início, vinha sem pessoas, e as pessoas foram um extra acrescentado depois de 1143, ou se as pessoas já vinham de origem. Tenho de ir confirmar aos livros do professor Mattoso. Mas percebemos cada vez melhor os incentivos do Governo à emigração: este país prosperaria se toda a gente saísse.

De resto, o Congresso do PSD parecia aquele quadro do Bruegel: A Luta entre o Carnaval e a Quaresma. No Coliseu, era a luta entre o Carnaval da propaganda e a Quaresma da austeridade. Ganhou o Carnaval, o que não costuma suceder.

Talvez a vitória se deva ao facto de este ser um Carnaval especial, mais robusto, na medida em que incluiu mesmo uma Páscoa: a ressurreição de Miguel Relvas foi, após a crucificação e a morte política, uma alegria para todos. Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitou ao fim de três dias, e a ressurreição de Relvas demorou dez meses. Desta vez, ninguém o pode acusar de cumprir as tarefas em menos tempo do que os outros.

Ricardo Araújo Pereira | | 11 comentários

Corrupção não entra aqui

O corrupto português é o inverso do Pai Natal: uma entidade imaginária que, em lugar de oferecer presentes, recebe-os. Segundo a lenda, em vez de um saco vermelho, dizem que transporta um saco azul. Há quem acredite que existe, mas ninguém tem provas. É uma questão de fé pueril

Era uma vez uma empresa alemã que vendeu dois submarinos a Portugal. Uso esta formulação porque, tendo em conta que os factos ocorreram há sete anos, tudo parece pertencer já ao domínio da fábula. Na Alemanha, houve um julgamento no qual certos intervenientes no processo foram condenados pelo crime de corrupção. Em Portugal, houve um julgamento no qual certos intervenientes no processo foram ilibados do crime de corrupção. Mais uma vez, a superioridade alemã ficou clara: os alemães conseguem ser corruptos mesmo quando não há ninguém para corromper. É a celebrada eficácia germânica. Neste aspecto, Portugal ficou atrás da própria Grécia, que também comprou submarinos alemães. Um ex-ministro grego envolvido no processo está preso desde o ano passado. Quando os corrompem, os gregos colaboram deixando-se corromper. Só em Portugal as pessoas não têm a decência de participar na dança da corrupção quando são convidadas para isso.

Na verdade, não é uma questão de má vontade, mas de feitio. Os mesmos administradores da empresa que corrompeu o ministro grego confessaram, no tribunal alemão, ter corrompido responsáveis políticos portugueses. Ingenuamente, terão pensado que bastava corromper um português para que se pudesse falar em corrupção. Desconhecem a fibra de que são feitos os lusitanos, cujo material genético é à prova de falcatruas. A História demonstra que não há um único corrupto em Portugal. A corrupção, no nosso país, é como o Pai Natal: só os ingénuos acreditam na sua existência. Para ser mais rigoroso, o corrupto português é o inverso do Pai Natal: uma entidade imaginária que, em lugar de oferecer presentes, recebe-os. Segundo a lenda, em vez de um saco vermelho, dizem que transporta um saco azul. Há quem acredite que existe, mas ninguém tem provas. É uma questão de fé pueril.

Os tribunais continuarão a perder tempo e dinheiro a julgar portugueses suspeitos de corrupção perante a passividade de todos. Ninguém toleraria que a polícia gastasse recursos a perseguir e a prender todos os velhos gordos de barba branca em busca do Pai Natal. E, no entanto, todos se calam perante o escândalo que ocorre nos tribunais, que teimam em tentar encontrar um português corrupto quando é mais do que evidente que não existe nenhum.

Ricardo Araújo Pereira | | 13 comentários

Mestrado em atendimento de conexões telefónicas

Quem tem a seu cargo os telefones do palácio de S. Bento deve quanto a mim proceder ao atendimento, auscultação, assimilação e processamento dos dados auscultados, gestão, coordenação de linhas, manuseamento de teclas e auscultadores, registo, encaminhamento de chamadas e desligamento das mesmas

De acordo com o jornal i, o primeiro-ministro contratou uma empresa para atender os telefones na sua residência oficial pelo valor anual de 12 mil e 500 euros. Pronto, é assim que começa a demagogia, que é tão nefasta. Como é evidente, esta empresa não foi contratada para levar a cabo uma tarefa tão simples como atender telefones. Isso seria ridículo. Segundo o contrato, os funcionários desta empresa vão desempenhar "as funções de atendimento telefónico, gestão, registo e encaminhamento de chamadas". Assim é que é. Só de ouvir a descrição, cansa. Trata-se de um cargo que exige um currículo bastante vasto: assim, à primeira vista, faz falta formação em secretariado, para o atendimento, em gestão, para a gestão propriamente dita, vocação para as letras, para o registo, e talvez umas luzes de psicologia, para o encaminhamento. Creio, contudo, que o gabinete de Passos Coelho devia exigir mais deste tipo de profissional. Se eu mandasse, as funções seriam bastante mais alargadas. Quem tem a seu cargo os telefones do palácio de S. Bento deve quanto a mim proceder ao atendimento, auscultação, assimilação e processamento dos dados auscultados, gestão, coordenação de linhas, manuseamento de teclas e auscultadores, registo, encaminhamento de chamadas e desligamento das mesmas. O contrato proposto pelo gabinete do primeiro-ministro, deixando de fora, entre outros elementos, a auscultação, o manuseamento de teclas e o próprio desligamento das chamadas, está a abrir uma brecha para a prestação de um serviço de menor qualidade, e não se compreende que os serviços jurídicos do governo tenham deixado passar questões desta relevância. Aliás, a notícia do i terminava dizendo que o jornal tinha tentado contactar o gabinete do primeiro-ministro mas, até ao fecho da edição, não tinha conseguido obter qualquer resposta. Pode ter havido problemas no encaminhamento, ou até na própria gestão, mas não me surpreenderia que a ausência de resposta se devesse a um conflito laboral originado pela não inclusão, no contrato, do manuseamento de teclas.

Uma das questões que o gabinete do primeiro-ministro deixou por responder foi esta: por que razão foi necessário contratar uma empresa se o palácio de S. Bento já dispõe de dez secretárias pessoais, nove auxiliares, e 12 pessoas a prestar apoio técnico-administrativo? Muito provavelmente, nenhum desses 31 profissionais tem competências para desempenhar um cargo tão exigente. E assim, quando quiser marcar um voo (em classe económica, para poupar), ou comunicar a outro elemento do governo mais um corte, com vista a aliviar a despesa, em princípio será a um funcionário desta empresa de atendimento telefónico, gestão, registo e encaminhamento de chamadas que Passos Coelho vai recorrer. Esperemos que resulte.

Ricardo Araújo Pereira | | 14 comentários
Página 1 de 20 1 | 2 | 3 | 4 | 5 |
 
PUBLICIDADE
Visão nas Redes