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Porque é que todos os motoristas de táxi são de direita?

Deve ser difícil e até opressivo viver num país sem humoristas de direita. Imagino que o facto de o governo ser de direita, a maioria parlamentar ser de direita e o presidente da república ser de direita seja um muito magro consolo

Na abertura da sua História do Riso e do Escárnio, o historiador Georges Minois escreve: "O riso é um assunto demasiadamente sério para ser deixado aos cómicos." É possível. Mas talvez também não seja sensato deixá-lo aos historiadores. No jornal em linha Observador, o historiador Rui Ramos (RR) escreveu um texto intitulado: "Porque é que todos os humoristas da rádio e da televisão são de esquerda?" Faltam-me instrumentos para saber se essa particularidade sócio-profissional se verifica na realidade. Sei apenas que Herman José, o maior humorista português, nunca revelou se era de esquerda ou de direita - o que, aliás, tem todo o direito de fazer. Mas admito que o problema, a existir, intrigue cientistas sociais em geral e irrite pessoas de direita em particular: deve ser difícil e até opressivo viver num país sem humoristas de direita. Imagino que o facto de o governo ser de direita, a maioria parlamentar ser de direita e o Presidente da República ser de direita seja um muito magro consolo.

RR descobriu o esquerdismo dos humoristas portugueses assim: "Quando o Observador teve o atrevimento de debater a Constituição, ficou mais uma vez à mostra a regulamentação política do piadismo rádio-televisivo." E apontou 1 (um) exemplo de crítica humorística à iniciativa do jornal: um texto de Bruno Nogueira e João Quadros na TSF. Na verdade, o que o Observador fez foi um pouco mais do que isso: avançou com uma proposta de revisão constitucional. RR lamenta: para os humoristas portugueses, "a Constituição não é para rir". É uma conclusão difícil de tirar, uma vez que o Observador não está a rir da constituição e Bruno Nogueira e João Quadros estão a rir da proposta de revisão constitucional levada a cabo por um sítio da internet: "Há jornais que oferecem serviços de jantar (...), o Observador está a dar uma revisão constitucional (...)", dizem eles. Isto tem graça (uma observação que escapou a RR).

De acordo com RR, este esquerdismo enviesa os temas escolhidos pelos humoristas: "Pode-se gozar com Cavaco Silva, mas não com Francisco Louçã". Surpreendentemente, a divisão ideológica, em Portugal, faz-se entre Cavaco e Louçã. RR não diz: "Pode-se gozar com Cavaco Silva, mas não com José Sócrates", porque a realidade não o permitiria, e não se deve deixar que a realidade estrague um bom argumento. Não, a direita é Cavaco e o seu contraponto, a esquerda, é Louçã. Na qualidade de humorista de esquerda, devo confessar, com muita vergonha, que, de facto, já fiz muito mais piadas acerca de Cavaco do que sobre Louçã. A minha desculpa é, evidentemente, esfarrapada: eu pensava que era mais interessante fazer humor sobre um homem que esteve no poder 20 anos, dez como primeiro-ministro e outros dez como Presidente da República, do que sobre um que, durante sete anos, foi coordenador de um partido que nunca chegou a atingir 10% dos votos.

Para RR, há duas razões para o esquerdismo unânime dos humoristas. Uma são "as vantagens que uma máscara de esquerdismo tem para um humorista". RR dá o exemplo de Justine Sacco, que foi despedida depois de ter posto uma piada no Twitter. Um homem chamado Sam Biddle chamou a atenção para a piada e incentivou ao enxovalho público global da autora na internet, e desse clamor resultou o despedimento. RR identifica os protagonistas da história como "a directora de relações públicas de uma das maiores empresas americanas da internet" e "um activista das redes sociais". Na verdade, Biddle era um jornalista de outra das maiores empresas americanas da internet, a Gawker Media (lema: "Today's gossip is tomorrow's news", ou "Os mexericos de hoje não as notícias de amanhã"), um conglomerado multimilionário de empresas de comunicação sediado nas ilhas Caimão. O episódio não teve rigorosamente nada de ideológico. Foi apenas mais um caso de concorrência entre gigantes da internet que beneficiou do facto de as pessoas que frequentam as redes sociais terem uma famosa incapacidade para reconhecer a ironia.

A segunda razão é esta: "À esquerda, parece dar-se uma tremenda importância a este tipo de profissões." RR avança com outro exemplo: durante a campanha das eleições inglesas, o trabalhista Miliband foi falar com o humorista Russell Brand "como a uma espécie de velho guru". Na verdade, Miliband foi ser entrevistado por Brand. A resposta à primeira pergunta começa com a frase "Você está totalmente errado", o tipo de comentário reverente que se faz a velhos gurus. RR acrescenta: "Ninguém imagina um episódio análogo à direita. (...) David Cameron não tem um humorista com dezenas de milhares de seguidores nas redes sociais para falar com ele, mas mesmo que tivesse, talvez não estivesse no topo da sua agenda de campanha". Cameron disse o mesmo. E, talvez por ninguém conseguir imaginar um episódio análogo à direita, a imprensa inglesa entreteve-se a publicar fotografias de encontros de Cameron com os conhecidos humoristas David Walliams (do programa Little Britain) e John Bishop, por exemplo, para que as pessoas conseguissem imaginar melhor.

Allison Silverman, guionista do programa The Daily Show, escreveu uma vez um artigo para a revista Slate em que identificava os cinco tipos de piadas que não entravam no programa de Jon Stewart. Um deles era este: piadas que recebem um aplauso em vez de uma gargalhada. Qualquer pessoa recebe palmas se subir a um palco e disser: "Isto é tudo uma cambada de bandidos." Fazer rir é mais difícil.

Em 2007, a Fox News exibiu um programa de sátira política inclinado ideologicamente para a direita, para combater o The Daily Show. Chamava-se The 1/2 Hour News Hour. Durou apenas 17 episódios, por uma razão bastante prosaica: não tinha graça. É o que costuma acontecer quando quem pretende fazer sátira política dá mais atenção à política do que à sátira. O negócio dos humoristas é o riso.

Pessoalmente, rio-me com P. J. O'Rourke ou José Diogo Quintela, mesmo quando eles estão a fazer pouco do que eu penso. Também acho graça a Stephen Colbert ou Jon Stewart, independentemente de muitas vezes concordar com eles. Serei um rústico, mas estou-me borrifando para a orientação política de um humorista (assim como para a orientação sexual, religiosa, ou o facto de preferir peixe grelhado a chanfana). A única coisa que me interessa na comédia é: tem graça? Logo por azar, é a única questão que não interessa a Rui Ramos.

Ricardo Araújo Pereira | | 3 comentários

Adendas ao código deontológico do jornalista, por António Costa

O jornalista tinha dito apenas que entregar a elaboração do programa do partido a um grupo de independentes revelava falta de coragem política. Isto, para Costa, é um insulto reles. O que significa que este candidato a primeiro-ministro nunca foi a uma feira, nunca esteve 20 minutos no trânsito, nunca foi ao futebol. Alguém precisa de conhecer o mundo.

O primeiro ponto que deve ser esclarecido, no caso da mensagem enviada por António Costa a João Vieira Pereira, jornalista do Expresso, é o seguinte: diz-se um sms ou uma sms? Julgo que há bons argumentos a favor de ambas as opções mas, como não existem estudos sérios sobre este problema, com muita pena minha terei de me dedicar, ao contrário do que é meu hábito, à questão essencial, que é a substância da mensagem de António Costa. Talvez seja importante situar esta rabugice no contexto mais amplo de indisposições de Costa com a Imprensa. Todos recordamos o episódio ocorrido há alguns meses, quando uma jornalista da SIC teve a ousadia de fazer uma pergunta ao secretário-geral do PS. Na altura, António Costa considerou infamante que a jornalista lhe tivesse aparecido "detrás de um carro". A objecção parece admitir que há sítios detrás dos quais é legítimo que um jornalista saia, mas que um carro não é um deles. É um ditame ético um pouco vago e incompleto, mas fica registado.

Desta vez, Costa não argumenta com a localização a partir da qual o jornalista se apresenta, embora, tendo em conta o modo como o Expresso chega aos seus leitores, o pudesse ter feito: "Então o sr. vem de dentro de um saco de plástico para criticar o meu programa económico para a década?" Não, desta vez o problema é outro. Costa começa por dizer: "Senhor João Vieira Pereira. Saberá que, em tempos, o jornalismo foi uma profissão de gente séria, informada, que informava, culta, que comentava." Creio que este tempo é o chamado antigamente. Esta dificuldade não é exclusiva do jornalismo. Antigamente era tudo melhor do que agora. E o pior é que este agora vai ser o antigamente de amanhã.

Costa prossegue: "Hoje, a coberto da confusão entre liberdade de opinar e a imunidade de insultar, essa profissão respeitável é degradada por desqualificados". As pessoas que, ao contrário de António Costa, não fizeram estudos superiores, costumam exprimir a mesma opinião mas com uma formulação ligeiramente diferente: "Andam para aí a confundir liberdade com libertinagem. Ao menos, antigamente havia respeito."

E António Costa acrescenta: "(...) que têm de recorrer ao insulto reles e cobarde para preencher as colunas que lhes estão reservadas." Esta, para mim, é a frase mais importante da mensagem, na medida em que desmente os que acusam Costa de pretender domesticar as opiniões publicadas na Imprensa. Nada mais falso. António Costa não é contra insultos. É apenas contra o insulto reles e cobarde. O secretário-geral do PS desafia o jornalista a dirigir-lhe insultos elevados e corajosos. Deseja injúrias sofisticadas, o que só lhe fica bem. Mas o jornalista tinha dito apenas que entregar a elaboração do programa do partido a um grupo de independentes revelava falta de coragem política. Isto, para Costa, é um insulto reles. O que significa que este candidato a primeiro-ministro nunca foi a uma feira, nunca esteve 20 minutos no trânsito, nunca foi ao futebol. Alguém precisa de conhecer o mundo.

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica e ilustração de João Fazenda publicadas na VISÃO 1157, de 7 de maio) | | Comente

Belém correspondents dinner

Considero um escândalo que o anterior primeiro-ministro, apesar de já não se encontrar em funções há cerca de quatro anos, continue a viver numa habitação paga pelo Estado português, com direito a alimentação

 


 

[Todos os anos, por esta altura, o presidente dos Estados Unidos organiza um jantar com os jornalistas que fazem a cobertura da Casa Branca e profere um discurso humorístico em que faz pouco dos jornalistas, dos outros políticos e de si mesmo. Esta é a minha proposta de discurso para o nosso presidente, se cá houvesse tradição semelhante. E se Cavaco fosse dotado da capacidade de rir.]

Boa noite. É um prazer estar na presença de jornalistas, especialmente em eventos como este, nos quais não podem fazer perguntas. Há uns anos fui mal interpretado, quando disse que perdia apenas cinco minutos por dia com os jornais. De facto, se perco cinco minutos a lê-los, por outro lado invisto bastante mais tempo a tentar colaborar colocando notícias, como ficou claro quando o meu assessor inventou aquela divertida história acerca de escutas no meu gabinete. A propósito, relembro o meu pedido para que se deixem de lado as tricas partidárias, porque isso afasta os cidadãos da política.

Aproveito a vossa presença para esclarecer também que, quando disse que havia limites para os sacrifícios que podiam ser pedidos às pessoas, tive o cuidado de não definir que limites eram esses. Foi por isso que não intervim quando o governo continuou a procurar esses limites. Trata-se de uma curiosidade científica, e a ciência, no nosso país, precisa muito de incentivo.

Gostaria também de dizer aos senhores jornalistas que vou propor algumas medidas de moralização da vida política. Por exemplo, considero um escândalo que o anterior primeiro-ministro, apesar de já não se encontrar em funções há cerca de quatro anos, continue a viver numa habitação paga pelo Estado português, com direito a alimentação. Estes privilégios têm de acabar.

Um pouco mais a sério, posso dizer-vos que considero absolutamente esfarrapada a desculpa avançada pela defesa de José Sócrates, segundo a qual o ex-primeiro-ministro pedia dinheiro emprestado em envelopes por não confiar nos bancos. Eu sou a prova viva de que se pode confiar até no BPN, onde as minhas acções valorizaram 150%.

Quero finalizar apelando uma vez mais aos compromissos. A estabilidade governativa é fundamental para o crescimento, como pode ser comprovado pelos últimos anos. Com uma maioria absoluta estável cresceu o desemprego, cresceu a dívida e cresceu o risco de pobreza.

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica e ilustração de João Fazenda publicadas na VISÃO 1156, de 30 de abril) | | Comente

Balança de candidatos

É preciso explicar que, de acordo com a lei, podem ser candidatos à Presidência da República todos os cidadãos portugueses maiores de 35 anos, mas não convém que se candidatem todos ao mesmo tempo

Alguém tem de fazer alguma coisa. Talvez a Comissão Nacional de Eleições (CNE) devesse emitir um comunicado. É preciso explicar que, de acordo com a lei, podem ser candidatos à Presidência da República todos os cidadãos portugueses maiores de 35 anos, mas não convém que se candidatem todos ao mesmo tempo. A nove meses das eleições, já temos uns dez candidatos declarados e outros tantos ponderando candidatura. No meu tempo não era assim. Normalmente, havia dois candidatos fortes apoiados pelos partidos do centro, um ou outro independente, um apalermado e o do PCP. Neste momento, há uma grande abundância de apalermados e independentes. É cedo para perceber quem são os candidatos apoiados pelos partidos do centro. E ainda falta o do PCP.

O facto de a Presidência da República atrair cada vez mais candidatos apalermados é muito difícil de compreender. Historicamente, o candidato apalermado nunca ganhou a eleição (se excluirmos as vitórias irrepetíveis do Almirante Américo Thomaz), pelo que a candidatura parece condenada à partida. Não digo que não seja útil haver um candidato apalermado, até para que se respeite a tradição. Mas um palerma faz mais efeito a solo. Acompanhado de outros palermas, vê a sua palermice diluída na dos outros. É por isso que eu ando quase sempre sozinho, ou acompanhado de pessoas claramente não-palermas. A CNE devia chamar à parte os candidatos apalermados e ter com eles uma conversa franca. Dizer-lhes que, sem menosprezar a palermice de cada um, que é realmente vasta, talvez devessem fazer uma reflexão e desistir em favor do mais apalermado.

Creio que seria mais vantajoso para todos se o actual modelo de eleição do presidente fosse substituído por um sistema de cupões. Não há nenhuma prova que indique que as escolhas produzidas por uma tômbola são menos acertadas do que as decisões tomadas em consciência pelo povo português. E é um tipo de sufrágio em que a sorte desempenha um papel importante. Já vai sendo altura de termos sorte numa eleição.
O grande benefício da profusão de candidatos é este: o Presidente da República sai-nos mais barato. Um superavit de candidaturas significa, segundo a lei da oferta e da procura, que o preço do candidato tende a cair. Com o Presidente que termina o mandato em Janeiro já não gastámos dinheiro em salários. É possível que, ao próximo, nem a reforma tenhamos de pagar.

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica publicada na VISÃO 1155, de 23 de abril) | | 1 comentário

Crítica de cinema

Creio que a vontade de imitar as práticas publicitadas no filme configura mesmo um caso de novo-riquismo sexual
Neste momento, o filme mais visto do ano, em Portugal, é Velocidade Furiosa 7. Acaba por ser uma homenagem póstuma bastante terna do povo português ao mestre Manoel de Oliveira, cuja ideia de cinema era permeada pela velocidade furiosa enquanto valor estético fundamental. A segunda película mais vista do ano é As 50 sombras de Grey, o que faz sentido: um filme é sobre sinistralidade rodoviária e outro é sobre violência doméstica - dois temas centrais na actualidade portuguesa. Confesso que não vi nenhum dos filmes, na medida em que aprecio condução segura e sexo, digamos, gandhiano. Sou pela não-violência no leito. Rejeito tudo o que vá além daquelas tradicionais formas de ternura bruta, produto do entusiasmo, a saber: a palmada firme mas suave e o apertão ameno. Gostaria, aliás, de aproveitar este espaço para lamentar que as pessoas que repudiam o tipo de sexualidade que se pratica em As 50 Sombras de Grey sejam com frequência reputadas de enfadonhas e pouco modernas. Levar uma bolachada parece-me claramente nocivo para a lubricidade não só porque se assemelha menos a uma manifestação de regozijo e mais a um castigo por um trabalho mal feito, mas também porque me transmite a sensação inquietante de estar na cama com Trinitá, o caubói insolente. Creio que a vontade de imitar as práticas publicitadas no filme configura mesmo um caso de novo-riquismo sexual. Por causa destas objecções ideológicas, prefiro debater ambas as películas sem proceder ao seu visionamento - que, na maior parte dos casos, só atrapalha.

O aspecto mais saliente da série Velocidade Furiosa - ao menos para quem, como eu, só assistiu aos trailers - é que não só é difícil distinguir os filmes entre si como é difícil distingui-los do grande prémio de Silverstone. Os actores praticam um estilo de condução extremamente ousado, excepto na estrada nacional 1, onde se considera que este modo de conduzir é próprio de choninhas que não andam nem deixam andar.

Quanto a As 50 Sombras de Grey, creio que se trata de um filme bastante irrealista, uma vez que um jovem milionário com aquele aspecto não se relaciona com uma rapariga daquelas. Relaciona-se com 17 raparigas daquelas.

Deve registar-se, no entanto, que Hollywood parece estar a produzir cinema baseado nos temas da sociedade portuguesa, pelo que devem esperar-se para breve películas sobre incêndios florestais e greves nos transportes. Cá estaremos para apreciar, com toda a atenção, os trailers

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1154, de 16 de abril | | Comente

Fluxo de inconsciência

Aguiar Branco justificou as suas declarações com um lapsus linguae. Não é uma desculpa aceitável. Trata-se, de facto, de um lapsus, mas a linguae não tem culpa nenhuma
"(...) até acho que, nesse aspecto, nessa coincidência, tem a felicidade de ser no mesmo momento em que outro grande português também nos deixa e por isso, nessa dimensão, é uma felicidade poder sê-lo e partilhar o momento com o mestre (...)."

José Pedro Aguiar Branco, sobre o facto de Silva Lopes ter morrido no mesmo dia de Manoel de Oliveira

Quando o ministro Aguiar Branco publicou um esclarecimento sobre estas declarações, dizendo que pretendia evitar que alguns fizessem uma utilização perversa das suas palavras, fiquei muito surpreendido. Normalmente, sou dos primeiros a fazer utilizações perversas das palavras alheias, mas só quando as compreendo. O potencial de utilização perversa desta frase (digamos assim) tinha-me passado despercebido, uma vez que, nesse aspecto, nessa coincidência, nessa dimensão, eu não fazia ideia do que ele estava a falar. Avisado por Aguiar Branco, fui então reexaminar as afirmações de Aguiar Branco, e julgo estar neste momento em condições de fazer uma utilização perversa, quer das palavras iniciais, quer do esclarecimento publicado a seguir.

Aguiar Branco justificou as suas declarações com um lapsus linguae. Não é uma desculpa aceitável. Trata-se, de facto, de um lapsus, mas a linguae não tem culpa nenhuma. Um lapsus linguae é, por exemplo, dizer "na praça vou ao domingo" em vez de "no domingo vou à praça". Aquela algaraviada sobre a felicidade da coincidência de um grande português que pode sê-lo também por isso no mesmo momento, não é um lapsus linguae. Creio que se trata do modo narrativo conhecido por fluxo de consciência, em que são reproduzidas as complexidades do processo mental das personagens. O fluxo de Aguiar Branco é particularmente torrencial, pelo que, como é óbvio, estilhaça as regras da sintaxe. Comparado com o pensamento de Aguiar Branco, o de Benjy Compson* é organizado e límpido. Ainda assim, é possível recolher, na estranha amálgama de vocábulos proferida pelo ministro, três magníficos conceitos novos.

O primeiro conceito é o do óbito sincronizado. Aguiar Branco assinala, e bem, a coincidência de terem morrido duas pessoas no mesmo dia. Esse acaso é, para o ministro, uma felicidade. Esta hipótese de encontrar felicidade num momento que, até aqui, se considerava ser pouco feliz, pode levar a que as pessoas pretendam sincronizar o seu óbito com o de figuras que admiram, buscando felicidade idêntica.

O segundo conceito é o do falecimento de prestígio. Está ligado ao óbito sincronizado, na medida em que o prestígio advém da coincidência dos óbitos, mas aprofunda a relação entre os dois finados, uma vez que um, além da felicidade que proporciona ao outro, ainda lhe confere uma notoriedade adicional.

O último conceito é o do defunto pendura. Não se pode ignorar que, neste jogo de passamentos, há um defunto mais prestigiado que dá uma boleia de status ao outro, a caminho da eternidade. Quando pensávamos que a morte nos torna iguais uns aos outros, Aguiar Branco consegue descobrir ainda um restinho de desigualdade, uma pole position rumo ao infinito.

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1153, de 9 de abril | | Comente

Aspectos da poesia de louvor a José Sócrates

Trata-se de uma poesia que lamenta não ter acesso a processos judiciais, o que é bastante original
Após a publicação do segundo hino de homenagem a José Sócrates, os principais observadores chegaram a algumas conclusões interessantes. A primeira, e mais evidente, foi esta: entre os maiores apoiantes do antigo primeiro-ministro, não há ninguém com ouvido para a música. Creio que talvez haja aqui uma precipitação. Na minha opinião, a desarmonia de ambas as canções pretende obter um efeito duplo: colocar em evidência o carácter também desarmónico da justiça portuguesa e infligir ao ouvinte um sofrimento semelhante ao que José Sócrates padece no cárcere. No segundo hino, os versos "se quiseres dizer presente / Portugal vai estar contigo / amanhã" parecem ser interpretados por um tecido de vozes que inclui um apreciador contumaz de bagaceiras, duas feirantes e um coro de, pelo menos, meia dúzia de leitões.

Nestes hinos de homenagem, a poesia é ainda mais interessante do que a música. O poema do primeiro hino é, à maneira de Neruda, uma canção desesperada. O poeta começa por interpelar o próprio Sócrates: "Diz-me porquê, diz-me / Nós não sabemos nada". Trata-se de uma poesia que lamenta não ter acesso a processos judiciais, o que é bastante original. Estamos perante um poema que substitui as perguntas, já estafadas, da poesia lírica (por exemplo: "Qual é a essência do amor?"), por uma questão que mergulha nos problemas concretos da vida ("Quais são, afinal, os fundamentos legais desta prisão preventiva?") A primeira quadra termina com a promessa "Mas resistiremos por ti / Até que seja madrugada", indicando que os apoiantes de Sócrates têm coisas combinadas para a manhã do dia seguinte. Resistem até de madrugada, mas depois, provavelmente, têm de ir trabalhar - o que volta a introduzir no poema um tom prosaico, lembrando uma vez mais que estamos a falar de gente de carne e osso, que sofre, trabalha e canta francamente mal. Mais à frente, surge um verso irónico: "Ser livre não tem preço". Uma evidente referência à liberdade de Ricardo Salgado, cujo preço foi, precisamente, três milhões de euros.

No segundo hino, o poema conta uma história: "Era uma vez uma criança / que sonhava ver nos montes ventoinhas a rodar". O poeta leva-nos para a infância de Sócrates, um menino que, como tantos, fantasiava com a instalação de dispositivos geradores de energias alternativas. A intenção do poema é óbvia: os projectos de José Sócrates foram sonhados na infância, e nenhuma criança sonha com corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais. O ex-primeiro-ministro continua a ser aquele menino, o que agrava o sentimento de injustiça relativamente à sua detenção. Não se pune um menino com a prisão. Orelhas de burro talvez sejam um castigo apropriado. Uma palmada, no máximo. É curioso notar que este menino venceu, nas eleições, outro menino, o menino guerreiro. Portugal é uma brincadeira de crianças. Isto de alguém acabar preso é uma novidade que sobressalta. Não admira que os poetas se agitem.

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1152, de 2 de abril | | 3 comentários

Acordar do sonho de mulher

"Pretty Woman" é protagonizado por duas pessoas: uma exerce uma actividade profissional moralmente duvidosa; a outra é uma prostituta

Celebra-se esta semana o 25.º aniversário da película "Pretty Woman", com Julia Roberts e Richard Gere. Muitas vezes descrito como uma comédia romântica, o filme é, em muitos aspectos, uma obra de ficção científica. "Pretty Woman" é protagonizado por duas pessoas: uma exerce uma actividade profissional moralmente duvidosa; a outra é uma prostituta. No entanto, a prostituta sofre maior discriminação social do que o empresário que ganha a vida a fechar empresas e a despedir pessoas.

O primeiro facto fantasioso não é esse. O filme começa com um homem a parar o carro para pedir indicações a uma mulher. Comparada com isto, a Guerra das Estrelas é mais realista que Flaubert. Poucos homens param para pedir indicações, e os que o fazem não pedem indicações a mulheres, como é evidente. É um facto cientificamente comprovado que as mulheres não sabem orientar-se na estrada.

O segundo facto incrível é este: a prostituta, que tem a aparência da maior estrela de Hollywood e cobra 100 euros à hora, não tem dinheiro para pagar a renda do pardieiro em que vive. Percebemos imediatamente que se trata da prostituta mais casta da história da prostituição. Fica claro que o príncipe encantado (o psicopata social que destrói postos de trabalho) vai acabar por casar com ela, na medida em que só poderia apaixonar-se por uma prostituta se ela não fosse demasiado prostituta. Esta prostituta é apenas um bocadinho prostituta, pelo que ainda pode aspirar viver um conto de fadas. Em certo ponto do filme, a prostituta dirige-se para a casa de banho com qualquer coisa escondida na mão. O exterminador da classe operária intercepta-a e diz-lhe que não admite que ela consuma drogas. Ela abre a mão e dá--se um milagre. Não é droga. É fio dental, senhor. As outras prostitutas não são muito lindas, nem cuidam tanto da saúde das gengivas, pelo que merecem andar na vida.

Terceiro facto extraordinário: a prostituta é escorraçada de uma loja cara, em Beverly Hills, por estar vestida de galdéria. Ora, se as lojas caras de Beverly Hills escorraçassem as clientes que se vestem de galdéria, as irmãs Kardashian não compravam roupa desde 1985. Quase todas as artistas que integram o mundo do espectáculo norte-americano andavam nuas. Há que ter cuidado com estes filmes: uma coisa é ficção científica, outra é o absurdo infrene.

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1151, de 26 de março | | 3 comentários

Isto não é maneira de abominar jornalistas

Não pretendo ser o paladino da boa abominação de jornalistas, mas creio que não é assim que se abomina um jornalista
Eu abomino jornalistas. Trata-se de uma abominação digna, justa e sensata. Há vários motivos para abominar jornalistas e o mais recente talvez seja a admiração que dedicam às chamadas redes sociais. Tudo o que se diz nas redes sociais é notável, ao contrário do que se diz, por exemplo, em snack-bares. As pessoas também dizem coisas em snack-bares. Normalmente, as mesmas coisas que se dizem nas redes sociais, o que é curioso. No entanto, os jornalistas nunca tomaram o pulso aos snack-bares. Nunca noticiaram: "Tal caso está a gerar polémica nos snack-bares." Talvez porque seja impossível saber o que se diz em todos os snack-bares. No entanto, também há milhares de milhões de utilizadores de redes sociais, pelo que custa a crer que seja possível saber qual é a opinião das redes sociais. Em princípio, estão lá todas as opiniões possíveis. Provavelmente por razões de deslumbramento tecnológico, atitudes de snack-bar, quando tomadas em redes sociais, ganham, para os jornalistas, outra credibilidade. Digo que são atitudes de snack-bar porque, tal como no snack-bar, nas redes sociais também não há conversas em voz baixa - circunstância que os próprios jornalistas reconhecem. Eis um apanhado das últimas notícias sobre o que se passa nas redes sociais: "Polémica com Dolce e Gabbana incendeia redes sociais", "Está esclarecida a polémica que incendiou as redes sociais. O cachecol de Varoufakis é mais velho que a crise", "Post de assessora de congressista americano incendiou as redes sociais", "Irmã de Neymar incendeia as redes sociais", "Este é o vestido que incendiou as redes sociais", "Etiqueta de roupa da marca indonésia Salvo Sports incendiou as redes sociais", "Várias personalidades negras de Hollywood entregaram prémios nos Oscars, pormenor que incendiou as redes sociais", "'Era tudo maquilhagem', diz Uma Thurman sobre a polémica que rapidamente incendiou as redes sociais", "Gustavo Santos voltou a criticar o 'Charlie Hebdo', depois de um post no facebook que incendiou as redes sociais". Pelos vistos, um incêndio perpétuo (semelhante ao do inferno mas, provavelmente, mais intenso) lavra nas redes sociais. Uma turba agita-se para lapidar opiniões, comentários e peças de roupa. E os jornalistas vão atrás, para contabilizar o número de pedras arremessadas. Aqui está uma bonita abominação, devidamente justificada.

João Araújo, advogado de Sócrates, disse a uma jornalista que "devia tomar mais banho", uma vez que "cheira mal". Não pretendo ser o paladino da boa abominação de jornalistas, mas creio que não é assim que se abomina um jornalista. Tenho muitas dúvidas acerca da introdução de considerações olfactivas no debate público. Primeiro, porque é difícil de provar: na ausência de uma auditoria independente aos sovacos da jornalista, ficamos sem saber se João Araújo é mentiroso ou apenas inconveniente. Segundo, porque abre terreno a observações de outro tipo, baseadas em impressões captadas pelos outros quatro sentidos. "A sr.ª jornalista está muito áspera. É desagradável ao toque" ou "A sr.ª jornalista tem um sabor amargo" são declarações possíveis, a partir de agora, e não creio que enriqueçam a discussão. Terceiro, porque nada impede a jornalista de produzir apreciações do mesmo teor, a mais óbvia das quais será: "Sim, mas o sr. dr. faz lembrar um sapo." Não posso, por isso, deixar de condenar uma abominação de jornalistas baseada no seu odor, aspecto, som, macieza ou sabor. Fazê-lo é dar mau nome à abominação de jornalistas.

A propósito, escuso de dizer que este caso incendiou as redes sociais. Desconheço se incendiou os snack-bares.

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1150, de 19 de março | | 5 comentários

Agradeço o convite mas declino

Além de definir o perfil do próximo Presidente, Cavaco devia ter aproveitado para definir o perfil dos cidadãos que vão elegê-lo
De acordo com a Constituição, "são elegíveis para a Presidência da República os cidadãos eleitores, portugueses de origem, maiores de 35 anos". No entanto, de acordo com Cavaco Silva, o próximo Presidente deve ser uma pessoa com experiência em política externa. Esta revisão constitucional feita informalmente por Cavaco reduz bastante o leque de possíveis candidatos, e acaba por cingir a corrida a apenas três nomes: Durão Barroso, António Guterres e eu. O currículo dos candidatos impressiona: Barroso foi presidente da comissão europeia entre 2004 e 2014; Guterres é, desde 2005, alto comissário das Nações Unidas para os refugiados; e eu negociei, em Badajoz, na primavera de 2009, o preço de um saco de caramelos que, embora tivesse uma etiqueta indicando o preço de 90 cêntimos, assinalava na caixa o valor de um euro e meio. As negociações foram duras, mas eu soube defender os interesses de Portugal no quadro das regras definidas pelo direito internacional: mantendo presente que a carta das Nações Unidas proíbe a agressão armada excepto em caso de legítima defesa, usei de meios pacíficos para obter o acordo que melhor servisse o nosso país, e orgulho-me de poder hoje dizer que acabei por trazer o saco por apenas um euro e 20. Quem conhece a fundo o trabalho de Barroso e Guterres, só por má vontade deixará de reconhecer que nenhum deles trouxe para o nosso país, no âmbito da actividade internacional que desenvolveram, lucros que possam sequer aproximar-se do valor de um saco de caramelos.

Pelo que acabei de referir, concordo com a perspectiva de Cavaco Silva acerca do seu sucessor, mas creio que o Presidente podia ter ido mais longe. Além de definir o perfil do próximo Presidente, Cavaco devia ter aproveitado para definir o perfil dos cidadãos que vão elegê-lo. Não serve de nada apontar um caminho e depois deixar nas mãos de gente sem sensibilidade política uma escolha tão importante. Creio que os eleitores do próximo Presidente da República também deviam ser pessoas com alguma experiência em política externa. Pessoas sem experiência em política externa tendem a não compreender todo o alcance do trabalho realizado pelos especialistas em política externa, e por isso deviam ser impedidas de votar.

Uma vez que não quero alimentar tabus, e apesar do que ficou exposto acima, devo dizer que, apesar da indigitação discreta de Cavaco Silva, não serei candidato às próximas eleições presidenciais. Tal como Cavaco, eu também desdenho do valor do salário auferido pelo Presidente da República, e não tenho ainda reformas que me permitam ocupar o cargo com a dignidade que tanto eu como Portugal merecemos. E além disso já tenho coisas combinadas para 2016.

Ricardo Araújo Pereira | | 12 comentários
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