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Crítica de cinema

Creio que a vontade de imitar as práticas publicitadas no filme configura mesmo um caso de novo-riquismo sexual
Neste momento, o filme mais visto do ano, em Portugal, é Velocidade Furiosa 7. Acaba por ser uma homenagem póstuma bastante terna do povo português ao mestre Manoel de Oliveira, cuja ideia de cinema era permeada pela velocidade furiosa enquanto valor estético fundamental. A segunda película mais vista do ano é As 50 sombras de Grey, o que faz sentido: um filme é sobre sinistralidade rodoviária e outro é sobre violência doméstica - dois temas centrais na actualidade portuguesa. Confesso que não vi nenhum dos filmes, na medida em que aprecio condução segura e sexo, digamos, gandhiano. Sou pela não-violência no leito. Rejeito tudo o que vá além daquelas tradicionais formas de ternura bruta, produto do entusiasmo, a saber: a palmada firme mas suave e o apertão ameno. Gostaria, aliás, de aproveitar este espaço para lamentar que as pessoas que repudiam o tipo de sexualidade que se pratica em As 50 Sombras de Grey sejam com frequência reputadas de enfadonhas e pouco modernas. Levar uma bolachada parece-me claramente nocivo para a lubricidade não só porque se assemelha menos a uma manifestação de regozijo e mais a um castigo por um trabalho mal feito, mas também porque me transmite a sensação inquietante de estar na cama com Trinitá, o caubói insolente. Creio que a vontade de imitar as práticas publicitadas no filme configura mesmo um caso de novo-riquismo sexual. Por causa destas objecções ideológicas, prefiro debater ambas as películas sem proceder ao seu visionamento - que, na maior parte dos casos, só atrapalha.

O aspecto mais saliente da série Velocidade Furiosa - ao menos para quem, como eu, só assistiu aos trailers - é que não só é difícil distinguir os filmes entre si como é difícil distingui-los do grande prémio de Silverstone. Os actores praticam um estilo de condução extremamente ousado, excepto na estrada nacional 1, onde se considera que este modo de conduzir é próprio de choninhas que não andam nem deixam andar.

Quanto a As 50 Sombras de Grey, creio que se trata de um filme bastante irrealista, uma vez que um jovem milionário com aquele aspecto não se relaciona com uma rapariga daquelas. Relaciona-se com 17 raparigas daquelas.

Deve registar-se, no entanto, que Hollywood parece estar a produzir cinema baseado nos temas da sociedade portuguesa, pelo que devem esperar-se para breve películas sobre incêndios florestais e greves nos transportes. Cá estaremos para apreciar, com toda a atenção, os trailers

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1154, de 16 de abril | | Comente

Fluxo de inconsciência

Aguiar Branco justificou as suas declarações com um lapsus linguae. Não é uma desculpa aceitável. Trata-se, de facto, de um lapsus, mas a linguae não tem culpa nenhuma
"(...) até acho que, nesse aspecto, nessa coincidência, tem a felicidade de ser no mesmo momento em que outro grande português também nos deixa e por isso, nessa dimensão, é uma felicidade poder sê-lo e partilhar o momento com o mestre (...)."

José Pedro Aguiar Branco, sobre o facto de Silva Lopes ter morrido no mesmo dia de Manoel de Oliveira

Quando o ministro Aguiar Branco publicou um esclarecimento sobre estas declarações, dizendo que pretendia evitar que alguns fizessem uma utilização perversa das suas palavras, fiquei muito surpreendido. Normalmente, sou dos primeiros a fazer utilizações perversas das palavras alheias, mas só quando as compreendo. O potencial de utilização perversa desta frase (digamos assim) tinha-me passado despercebido, uma vez que, nesse aspecto, nessa coincidência, nessa dimensão, eu não fazia ideia do que ele estava a falar. Avisado por Aguiar Branco, fui então reexaminar as afirmações de Aguiar Branco, e julgo estar neste momento em condições de fazer uma utilização perversa, quer das palavras iniciais, quer do esclarecimento publicado a seguir.

Aguiar Branco justificou as suas declarações com um lapsus linguae. Não é uma desculpa aceitável. Trata-se, de facto, de um lapsus, mas a linguae não tem culpa nenhuma. Um lapsus linguae é, por exemplo, dizer "na praça vou ao domingo" em vez de "no domingo vou à praça". Aquela algaraviada sobre a felicidade da coincidência de um grande português que pode sê-lo também por isso no mesmo momento, não é um lapsus linguae. Creio que se trata do modo narrativo conhecido por fluxo de consciência, em que são reproduzidas as complexidades do processo mental das personagens. O fluxo de Aguiar Branco é particularmente torrencial, pelo que, como é óbvio, estilhaça as regras da sintaxe. Comparado com o pensamento de Aguiar Branco, o de Benjy Compson* é organizado e límpido. Ainda assim, é possível recolher, na estranha amálgama de vocábulos proferida pelo ministro, três magníficos conceitos novos.

O primeiro conceito é o do óbito sincronizado. Aguiar Branco assinala, e bem, a coincidência de terem morrido duas pessoas no mesmo dia. Esse acaso é, para o ministro, uma felicidade. Esta hipótese de encontrar felicidade num momento que, até aqui, se considerava ser pouco feliz, pode levar a que as pessoas pretendam sincronizar o seu óbito com o de figuras que admiram, buscando felicidade idêntica.

O segundo conceito é o do falecimento de prestígio. Está ligado ao óbito sincronizado, na medida em que o prestígio advém da coincidência dos óbitos, mas aprofunda a relação entre os dois finados, uma vez que um, além da felicidade que proporciona ao outro, ainda lhe confere uma notoriedade adicional.

O último conceito é o do defunto pendura. Não se pode ignorar que, neste jogo de passamentos, há um defunto mais prestigiado que dá uma boleia de status ao outro, a caminho da eternidade. Quando pensávamos que a morte nos torna iguais uns aos outros, Aguiar Branco consegue descobrir ainda um restinho de desigualdade, uma pole position rumo ao infinito.

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1153, de 9 de abril | | Comente

Aspectos da poesia de louvor a José Sócrates

Trata-se de uma poesia que lamenta não ter acesso a processos judiciais, o que é bastante original
Após a publicação do segundo hino de homenagem a José Sócrates, os principais observadores chegaram a algumas conclusões interessantes. A primeira, e mais evidente, foi esta: entre os maiores apoiantes do antigo primeiro-ministro, não há ninguém com ouvido para a música. Creio que talvez haja aqui uma precipitação. Na minha opinião, a desarmonia de ambas as canções pretende obter um efeito duplo: colocar em evidência o carácter também desarmónico da justiça portuguesa e infligir ao ouvinte um sofrimento semelhante ao que José Sócrates padece no cárcere. No segundo hino, os versos "se quiseres dizer presente / Portugal vai estar contigo / amanhã" parecem ser interpretados por um tecido de vozes que inclui um apreciador contumaz de bagaceiras, duas feirantes e um coro de, pelo menos, meia dúzia de leitões.

Nestes hinos de homenagem, a poesia é ainda mais interessante do que a música. O poema do primeiro hino é, à maneira de Neruda, uma canção desesperada. O poeta começa por interpelar o próprio Sócrates: "Diz-me porquê, diz-me / Nós não sabemos nada". Trata-se de uma poesia que lamenta não ter acesso a processos judiciais, o que é bastante original. Estamos perante um poema que substitui as perguntas, já estafadas, da poesia lírica (por exemplo: "Qual é a essência do amor?"), por uma questão que mergulha nos problemas concretos da vida ("Quais são, afinal, os fundamentos legais desta prisão preventiva?") A primeira quadra termina com a promessa "Mas resistiremos por ti / Até que seja madrugada", indicando que os apoiantes de Sócrates têm coisas combinadas para a manhã do dia seguinte. Resistem até de madrugada, mas depois, provavelmente, têm de ir trabalhar - o que volta a introduzir no poema um tom prosaico, lembrando uma vez mais que estamos a falar de gente de carne e osso, que sofre, trabalha e canta francamente mal. Mais à frente, surge um verso irónico: "Ser livre não tem preço". Uma evidente referência à liberdade de Ricardo Salgado, cujo preço foi, precisamente, três milhões de euros.

No segundo hino, o poema conta uma história: "Era uma vez uma criança / que sonhava ver nos montes ventoinhas a rodar". O poeta leva-nos para a infância de Sócrates, um menino que, como tantos, fantasiava com a instalação de dispositivos geradores de energias alternativas. A intenção do poema é óbvia: os projectos de José Sócrates foram sonhados na infância, e nenhuma criança sonha com corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais. O ex-primeiro-ministro continua a ser aquele menino, o que agrava o sentimento de injustiça relativamente à sua detenção. Não se pune um menino com a prisão. Orelhas de burro talvez sejam um castigo apropriado. Uma palmada, no máximo. É curioso notar que este menino venceu, nas eleições, outro menino, o menino guerreiro. Portugal é uma brincadeira de crianças. Isto de alguém acabar preso é uma novidade que sobressalta. Não admira que os poetas se agitem.

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1152, de 2 de abril | | 3 comentários

Acordar do sonho de mulher

"Pretty Woman" é protagonizado por duas pessoas: uma exerce uma actividade profissional moralmente duvidosa; a outra é uma prostituta

Celebra-se esta semana o 25.º aniversário da película "Pretty Woman", com Julia Roberts e Richard Gere. Muitas vezes descrito como uma comédia romântica, o filme é, em muitos aspectos, uma obra de ficção científica. "Pretty Woman" é protagonizado por duas pessoas: uma exerce uma actividade profissional moralmente duvidosa; a outra é uma prostituta. No entanto, a prostituta sofre maior discriminação social do que o empresário que ganha a vida a fechar empresas e a despedir pessoas.

O primeiro facto fantasioso não é esse. O filme começa com um homem a parar o carro para pedir indicações a uma mulher. Comparada com isto, a Guerra das Estrelas é mais realista que Flaubert. Poucos homens param para pedir indicações, e os que o fazem não pedem indicações a mulheres, como é evidente. É um facto cientificamente comprovado que as mulheres não sabem orientar-se na estrada.

O segundo facto incrível é este: a prostituta, que tem a aparência da maior estrela de Hollywood e cobra 100 euros à hora, não tem dinheiro para pagar a renda do pardieiro em que vive. Percebemos imediatamente que se trata da prostituta mais casta da história da prostituição. Fica claro que o príncipe encantado (o psicopata social que destrói postos de trabalho) vai acabar por casar com ela, na medida em que só poderia apaixonar-se por uma prostituta se ela não fosse demasiado prostituta. Esta prostituta é apenas um bocadinho prostituta, pelo que ainda pode aspirar viver um conto de fadas. Em certo ponto do filme, a prostituta dirige-se para a casa de banho com qualquer coisa escondida na mão. O exterminador da classe operária intercepta-a e diz-lhe que não admite que ela consuma drogas. Ela abre a mão e dá--se um milagre. Não é droga. É fio dental, senhor. As outras prostitutas não são muito lindas, nem cuidam tanto da saúde das gengivas, pelo que merecem andar na vida.

Terceiro facto extraordinário: a prostituta é escorraçada de uma loja cara, em Beverly Hills, por estar vestida de galdéria. Ora, se as lojas caras de Beverly Hills escorraçassem as clientes que se vestem de galdéria, as irmãs Kardashian não compravam roupa desde 1985. Quase todas as artistas que integram o mundo do espectáculo norte-americano andavam nuas. Há que ter cuidado com estes filmes: uma coisa é ficção científica, outra é o absurdo infrene.

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1151, de 26 de março | | 3 comentários

Isto não é maneira de abominar jornalistas

Não pretendo ser o paladino da boa abominação de jornalistas, mas creio que não é assim que se abomina um jornalista
Eu abomino jornalistas. Trata-se de uma abominação digna, justa e sensata. Há vários motivos para abominar jornalistas e o mais recente talvez seja a admiração que dedicam às chamadas redes sociais. Tudo o que se diz nas redes sociais é notável, ao contrário do que se diz, por exemplo, em snack-bares. As pessoas também dizem coisas em snack-bares. Normalmente, as mesmas coisas que se dizem nas redes sociais, o que é curioso. No entanto, os jornalistas nunca tomaram o pulso aos snack-bares. Nunca noticiaram: "Tal caso está a gerar polémica nos snack-bares." Talvez porque seja impossível saber o que se diz em todos os snack-bares. No entanto, também há milhares de milhões de utilizadores de redes sociais, pelo que custa a crer que seja possível saber qual é a opinião das redes sociais. Em princípio, estão lá todas as opiniões possíveis. Provavelmente por razões de deslumbramento tecnológico, atitudes de snack-bar, quando tomadas em redes sociais, ganham, para os jornalistas, outra credibilidade. Digo que são atitudes de snack-bar porque, tal como no snack-bar, nas redes sociais também não há conversas em voz baixa - circunstância que os próprios jornalistas reconhecem. Eis um apanhado das últimas notícias sobre o que se passa nas redes sociais: "Polémica com Dolce e Gabbana incendeia redes sociais", "Está esclarecida a polémica que incendiou as redes sociais. O cachecol de Varoufakis é mais velho que a crise", "Post de assessora de congressista americano incendiou as redes sociais", "Irmã de Neymar incendeia as redes sociais", "Este é o vestido que incendiou as redes sociais", "Etiqueta de roupa da marca indonésia Salvo Sports incendiou as redes sociais", "Várias personalidades negras de Hollywood entregaram prémios nos Oscars, pormenor que incendiou as redes sociais", "'Era tudo maquilhagem', diz Uma Thurman sobre a polémica que rapidamente incendiou as redes sociais", "Gustavo Santos voltou a criticar o 'Charlie Hebdo', depois de um post no facebook que incendiou as redes sociais". Pelos vistos, um incêndio perpétuo (semelhante ao do inferno mas, provavelmente, mais intenso) lavra nas redes sociais. Uma turba agita-se para lapidar opiniões, comentários e peças de roupa. E os jornalistas vão atrás, para contabilizar o número de pedras arremessadas. Aqui está uma bonita abominação, devidamente justificada.

João Araújo, advogado de Sócrates, disse a uma jornalista que "devia tomar mais banho", uma vez que "cheira mal". Não pretendo ser o paladino da boa abominação de jornalistas, mas creio que não é assim que se abomina um jornalista. Tenho muitas dúvidas acerca da introdução de considerações olfactivas no debate público. Primeiro, porque é difícil de provar: na ausência de uma auditoria independente aos sovacos da jornalista, ficamos sem saber se João Araújo é mentiroso ou apenas inconveniente. Segundo, porque abre terreno a observações de outro tipo, baseadas em impressões captadas pelos outros quatro sentidos. "A sr.ª jornalista está muito áspera. É desagradável ao toque" ou "A sr.ª jornalista tem um sabor amargo" são declarações possíveis, a partir de agora, e não creio que enriqueçam a discussão. Terceiro, porque nada impede a jornalista de produzir apreciações do mesmo teor, a mais óbvia das quais será: "Sim, mas o sr. dr. faz lembrar um sapo." Não posso, por isso, deixar de condenar uma abominação de jornalistas baseada no seu odor, aspecto, som, macieza ou sabor. Fazê-lo é dar mau nome à abominação de jornalistas.

A propósito, escuso de dizer que este caso incendiou as redes sociais. Desconheço se incendiou os snack-bares.

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1150, de 19 de março | | 5 comentários

Agradeço o convite mas declino

Além de definir o perfil do próximo Presidente, Cavaco devia ter aproveitado para definir o perfil dos cidadãos que vão elegê-lo
De acordo com a Constituição, "são elegíveis para a Presidência da República os cidadãos eleitores, portugueses de origem, maiores de 35 anos". No entanto, de acordo com Cavaco Silva, o próximo Presidente deve ser uma pessoa com experiência em política externa. Esta revisão constitucional feita informalmente por Cavaco reduz bastante o leque de possíveis candidatos, e acaba por cingir a corrida a apenas três nomes: Durão Barroso, António Guterres e eu. O currículo dos candidatos impressiona: Barroso foi presidente da comissão europeia entre 2004 e 2014; Guterres é, desde 2005, alto comissário das Nações Unidas para os refugiados; e eu negociei, em Badajoz, na primavera de 2009, o preço de um saco de caramelos que, embora tivesse uma etiqueta indicando o preço de 90 cêntimos, assinalava na caixa o valor de um euro e meio. As negociações foram duras, mas eu soube defender os interesses de Portugal no quadro das regras definidas pelo direito internacional: mantendo presente que a carta das Nações Unidas proíbe a agressão armada excepto em caso de legítima defesa, usei de meios pacíficos para obter o acordo que melhor servisse o nosso país, e orgulho-me de poder hoje dizer que acabei por trazer o saco por apenas um euro e 20. Quem conhece a fundo o trabalho de Barroso e Guterres, só por má vontade deixará de reconhecer que nenhum deles trouxe para o nosso país, no âmbito da actividade internacional que desenvolveram, lucros que possam sequer aproximar-se do valor de um saco de caramelos.

Pelo que acabei de referir, concordo com a perspectiva de Cavaco Silva acerca do seu sucessor, mas creio que o Presidente podia ter ido mais longe. Além de definir o perfil do próximo Presidente, Cavaco devia ter aproveitado para definir o perfil dos cidadãos que vão elegê-lo. Não serve de nada apontar um caminho e depois deixar nas mãos de gente sem sensibilidade política uma escolha tão importante. Creio que os eleitores do próximo Presidente da República também deviam ser pessoas com alguma experiência em política externa. Pessoas sem experiência em política externa tendem a não compreender todo o alcance do trabalho realizado pelos especialistas em política externa, e por isso deviam ser impedidas de votar.

Uma vez que não quero alimentar tabus, e apesar do que ficou exposto acima, devo dizer que, apesar da indigitação discreta de Cavaco Silva, não serei candidato às próximas eleições presidenciais. Tal como Cavaco, eu também desdenho do valor do salário auferido pelo Presidente da República, e não tenho ainda reformas que me permitam ocupar o cargo com a dignidade que tanto eu como Portugal merecemos. E além disso já tenho coisas combinadas para 2016.

Ricardo Araújo Pereira | | 12 comentários

Ideias para comédias

Um cidadão passa cinco anos sem descontar para a segurança social. Depois chega a primeiro-ministro e manifesta grande preocupação com a sustentabilidade financeira da segurança social
Após ter votado a lei de bases da segurança social, um deputado diz desconhecer as suas obrigações legais para com a segurança social.

Após ter passado anos a dar aulas de catequese, um catequista diz ter ficado com a ideia de que a obediência aos mandamentos era opcional.

Um cidadão passa cinco anos sem descontar para a segurança social. Depois chega a primeiro-ministro e manifesta grande preocupação com a sustentabilidade financeira da segurança social.

Um cidadão passa cinco anos sem tomar banho. Depois fica incomodado quando partilha o elevador com um vizinho que acabou de chegar do ginásio.

Um primeiro-ministro admite que cometeu irregularidades mas justifica-se dizendo que são irregularidades menores do que aquelas que o primeiro-ministro anterior é acusado de ter cometido.

Um aluno falha a entrega dos trabalhos de casa mas justifica-se dizendo que não procedeu tão mal como um aluno que, no ano anterior, tinha roubado a lancheira a outro menino. A professora lembra-lhe que o facto de outros terem cometido infracções maiores não o isenta de uma nota negativa. O aluno, mesmo sendo pequenino, compreende o argumento da professora.

Um primeiro-ministro apercebe-se, em 2012, que deve dinheiro ao Estado, mas acha que é mais oportuno fazer o pagamento apenas no fim do seu mandato, para não criar confusões. Ao mesmo tempo, o seu governo recorre a penhoras automáticas para executar mais rapidamente as dívidas fiscais.

Um verdugo apercebe-se, em 2012, que cometeu um delito parecido com os que são cometidos pelas pessoas que castiga com chibatadas. Passa a dar chibatadas com mais força, para transmitir a ideia de que a sua adesão à prática delituosa não significa que a aprove.

Um primeiro-ministro decide regularizar imediatamente a sua situação fiscal depois de perceber que o jornal Público descobriu aquilo que ele já sabe desde 2012. ?O ministro da segurança social considera a postura do primeiro-ministro muito digna.

Um criminoso decide confessar um crime cometido dez anos antes, e só depois de terem surgido provas absolutamente claras e indesmentíveis de que o cometeu. O seu advogado considera a postura do cliente muito digna.

Milhares de cidadãos falham o pagamento dos impostos na data estipulada e justificam-se dizendo que o jornal Público não teve a gentileza de os incentivar a saldar a dívida.

Um cidadão acumula dívidas e não recebe a respectiva notificação. O sistema que não o notifica durante cinco anos é o mesmo que não deixa passar cinco dias sem notificar os outros cidadãos devedores. O ministro da segurança social diz que o primeiro-ministro foi vítima de um erro do sistema.

Um cidadão ganha a lotaria. Os seus amigos dizem que foi vítima de um acaso da sorte

Da sensualidade das Finanças

É difícil compreender este protagonismo do ministro das Finanças de um país tão pelintra como o nosso, quando a sensualidade de Vítor Gaspar passou despercebida na Europa

Após análise longa e cuidada do seu pensamento económico, a imprensa internacional concluiu que o ministro das Finanças grego é sensual. O estilo de Varoufakis tem sido examinado em detalhe. Houve intenso debate sobre as fraldas da camisa, reflexão sobre determinado cachecol, e discutiu-se uma eventual parecença física com um herói interpretado no cinema por Bruce Willis. Na Alemanha reconheceram-lhe "indubitável carisma" e chamaram-lhe "ícone sexual". Creio, por isso, que a má vontade do Governo português em relação à Grécia não é apenas (ou não é de todo) motivada por razões económicas.

O nosso executivo também já teve um ministro das Finanças recém-eleito, que também visitou a Alemanha para negociar. Nessa altura, a imprensa internacional não disse uma única palavra sobre a sensualidade de Vítor Gaspar, a sua masculinidade clássica, o seu magnetismo animal. Portugal não rejeita que a Grécia tenha um tratamento diferente no que diz respeito ao pagamento da dívida; Portugal leva a mal que a Grécia tenha um tratamento diferente quanto à avaliação da sensualidade dos seus ministros das Finanças.

Nós gostamos muito de reconhecimento internacional. Anotamos com alegria a opinião de qualquer borra-botas nascido do lado de lá da fronteira que elogie um português. Às vezes, nem precisa de elogiar. Aceitamos uma mera referência ao nome, ainda que mal pronunciado. E por isso é difícil compreender este protagonismo do ministro das Finanças de um país tão pelintra como o nosso, quando a sensualidade de Vítor Gaspar passou despercebida na Europa. Vítor Gaspar, à sua maneira, também era sensual. Tinha a tez esverdeada, o que lhe conferia algum exotismo, duas bolsas proeminentes sob os olhos (é sabido que as mulheres adoram bolsas), e uma voz suave. Os dirigentes alemães pareciam acreditar que ele era sensual, uma vez que lhe davam as mesmas ordens que as dançarinas exóticas costumam receber: "Ti-ra!, ti-ra!, ti-ra!" E Vítor Gaspar tirou mesmo. Tirou empregos, tirou salários, tirou reformas. E recebeu uma recompensa, não sob a forma tradicional de nota dobrada ao meio entalada na liga, mas sob a forma de um cargo de director de departamento no FMI. Por que razão não foi então referido internacionalmente o sex-appeal de Vítor Gaspar?

Quem nos impediu de ler notícias acerca do facto de o corpo pouco tonificado de Vítor Gaspar ser cobiçado internacionalmente, notícias essas que apareceriam lado a lado com outros títulos do género, tais como "Praia portuguesa considerada uma das 250 melhores do mundo por revista da qual nunca ouvimos falar mas que em todo o caso é estrangeira"? O desemprego e a pobreza ainda toleramos, mas privarem-nos do gozo de ver gente estrangeira a louvar-nos é simplesmente desumano. Para onde vais, Europa? 

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1147, de 26 de fevereiro | | 5 comentários

Tanta coisa depende de um saco de plástico

Quem tenha acumulado sacos de plástico possui agora uma pequena fortuna. Exactamente como as acções do BES, mas ao contrário
Cobrar dez cêntimos por cada saco de plástico, nos supermercados, talvez contribua para salvar o ambiente, mas a grande medida ecológica já tinha sido tomada: fazer com que os portugueses não tivessem dinheiro para comprar aquilo que depois se transporta no saco de plástico. É um facto comprovado que as pessoas usam muito menos sacos de plástico quando não têm o que pôr lá dentro. Ao longo dos últimos anos, os portugueses têm sido mesmo muito amigos do ambiente. Tendo em conta o seu poder de compra, conseguem ir às compras de pochete. E ainda sobra espaço.

Quem tenha acumulado sacos de plástico, no tempo em que eram gratuitos, possui agora uma pequena fortuna. Sacos que não valiam nada, de um dia para o outro passaram a valer algum dinheiro. Exactamente como as acções do BES, mas ao contrário.

Muitas pessoas afeiçoam-se a coisas como sacos de plástico e depois têm dificuldade em lidar com a perda. Uma medida que abale o regular usufruto dos sacos de plástico pode perturbar mais a vida destas pessoas do que um corte no salário. Refiro-me, por exemplo, às pessoas que guardam bugigangas em gavetas enquanto dizem, com uma certa volúpia, "isto pode dar jeito". Isto é alta sociologia, como o leitor bem sabe. Este tipo de pessoas existe mesmo, e há uma possibilidade grande de o leitor pertencer ao grupo. Eu, infelizmente, não pertenço - até porque sou um desses indivíduos que "nem para si é bom". Depois, apresentam-se-me situações em que me davam jeito certas coisas, mas infelizmente não tive o discernimento de, na altura própria, as guardar numa gaveta. Deve consolar-nos o facto de estas pessoas terem guardado tantos sacos, ao longo do tempo, que só terão de dar 10 cêntimos por um em 2025.

Quando eu era pequeno, a minha avó levava o seu próprio saco para ir às compras. Creio que era uma prática comum: toda a gente levava o seu saco. A minha avó não lhe chamava saco, porque era de Viana do Castelo, e do Douro para cima os sacos mudam de género e passam a ser sacas. Regressamos agora ao tempo em que se vai de saco para o supermercado. Curiosamente, em alguns aspectos o mundo foi mudando de volta para aquilo que a minha avó achava que o mundo devia ser. Espero sinceramente que o mundo pare de fazer as vontades à minha avó. Se o mundo continuar a transformar-se naquilo que a minha avó gostaria que o mundo fosse, mais cedo ou mais tarde serei obrigado a levantar-me cedo. E a arranjar um emprego a sério. Isto das sacas chega.

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1146, de 19 de fevereiro | | 6 comentários

A propriazinha

No meu tempo, contemplar fotografias de amigos era considerado um aborrecimento. Hoje, subscrevem-se contas de instagram para poder apreciar os pés de uma amiga à beira de uma piscina, o gato de um colega dormindo, ou o aspecto da sobremesa que um amigo se prepara para comer

A minha principal objecção ao cinema é esta: parece-me que ver fotografias a um ritmo de 24 por segundo é um exagero.

Acaba por não se ver nenhuma fotografia como deve ser. A única ocasião em que o visionamento de 24 fotografias por segundo se justifica é quando amigos pretendem mostrar-nos os seus álbuns de casamento ou de férias. Nessas alturas, suspiro pelo cinematógrafo. Ao que parece, hoje sou o único a achar enjoativas estas sessões de exibição de fotografias da vida pessoal.

O mundo mudou muito. No meu tempo, contemplar fotografias de amigos era considerado um aborrecimento. Hoje, subscrevem-se contas de instagram para poder apreciar os pés de uma amiga à beira de uma piscina, o gato de um colega dormindo, ou o aspecto da sobremesa que um amigo se prepara para comer. As fotos de outrora, sendo fastidiosas, eram, apesar de tudo, menos triviais. Havia amigos junto de monumentos, defronte de catedrais, perto de animais selvagens. Não ocorria a ninguém, regressado de férias, dizer aos amigos: "Olha que giro, aqui estão os pés da Clotilde junto à piscina do hotel." Ou: "Temos agora uma foto de um prato de arroz-doce que o Mário comeu." Hoje, as pessoas procuram fotos destas. Ninguém as obriga a vê-las. São elas que buscam retratos de pés alheios. Algo se passa com a humanidade.

De todas as fotografias contemporâneas, a mais perigosa é a selfie ou, em português, a propriazinha. A selfie é o equivalente moderno da PIDE. Também persegue, tortura e mata. A PIDE contava com umas dezenas de inspectores pouco espertos e alguns bufos diligentes. As selfies contam com milhões de utilizadores pouco espertos e o facebook, o instagram e o twitter. Uma selfie, para os meus leitores do século XX, é uma fotografia que uma pessoa tira a si mesma, em geral com um telefone. A PIDE, para os meus leitores do século XXI, era a polícia política do Estado Novo. Há quem morra a tirar selfies em posições perigosas.

Há quem seja torturado durante anos pela memória de uma selfie irreflectida. Cristiano Ronaldo está a ser perseguido por umas selfies tiradas na sua festa de aniversário.

Há selfies, belfies (fotografias do próprio rabo) e felfies (fotografias do próprio junto de animais de quinta). Além da pulsão de vida e da pulsão de morte, é também muito poderosa a pulsão de publicar auto-retratos.

Freud estava distraído provavelmente, a fotografar os próprios pés junto de uma piscina.

Ricardo Araújo Pereira | | 8 comentários
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