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Carta a José Sócrates

O facto de um amigo lhe ter disponibilizado um apartamento de 225 metros quadrados em Paris fez com que o Ministério Público lhe disponibilizasse um apartamento de 9 metros quadrados em Évora. Obrigam-no a aceitar aquilo que o acusam de ter aceitado

Caro eng. José Sócrates,

Espero que esta o encontre bem. Li com atenção as suas cartas e foi apenas por falta de tempo que não respondi mais depressa. Lembro-me de, no fim do liceu, ter mantido alguma correspondência com antigos colegas mas, por uma razão ou por outra, a troca de cartas foi-se tornando cada vez mais rara, até que parou completamente. Não gostaria de cometer esse erro outra vez. Parece-me importante manter o contacto com as pessoas do nosso passado, como antigos colegas e antigos primeiros-ministros.

Tenho pensado bastante nas observações que vai fazendo. Esta última carta sensibilizou-me especialmente, na medida em que criticava a cobardia dos políticos, a cumplicidade dos jornalistas, o cinismo dos professores de Direito e o desprezo das pessoas decentes. Como creio que sabe, não pertenço a nenhuma das categorias citadas, e por isso fui deixado de fora do seu olhar crítico, pelo que lhe agradeço.

As críticas que faz ao funcionamento da justiça parecem-me muito pertinentes. Portugal precisava que um homem como o sr. estivesse, digamos, sete anos à frente do Governo, talvez quatro dos quais com maioria absoluta, para fazer uma reforma séria do sistema judicial. É uma pena não termos essa possibilidade. Na minha opinião, os primeiros-ministros deviam ser presos antes, e não depois dos mandatos. Estagiavam durante dois meses numa cadeia, três num hospital e um semestre numa escola. O contacto directo com a realidade dá-nos perspectivas novas, mais informadas, e acirra o ímpeto reformista.

Julgo que é possível estabelecer um paralelo entre o processo de Josef K., a personagem de Kafka, e o de José Sócrates, ou Josef S. - sendo que a sua história é mais complexa: tanto Josef K. como Josef S. se vêem confrontados com decisões judiciais autoritárias e, em certos aspectos, até grotescas, mas Josef K. nunca teve amigos como Alberto Martins e Alberto Costa a tutelar a justiça, nem governou o seu país. Era apenas vítima. Ser simultaneamente vítima e carrasco deve ser mais perturbador. Ao contrário do que muitas vezes se diz, Joseph-Ignace Guillotin, o inventor da guilhotina, não foi guilhotinado. Essa ironia foi reservada para si, que é agora acusado por um sistema que ajudou a conceber e conservar.

Compreendo quase todas as suas queixas. Na verdade, a ironia que identifiquei acima não é a única do seu caso. Ao que parece, o facto de um amigo lhe ter disponibilizado um apartamento de 225 metros quadrados em Paris fez com que o Ministério Público lhe disponibilizasse um apartamento de 9 metros quadrados em Évora. Obrigam-no a aceitar aquilo que o acusam de ter aceitado. É duro. E irónico. Uma pessoa tolera tudo, menos figuras de estilo.

Considero, no entanto, que algumas das suas análises são menos acertadas. Por exemplo, quando diz, sobre a intenção da prisão preventiva: "(...) já não és um cidadão face às instituições; és um 'recluso' que enfrenta as 'autoridades': a tua palavra já não vale o mesmo que a nossa." Aqui para nós, se lhe roubaram o valor da palavra não terão levado grande tesouro, uma vez que a sua palavra já não valia o mesmo que a nossa desde aquela promessa dos 150 mil empregos.

Espero que não leve a mal esta franqueza. Estou certo de que voltaremos a falar.

Cumprimentos,

Ricardo

 

Ricardo Araújo Pereira | | 25 comentários

As diferenças entre José Sócrates e uma sobremesa

Quando o assunto é José Sócrates, quase ninguém prescinde de registar uma declaração de interesses afectivos

Clara Ferreira Alves, Expresso, 22 de Novembro: "(...) não gosto de José Sócrates. Nem desgosto. Sou indiferente à personagem." Sérgio Figueiredo, Diário de Notícias, 24 de Novembro: "Gosto de Sócrates". Pedro d'Anunciação, Sol, 26 de Novembro: "(...) não se pense que eu simpatizo especialmente com Sócrates." António Cunha Vaz, Diário de Notícias (Madeira), 27 de Novembro: "Não gosto mesmo de Sócrates." Vasco Pulido Valente, Público, 28 de Novembro: "Nunca gostei da personagem política José Sócrates". Pedro Marta Santos, Sábado (online), 28 de Novembro: "Não gosto do político José Sócrates." Elina Fraga, 29 de Novembro: "Posso odiar Sócrates, mas tenho de me bater para que ele beneficie do direito de se defender." Teresa de Sousa, Público, 30 de Novembro: "Não gosto nem desgosto de Sócrates."

A este levantamento faltam muitas declarações feitas em órgãos de comunicação social e ainda mais declarações feitas no âmbito de conversas mantidas em snack-bares. Quando o assunto é José Sócrates, quase ninguém prescinde de registar uma declaração de interesses afectivos. O facto de esta declaração de interesses não ter interesse nenhum é muito interessante. Sócrates foi detido e acusado de crimes graves, e vai ser julgado por isso. A afeição que uns lhe têm e outros deixam de ter é irrelevante. O que está em causa aqui não é a prática política (que já foi julgada em 2005, 2009 e 2011) nem a personalidade (para a qual, felizmente, não há tribunais, caso contrário eu estaria há muitos anos na Carregueira). A sentença é independente da simpatia ou antipatia que um réu desperta. Há criminosos que são seres humanos adoráveis (nos filmes, é raro haver um recluso que não seja encantador), e há péssimas pessoas que nunca praticaram ilegalidades. Ser simpático não livra ninguém da cadeia, e ser um energúmeno não é ilegal (e ainda bem, caso contrário eu estaria há muitos anos na Carregueira).

Mas o mais interessante é a excepcionalidade desta manifestação maciça de amor e desamor. Não ocorre a ninguém dizer o mesmo de outros réus ("não se pense que eu simpatizo especialmente com Manuel Palito"), nem mesmo de outros antigos políticos que são agora réus ("posso odiar Duarte Lima, mas tenho de me bater para que ele beneficie do direito de se defender"). Na verdade, ninguém odeia Duarte Lima. Nem mesmo os que já o ouviram tocar órgão. E também ninguém ama Duarte Lima. Sobretudo os que já o ouviram tocar órgão. Mas José Sócrates, ao que parece, conseguiu penetrar no universo dos afectos. Não no meu, devo dizer. Guardo a minha afeição para um conjunto de coisas realmente importantes, ao qual não pertencem actuais ou antigos primeiros-ministros. Eu gosto, por exemplo, de arroz doce. Mas não se pense que simpatizo especialmente com gelatina. No entanto, se uma taça de gelatina ou um prato de arroz doce forem acusados de corrupção, branqueamento de capitais e burla agravada, espero que tenham um julgamento justo. Não virei para a rua gritar que o arroz doce é inocente e que a gelatina nunca me enganou.

Ricardo Araújo Pereira | | 9 comentários

Rouba e não faz

A confirmar-se a acusação, José Sócrates tem 25 milhões de euros e, no entanto, vive da caridade dos amigos e viaja em económica. Afinal sempre há um português que vive abaixo das suas possibilidades. Um exemplo a seguir,portanto

Se José Sócrates for culpado do que o acusam é o maior génio do crime desde o professor Moriarty. Aquilo a que se costuma chamar um mestre da dissimulação. Eu já vi vários advogados de indivíduos que possuem 25 milhões de euros e não se parecem em nada com o patusco causídico que o antigo primeiro-ministro contratou. Estamos perante um nível de patusquicidade mesmo muito elevado. É o advogado ideal para milionários que desejam esconder a fortuna.

As outras aplicações do alegado dinheiro alegadamente obtido através de alegada corrupção também são desconcertantes. Gostava de propor um teste aos leitores. Coloquem-se no alegado lugar de José Sócrates e completem a seguinte frase: "Bom, agora que tenho 50 anos, vou aproveitar os vários milhões de euros que obtive ilegalmente para..." Quantos preencheram o espaço vazio com a expressão "... escrever uma aborrecida tese de 200 páginas sobre a prática da tortura no âmbito das sociedades democráticas"? Que repugnante corrupção é esta que desperdiça o dinheiro sujo na academia? Onde estão as jovens bailarinas de clubes nocturnos, o barco, o champanhe, os charutos acendidos com notas de banco? Que diabo, eu ganhei muito menos dinheiro muito mais honradamente e mesmo assim levo uma vida bastante mais dissoluta. Hoje em dia, com o acesso que temos ao que se passa pelo mundo, não há razão nenhuma para não se praticar uma corrupção bonita, moderna, com um investimento consistente em devassidão e álcool. Esbanjar dinheiro ilícito no desenvolvimento pessoal é francamente decepcionante.

O próprio alegado esquema é triste, na medida em que envolve um motorista que funciona como multibanco, um amigo que funciona como offshore e uma mãe que funciona como agente imobiliária.

Se é para continuarmos a precisar de pedir dinheiro à mãe e aos amigos, mais vale não entrar no mundo do crime. A criminalidade costuma ter a virtude de garantir ao criminoso uma certa independência financeira, que sempre enobrece.

Não é o caso, aqui.

Tudo isto faz com que, se o ex-primeiro-ministro for culpado, o regime não esteja em perigo, ao contrário do que se tem dito. A confirmar-se a acusação, José Sócrates tem 25 milhões de euros e, no entanto, vive da caridade dos amigos e viaja em económica. Afinal sempre há um português que vive abaixo das suas possibilidades. Um exemplo a seguir, portanto.

Ricardo Araújo Pereira | | 26 comentários

Falcatrua spotting

Sempre que uma falcatrua é conhecida, alguns portugueses indignados perguntam: "É neste país que queremos viver?" Inúmeros chineses endinheirados respondem: "Sim, se faz favor"

Na véspera do início da comissão de inquérito parlamentar às falcatruas do caso BES, Miguel Macedo demitiu-se por causa das falcatruas do caso dos vistos gold. São tempos maravilhosos para quem aprecia falcatruas. Uma falcatrua pode levar apenas cinco minutos a fazer, mas leva anos a investigar e, normalmente, arquivar. Por falta de oportunidade, infelizmente não tenho podido usufruir de tantas falcatruas quanto gostaria, mas a simples observação de falcatruas costuma ser suficientemente compensadora.

A demissão do ministro coloca alguns problemas interessantes ao observador de falcatruas. De acordo com o Expresso, alguns arguidos são "amigos pessoais" de Miguel Macedo. Tenho constatado que, de todos os tipos de amigo que é possível ter, o amigo pessoal é, sem dúvida nenhuma, dos mais nocivos. Se o ministro fosse amigo colectivo de alguns arguidos, ou se fosse apenas amigo institucional de outros, talvez a demissão não fosse inevitável. Mas a amizade pessoal costuma vincular o amigo ao autor da falcatrua. A questão que se coloca é a seguinte: podemos exigir a um ministro que não tenha, entre os seus amigos (pessoais ou outros), autores de falcatruas? Percebo que se impeça um autor de falcatruas de chegar a ministro, mas proibir que um ministro seja amigo de burlões já me parece excesso de zelo. Além de que torna quase impossível nomear um ministro. Só misantropos com muita sorte podem aceder ao cargo. A teoria dos seis graus de separação sustenta que quaisquer duas pessoas estão separadas apenas por seis ou menos laços de amizade. Creio que é possível reduzir para metade os graus de separação entre qualquer português e um vigarista.

Outro problema é político. Uma das razões para adquirir o visto gold é a possibilidade de vir para um país que não incomoda os autores de falcatruas. Se os autores de falcatruas começam a ser presos, e até os seus amigos são forçados a demitir-se, não são apenas os vistos gold que perdem valor, é Portugal que deixa de fazer sentido. Sempre que uma falcatrua é conhecida, alguns portugueses indignados perguntam: "É neste país que queremos viver?" Inúmeros chineses endinheirados respondem: "Sim, se faz favor." Esperemos que este percalço não os faça mudar de ideias.

Ricardo Araújo Pereira | | 17 comentários

Freitas Lobo com pele de Freitas Cordeiro

ão só se pode tentar descobrir no futebol a poesia de Sheakespeare como se deve procurar descortinar, em cada jogada, as ideias de Immanuel Kent, as teorias de Albert Einstoin ou o traço de Salvador Dalú

Como amante de poesia e de futebol, confesso que temi o pior quando Luís Freitas Lobo introduziu a poesia no comentário de futebol. Mesmo sendo má poesia, era poesia, e o meu conceito de futebol exclui qualquer espécie de lirismo. Para mim, o futebol é melhor quando se aproxima dos jogos que os miúdos jogam na rua, com duas pedras a fazer de baliza. Joguei muitas vezes assim e nunca me ocorreu dizer "Carlitos, a maneira como fintaste o Fernandinho fez-me lembrar aquele soneto do Wordsworth sobre o materialismo da sociedade industrial."

Acompanho com muito interesse as experiências linguísticas do comentário desportivo, e deve registar-se que Freitas Lobo tem contribuído para a consolidação de todos os grandes lugares-comuns sintácticos. É, por exemplo, um ilustre cultor da nova moda que consiste em falar com o verbo no infinitivo. Dá gosto ouvi-lo declarar: "Em primeiro lugar, dizer que Minhoca fez um grande jogo pelo Paços de Ferreira", ou "Antes de mais nada, dedicar este comentário a quem ama verdadeiramente o futebol."

O problema é quando Freitas Lobo resolve ser original. A sua mais recente inovação poética consiste na aplicação da seguinte fórmula: "O [inserir nome de jogador] é um [inserir metáfora] em forma de jogador de futebol." Alguns exemplos célebres são "Ribery é uma carraça em forma de jogador de futebol", "Rooney é um pugilista em forma de jogador de futebol", "Matuidi é um alicate em forma de jogador de futebol", "Pastore é uma pantera cor-de-rosa em forma de jogador de futebol", "Mangala é um arranha-céus em forma de jogador de futebol", "Michu é uma espécie de bip-bip a fugir do coiote em forma de jogador de futebol", "Giovinco é um rato em forma de jogador de futebol", "Caetano é uma pulga amarela em forma de jogador de futebol" e o complexo "Messi é uma pulga disfarçada de ET em forma de jogador de futebol". Há um método infalível para determinar se o discurso de um comentador desportivo ultrapassou o nível aceitável de ridículo: trata-se de verificar se o modo como se expressa permeou o discurso do café. Hoje, por esses snack-bares fora, toda a gente fala em conceitos anteriormente desconhecidos, como transições, exploração do espaço entre linhas, duplo pivot. Mas nenhum frequentador de tascas diz para outro: "Ó Vítor, este Marcelinho é um ferro de engomar com termóstato ajustável em forma de jogador de futebol." A minha preocupação aumentou quando vi o próprio Freitas Lobo confessar, na contracapa de um livro, que tinha como objectivo "descobrir Sheakespeare em Bobby Charlton". Nem o facto de Shakespeare estar mal escrito me sossegou: este homem queria mesmo estragar o futebol com alta cultura, e não seria uma gralha a redimi-lo. Foi então que encontrei, na página oficial de facebook de Freitas Lobo, outra referência a Sheakepeare. E outra ainda no perfil do comentador no sítio da sua editora. Afinal é mesmo de Sheakespeare que estamos a falar. Ora, enquanto Shakespeare não tem lugar na tasca, Sheakespeare, pelo contrário, é bem-vindo. Não só se pode tentar descobrir no futebol a poesia de Sheakespeare como se deve procurar descortinar, em cada jogada, as ideias de Immanuel Kent, as teorias de Albert Einstoin ou o traço de Salvador Dalú.

A discussão de café é mais livre. Há menos regras, como no futebol de rua. "E o resto é silêncio", como diz Hamlet. Ou, neste caso, Heamlet.

Ricardo Araújo Pereira | | 20 comentários

Crianças ultracongeladas

O Facebook tem 1,32 mil milhões de utilizadores, e muitos deles querem fazer like em frases inspiradoras ilustradas por fotos do pôr-do-sol, projecto que não conseguirão levar a cabo se as funcionárias da empresa desatarem a ter uma vida normal
Empresas como o Facebook estão a oferecer-se para pagar a congelação de óvulos às funcionárias, para que elas possam dedicar-se à carreira, adiando a maternidade. O Facebook tem 1,32 mil milhões de utilizadores, e muitos deles querem fazer like em frases inspiradoras ilustradas por fotos do pôr-do-sol, projecto que não conseguirão levar a cabo se as funcionárias da empresa desatarem a ter uma vida normal. Assim, quando elas quiserem ter filhos, já depois de terem desenvolvido algoritmos suficientes - ou lá o que se faz no Facebook - terão o óvulo fresquinho à sua espera. No entanto, uma vez que, do ponto de vista das empresas, nenhuma altura é oportuna para ter filhos, talvez o melhor seja guardar os óvulos no congelador até à reforma. Aos 65 anos, a funcionária poderá, então, incubar o filho sem prejuízo para o seu empregador, e com óbvias vantagens para si: tem tempo para dedicar à criança, sabedoria acumulada para lhe transmitir, e talvez não viva o suficiente para a ver chegar à adolescência, que é uma idade tão parva.

Há outra hipótese. Gostaria de sugeri-la. As funcionárias engravidam quando lhes apetecer (peço a vossa tolerância para uma ideia tão lunática). Mas, para que a empresa não fique prejudicada pela sua ausência, entregam o óvulo fecundado a uma barriga de aluguer. Esta ideia não é original. O Facebook também se oferece para financiar barrigas de aluguer. Onde eu inovo é neste ponto: proponho que essa barriga seja a do próprio Mark Zuckerberg. Desse modo, a funcionária não abdica da carreira e ainda pode acompanhar o crescimento do seu bebé todos os dias. Basta-lhe bater à porta do gabinete do presidente da empresa. Em 2009, uma americana deu à luz oito gémeos. Creio que Zuckerberg também tem condições para fazer germinar oito crianças no seu bandulho, e assim produzir até 32 crianças a cada 3 anos. Assim, mostraria que a sua empresa está realmente empenhada em impedir que a maternidade prejudique a carreira das suas funcionárias. Seria também uma mudança refrescante no mundo do trabalho: há, por essas empresas, tantos patrões que engravidam as funcionárias, que acaba por ser apenas justo que, ao menos uma vez, haja funcionárias que engravidam o patrão.

Crónica publicada na VISÃO 1131, de 6 de novembro | | 11 comentários

Sobre cães e gatos

Os cães são crianças, os gatos são filhos adolescentes: também nos amam, embora com alguma relutância, acham mesmo que são independentes, e às vezes estão escondidos num armário. É a adolescência sem tirar nem pôr

O lado A tem aquela canção chamada Portugal Ressuscitado. Toca o refrão e eu choro, é certinho. "Agora o povo unido nunca mais será vencido." A crença em ideias tão obviamente falsas sempre me emocionou muito. No lado B está a Canção Combate, sobre a coragem do povo português. A própria canção é poeticamente corajosa, uma vez que rima "A PIDE agora já não nos persegue" com "E já cá canta o Manuel Alegre". Antes da música, Ary dos Santos declama um soneto dedicado a todos os antifascistas mortos pela PIDE. Primeiro, os agentes da polícia política aparecem designados como feras, mas depois o poeta corrige: "Feras é demais. Apenas hienas. Tão pútridas, tão fétidas, tão cães." Alto. Tão cães? Cão é adjectivo? E dos que ofendem? Os cães são um bocadinho porcos e razoavelmente burros (eu sei, porque tenho quatro), mas ainda assim não merecem ser comparados a agentes da PIDE. De onde vem a má reputação dos cães? Nos livros, aparecem quase só para morrer. A Baleia do Graciliano Ramos leva um tiro. O Argos de Ulisses espera pelo dono durante 20 anos e morre assim que satisfaz o desejo de o ver. Os gatos, por outro lado, têm um prestígio literário impecável. Mário-Henrique Leiria dedica um livro "ao gato Benevides" que, diz ele, lhe deu "tremendas lições de dignidade". Nem o Cheshire Cat da Alice nem o gatarrão amigo do diabo em Margarita e o Mestre levam um tiro. Anda por aí um famoso espectáculo musical sobre gatos. Os gatos são protagonistas sofisticados, os cães são palermas sem classe.

Quando, há pouco tempo, passei a ter um gato, comecei a perceber a razão do fascínio. De facto, é um bicho que nos despreza de uma forma muito elegante.

Está evidentemente convencido da sua superioridade em relação a nós e é capaz de ter razão. Mas continuo firme no meu entusiasmo em relação aos cães.

Os gatos sabem qualquer coisa; os cães são tão estúpidos como eu o que lhes dá um encanto muito especial. Os gatos parecem ter uma informação importante acerca do que é isto de estar vivo; os cães não fazem ideia do que andam aqui a fazer.

Acham quase tudo espantoso e não têm vergonha desse maravilhamento constante, apesar de ser tão parecido com estupidez.

Os cães são crianças, os gatos são filhos adolescentes: também nos amam, embora com alguma relutância, acham mesmo que são independentes, e às vezes estão escondidos num armário. É a adolescência sem tirar nem pôr.

Ricardo Araújo Pereira | | 10 comentários

Declaração

Mais se declara que, durante a adolescência, o declarante tinha um amigo chamado Vítor cuja mãe, na altura contando 52 anos, era bem boa

Para os devidos efeitos, declara-se que Ricardo Artur de Araújo Pereira, nascido em Lisboa a 28 de Abril de 1974, já é, e tenciona continuar a ser, aquilo a que se chama, na língua inglesa, um "dirty old man", expressão que, vertida para o nosso idioma, designa um homem de meia-idade ou de idade avançada que manifesta forte inclinação para a lascívia. Tendo em conta a sua firme vontade de continuar a abraçar uma vida de devassidão na velhice, o declarante vem, por este meio, requerer a compreensão do Supremo Tribunal Administrativo para que lhe seja concedida imunidade relativamente a decisões como a que vem expressa no recente acórdão em que aquele tribunal reduziu substancialmente a indemnização devida a uma mulher de 50 anos por, naquela idade, a actividade sexual não ter "a importância que assume em idades mais jovens". Conforme expresso acima, o declarante pretende ser um dirty old man, projecto que é impossível de concretizar antes de o declarante ser, digamos, old. Por esse motivo, a actividade sexual do declarante é mais importante precisamente a partir dos 50.

O declarante recorda que não pertence àquele número de cidadãos cuja sexualidade serve apenas o propósito da procriação e por isso é evidentemente dispensável a partir dos 50 anos, cidadãos esses que o Supremo Tribunal Administrativo, ao que tudo indica, conhece pelo nome de "mulheres".

Mais se declara que, durante a adolescência, o declarante tinha um amigo chamado Vítor cuja mãe, na altura contando 52 anos, era bem boa. Na companhia da referida anciã passou o declarante tardes muito agradáveis sempre que o pai do supracitado Vítor se encontrava ausente por motivos profissionais. No âmbito deste mesmo requerimento, e tomando em consideração os factos atrás descritos, o declarante deseja sensibilizar o tribunal para a existência de senhoras maiores de 50 suficientemente lúbricas para merecerem que os meritíssimos juízes tenham a generosidade de lhes conceder mais algum tempo de vida sexual. Por exemplo, uma prorrogação por 5 anos, renovável por igual período findo esse prazo. O declarante disponibiliza-se para, em nome do tribunal, avaliar, caso a caso, o grau de concupiscência de cidadãs de todas as idades, e exarar em relatório oficial as suas conclusões.

Ricardo Araújo Pereira, (crónica publicada na VISÃO 1129, de 23 de outubro) | | 10 comentários

No tempo em que os animais sorriam

Há apenas uma diferença entre as fábulas clássicas e as do Presidente da República: as clássicas costumam acabar com uma moral; as de Cavaco, por se debruçarem sobre a nossa economia, terminam quase sempre com uma imoral

Quando, cerca de duas semanas antes de as acções do BES passarem a valer zero, o Presidente da República disse que os portugueses podiam confiar no BES, toda a gente ficou mais ou menos convencida de que Cavaco Silva não ganharia o Nobel da Economia deste ano. Confirmou-se: o prémio foi atribuído a um francês que tem optado por fazer declarações relativamente sensatas. Enfim, são estratégias. Neste momento, creio que Cavaco já percebeu que a economia não o merece. E parece-me que começou a preparar a candidatura ao Nobel da Literatura. Está com uma capacidade de efabulação prodigiosa e com um estilo muito fresco. Há, em Cavaco Silva, uma disposição para o maravilhamento, um impulso para observar o mundo, para aquela operação poética a que Alberto Caeiro chamava "ver como um danado". O que é curioso na mundivisão de Cavaco Silva é que somos nós que ficamos danados com aquilo que ele vê.

Esta semana, o Presidente quis esclarecer "uma coisa completamente errada": "Os contribuintes não vão suportar os custos do BES." É uma declaração do domínio da fábula, que é o mundo no qual Cavaco costuma viver. Para o Presidente que vê vacas a sorrir e segreda palavras meigas ao ouvido de cagarras, o tempo em que os animais falavam é hoje. Ora, vigorando na nossa economia a lei da selva, que perspectiva pode ser mais acertada que a de La Fontaine? Que modo de observar a realidade pode produzir melhores efeitos que o da narrativa alegórica repleta de imaginação, fantasia e animais com características humanas? Se Cavaco diz que não vamos pagar os custos do BES, eu acredito assim como acreditei em Esopo.

A história da cigarra e da formiga mostra-nos que é importante precaver o futuro. A história da tartaruga e da lebre avisa-nos para os perigos da sobranceria. E a história de Cavaco ensina-nos que os contribuintes não vão pagar o BES.

Há apenas uma diferença entre as fábulas clássicas e as do Presidente da República: as clássicas costumam acabar com uma moral; as de Cavaco, por se debruçarem sobre a nossa economia, terminam quase sempre com uma imoral. Também ensinam uma lição, mas é uma lição um pouco mais dolorosa.

Ricardo Araújo Pereira | | 7 comentários

Quando o ministério não tem juízo, o corpo docente é que paga

O professor A é do Algarve e vai dar aulas para Trás-os-Montes. O professor B é de Lisboa e vai dar aulas para Braga. Após consultarem a internet, descobrem no mesmo dia que foram colocados por engano. Sabendo que ambos tomam o comboio das 8h20, qual chega primeiro ao centro de emprego?

Eu tinha 14 anos e considerava que se estava a perder demasiado tempo com a influência da continentalidade nas amplitudes térmicas. Portanto, fiz o que tinha a fazer.

Fui à horta que havia por trás dos campos de futebol e apanhei um gafanhoto. Antes de o professor de geografia chegar, coloquei o gafanhoto debaixo da sua secretária.

Não resultou. Assim que o professor se sentou, o gafanhoto saltou para a janela e saiu da sala. O professor nem chegou a vê-lo. E passou mais 50 minutos a falar impunemente sobre o facto de as zonas costeiras serem mais amenas que as áreas do interior.

Aos 14 anos ninguém sabe imaginar estratagemas que transtornem verdadeiramente a vida dos professores.

Aos 62, Nuno Crato, o ministro da Educação, tem a maturidade que me faltava para inventar as melhores partidas.

Primeiro, colocou professores de Coimbra, por exemplo, em Faro. Esperou que alugassem casa, que instalassem a família, que adaptassem a vida à nova realidade.

Depois, anunciou que tinha havido um engano e que a colocação havia sido anulada. Isto é que é uma partida. Não sei se o ministro aceita sugestões, mas talvez fosse engraçado que, quando o professor se dirigisse ao ministério para se informar sobre as suas alternativas, lhe entregassem um envelope com um gafanhoto lá dentro.

Como sempre, os professores não têm sentido de humor suficiente para entrar na brincadeira. Levam a mal, protestam, queixam-se. Resistem a ver esta balbúrdia como uma oportunidade. Eu, sendo professor, aproveitava o estilo de vida que o ministério proporciona e adquiria imediatamente 20 ovelhas. O nomadismo é ideal para a pastorícia, e as constantes mudanças na colocação contribuiriam para que eu ficasse com um rebanho forte e lucrativo. Quanto menos aulas desse, mais tempo teria para vender lã, queijo e borregos.

Há quem oferença o corpo à ciência. Neste momento, os professores podem oferecer o corpo à educação, na medida em que as suas vidas parecem um daqueles problemas matemáticos: "o professor A é do Algarve e vai dar aulas para Trás-os-Montes. O professor B é de Lisboa e vai dar aulas para Braga. Após consultarem a internet, descobrem no mesmo dia que foram colocados por engano. Sabendo que ambos tomam o comboio das 8h20, qual chega primeiro ao centro de emprego?".

Nem todos temos a honra de poder dar um contributo tão grande para o bem da Humanidade. Os professores têm e ainda reclamam.

Ricardo Araújo Pereira, (crónica publicada na VISÃO 1127, de 9 de outubro) | | 9 comentários
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