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Um energúmeno sem qualidade

O curso de terrorismo que este delinquente frequentou foi, provavelmente, ministrado por uma espécie de Tecnoforma síria, mais interessada em recolher fundos do Estado Islâmico do que em fornecer formação criminosa de qualidade

O incidente ocorrido no comboio entre Amesterdão e Paris, em que um terrorista foi manietado por quatro passageiros, revela um aspecto que costuma ser pouco referido: estamos perante terrorismo de péssima qualidade. Esta é uma área na qual a incompetência se saúda. O criminoso estava armado de uma metralhadora, uma pistola e um x-acto, circunstância que chama imediatamente a atenção: a combinação de armamento de guerra com material escolar indica uma formação técnica bastante deficiente. Além disso, o terrorista deixou-se dominar por quatro turistas, sendo que um deles era um consultor informático sexagenário. Não deve haver muitas coisas mais humilhantes para um terrorista do que ser imobilizado por um idoso especialista em Java Script. O curso de terrorismo que este delinquente frequentou foi, provavelmente, ministrado por uma espécie de Tecnoforma síria, mais interessada em recolher fundos do Estado Islâmico do que em fornecer formação criminosa de qualidade. (Para efeitos legais, gostaria de declarar que, na minha opinião, os cursos da Tecnoforma eram muito bons, e que o facto de, segundo os jornais, terem sido dirigidos a 1063 formandos para nove aeródromos municipais, sendo que, desses nove, só três se encontravam em actividade, não indica - repito, não indica - que a empresa estivesse mais interessada em recolher fundos europeus do que em transmitir conhecimentos avançados sobre gestão aeroportuária.)

O caso do terrorista frustrado levanta ainda um problema filosófico interessante. O criminoso em causa é um energúmeno incompetente. Tem duas falhas graves: é energúmeno e é incompetente. No entanto, um energúmeno competente, que tem apenas um defeito, é pior do que este, cuja personalidade é duplamente imperfeita. Neste caso, quanto mais defeituoso, melhor. O que nos leva à questão, também difícil, do castigo a aplicar a um delinquente deste tipo. Se a nossa sociedade castiga um terrorista bem-sucedido, talvez devesse premiar, de algum modo, um terrorista incapaz de consumar o seu terror. Até para incentivar o alistamento de idiotas nas organizações criminosas. Se conseguirmos excluir a figura do "génio do crime", tão popular na ficção, e substituí-la, na vida real, pela figura do "imbecil do crime", teremos um mundo melhor. Sobretudo se recompensarmos os criminosos incompetentes do mesmo modo que recompensamos os heróis competentes. As homenagens devem fazer-se em vida.

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica publicada na VISÃO 1173, de 27 de agosto) | | 1 comentário

Disseram bem de Portugal em Badajoz

Assim como, na homeopatia, as substâncias são muito diluídas em água, na homeopatia genealógica, a portugalidade é muito diluída no sangue. Mas continua presente

Pesquisando a expressão "português no topo do mundo", obtemos vários milhares de resultados no Google (a propósito, um português esteve a trabalhar durante cinco anos e meio na Google, no topo do mundo da tecnologia). Pesquisando "englishman on top of the world" obtemos 1 (um) resultado. É natural: o topo do mundo está tão cheio de portugueses que acaba por não haver espaço para mais ninguém. O topo do mundo deve ser bastante exíguo, e os ingleses, tradicionalmente menos bem sucedidos do que nós, têm de contentar-se com um cantinho.

Alguns exemplos mais ou menos recentes de portugueses que, segundo a imprensa, estão no topo do mundo: dois presidentes de bancos estrangeiros, um ciclista que corre por uma equipa estrangeira, um futebolista que joga numa equipa estrangeira, um treinador que orienta uma equipa estrangeira, um chef que cozinha num restaurante estrangeiro, um actor que protagoniza séries e filmes estrangeiros. De acordo com o Diário de Notícias, há ainda "Um português no topo do mundo dos seguros". O fascinante mundo dos seguros, tantas vezes injustamente esquecido pela imprensa, obteve merecida atenção quando um português ocupou o seu topo. Estes casos são curiosos na medida em que os portugueses só atingem o topo quando trabalham para estrangeiros. Portugal é uma planície. O topo do mundo encontra-se sempre no escritório de empresas estrangeiras. Os estrangeiros sabem onde fica o topo do mundo, mas têm perfeita consciência de que só um português o pode ocupar. E nós sabemos que só chegámos ao topo do mundo quando um estrangeiro o afirma.

Outro fenómeno curioso é o da homeopatia genealógica. Assim como, na homeopatia, as substâncias são muito diluídas em água, na homeopatia genealógica, a portugalidade é muito diluída no sangue. Mas continua presente. É por isso que os nossos jornais celebram os óscares ganhos por Tom Hanks, cuja mãe tem ascendência portuguesa, ou os emmys de Katy Perry, que tem um tetravô açoriano. Ficámos felizes e orgulhosos quando o DN anunciou que o novo director do La Scala era o austríaco Alexander Pereira, uma vez que descende de portugueses que emigraram para Viena no século XVIII.

Esta semana, nova alegria. Segundo o Jornal de Notícias, "os manequins portugueses Kevin e Jonathan Sampaio marcaram presença" (apelo à calma) "na festa do 57.º aniversário" de Madonna. A notícia, intitulada "Madonna fez 57 anos e os gémeos Sampaio foram à festa", informa ainda que "a intérprete de êxitos como Like a Virgin e Ray of Light também mostrou alguns momentos da festa na sua página oficial de Facebook. Numa imagem surge com a filha, Lourdes, de 18 anos e, noutra, com um dos presentes: um cãozinho, a que deu o nome de Gipsy Rosa Lee." Só quatro convidados de uma festa que se imagina grandiosa tiveram direito a destaque: a filha de Madonna, um cãozinho e os dois gémeos portugueses. Vamos lá, todos comigo: Por-tu-gal! Por-tu-gal! Por-tu-gal!

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica publicada na VISÃO 1172, de 21 de agosto) | | 8 comentários

Desempregado: procura-se

O PS poderia ter recorrido a uma pessoa cujo nível de vida desceu incontestavelmente durante a governação de Passos Coelho e reside agora num T0, em Évora (sendo que, além do mais, a pessoa em causa tem experiência anterior no que respeita a protagonizar cartazes do partido)

Quando se descobriu que um cartaz do PS continha uma falsidade, fui tomado por um niilismo tão intenso que Nietzshe, junto de mim, é um crédulo consumidor de time sharing. Se até na propaganda política, outrora um refrescante oásis de pureza e de verdade, começamos a detectar mentiras, que esperança nos resta? E que dizer da passividade da CNE, perante uma situação desta gravidade?

Dediquei-me então a procurar, no meio destas inesperadas trevas, um raio de luz que alumiasse as nossas vidas. Felizmente, descobri vários. Receio mesmo ter ficado encadeado.

Vamos por partes. O cartaz mente, disso não há dúvidas. A senhora que aparece a dizer que está desempregada, na verdade, tem emprego. Ou seja, trata-se de uma mentira agradável. Recordo-me de um cartaz antigo do PS que anunciava 150 000 empregos, promessa que não foi cumprida. Este cartaz falha quando anuncia desemprego. Parece-me uma evolução. Em segundo lugar, ao que tudo indica, o PS não conseguiu encontrar, em Portugal, um verdadeiro desempregado para exibir. O que significa que o País está bastante melhor do que parece. Fica a nota de esperança. Mais: o cartaz revela que os socialistas não desejam tocar no tema sensível que mancharia a campanha. O PS poderia ter recorrido a uma pessoa cujo nível de vida desceu incontestavelmente durante a governação de Passos Coelho e reside agora num T0, em Évora (sendo que, além do mais, a pessoa em causa tem experiência anterior no que respeita a protagonizar cartazes do partido). Dando mostras de uma decência política notável, o PS optou por não o fazer.

Por causa da polémica, o director da campanha do PS demitiu-se. Isto é, perdeu o emprego. Também é azar: precisamente na altura em que podia ajudar a campanha, protagonizando um cartaz, já não trabalha nela. Há dias em que uma oposição não pode sair de casa. Entretanto, soube-se também que as pessoas que aparecem, sorridentes, nos cartazes da coligação, são figurantes estrangeiros. Ao contrário do que alguns pretendem, nada há de desonesto nessa circunstância, antes pelo contrário: é sabido que a governação do PSD e do CDS agradou muito mais a estrangeiros do que a portugueses. É natural que sejam eles a manifestar satisfação pelo trabalho do governo.

Ricardo Araújo Pereira | | 11 comentários

Introdução ao estudo da cavacada

Cavaco Silva disse: 'A zona do euro são 19 países. Eu espero que a Grécia não saia. Mas, se sair, ficam 18 países.' Estive a fazer contas e obtive o mesmo resultado

O pobre senhor de La Palice nunca terá proferido uma lapalissada. O que se passa é que o seu epitáfio dizia qualquer coisa como: "Aqui jaz o senhor de La Palice, que se não estivesse morto ainda faria inveja." Alguém tresleu maldosamente a palavra "envie" ("inveja") e tomou-a por "en vie", o que transformava o epitáfio no seguinte truísmo: "Aqui jaz o senhor de La Palice, que se não estivesse morto estaria ainda vivo." Cavaco não tem a desculpa do epitáfio. Há, neste momento, um razoável consenso entre especialistas no sentido de considerar que o Presidente se encontra ainda vivo. As cavacadas distinguem-se, por isso, das lapalissadas, na medida em que o seu autor é verdadeiramente responsável por elas. A cavacada é genuína, ao passo que a lapalissada não passa de um logro. A cavacada é a única que reúne condições, designadamente ao nível da certificação e da origem demarcada, para se candidatar a património imaterial da UNESCO, e no entanto é diariamente ultrapassada pela lapalissada em popularidade e prestígio.

Talvez as coisas estejam a mudar. Esta semana, Cavaco Silva disse: "A zona do euro são 19 países. Eu espero que a Grécia não saia. Mas, se sair, ficam 18 países." Estive a fazer contas e obtive o mesmo resultado. Esta cavacada não é, porém, uma cavacada qualquer. Trata-se de uma banalidade que banaliza, o que constitui uma inovação na história das platitudes. Uma coisa é dizer: "O Carlinhos tem 19 maçãs. Se perder uma, fica com 18 maçãs." É apenas uma banalidade. Mas, se a maçã que o Carlinhos perder conseguir bichar as outras 18 maçãs, ou transformar as outras 18 maçãs em maçãs mais pequeninas, ou em 17 maçãs, a mera aritmética não consegue explicar a catástrofe que se abaterá sobre a fruteira do Carlinhos.

É possível que se torne mais claro o efeito da fria utilização de uma subtracção simples para descrever perdas na zona euro se a aplicarmos, digamos, num velório. Imagino que Cavaco se aproxime de um familiar enlutado e diga: "Soube que um dos seus progenitores morreu. De acordo com as minhas contas, ainda lhe sobra um." É verdade, mas acaba por confortar pouco.

Proferida a cavacada, o Presidente acrescentou ainda: "Eu penso que o euro não vai fracassar." Uma vez que se trata do mesmo vidente que profetizou que os portugueses podiam confiar no BES, gostaria de comunicar ao sector bancário que, a partir deste momento, estou comprador de dólares.  

Nota: Ricardo Araújo Pereira vai de férias em julho. A Boca do Inferno regressa em agosto

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica c/ ilustração de João Fazenda publicadas na VISÃO 1165, de 2 de julho) | | 27 comentários

Sócrates sempre, Passos mais quatro anos

Ao mesmo tempo que é cada vez mais frequente o aparecimento de cartazes com a frase 'José Sócrates Sempre', uma sondagem indica que a coligação governamental está à frente nas intenções de voto

Gostaria de convidar o leitor a considerar os seguintes factos: ao mesmo tempo que é cada vez mais frequente o aparecimento de cartazes com a frase "José Sócrates Sempre", uma sondagem indica que a coligação governamental está à frente nas intenções de voto. O povo português tem muito apreço por maus governantes, circunstância que levanta algumas questões de psicologia colectiva. Estudos que se debruçam sobre as razões pelas quais algumas mulheres não abandonam os maridos que as maltratam podem ajudar-nos a compreender a psique nacional, uma vez que a relação que mantemos com o governo é, pelos vistos, muito parecida. Um conjunto de razões tem a ver com o receio do que o marido possa fazer se a mulher o abandonar. Por exemplo, as mulheres temem que o marido lhes leve os filhos. Na nossa relação com o poder político, este medo não se aplica. O governo não só não tem interesse em levar-nos as crianças como tem criado condições para que os nossos filhos residam em nossas casas até terem 40 anos.

Outro factor é o medo de que o marido enfurecido comece a espalhar calúnias sobre a mulher. Também não me parece que se aplique, uma vez que o governo já faz isso mesmo sem que nós o abandonemos. Desde piegas até calões que vivem acima das suas possibilidades, já nos chamaram tudo.

Outra razão para permanecer junto de um marido que inflige maus-tratos é o facto de ele manietar os movimentos da mulher, por exemplo não a deixando sair de casa. Também aqui, o caso é diferente. O governo até nos encoraja a emigrar.

Mais um motivo: a dependência económica. E, mais uma vez, não se aplica. O governo é que depende economicamente de uma mesada que lhe damos chamada IRS.

Há outros tipos de razões que podem impedir uma mulher de se libertar de uma relação violenta. Por exemplo, uma auto-estima baixa, que a faz pensar que não merece melhor. É possível que o povo português acredite que não merece melhor do que os governos que tem tido. Só um povo com uma auto-estima muito baixa se entusiasma com notícias do género "Cão de Barack Obama é um cão de água português". Se Cavaco Silva arranjar um pastor alemão, tenho quase a certeza de que notícia não aparecerá na imprensa germânica.

Por vezes, as mulheres vítimas de violência doméstica consideram que a sua situação é normal, uma vez que as suas mães sofriam do mesmo mal. Creio que este fenómeno ocorre também na relação do povo português com o seu governo.?É normal que eu seja maltratado, porque o governo dos meus pais também era violento. Aliás, o governo deles até lhes batia.

(Crónica publicada na VISÃO 1164, de 25 de junho) | | 49 comentários

Governocar: o maior 'stand' da Europa

Adquirir dezenas de carros novos para o Governo ao mesmo tempo se viaja de avião em turística e se vai à praia de saco de plástico na mão é o equivalente ao método dietético daquelas pessoas que colocam adoçante no café enquanto comem um pastel de nata

Segundo o Jornal de Notícias, Cristiano Ronaldo tem 17 carros. Segundo o Correio da Manhã, Passos Coelho tem cinco. No dia 11 deste mês, o CM noticiou que chegaram 34 carros novos para os membros dos gabinetes do Governo, dos quais cinco para o gabinete do primeiro-ministro. A 24 de Agosto do ano passado, no entanto, o CM noticiava, citando fonte governamental, que o Governo tinha gasto um milhão de euros a renovar a frota de 56 chefes de gabinete dos ministérios. Mas a 18 de Outubro de 2013, o jornal i informava que, segundo um relatório da Entidade de Serviços Partilhados da Administração Pública, o Governo gastara 160 milhões de euros numa frota de 13.653 automóveis, que servia o Executivo e outros organismos estatais. Oito meses antes, a 25 de Fevereiro desse ano, o DN noticiava, citando outro documento da mesma entidade, que o Estado tinha 27.533 automóveis, incluindo veículos das forças de segurança. Ao serviço do Governo estavam 444 veículos, dos quais 186 para membros do Executivo e 258 para as secretarias-gerais. Mas menos de três anos antes, a 12 de Julho de 2010, o Sol dizia, citando a Presidência do Conselho de Ministros, que o Governo de Sócrates tinha renovado a frota do Estado comprando 922 automóveis, incluindo um Mercedes no valor de 134 mil euros para transportar altas individualidades estrangeiras e convidados.

Começa a ficar clara a razão pela qual há tanto trânsito em Lisboa. Ao domingo há a voltinha dos tristes, durante a semana há as voltinhas dos altos dignitários. As rubricas de trânsito, na televisão e na rádio, deviam incluir a rota dos membros do Executivo, para o cidadão poder escapar aos engarrafamentos. "Evite o eixo norte-sul porque há 17 secretários de Estado que moram em Telheiras e utilizam essa artéria. Trânsito complicado também na A5, devido ao elevado número de assessores residentes em Cascais, e no IC 19, por causa da comitiva do primeiro-ministro, vindo de Massamá."

Normalmente, esta atenção aos carros do Governo tem o seu quê de demagógico. Mesmo constatando que, ao que parece, a frota automóvel se renova com frequência semestral e esgota a produção de cinco Autoeuropas. Mas adquirir dezenas de carros novos para o Governo ao mesmo tempo se viaja de avião em turística e se vai à praia de saco de plástico na mão é o equivalente ao método dietético daquelas pessoas que colocam adoçante no café enquanto comem um pastel de nata. Passos Coelho precisa de um nutricionista de Estado.

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica e ilustração de João Fazenda publicadas na VISÃO 1163, de 18 de junho) | | 1 comentário

Onze para cada lado e no fim suborna a Alemanha

É uma vergonha que haja escândalos no futebol internacional e nós não participemos. Portugal: é a hora

Tudo o que sei sobre imoralidade, devo-o à FIFA. Não sei se o leitor reparou no que eu fiz aqui. Parafraseei a conhecida frase de Albert Camus: "Tudo o que sei sobre a moral, devo-o ao futebol." Está bem apanhado, não está? É pena que Camus já cá não esteja, para completar a sua educação: aprendia moralidade com o futebol e imoralidade com o organismo que manda no futebol.

As pessoas que não se interessam por futebol perderam esta semana, além de mais um curso completo de ética, aulas importantes de economia, geopolítica e direito internacional. Se o leitor deseja cultivar-se, devia assistir a um Paços de Ferreira-Marítimo. Para começar. Depois poderá ir evoluindo, devagarinho, para jogos mais complexos, até estar apto a acompanhar o processo de organização de um mundial. Nessa altura, poderá compreender a investigação que o jornal alemão Die Zeit divulgou esta semana. Parece que, há dez anos, a Alemanha enviou armas para a Arábia Saudita como forma de garantir que aquele país daria o seu voto aos germânicos para que estes pudessem organizar o campeonato do mundo de futebol, em 2006 - o que veio a suceder. Além disso, a Volkswagen e a Bayer prometeram fazer investimentos avultados na Coreia do Sul e na Tailândia se estes países votassem, igualmente, na Alemanha. Repare que o assunto é interessante e digno, uma vez que se trata de futebol e democracia, dado que o objectivo é ganhar uma eleição. Infelizmente, o voto de Portugal na FIFA não parece ser apetitoso e, pelo menos até agora, não há notícia de que nos tenham oferecido armas nem dinheiro. É uma pena, porque isso faria mais pelo desenvolvimento sustentado da economia portuguesa do que vários governos. Creio que Portugal deveria aplicar-se na exportação de votos. País que desejasse organizar o mundial poderia candidatar-se ao nosso voto favorável, mediante a apresentação de um caderno de investimentos. Além do voto, Portugal pode oferecer ainda uma ou outra infra-estrutura, caso o país interessado possua meios para desmontar e transportar estádios às peças, podendo para o efeito escolher entre o de Aveiro, o de Leiria e o do Algarve, por exemplo. Se a FIFA organizar um mundial de futebol de seis em seis meses, podemos livrar-nos da crise já em 2018. Se há coisa que não nos falta é gente com experiência em conspirar nos bastidores do futebol. Temos as competências, temos o chamado know-how, temos a experiência. É uma vergonha que haja escândalos no futebol internacional e nós não participemos. Portugal: é a hora.

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica publicada na VISÃO 1162, de 11 de junho) | | 7 comentários

Somos felizes e não sabemos

A confirmar-se que estamos felizes, talvez os portugueses queiram experimentar um pouco de sofrimento, para desenjoar de tanto nirvana

Quando Pedro Passos Coelho disse, esta semana, que a história dos últimos anos tinha tido um final feliz, muita gente discordou por considerar que isto que vivemos não é felicidade. Eu discordo porque acho que isto não é um final. O que é infeliz.

Cada um terá a sua noção de felicidade, mas é mais difícil divergir naquilo que é ou não um final. Podemos discutir se o copo está meio cheio ou menos vazio (embora, no que me diz respeito, seja raro ter inquietações filosóficas deste tipo, na medida em que bebo quase sempre pela garrafa), mas creio que ninguém hesita acerca do momento em que o copo está completamente vazio. Um final não costuma deixar dúvidas. Mas o FMI continua a vir cá periodicamente, o que parece indicar que isto ainda não acabou. Além de que costuma vir com propostas que não trazem grande felicidade.

No entanto, como já tive oportunidade de observar, com muita perspicácia, o conceito de felicidade muda de pessoa para pessoa. Os fetichistas de pés ficam felizes com a mera contemplação de pés. Talvez o primeiro-ministro seja um fetichista de desemprego. Ou de dívida. Ou de pobreza. Por outro lado, a felicidade do final de uma história depende de quem a conta. Uma história em que o Drácula consegue ferrar o dente no pescoço de um desgraçado não tem, em princípio, um final feliz. A menos que seja o Drácula a contá-la. Para nós, o governo de Durão Barroso não teve um final feliz. Até porque redundou em Santana Lopes. Mas, para Durão Barroso, foi das mais lindas histórias que já se escreveram.

Talvez o problema esteja no próprio conceito de felicidade. É possível que Passos Coelho se satisfaça com pouco (recordo que ele apreciava a companhia de Miguel Relvas). Mas, para o resto do País, creio que a notícia de que isto é felicidade foi recebida com desilusão. De duas, uma: ou a felicidade não é isto ou tem sido muito sobrevalorizada. A confirmar-se que estamos felizes, talvez os portugueses queiram experimentar um pouco de sofrimento, para desenjoar de tanto nirvana.

Há ainda outro problema no conceito de final feliz de Passos Coelho (tão diferente do de certas casas de massagem): para o primeiro-ministro, temos sido todos muito virtuosos. Temos feito sacrifícios, pago dívidas, trabalhado a dobrar (os que têm trabalho). Ora, de acordo com a minha experiência, não é possível ser virtuoso e feliz ao mesmo tempo. A maior parte das coisas que me fazem feliz não são virtuosas, e vice-versa. Ou bem que se é virtuoso, ou bem que se é feliz. Temos de optar. E Passos Coelho também.

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica e ilustração de João Fazenda publicadas na VISÃO 1161, de 4 de junho) | | 8 comentários

Anéis de ouro a um tostão

O 'Momento Mastóideo', que me orgulho de ter cunhado, ocorre sempre que uma tia da província se deixa impressionar pela erudição de um rico filho

Assistiu-se esta semana, na imprensa portuguesa, a mais um "Momento Mastóideo". O "Momento Mastóideo", que eu assinalo sempre que posso, é inspirado naquele passo do filme "A Canção de Lisboa" em que Vasco Santana, já reformado da vida boémia, responde a todas as questões do exame de medicina, incluindo à última, e mais difícil, sobre o esternocleidomastóideo. "Rico filho! Ele até sabe o que é o mastóideo!", comenta uma das tias da província, muito impressionada. O "Momento Mastóideo", que me orgulho de ter cunhado, ocorre sempre que uma tia da província se deixa impressionar pela erudição de um rico filho.

Esta semana, a tia da província foi o jornal Público. Três quartos da primeira página de domingo eram dedicados a um trabalho sobre linguagem corporal. O título era: "Os gestos que traíram os protagonistas do caso BES". Por baixo, dizia: "Um especialista em linguagem corporal analisou os depoimentos na comissão parlamentar de inquérito ao caso BES e chegou a conclusões surpreendentes." As conclusões surpreendentes são, em resumo, estas: todos, ou quase todos os inquiridos mentiram à comissão ou, pelo menos, não disseram tudo o que sabiam. Peço ao leitor que contenha a surpresa. Imagino os espasmos violentos que experimenta nesta altura. A culpa foi minha, que não o preveni para o assombro que ali vinha.

O rico filho é Rui Mergulhão Mendes (RMM), "especialista em apurar a veracidade de testemunhos através da linguagem corporal", a quem o Público pediu para analisar os depoimentos de Ricardo Salgado, Carlos Costa e outros. O jornal avisa que o especialista é "formado no Body Language Institute, de Washington". (Rico filho! Ele até estudou num instituto localizado no estrangeiro!) Quem desejar saber mais sobre este instituto deve dirigir--se ao site de Janine Driver, chamado "Lyin' Tamer" ("A Domadora de Mentirosos"), que é a fundadora, presidente e proprietária do prestigiado instituto. O site inclui um vídeo de um talk-show diurno em que Driver é convidada para dar conselhos acerca da linguagem corporal de senhoras que pretendem engatar cavalheiros em bares. E tem também uma ligação para o Body Language Institute, que promete "Cursos certificados para potenciar a confiança, o carisma e a carreira". Vê-se que RMM concluiu o curso com aproveitamento, porque apresentar-se como "especialista formado no Body Language Institute, de Washington" gera muito mais carisma do que dizer que se frequentou umas aulas ministradas por uma autora de livros de auto-ajuda. De acordo com o Público, os especialistas em linguagem corporal são tão importantes que "os canais de televisão norte-americanos convocam regularmente peritos na análise da linguagem não-verbal para comentarem, em horário nobre, os casos mediáticos". (Ricos filhos! Eles até são convidados para falar nas televisões da América! E em horário nobre!) Não admira, por isso, que a análise de RMM tenha detectado, segundo o Público, "muitos indícios de mentiras, inverdades, omissões, lapsos linguísticos e incongruências". Como é evidente, eu, que ainda hoje não sou capaz de distinguir uma mentira de uma inverdade, quis saber mais sobre o estudo do especialista.

O método de detecção de mentiras (e também de inverdades) consiste na análise de "micro-expressões". RMM observou "assimetrias nas sobrancelhas" de Álvaro Sobrinho, "desaparecimento corporal" em Ricardo Salgado, um "leve levantamento do lábio superior" em Carlos Tavares, um "fechar mais prolongado dos olhos" em Zeinal Bava, um "microtoque no nariz" de Paulo Portas e um "levantamento assimétrico de um dos cantos da boca" em Granadeiro. Quase todos os inquiridos recorreram ao igualmente suspeito "acto de ventilar". No entanto, o especialista dedicou a maior parte da sua atenção a comichões. Neste ponto, o Público pergunta, e bem: "Como distinguir uma simples comichão, normal, de um sinal emocional?" RMM tem experiência em destrinçar comichões e não se atrapalha: "Não há comichões por acaso. Os micropruridos que aparecem na cara surgem por indicação do nosso cérebro. Pica-nos ali e não é sem querer. Porque é que tocar no nariz está tão associado à questão da mentira? Porque irrigamos mais sangue e a extremidade do nariz é mais sensível e o sangue jorrou ali ou faltou (...). E faz comichão. (...) Quando ocorre um pico de comichão e nós coçamos, geramos uma sensação de acalmia, é uma forma micro de nos pacificarmos (...)." Para uma pessoa que, como eu, passa grande parte do dia a coçar-se, esta revelação é perturbadora. Eu minto quando estou a ler, minto a ver televisão, por vezes minto até a dormir.

RMM avança ainda com uma descoberta que escapou a todos, incluindo aos deputados da comissão que, distraídos com insignificâncias como o conteúdo dos testemunhos, também já tinham deixado passar em claro a maior parte das comichões: "Há um pormenor curioso: Portas e Salgado iam rigorosamente vestidos da mesma forma, com a mesma gravata, o mesmo casaco, a mesma camisa. O que nada nos diz sobre linguagem corporal, mas não deixa de ser interessante." Muito, muito interessante. Acabo, aliás, de fundar o Instituto da Indumentária Equivalente, cujo objecto de estudo é, precisamente, a influência da alfaiataria nas comissões de inquérito. Fico à espera do telefonema do Público. Temos primeira página para o próximo domingo.

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica publicada na VISÃO 1160, de 28 de maio) | | 7 comentários

Precisa-se: arguido

Depois do encarceramento de um Sócrates, não sei se Portugal aguentaria a prisão de um Marco António. Uma coisa é sermos um país de gente corrupta, outra coisa é sermos uma revista à portuguesa passada na antiguidade clássica

 


 

Marco António Costa, vice-presidente do PSD, está a ser investigado pelo Departamento de Investigação e Acção Penal do Porto. Espero, sinceramente, que seja inocente. Depois do encarceramento de um Sócrates, não sei se Portugal aguentaria a prisão de um Marco António. Uma coisa é sermos um país de gente corrupta, outra coisa é sermos uma revista à portuguesa passada na antiguidade clássica. A ignomínia aguenta-se melhor que o ridículo. Por sorte não existem, na política portuguesa, Anaximandros nem Dioclecianos, pelo que, em princípio, bastará manter Marco António fora da cadeia para evitar um enxovalho embaraçoso.

Admito que faz falta um bom arguido do PSD para equilibrar as contas com o PS. Os socialistas têm Armando Vara, um ex-ministro, a aguardar recurso de uma condenação a cinco anos de prisão; os sociais-democratas têm Duarte Lima, um antigo presidente do grupo parlamentar, a aguardar recurso de uma condenação a 10 anos de prisão. Fica quase ela por ela. Mas agora os socialistas têm um ex-primeiro--ministro preso, a aguardar acusação, e os sociais-democratas têm todas as suas grandes figuras em liberdade - o que se lamenta e estranha. Não contabilizo aqui, até por razões de espaço, outros dirigentes políticos, de ambos os partidos, sobre os quais recaem suspeitas de crimes de vários tipos. Desejo dedicar-me apenas à Liga dos Campeões dos sarilhos jurídicos, onde o PS se encontra em vantagem, com dois elementos proeminentes contra apenas um do PSD. Esta questão é muito importante porque, não havendo equilíbrio no número de potenciais trafulhas, a campanha eleitoral irá centrar-se no problema acessório de saber qual dos partidos tem mais bandidos, em lugar de servir para discutir vários outros problemas acessórios. Tendo apenas um tema acessório para debater, os partidos correm o risco de ficar sem assunto antes do fim da campanha, e podem ver-se forçados a debater as questões essenciais, embora ninguém saiba exactamente quais são. Mas, nestas coisas, é melhor não arriscar.

Se o filho de uma pessoa for preso por homicídio, o seu vizinho passa a poder gabar o seu próprio filho, que apenas furta auto-rádios. A detenção de José Sócrates teve um impacto tão grande na vida política que Passos Coelho sentiu que até podia elogiar Dias Loureiro numa queijaria. ?Ou se encarcera um alto dignitário do PSD depressa, ou nos arriscamos a ver Valentim Loureiro receber um doutoramento honoris causa.

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica e ilustração de João Fazenda publicadas na VISÃO 1159, de 21 de maio) | | 10 comentários
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