Convite aos Leitores: Deixe aqui a sua Opinião
Página inicial | Opinião | Ricardo Araújo Pereira

Página 1 de 20 1 | 2 | 3 | 4 | 5 |

Freitas Lobo com pele de Freitas Cordeiro

ão só se pode tentar descobrir no futebol a poesia de Sheakespeare como se deve procurar descortinar, em cada jogada, as ideias de Immanuel Kent, as teorias de Albert Einstoin ou o traço de Salvador Dalú

Como amante de poesia e de futebol, confesso que temi o pior quando Luís Freitas Lobo introduziu a poesia no comentário de futebol. Mesmo sendo má poesia, era poesia, e o meu conceito de futebol exclui qualquer espécie de lirismo. Para mim, o futebol é melhor quando se aproxima dos jogos que os miúdos jogam na rua, com duas pedras a fazer de baliza. Joguei muitas vezes assim e nunca me ocorreu dizer "Carlitos, a maneira como fintaste o Fernandinho fez-me lembrar aquele soneto do Wordsworth sobre o materialismo da sociedade industrial."

Acompanho com muito interesse as experiências linguísticas do comentário desportivo, e deve registar-se que Freitas Lobo tem contribuído para a consolidação de todos os grandes lugares-comuns sintácticos. É, por exemplo, um ilustre cultor da nova moda que consiste em falar com o verbo no infinitivo. Dá gosto ouvi-lo declarar: "Em primeiro lugar, dizer que Minhoca fez um grande jogo pelo Paços de Ferreira", ou "Antes de mais nada, dedicar este comentário a quem ama verdadeiramente o futebol."

O problema é quando Freitas Lobo resolve ser original. A sua mais recente inovação poética consiste na aplicação da seguinte fórmula: "O [inserir nome de jogador] é um [inserir metáfora] em forma de jogador de futebol." Alguns exemplos célebres são "Ribery é uma carraça em forma de jogador de futebol", "Rooney é um pugilista em forma de jogador de futebol", "Matuidi é um alicate em forma de jogador de futebol", "Pastore é uma pantera cor-de-rosa em forma de jogador de futebol", "Mangala é um arranha-céus em forma de jogador de futebol", "Michu é uma espécie de bip-bip a fugir do coiote em forma de jogador de futebol", "Giovinco é um rato em forma de jogador de futebol", "Caetano é uma pulga amarela em forma de jogador de futebol" e o complexo "Messi é uma pulga disfarçada de ET em forma de jogador de futebol". Há um método infalível para determinar se o discurso de um comentador desportivo ultrapassou o nível aceitável de ridículo: trata-se de verificar se o modo como se expressa permeou o discurso do café. Hoje, por esses snack-bares fora, toda a gente fala em conceitos anteriormente desconhecidos, como transições, exploração do espaço entre linhas, duplo pivot. Mas nenhum frequentador de tascas diz para outro: "Ó Vítor, este Marcelinho é um ferro de engomar com termóstato ajustável em forma de jogador de futebol." A minha preocupação aumentou quando vi o próprio Freitas Lobo confessar, na contracapa de um livro, que tinha como objectivo "descobrir Sheakespeare em Bobby Charlton". Nem o facto de Shakespeare estar mal escrito me sossegou: este homem queria mesmo estragar o futebol com alta cultura, e não seria uma gralha a redimi-lo. Foi então que encontrei, na página oficial de facebook de Freitas Lobo, outra referência a Sheakepeare. E outra ainda no perfil do comentador no sítio da sua editora. Afinal é mesmo de Sheakespeare que estamos a falar. Ora, enquanto Shakespeare não tem lugar na tasca, Sheakespeare, pelo contrário, é bem-vindo. Não só se pode tentar descobrir no futebol a poesia de Sheakespeare como se deve procurar descortinar, em cada jogada, as ideias de Immanuel Kent, as teorias de Albert Einstoin ou o traço de Salvador Dalú.

A discussão de café é mais livre. Há menos regras, como no futebol de rua. "E o resto é silêncio", como diz Hamlet. Ou, neste caso, Heamlet.

Ricardo Araújo Pereira | | 1 comentário

Crianças ultracongeladas

O Facebook tem 1,32 mil milhões de utilizadores, e muitos deles querem fazer like em frases inspiradoras ilustradas por fotos do pôr-do-sol, projecto que não conseguirão levar a cabo se as funcionárias da empresa desatarem a ter uma vida normal
Empresas como o Facebook estão a oferecer-se para pagar a congelação de óvulos às funcionárias, para que elas possam dedicar-se à carreira, adiando a maternidade. O Facebook tem 1,32 mil milhões de utilizadores, e muitos deles querem fazer like em frases inspiradoras ilustradas por fotos do pôr-do-sol, projecto que não conseguirão levar a cabo se as funcionárias da empresa desatarem a ter uma vida normal. Assim, quando elas quiserem ter filhos, já depois de terem desenvolvido algoritmos suficientes - ou lá o que se faz no Facebook - terão o óvulo fresquinho à sua espera. No entanto, uma vez que, do ponto de vista das empresas, nenhuma altura é oportuna para ter filhos, talvez o melhor seja guardar os óvulos no congelador até à reforma. Aos 65 anos, a funcionária poderá, então, incubar o filho sem prejuízo para o seu empregador, e com óbvias vantagens para si: tem tempo para dedicar à criança, sabedoria acumulada para lhe transmitir, e talvez não viva o suficiente para a ver chegar à adolescência, que é uma idade tão parva.

Há outra hipótese. Gostaria de sugeri-la. As funcionárias engravidam quando lhes apetecer (peço a vossa tolerância para uma ideia tão lunática). Mas, para que a empresa não fique prejudicada pela sua ausência, entregam o óvulo fecundado a uma barriga de aluguer. Esta ideia não é original. O Facebook também se oferece para financiar barrigas de aluguer. Onde eu inovo é neste ponto: proponho que essa barriga seja a do próprio Mark Zuckerberg. Desse modo, a funcionária não abdica da carreira e ainda pode acompanhar o crescimento do seu bebé todos os dias. Basta-lhe bater à porta do gabinete do presidente da empresa. Em 2009, uma americana deu à luz oito gémeos. Creio que Zuckerberg também tem condições para fazer germinar oito crianças no seu bandulho, e assim produzir até 32 crianças a cada 3 anos. Assim, mostraria que a sua empresa está realmente empenhada em impedir que a maternidade prejudique a carreira das suas funcionárias. Seria também uma mudança refrescante no mundo do trabalho: há, por essas empresas, tantos patrões que engravidam as funcionárias, que acaba por ser apenas justo que, ao menos uma vez, haja funcionárias que engravidam o patrão.

Crónica publicada na VISÃO 1131, de 6 de novembro | | 11 comentários

Sobre cães e gatos

Os cães são crianças, os gatos são filhos adolescentes: também nos amam, embora com alguma relutância, acham mesmo que são independentes, e às vezes estão escondidos num armário. É a adolescência sem tirar nem pôr

O lado A tem aquela canção chamada Portugal Ressuscitado. Toca o refrão e eu choro, é certinho. "Agora o povo unido nunca mais será vencido." A crença em ideias tão obviamente falsas sempre me emocionou muito. No lado B está a Canção Combate, sobre a coragem do povo português. A própria canção é poeticamente corajosa, uma vez que rima "A PIDE agora já não nos persegue" com "E já cá canta o Manuel Alegre". Antes da música, Ary dos Santos declama um soneto dedicado a todos os antifascistas mortos pela PIDE. Primeiro, os agentes da polícia política aparecem designados como feras, mas depois o poeta corrige: "Feras é demais. Apenas hienas. Tão pútridas, tão fétidas, tão cães." Alto. Tão cães? Cão é adjectivo? E dos que ofendem? Os cães são um bocadinho porcos e razoavelmente burros (eu sei, porque tenho quatro), mas ainda assim não merecem ser comparados a agentes da PIDE. De onde vem a má reputação dos cães? Nos livros, aparecem quase só para morrer. A Baleia do Graciliano Ramos leva um tiro. O Argos de Ulisses espera pelo dono durante 20 anos e morre assim que satisfaz o desejo de o ver. Os gatos, por outro lado, têm um prestígio literário impecável. Mário-Henrique Leiria dedica um livro "ao gato Benevides" que, diz ele, lhe deu "tremendas lições de dignidade". Nem o Cheshire Cat da Alice nem o gatarrão amigo do diabo em Margarita e o Mestre levam um tiro. Anda por aí um famoso espectáculo musical sobre gatos. Os gatos são protagonistas sofisticados, os cães são palermas sem classe.

Quando, há pouco tempo, passei a ter um gato, comecei a perceber a razão do fascínio. De facto, é um bicho que nos despreza de uma forma muito elegante.

Está evidentemente convencido da sua superioridade em relação a nós e é capaz de ter razão. Mas continuo firme no meu entusiasmo em relação aos cães.

Os gatos sabem qualquer coisa; os cães são tão estúpidos como eu o que lhes dá um encanto muito especial. Os gatos parecem ter uma informação importante acerca do que é isto de estar vivo; os cães não fazem ideia do que andam aqui a fazer.

Acham quase tudo espantoso e não têm vergonha desse maravilhamento constante, apesar de ser tão parecido com estupidez.

Os cães são crianças, os gatos são filhos adolescentes: também nos amam, embora com alguma relutância, acham mesmo que são independentes, e às vezes estão escondidos num armário. É a adolescência sem tirar nem pôr.

Ricardo Araújo Pereira | | 10 comentários

Declaração

Mais se declara que, durante a adolescência, o declarante tinha um amigo chamado Vítor cuja mãe, na altura contando 52 anos, era bem boa

Para os devidos efeitos, declara-se que Ricardo Artur de Araújo Pereira, nascido em Lisboa a 28 de Abril de 1974, já é, e tenciona continuar a ser, aquilo a que se chama, na língua inglesa, um "dirty old man", expressão que, vertida para o nosso idioma, designa um homem de meia-idade ou de idade avançada que manifesta forte inclinação para a lascívia. Tendo em conta a sua firme vontade de continuar a abraçar uma vida de devassidão na velhice, o declarante vem, por este meio, requerer a compreensão do Supremo Tribunal Administrativo para que lhe seja concedida imunidade relativamente a decisões como a que vem expressa no recente acórdão em que aquele tribunal reduziu substancialmente a indemnização devida a uma mulher de 50 anos por, naquela idade, a actividade sexual não ter "a importância que assume em idades mais jovens". Conforme expresso acima, o declarante pretende ser um dirty old man, projecto que é impossível de concretizar antes de o declarante ser, digamos, old. Por esse motivo, a actividade sexual do declarante é mais importante precisamente a partir dos 50.

O declarante recorda que não pertence àquele número de cidadãos cuja sexualidade serve apenas o propósito da procriação e por isso é evidentemente dispensável a partir dos 50 anos, cidadãos esses que o Supremo Tribunal Administrativo, ao que tudo indica, conhece pelo nome de "mulheres".

Mais se declara que, durante a adolescência, o declarante tinha um amigo chamado Vítor cuja mãe, na altura contando 52 anos, era bem boa. Na companhia da referida anciã passou o declarante tardes muito agradáveis sempre que o pai do supracitado Vítor se encontrava ausente por motivos profissionais. No âmbito deste mesmo requerimento, e tomando em consideração os factos atrás descritos, o declarante deseja sensibilizar o tribunal para a existência de senhoras maiores de 50 suficientemente lúbricas para merecerem que os meritíssimos juízes tenham a generosidade de lhes conceder mais algum tempo de vida sexual. Por exemplo, uma prorrogação por 5 anos, renovável por igual período findo esse prazo. O declarante disponibiliza-se para, em nome do tribunal, avaliar, caso a caso, o grau de concupiscência de cidadãs de todas as idades, e exarar em relatório oficial as suas conclusões.

Ricardo Araújo Pereira, (crónica publicada na VISÃO 1129, de 23 de outubro) | | 10 comentários

No tempo em que os animais sorriam

Há apenas uma diferença entre as fábulas clássicas e as do Presidente da República: as clássicas costumam acabar com uma moral; as de Cavaco, por se debruçarem sobre a nossa economia, terminam quase sempre com uma imoral

Quando, cerca de duas semanas antes de as acções do BES passarem a valer zero, o Presidente da República disse que os portugueses podiam confiar no BES, toda a gente ficou mais ou menos convencida de que Cavaco Silva não ganharia o Nobel da Economia deste ano. Confirmou-se: o prémio foi atribuído a um francês que tem optado por fazer declarações relativamente sensatas. Enfim, são estratégias. Neste momento, creio que Cavaco já percebeu que a economia não o merece. E parece-me que começou a preparar a candidatura ao Nobel da Literatura. Está com uma capacidade de efabulação prodigiosa e com um estilo muito fresco. Há, em Cavaco Silva, uma disposição para o maravilhamento, um impulso para observar o mundo, para aquela operação poética a que Alberto Caeiro chamava "ver como um danado". O que é curioso na mundivisão de Cavaco Silva é que somos nós que ficamos danados com aquilo que ele vê.

Esta semana, o Presidente quis esclarecer "uma coisa completamente errada": "Os contribuintes não vão suportar os custos do BES." É uma declaração do domínio da fábula, que é o mundo no qual Cavaco costuma viver. Para o Presidente que vê vacas a sorrir e segreda palavras meigas ao ouvido de cagarras, o tempo em que os animais falavam é hoje. Ora, vigorando na nossa economia a lei da selva, que perspectiva pode ser mais acertada que a de La Fontaine? Que modo de observar a realidade pode produzir melhores efeitos que o da narrativa alegórica repleta de imaginação, fantasia e animais com características humanas? Se Cavaco diz que não vamos pagar os custos do BES, eu acredito assim como acreditei em Esopo.

A história da cigarra e da formiga mostra-nos que é importante precaver o futuro. A história da tartaruga e da lebre avisa-nos para os perigos da sobranceria. E a história de Cavaco ensina-nos que os contribuintes não vão pagar o BES.

Há apenas uma diferença entre as fábulas clássicas e as do Presidente da República: as clássicas costumam acabar com uma moral; as de Cavaco, por se debruçarem sobre a nossa economia, terminam quase sempre com uma imoral. Também ensinam uma lição, mas é uma lição um pouco mais dolorosa.

Ricardo Araújo Pereira | | 7 comentários

Quando o ministério não tem juízo, o corpo docente é que paga

O professor A é do Algarve e vai dar aulas para Trás-os-Montes. O professor B é de Lisboa e vai dar aulas para Braga. Após consultarem a internet, descobrem no mesmo dia que foram colocados por engano. Sabendo que ambos tomam o comboio das 8h20, qual chega primeiro ao centro de emprego?

Eu tinha 14 anos e considerava que se estava a perder demasiado tempo com a influência da continentalidade nas amplitudes térmicas. Portanto, fiz o que tinha a fazer.

Fui à horta que havia por trás dos campos de futebol e apanhei um gafanhoto. Antes de o professor de geografia chegar, coloquei o gafanhoto debaixo da sua secretária.

Não resultou. Assim que o professor se sentou, o gafanhoto saltou para a janela e saiu da sala. O professor nem chegou a vê-lo. E passou mais 50 minutos a falar impunemente sobre o facto de as zonas costeiras serem mais amenas que as áreas do interior.

Aos 14 anos ninguém sabe imaginar estratagemas que transtornem verdadeiramente a vida dos professores.

Aos 62, Nuno Crato, o ministro da Educação, tem a maturidade que me faltava para inventar as melhores partidas.

Primeiro, colocou professores de Coimbra, por exemplo, em Faro. Esperou que alugassem casa, que instalassem a família, que adaptassem a vida à nova realidade.

Depois, anunciou que tinha havido um engano e que a colocação havia sido anulada. Isto é que é uma partida. Não sei se o ministro aceita sugestões, mas talvez fosse engraçado que, quando o professor se dirigisse ao ministério para se informar sobre as suas alternativas, lhe entregassem um envelope com um gafanhoto lá dentro.

Como sempre, os professores não têm sentido de humor suficiente para entrar na brincadeira. Levam a mal, protestam, queixam-se. Resistem a ver esta balbúrdia como uma oportunidade. Eu, sendo professor, aproveitava o estilo de vida que o ministério proporciona e adquiria imediatamente 20 ovelhas. O nomadismo é ideal para a pastorícia, e as constantes mudanças na colocação contribuiriam para que eu ficasse com um rebanho forte e lucrativo. Quanto menos aulas desse, mais tempo teria para vender lã, queijo e borregos.

Há quem oferença o corpo à ciência. Neste momento, os professores podem oferecer o corpo à educação, na medida em que as suas vidas parecem um daqueles problemas matemáticos: "o professor A é do Algarve e vai dar aulas para Trás-os-Montes. O professor B é de Lisboa e vai dar aulas para Braga. Após consultarem a internet, descobrem no mesmo dia que foram colocados por engano. Sabendo que ambos tomam o comboio das 8h20, qual chega primeiro ao centro de emprego?".

Nem todos temos a honra de poder dar um contributo tão grande para o bem da Humanidade. Os professores têm e ainda reclamam.

Ricardo Araújo Pereira, (crónica publicada na VISÃO 1127, de 9 de outubro) | | 9 comentários

Porteiro do Ritz apresenta currículo à Tecnoforma

Li com muito agrado a entrevista do antigo proprietário da V. excelente empresa, na qual elogia o vosso ex-funcionário Pedro Passos Coelho por, e cito, "abrir todas as portas". Confesso que me comovi quando constatei que a abertura de portas era, finalmente, valorizada como merece

Exmos. Srs., 

Desejo candidatar-me a um lugar na V. excelente empresa beneficiando do inovador modelo remuneratório que consiste na substituição do salário pelo pagamento de despesas de representação. Proponho representar a V. excelente empresa em vários sítios e ocasiões, a saber: em três refeições diárias; em todas as minhas deslocações; e num escritório localizado em minha casa, cujas renda, água, luz e telefone ficarão, por isso, a vosso cargo.  

O facto de abdicar por completo de um salário não significa que o trabalho que desenvolverei não tenha valor - muito pelo contrário. Tenho várias ideias que gostaria de pôr em prática ao serviço de V. Exas. Acompanhei com interesse o processo através do qual a V. excelente empresa obteve financiamento no valor de 1,2 milhões de euros com o objectivo de formar cerca de 500 técnicos municipais para trabalharem em sete pistas de aviação e dois heliportos que têm hoje, no total, sete funcionários. O projecto falhou, e a Tecnoforma terá acabado por receber apenas 311 mil euros para formar 122 pessoas. Creio que o problema poderia ter sido resolvido com facilidade acrescentando à formação a formação de formadores. A formação é extremamente importante. Nessa medida, é fundamental garantir que os formadores estão aptos a ministrá-la correctamente. Como? Através da formação de formadores. Neste ponto, coloca-se um problema: como garantir que os formadores de formadores recebem formação de qualidade? A resposta é evidente: através da formação de formadores de formadores. E assim sucessivamente, numa espécie de mise en abyme formativo. Esta matrioska educacional permitiria não só esgotar o subsídio europeu de 1,2 milhões como também candidatar a empresa a novos subsídios, na medida em que a formação de formadores, por ser mais especializada, é mais cara do que a mera formação. O mesmo vale para a formação de formadores de formadores, em comparação com a simples formação de formadores. 

Acresce a tudo isto que a V. excelente empresa formou funcionários para trabalharem em aeródromos sem actividade, ou com actividade residual. Ora, como é sabido, a gestão e controlo de aviões provoca forte ansiedade. Mas a gestão e controlo de aviões que não existem tem potencial para provocar ansiedade ainda maior. Trata-se de uma espécie de "À Espera de Godot" aeronáutico. É uma tarefa muito inquietante, e nessa medida deve requerer formação adicional.  Por último, li com muito agrado a entrevista do antigo proprietário da V. excelente empresa, na qual elogia o vosso ex-funcionário Pedro Passos Coelho por, e cito, "abrir todas as portas". Confesso que me comovi quando constatei que a abertura de portas era, finalmente, valorizada como merece. Tendo em conta a minha experiência de cerca de 20 anos precisamente nessa área, creio que sou um bom candidato a desempenhar funções na Tecnoforma. 

Aguardo notícias de V. Exas

Ricardo Araújo Pereira | | 53 comentários

Querido Portugal,

ou há regular funcionamento das instituições, ou há céu pouco nublado ou limpo. Vê lá isso, por favor

Temos de falar. Como sabes, o meu amor por ti tem resistido a tudo. Tu és pobre, sujo em vários sítios e estúpido muitas vezes. Mas há em ti uma certa ingenuidade que faz com que até os teus defeitos - e são tantos - me seduzam. Na maior parte das vezes não és mau, és só malandro. E tens três qualidades que compensam tudo o resto: a comida, a língua e o clima. Era precisamente sobre isto que te queria falar. Andas a desleixar-te. A comida já foi melhor. Bem sei que a culpa não é só tua. A União Europeia proíbe umas coisas, os nutricionistas desaconselham outras. Mas já não se encontram jaquinzinhos, os restaurantes receiam fazer cabidela e a medicina parece ter arranjado um método infalível para determinar o que é prejudicial à saúde: se sabe bem, faz mal.

A língua também já não é o que era. Não me entendas mal: continua a ser a tua maior virtude. Não sei como é possível uma pessoa exprimir-se numa dessas línguas bárbaras que não distinguem o ser do estar. Embora os franceses e os ingleses, aparentemente, não o saibam, ser bêbado é muito diferente de estar bêbado. Mas, quando eu era pequeno, setores era o nome que se dava aos professores. Hoje, setores é a versão actualizada da palavra sectores. Na escola, os setores explicam o que os setores são. No meu tempo, o sector primário era a área de actividade que compreendia a agricultura e outras formas de produção de matérias-primas, e um setor primário era um professor do ensino básico. Agora, é tudo a mesma coisa, assim como "être" e "to be" significam tanto ser como estar.

Outra coisa: isto do clima não pode continuar. Este verão foi muito fraco. Houve pouco sol e a água estava fria. Não se admite. A gente tolera a corrupção, a injustiça, a inveja, o subdesenvolvimento e tudo o mais que tu conseguires gerar. Mas tem de estar sol. Se é para não haver verão, nem subtilezas linguísticas, nem papas de sarrabulho, mais vale irmos para a Finlândia, onde as coisas funcionam. ?E a moral sexual das moças nórdicas é muito mais relaxada. Tens de escolher: ou há regular funcionamento das instituições, ou há céu pouco nublado ou limpo. Vê lá isso, por favor.

Um grande beijo,

Ricardo

Ricardo Araújo Pereira, (crónica publicada na VISÃO 1125, de 25 de setembro) | | 8 comentários

A obra perdida de Samuel Beckett

- Isso fica-te mal, António. O que tu estás a fazer ao PS não se faz. O meu vídeo demonstra isso muito bem

(Sobe o pano. Dois vagabundos estão enterrados num monte de areia. Só lhes vemos as cabeças, de modo a que pareçam ter o mesmo corpo, sob a areia. O facto de ambos se chamarem António reforça essa ideia.)

- Boa noite.

- Isso fica-te mal, António.

- Foi só uma saudação.

- É a saudação típica dos doutores de Lisboa. No país real, as pessoas cumprimentam-se de outra forma. Devias ter dito: "Está bom, ti Manel?"

- Tu chamas-te António.

- Não interessa.

- Bom, vamos ao essencial: eu sou mais fotogénico do que tu, António. ?E tenho a voz mais grossa.

- Isso fica-te mal, António. O que tu estás a fazer ao PS não se faz. O meu vídeo demonstra isso muito bem.

- Aquele vídeo é da tua campanha? Pensei que fosse da minha.

- Não, vê-se bem que é da minha. Estou lá eu, a colocar terra num balde, simbolizando o terreno que preparei...

- Pensei que isso simbolizava o tempo que passaste a enterrar o PS.

- Isso fica-te mal, António. Depois começo a regar...

- Aquilo é regar? Eu achei que simbolizava o balde de água fria que foram os resultados das europeias.

- ... e depois tu apareces e colhes o cravo que eu fiz crescer.

- Bom, mas nesse caso o vídeo é muito ofensivo para mim.

- Não te admito, António. A rábula do ofendido é minha. Escolhe outra estratégia. Porque é que o vídeo te ofende?

- Porque eu apareço a colher o cravo. Tu sabes que eu sou de origem goesa. É uma referência muito rasteira ao facto de os indianos andarem sempre com flores.

- Que disparate. Estou ofendido com o facto de te sentires ofendido, António.

- Estas ofensas pessoais são consequência da tua falta de ideias. Só tens seis propostas e meia.

- Sempre são seis propostas e meia a mais do que tu tens.

- É falso. Sei exactamente o que é necessário fazer. O País precisa de fisioterapia. E eu preciso de metáforas melhores.

- O que tu estás a fazer é uma grande deslealdade, António. Eu ando a esgravatar desde o tempo da JS. Ali, caladinho, a trabalhar o partido para finalmente tomar o poder. E agora apareces tu, de repente, para receber os louros.

- Por falar em aparecer de repente: como é que tu conseguiste ser o primeiro a aparecer na entrada do Altis quando o Sócrates perdeu as eleições? Foste pelo elevador de serviço?

- Não compares. A tua deslealdade é maior que a minha, António. Eu passei os últimos três anos a percorrer o País, em almoços com militantes. Eu já não posso ver carne assada, António. E agora tu, que nem tens posição acerca do défice e da dívida, queres apropriar-te do meu trabalho.

- Eu tenho coisas maravilhosas para dizer sobre o défice e a dívida, mas este não é o momento indicado. Há demasiadas variáveis. Temos de esperar até as variáveis pararem de variar. Enquanto o mundo não parar quieto, não vale a pena falar sobre o défice e a dívida.

- Isso fica-te mal, António.

- Eu nem percebo porque é que tu fazes tanto finca-pé em disputares as legislativas se já prometeste que te vais demitir quando fores primeiro-ministro.

- Só me demito se tiver de aumentar os impostos.

- Nos últimos 40 anos, conheces algum primeiro-ministro que não tenha aumentado os impostos?

- Isso é verdade. Mas fica-te mal, António.

- O que é que achas do vestido de lantejoulas que eu estou a usar hoje?

- Fica-te mal, António.

(Cai o pano)

Clube dos socialistas mortos

Na qualidade de socialista falecido em 2005, venho felicitar a sua federação por possibilitar a participação de mortos no processo eleitoral

Exmo. Sr. Presidente da Federação do PS de Braga,

Na qualidade de socialista falecido em 2005, venho felicitar a sua federação por possibilitar a participação de mortos no processo eleitoral. Durante demasiado tempo, só pessoas vivas eram chamadas a votar, pelo que se saúda o alargamento do espectro eleitoral a espectros eleitores. A iniciativa de V. Exa. produz efeitos ideológicos que, tenho a certeza, hão-de marcar a história do socialismo. A velha divisa cubana "Socialismo ou morte" terá de merecer actualização, na medida em que a federação socialista de Braga demonstra que socialismo e morte não são conceitos que se excluam. Talvez em Cuba os cidadãos sejam obrigados a escolher "socialismo ou morte", mas em Braga podemos ter "socialismo e morte", tudo ao mesmo tempo. É, literalmente, o melhor de dois mundos: este e o outro.

Note que não falo em nome dos mortos-vivos, mas sim dos muito mais prosaicos mortos. Os mortos-vivos, pese embora a fama de que vêm gozando, não merecem direito de voto. As criaturas lendárias já estão muito bem representadas na vida política pelos vampiros. Acrescentar os mortos-vivos seria redundante. Os mortos, em contrapartida, nunca obtiveram representação política. O falecimento, ocorrência tantas vezes alheia à vontade do cidadão, retira-lhe o direito de voto, sem que seja apresentada uma justificação válida. A ausência de actividade cerebral não serve de desculpa, uma vez que também se verifica, quer em outros eleitores, quer em boa parte dos eleitos.

Como é evidente, coloca-se a questão de saber de que modo pode o morto participar no processo eleitoral, dadas as suas limitações. Neste ponto, permita-me que lhe apresente o meu sobrinho Nelson, que é bruxo em Esposende. É a ele que estou a ditar estas palavras. Por uma verba simbólica, o Nelson está disponível para colaborar com a concelhia do PS, transmitindo aos seus dirigentes a posição política de um vasto leque de defuntos. Todos os dias, o Nelson recebe a visita de inúmeras almas de antigos socialistas, ansiosos por participar na vida partidária. O morto, hoje em dia, já não se satisfaz com as tradicionais aparições fantasmagóricas em casa dos familiares para bater com portas e abrir torneiras. O defunto moderno quer continuar a ter uma palavra a dizer na vida cívica. O meu sobrinho Nelson pode ajudar a concelhia a registar as opiniões de antigos socialistas, por apenas dois euros por alma. No entanto, o Nelson está preparado para lhe oferecer um preço especial por atacado, a saber: 15 euros por cada palete de 10 defuntos.

Creia que somos muitos, neste lado, a querer participar. E está aqui um senhor chamado Engels que quer dar uma palavrinha a V. Exa. acerca do que é, na verdade, um partido socialista.

Com os melhores cumprimentos,

Fernando Manuel T. Guedes

Defunto

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1123, de 11 de setembro | | 16 comentários
Página 1 de 20 1 | 2 | 3 | 4 | 5 |
PUBLICIDADE
Visão nas Redes