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Miss Líbano desfila em bikini, vestido de noite e kalashnikov

Se é para discorrerem sobre o conflito israelo-árabe, cedam o bikini ao Nuno Rogeiro
Foi uma semana muito triste para a harmonia entre os homens. A paz no mundo foi ameaçada precisamente pelas pessoas em quem mais confiamos para a defender, a saber: as candidatas a Miss Universo e o Papa. O caso mais chocante foi, claro, o das candidatas a Miss Universo. Ao longo da história da Igreja houve vários papas que talvez tenham percebido menos bem os ensinamentos de Jesus, mas creio que é a primeira vez que palavras ásperas saem da boca impecavelmente maquilhada de uma candidata a Miss Universo. Uma situação inédita que foi causada por este facto muito grave: uma menina bonita israelita tirou uma fotografia em que aparece juntamente com uma menina bonita libanesa. As pessoas indignaram-se nas redes sociais, o que está muito certo, uma vez que é por essa razão que as pessoas frequentam as redes sociais. No Líbano, exigiram explicações à menina bonita sua compatriota. O ministro libanês do Turismo anunciou que seria aberto um processo de averiguações acerca da fotografia em que aparecem meninas bonitas. Pessoalmente, tenho usado a internet para investigar fotografias em que aparecem meninas bonitas, pelo que sou sensível a esta iniciativa. Foi então que a menina bonita libanesa acusou a menina bonita israelita de a perseguir, e recusou falar-lhe. Ora, não é isto que se espera de meninas bonitas que participam nestes concursos. No meu tempo, as candidatas a Miss Universo nem sabiam onde ficava Israel. Amavam toda a gente e desconheciam profundamente a geografia. Se é para discorrerem sobre o conflito israelo-árabe, cedam o bikini ao Nuno Rogeiro.

As palavras do Papa também merecem reflexão. Disse ele que, se um amigo insultasse a sua mãe, devia esperar um soco. Não conheço o evangelho com a profundidade necessária para saber se o Messias aprova a violência quando se trata de insultos à mãe, mas acredito que sim. ?E já testemunhei várias zaragatas, tanto em bares como em casas onde decorrem reality shows, motivadas exactamente por este tipo de ofensa. O cristianismo está muito mais arreigado na nossa sociedade do que se pensa.

Há, no entanto, um ponto em relação ao qual tenho uma dúvida ética: o que fazer no caso das mães autodepreciativas? Há pessoas que, por questões de temperamento ou por se encontrarem num momento de baixa auto-estima, rebaixam a sua própria pessoa. Algumas dessas pessoas são mães. Que devem fazer os seus filhos? Seguir o preceito cristão de agredir quem insulta as mães? Ou não agredir as mães, permitindo que a ofensa passe em claro? Trata-se de um difícil dilema moral. Haja um especialista no catecismo que me ajude.

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1142, de 22 de janeiro | | 4 comentários

O que somos quando somos Charlie

Não é a vida que é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, e desprovida de significado. É o facebook

Não é a vida que é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, e desprovida de significado. É o facebook. Apesar de não ter facebook, vou acompanhando o som e a fúria através das reacções das pessoas que têm. No caso do Charlie Hebdo, contei quatro fases de agitação sonora e furiosa, a saber:

1. Eu sou Charlie;

2. Eu sou mais Charlie do que tu;

3. Eu era Charlie, mas não quero ser Charlie com quem não é Charlie;

4. Eu não sou Charlie.

A primeira reacção é previsível e normal. Morreram doze pessoas por causa da publicação de desenhos satíricos. Parece--me natural que pessoas decentes se solidarizem com as vítimas de um crime destes, indo ao ponto de lhes tomarem a identidade. Até eu, que sou decente apenas se não puder evitá-lo, o fiz. Confesso que nunca comprei o Charlie Hebdo, nunca o referi como referência humorística e nem sou apreciador do jornal. Ao que tenho visto, sou o único. Ainda assim, disse - e repito: eu sou Charlie. Posso fazê-lo? Posso, posso. Não preciso de ter a assinatura do jornal em dia. De igual modo, em Setembro de 2001, quando dissemos "somos todos americanos", ninguém veio pedir-nos o passaporte. Se para ser Charlie é necessário ter a coragem dos cartunistas que morreram, então ninguém no mundo está habilitado a ser Charlie - tirando, talvez, Salman Rushdie e mais duas ou três pessoas.

Também por isso, a segunda fase foi muito divertida. Consistiu num campeonato para apurar quem é mais Charlie. Alguns auto-investidos Charlies reclamaram-se proprietários do luto, herdeiros de um legado que aliás desconhecem e porta-estandartes de uma coragem que não têm nem precisam de ter. Estes Charlies gritaram que só não eram Charlies praticantes porque os poderes instituídos não deixam, recusando-lhes o acesso aos meios de comunicação social. Não lhes ocorreu que o Charlie Hebdo não contava com os poderes instituídos para nada. E que não têm o direito inalienável ao acesso aos meios de comunicação social. E que há uma diferença bastante sensível entre não ter acesso aos media e ser executado com um tiro na nuca. E que é feio aproveitar a morte de 12 desgraçados para tentar arranjar um emprego. E que, hoje em dia, nada os pode impedir de se exprimirem e serem plenamente Charlies na internet, por exemplo.

A terceira fase foi a dos hipsters do Charlie. Isto de sermos Charlie foi giro no início, mas agora está muito visto. É uma solidariedade à condição, que vai diminuindo à medida a que a dos outros aumenta. E essa fase abriu caminho para a última, que fechou o ciclo. Agora é cada vez mais frequente a declaração "Não sou Charlie". Jean Marie Le Pen foi dos primeiros: "Não sou Charlie porque eles eram anarco-trotskistas e eu não sou." Para que Le Pen se identifique com as vítimas, temos de esperar até que os terroristas matem um cartunista idiota.

O valor jornalístico que o terá terá

Hoje, poucas pessoas fazem, mas muita gente terá feito. Quase ninguém disse, mas inúmeros terão dito

Tenho observado com muito entusiasmo a recente invenção jornalística do terá. Parece que uma notícia deve responder a seis perguntas, a saber: quem?, o quê?, onde?, como?, porquê? e quando? Foi isso, aliás, que me afastou do jornalismo. São demasiadas perguntas. Um jornalista encontra-se quase sempre na posição de um bêbado que acaba de chegar a casa. É curioso que tanto o bêbado como o jornalista tenham de responder mais ou menos às mesmas perguntas. Obter as respostas é difícil para ambos. O bêbado está pressionado pelo álcool e o jornalista está pressionado pela realidade, que também inebria e confunde. Estando, em geral, mais sóbrio que o bêbado, o jornalista inventou o terá. É uma forma habilidosa de não responder à pergunta "quando?" Funciona assim: "Fulano terá feito uma falcatrua." Quando? No passado. Mas o verbo ter está no futuro. O que significa que talvez venha a confirmar-se no futuro que sucederam certas coisas no passado. Hoje, poucas pessoas fazem, mas muita gente terá feito. Quase ninguém disse, mas inúmeros terão dito.

É muito interessante reparar no papel que o terá tem desempenhado nas notícias sobre o acontecimento mais importante da actualidade. A pesquisa "Sócrates terá", no Google, devolve 19 mil e 300 resultados. Alguns exemplos: "Sócrates terá usado conta do motorista para depósitos e pagar despesas", "Sócrates terá dito que iria mobilizar a opinião pública contra a Justiça", "José Sócrates terá recebido um milhão de euros em dinheiro vivo", "Antigo motorista de José Sócrates terá admitido que depositou dinheiro do ex-primeiro-ministro na sua conta", "Sócrates terá repartido a fortuna de 25 milhões de euros por seis bancos". O terá permite fazer perguntas sem colocar um ponto de interrogação no fim. "Sócrates terá repartido a fortuna de 25 milhões por seis bancos?" passa a "Sócrates terá repartido a fortuna de 25 milhões por seis bancos". O terá garante, até judicialmente, que a frase anterior ainda não é uma afirmação, mas também deixa claro que já não é uma pergunta. É uma afirgunta. A afirgunta é um novo género jornalístico que não constitui exactamente uma notícia. É uma hipótese de notícia. Uma suposição. E quando a afirgunta gera novas afirguntas, transforma-se em afirmação. Aqueles 25 milhões já foram uma afirgunta. "Sócrates terá 25 milhões". Como os hipotéticos 25 milhões foram hipoteticamente repartidos por seis bancos, deixaram de ser hipotéticos. A afirgunta só admite uma hipótese de cada vez. Caso contrário, isto deixa de ser jornalismo, e passa a ser uma fantochada sem qualquer vestígio de rigor.

Consideremos a seguinte frase: "Sócrates terá 60 anos em 2017." É das poucas notícias que podemos dar acerca de José Sócrates recorrendo ao uso convencional do futuro do verbo ter. É uma informação factual, verificável e exacta. É também extremamente enfadonha. Não faz sonhar. No entanto, a nova utilização do terá, em teoria, permite avançar com qualquer hipótese, desde que permitida pelas leis da física. Creio que não é admissível escrever, por exemplo, "Sócrates terá levantado voo depois de agitar os braços com muita força". Mas "Sócrates terá comprado o Taj Mahal a pronto" é jornalismo. Ora, neste tipo de notícia hipotética, eu sou fortíssimo. Ter-me-ei (cá está) reformado demasiado cedo. Eu sou a agência Reuters do terá. Sou capaz de redigir, a partir de casa, um número infinito de peças jornalísticas deste tipo. Contactem-me.

Agora é que vai ser

O rapaz que gritava "lobo!" não tinha um especialista em marketing político a definir-lhe novas estratégias. O candidato que grita "promessa!" tem vários

Se o leitor gosta de confiança, vai ter um grande 2015. Sobretudo, se aprecia especialmente aquele tipo de confiança que medra quando não há nuvens negras. Foi o que António Costa e Passos Coelho prometeram aos portugueses para o ano que agora começa: confiança e céu limpo. Um substantivo abstracto e uma metáfora. Um sentimento e uma condição meteorológica em sentido figurado. Eu ainda sou do tempo em que os dirigentes políticos prometiam coisas concretas. Diminuir os impostos. Criar mais emprego. Corrigir as injustiças sociais. Construir uma infra-estrutura. Permanecer no cargo ao qual se candidatavam. Já não funciona. Ninguém acredita no rapaz que grita "lobo!", nem no candidato que grita "promessa!". A diferença é que o rapaz que gritava "lobo!" não tinha um especialista em marketing político a definir-lhe novas estratégias. O candidato que grita "promessa!" tem vários, e todos perceberam que já ninguém acreditava em promessas que acabavam por se transformar em nada. O novo modelo é extremamente interessante, na medida em que começa logo por prometer coisa nenhuma. Faltam-me conhecimentos de filosofia para descrever esta delicada jóia de inexistência, esta filigrana de vacuidade. Antigamente, tratava-se de prometer coisas quando na verdade não se estava a prometer nada. Agora, promete-se nada a fingir que se prometem coisas. É uma diferença tão subtil, no funcionamento interno da ilusão, que nem todos os vendedores de time-sharing a entendem. ?É um logro mesmo muito complexo.

Vamos tentar desmontar a burla em todas as suas partes constitutivas, mantendo sempre presente que todas estas peças são, em si, aldrabonas. Em rigor, temos duas burlas diferentes. A de Passos Coelho impressiona por começar imediatamente por prometer uma inexistência. ?O primeiro-ministro promete um ano sem nuvens negras. Oferece a inexistência dessa nebulosidade. O que é fascinante é que essa inexistência não existe, isto é, as nuvens negras não se dissiparam. É uma inexistência inexistente, a que Passos Coelho promete. Ou seja, Passos Coelho promete nada, e mesmo assim falha. Propõe-se oferecer zero e não consegue. Claro que, por não avançar com uma definição exacta do que são "nuvens negras", Passos Coelho introduz alguma vacuidade no vácuo da promessa inicial, operação que talvez seja difícil - ou até impossível - na física, mas que é perfeitamente exequível na política.

Já António Costa, ao prometer confiança, consegue resguardar-se de eventuais acusações de incumprimento. Um cidadão que, no fim do ano, declare não se ter sentido confiante, está impedido de culpar o candidato, pois a fruição de um sentimento não depende apenas da boa vontade do que o instila, mas também da resistência do que se deixa instilar. Prometer confiança é equivalente àquilo que dizemos para consolar o familiar de um defunto, num velório. "Muita força", recomendamos nós. Se a pessoa não tem força, a culpa não é nossa. Prometer um ano sem nuvens negras é igual a dizer ao mesmo familiar, no mesmo velório: "Melhores dias virão."
A diferença é que, neste velório, nós somos o familiar e, parece-me, o defunto.

Ricardo Araújo Pereira, (crónica publicada na VISÃO 1139, de 1 de janeiro) | | 2 comentários

Balanço do ano

O povo português não é mau, o problema são as companhias

José Sócrates, um homem a quem o povo português confiou milhões de votos foi preso, acusado de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal. Ricardo Salgado, um homem a quem o povo português confiou milhões de euros foi constituído arguido, acusado de burla, abuso de confiança, falsificação e branqueamento de capitais. Passos Coelho, um homem a quem o povo português confiou milhões de votos, confiscou milhões de euros ao povo português. Em resumo, foi isto.

O povo português não é mau, o problema são as companhias.

Infelizmente, o povo português não tem uma mãe, que possa defendê-lo com este argumento nas conversas que mantém com uma vizinha, ou com outros pacientes na sala de espera de um ortopedista. Há apenas um grupo de pessoas que pode aconselhar o povo português e ajudá-lo a compreender o modo como o seu comportamento vai condicionar o futuro. Essas pessoas são, evidentemente, os astrólogos. No entanto, e surpreendentemente, os astrólogos fazem um péssimo trabalho. No fim deste ano tão cheio de acontecimentos que os astros, em princípio, não ignorariam, fui procurar as previsões dos principais astrólogos para 2014. Não vou citar os seus nomes uma vez que, apesar de não acreditar em bruxas, acredito naquele provérbio espanhol que diz que elas existem.

Estes profissionais prestaram um serviço terrível ao País. Disseram que este ano havia de ser globalmente positivo, até porque a era aquariana, à qual pertence, é um tempo de fraternidade, que assistirá à resolução dos grandes problemas sociais e ao aparecimento de oportunidades para o desenvolvimento de todos, ou não fosse aquário um signo aéreo e o planeta que o rege, Úrano, o astro que detém a tutela da electricidade e tecnologia. Nenhum astrólogo acrescentou: "Ah, é verdade, e um ex-primeiro-ministro vai passar o Natal na cadeia. E Saturno está aqui a dizer-me que é possível que o maior banco privado português vá à falência." Sobre isto, os astros não disseram uma palavra.

A própria previsão signo a signo ignorou os principais assuntos do ano. Sócrates, nativo do signo virgem, ficou a saber que o seu ano de 2014 tinha a influência da carta de tarot dos Enamorados, pelo que teria de tomar decisões importantes. Nenhum astrólogo referiu que uma dessas decisões era evitar mangas de avião, ou mudar de motorista. Salgado, que é caranguejo, foi aconselhado a dar largas ao seu espírito aventureiro, conforme recomendava a carta do Louco. Os astrólogos esqueceram-se de acrescentar que, após dar largas ao espírito aventureiro, havia que culpar o contabilista.

E Portugal que, por ter nascido na assinatura do Tratado de Zamora, a 5 de outubro de 1143, é balança gozaria este ano da especial influência da carta de tarot do Mágico, que anunciava um ano em que capacidade para lidar com todas as situações do modo mais adequado se faria notar. É possível que os astros sejam apenas grandes pedregulhos que andam à roda em torno do sol, sem grande atenção aos acontecimentos político-sociais. Mais um ano destes e deixo de acreditar no que Vénus diz.

Ricardo Araújo Pereira | | 14 comentários

O evangelho segundo São Mateus Rosé

O menino oferece a vida eterna e a bebida gaseificada oferece sensação de viver, o que acaba por ser mais ou menos a mesma coisa, talvez com ligeira vantagem para a bebida

Naquele tempo, nasceu em Belém da Judeia uma criança chamada Jesus. Vieram do oriente uns magos, usufruindo de uma promoção de sete dias e oito noites na Terra Santa, em regime de meia pensão, que incluía passagem por Safed, cidade sagrada, e visita ao túmulo do rei David, por apenas 2.700 euros por pessoa. Quando chegaram a Jerusalém, perguntaram: "Onde está aquele que nasceu rei dos Judeus? Do oriente vimos a sua estrela e viemos adorá-lo."

O rei Herodes, ouvindo isto, sobressaltou-se, e com ele toda a Jerusalém. E reuniu os seus soldados e ordenou-lhes que matassem todos os varões menores de dois anos. E armou-os com um conjunto de facas Sun Tchi, que cortam ossos com um só golpe, e fatiam todos os tipos de carne e vegetais, e desmancham frangos com habilidade, e cortam até sapatos, e tudo por apenas 199 euros mais portes de envio, com oferta de um pequeno canivete, ideal para cortes delicados. Então os magos seguiram a estrela e encontraram o menino, e prostrando-se o adoraram, e ofereceram-lhe mirra, incenso e ouro, que o menino, querendo, podia trocar na Gold Cash por dinheiro vivo, pois a Gold Cash adquire o seu ouro usado avaliando-o até cerca de 25 euros por grama. Ora, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, e disse: "Levanta-te, e toma a criança e a sua mãe, e foge para o Egipto, e ali fica até que eu te fale, e entretanto assiste à Música no Coração e ao Sozinho em Casa 2, porque a casa que irás habitar está equipada com um pacote de TV com 150 canais, que também inclui internet e telefone, e por apenas 49,99 euros por mês."

E José levantou-se, e fez como lhe disse o anjo, e pegou em seu smartphone com ecrã táctil de 5,5 polegadas e câmara fotográfica de 1,3 megapixels e enviou uma mensagem para todos os seus amigos que dizia: "O Natal é a altura de ficarmos junto daqueles de quem mais gostamos. Mas eu abdiquei de tudo isso para ficar com a minha família. LOL!" E foi a primeira SMS engraçadota de Natal, e todos os amigos de José a reenviaram para outros amigos, e assim sucessivamente.

Depois, a estrela do menino começou a brilhar cada vez menos, porque mesmo por baixo da estrela estava um anúncio de uma bebida gaseificada com o Pai Natal, e o anúncio brilhava muito mais do que a estrela, e entre o cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo e um idoso anafado que oferece presentes as pessoas preferem claramente o segundo, além de que o menino oferece a vida eterna e a bebida gaseificada oferece sensação de viver, o que acaba por ser mais ou menos a mesma coisa, talvez com ligeira vantagem para a bebida.

Ricardo Araújo Pereira, (crónica publicada na VISÃO 1137, de 18 de dezembro) | | 3 comentários

Carta a José Sócrates

O facto de um amigo lhe ter disponibilizado um apartamento de 225 metros quadrados em Paris fez com que o Ministério Público lhe disponibilizasse um apartamento de 9 metros quadrados em Évora. Obrigam-no a aceitar aquilo que o acusam de ter aceitado

Caro eng. José Sócrates,

Espero que esta o encontre bem. Li com atenção as suas cartas e foi apenas por falta de tempo que não respondi mais depressa. Lembro-me de, no fim do liceu, ter mantido alguma correspondência com antigos colegas mas, por uma razão ou por outra, a troca de cartas foi-se tornando cada vez mais rara, até que parou completamente. Não gostaria de cometer esse erro outra vez. Parece-me importante manter o contacto com as pessoas do nosso passado, como antigos colegas e antigos primeiros-ministros.

Tenho pensado bastante nas observações que vai fazendo. Esta última carta sensibilizou-me especialmente, na medida em que criticava a cobardia dos políticos, a cumplicidade dos jornalistas, o cinismo dos professores de Direito e o desprezo das pessoas decentes. Como creio que sabe, não pertenço a nenhuma das categorias citadas, e por isso fui deixado de fora do seu olhar crítico, pelo que lhe agradeço.

As críticas que faz ao funcionamento da justiça parecem-me muito pertinentes. Portugal precisava que um homem como o sr. estivesse, digamos, sete anos à frente do Governo, talvez quatro dos quais com maioria absoluta, para fazer uma reforma séria do sistema judicial. É uma pena não termos essa possibilidade. Na minha opinião, os primeiros-ministros deviam ser presos antes, e não depois dos mandatos. Estagiavam durante dois meses numa cadeia, três num hospital e um semestre numa escola. O contacto directo com a realidade dá-nos perspectivas novas, mais informadas, e acirra o ímpeto reformista.

Julgo que é possível estabelecer um paralelo entre o processo de Josef K., a personagem de Kafka, e o de José Sócrates, ou Josef S. - sendo que a sua história é mais complexa: tanto Josef K. como Josef S. se vêem confrontados com decisões judiciais autoritárias e, em certos aspectos, até grotescas, mas Josef K. nunca teve amigos como Alberto Martins e Alberto Costa a tutelar a justiça, nem governou o seu país. Era apenas vítima. Ser simultaneamente vítima e carrasco deve ser mais perturbador. Ao contrário do que muitas vezes se diz, Joseph-Ignace Guillotin, o inventor da guilhotina, não foi guilhotinado. Essa ironia foi reservada para si, que é agora acusado por um sistema que ajudou a conceber e conservar.

Compreendo quase todas as suas queixas. Na verdade, a ironia que identifiquei acima não é a única do seu caso. Ao que parece, o facto de um amigo lhe ter disponibilizado um apartamento de 225 metros quadrados em Paris fez com que o Ministério Público lhe disponibilizasse um apartamento de 9 metros quadrados em Évora. Obrigam-no a aceitar aquilo que o acusam de ter aceitado. É duro. E irónico. Uma pessoa tolera tudo, menos figuras de estilo.

Considero, no entanto, que algumas das suas análises são menos acertadas. Por exemplo, quando diz, sobre a intenção da prisão preventiva: "(...) já não és um cidadão face às instituições; és um 'recluso' que enfrenta as 'autoridades': a tua palavra já não vale o mesmo que a nossa." Aqui para nós, se lhe roubaram o valor da palavra não terão levado grande tesouro, uma vez que a sua palavra já não valia o mesmo que a nossa desde aquela promessa dos 150 mil empregos.

Espero que não leve a mal esta franqueza. Estou certo de que voltaremos a falar.

Cumprimentos,

Ricardo

 

Ricardo Araújo Pereira | | 26 comentários

As diferenças entre José Sócrates e uma sobremesa

Quando o assunto é José Sócrates, quase ninguém prescinde de registar uma declaração de interesses afectivos

Clara Ferreira Alves, Expresso, 22 de Novembro: "(...) não gosto de José Sócrates. Nem desgosto. Sou indiferente à personagem." Sérgio Figueiredo, Diário de Notícias, 24 de Novembro: "Gosto de Sócrates". Pedro d'Anunciação, Sol, 26 de Novembro: "(...) não se pense que eu simpatizo especialmente com Sócrates." António Cunha Vaz, Diário de Notícias (Madeira), 27 de Novembro: "Não gosto mesmo de Sócrates." Vasco Pulido Valente, Público, 28 de Novembro: "Nunca gostei da personagem política José Sócrates". Pedro Marta Santos, Sábado (online), 28 de Novembro: "Não gosto do político José Sócrates." Elina Fraga, 29 de Novembro: "Posso odiar Sócrates, mas tenho de me bater para que ele beneficie do direito de se defender." Teresa de Sousa, Público, 30 de Novembro: "Não gosto nem desgosto de Sócrates."

A este levantamento faltam muitas declarações feitas em órgãos de comunicação social e ainda mais declarações feitas no âmbito de conversas mantidas em snack-bares. Quando o assunto é José Sócrates, quase ninguém prescinde de registar uma declaração de interesses afectivos. O facto de esta declaração de interesses não ter interesse nenhum é muito interessante. Sócrates foi detido e acusado de crimes graves, e vai ser julgado por isso. A afeição que uns lhe têm e outros deixam de ter é irrelevante. O que está em causa aqui não é a prática política (que já foi julgada em 2005, 2009 e 2011) nem a personalidade (para a qual, felizmente, não há tribunais, caso contrário eu estaria há muitos anos na Carregueira). A sentença é independente da simpatia ou antipatia que um réu desperta. Há criminosos que são seres humanos adoráveis (nos filmes, é raro haver um recluso que não seja encantador), e há péssimas pessoas que nunca praticaram ilegalidades. Ser simpático não livra ninguém da cadeia, e ser um energúmeno não é ilegal (e ainda bem, caso contrário eu estaria há muitos anos na Carregueira).

Mas o mais interessante é a excepcionalidade desta manifestação maciça de amor e desamor. Não ocorre a ninguém dizer o mesmo de outros réus ("não se pense que eu simpatizo especialmente com Manuel Palito"), nem mesmo de outros antigos políticos que são agora réus ("posso odiar Duarte Lima, mas tenho de me bater para que ele beneficie do direito de se defender"). Na verdade, ninguém odeia Duarte Lima. Nem mesmo os que já o ouviram tocar órgão. E também ninguém ama Duarte Lima. Sobretudo os que já o ouviram tocar órgão. Mas José Sócrates, ao que parece, conseguiu penetrar no universo dos afectos. Não no meu, devo dizer. Guardo a minha afeição para um conjunto de coisas realmente importantes, ao qual não pertencem actuais ou antigos primeiros-ministros. Eu gosto, por exemplo, de arroz doce. Mas não se pense que simpatizo especialmente com gelatina. No entanto, se uma taça de gelatina ou um prato de arroz doce forem acusados de corrupção, branqueamento de capitais e burla agravada, espero que tenham um julgamento justo. Não virei para a rua gritar que o arroz doce é inocente e que a gelatina nunca me enganou.

Ricardo Araújo Pereira | | 11 comentários

Rouba e não faz

A confirmar-se a acusação, José Sócrates tem 25 milhões de euros e, no entanto, vive da caridade dos amigos e viaja em económica. Afinal sempre há um português que vive abaixo das suas possibilidades. Um exemplo a seguir,portanto

Se José Sócrates for culpado do que o acusam é o maior génio do crime desde o professor Moriarty. Aquilo a que se costuma chamar um mestre da dissimulação. Eu já vi vários advogados de indivíduos que possuem 25 milhões de euros e não se parecem em nada com o patusco causídico que o antigo primeiro-ministro contratou. Estamos perante um nível de patusquicidade mesmo muito elevado. É o advogado ideal para milionários que desejam esconder a fortuna.

As outras aplicações do alegado dinheiro alegadamente obtido através de alegada corrupção também são desconcertantes. Gostava de propor um teste aos leitores. Coloquem-se no alegado lugar de José Sócrates e completem a seguinte frase: "Bom, agora que tenho 50 anos, vou aproveitar os vários milhões de euros que obtive ilegalmente para..." Quantos preencheram o espaço vazio com a expressão "... escrever uma aborrecida tese de 200 páginas sobre a prática da tortura no âmbito das sociedades democráticas"? Que repugnante corrupção é esta que desperdiça o dinheiro sujo na academia? Onde estão as jovens bailarinas de clubes nocturnos, o barco, o champanhe, os charutos acendidos com notas de banco? Que diabo, eu ganhei muito menos dinheiro muito mais honradamente e mesmo assim levo uma vida bastante mais dissoluta. Hoje em dia, com o acesso que temos ao que se passa pelo mundo, não há razão nenhuma para não se praticar uma corrupção bonita, moderna, com um investimento consistente em devassidão e álcool. Esbanjar dinheiro ilícito no desenvolvimento pessoal é francamente decepcionante.

O próprio alegado esquema é triste, na medida em que envolve um motorista que funciona como multibanco, um amigo que funciona como offshore e uma mãe que funciona como agente imobiliária.

Se é para continuarmos a precisar de pedir dinheiro à mãe e aos amigos, mais vale não entrar no mundo do crime. A criminalidade costuma ter a virtude de garantir ao criminoso uma certa independência financeira, que sempre enobrece.

Não é o caso, aqui.

Tudo isto faz com que, se o ex-primeiro-ministro for culpado, o regime não esteja em perigo, ao contrário do que se tem dito. A confirmar-se a acusação, José Sócrates tem 25 milhões de euros e, no entanto, vive da caridade dos amigos e viaja em económica. Afinal sempre há um português que vive abaixo das suas possibilidades. Um exemplo a seguir, portanto.

Ricardo Araújo Pereira | | 26 comentários

Falcatrua spotting

Sempre que uma falcatrua é conhecida, alguns portugueses indignados perguntam: "É neste país que queremos viver?" Inúmeros chineses endinheirados respondem: "Sim, se faz favor"

Na véspera do início da comissão de inquérito parlamentar às falcatruas do caso BES, Miguel Macedo demitiu-se por causa das falcatruas do caso dos vistos gold. São tempos maravilhosos para quem aprecia falcatruas. Uma falcatrua pode levar apenas cinco minutos a fazer, mas leva anos a investigar e, normalmente, arquivar. Por falta de oportunidade, infelizmente não tenho podido usufruir de tantas falcatruas quanto gostaria, mas a simples observação de falcatruas costuma ser suficientemente compensadora.

A demissão do ministro coloca alguns problemas interessantes ao observador de falcatruas. De acordo com o Expresso, alguns arguidos são "amigos pessoais" de Miguel Macedo. Tenho constatado que, de todos os tipos de amigo que é possível ter, o amigo pessoal é, sem dúvida nenhuma, dos mais nocivos. Se o ministro fosse amigo colectivo de alguns arguidos, ou se fosse apenas amigo institucional de outros, talvez a demissão não fosse inevitável. Mas a amizade pessoal costuma vincular o amigo ao autor da falcatrua. A questão que se coloca é a seguinte: podemos exigir a um ministro que não tenha, entre os seus amigos (pessoais ou outros), autores de falcatruas? Percebo que se impeça um autor de falcatruas de chegar a ministro, mas proibir que um ministro seja amigo de burlões já me parece excesso de zelo. Além de que torna quase impossível nomear um ministro. Só misantropos com muita sorte podem aceder ao cargo. A teoria dos seis graus de separação sustenta que quaisquer duas pessoas estão separadas apenas por seis ou menos laços de amizade. Creio que é possível reduzir para metade os graus de separação entre qualquer português e um vigarista.

Outro problema é político. Uma das razões para adquirir o visto gold é a possibilidade de vir para um país que não incomoda os autores de falcatruas. Se os autores de falcatruas começam a ser presos, e até os seus amigos são forçados a demitir-se, não são apenas os vistos gold que perdem valor, é Portugal que deixa de fazer sentido. Sempre que uma falcatrua é conhecida, alguns portugueses indignados perguntam: "É neste país que queremos viver?" Inúmeros chineses endinheirados respondem: "Sim, se faz favor." Esperemos que este percalço não os faça mudar de ideias.

Ricardo Araújo Pereira | | 17 comentários
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