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Sócrates sempre, Passos mais quatro anos

Ao mesmo tempo que é cada vez mais frequente o aparecimento de cartazes com a frase 'José Sócrates Sempre', uma sondagem indica que a coligação governamental está à frente nas intenções de voto

Gostaria de convidar o leitor a considerar os seguintes factos: ao mesmo tempo que é cada vez mais frequente o aparecimento de cartazes com a frase "José Sócrates Sempre", uma sondagem indica que a coligação governamental está à frente nas intenções de voto. O povo português tem muito apreço por maus governantes, circunstância que levanta algumas questões de psicologia colectiva. Estudos que se debruçam sobre as razões pelas quais algumas mulheres não abandonam os maridos que as maltratam podem ajudar-nos a compreender a psique nacional, uma vez que a relação que mantemos com o governo é, pelos vistos, muito parecida. Um conjunto de razões tem a ver com o receio do que o marido possa fazer se a mulher o abandonar. Por exemplo, as mulheres temem que o marido lhes leve os filhos. Na nossa relação com o poder político, este medo não se aplica. O governo não só não tem interesse em levar-nos as crianças como tem criado condições para que os nossos filhos residam em nossas casas até terem 40 anos.

Outro factor é o medo de que o marido enfurecido comece a espalhar calúnias sobre a mulher. Também não me parece que se aplique, uma vez que o governo já faz isso mesmo sem que nós o abandonemos. Desde piegas até calões que vivem acima das suas possibilidades, já nos chamaram tudo.

Outra razão para permanecer junto de um marido que inflige maus-tratos é o facto de ele manietar os movimentos da mulher, por exemplo não a deixando sair de casa. Também aqui, o caso é diferente. O governo até nos encoraja a emigrar.

Mais um motivo: a dependência económica. E, mais uma vez, não se aplica. O governo é que depende economicamente de uma mesada que lhe damos chamada IRS.

Há outros tipos de razões que podem impedir uma mulher de se libertar de uma relação violenta. Por exemplo, uma auto-estima baixa, que a faz pensar que não merece melhor. É possível que o povo português acredite que não merece melhor do que os governos que tem tido. Só um povo com uma auto-estima muito baixa se entusiasma com notícias do género "Cão de Barack Obama é um cão de água português". Se Cavaco Silva arranjar um pastor alemão, tenho quase a certeza de que notícia não aparecerá na imprensa germânica.

Por vezes, as mulheres vítimas de violência doméstica consideram que a sua situação é normal, uma vez que as suas mães sofriam do mesmo mal. Creio que este fenómeno ocorre também na relação do povo português com o seu governo.?É normal que eu seja maltratado, porque o governo dos meus pais também era violento. Aliás, o governo deles até lhes batia.

(Crónica publicada na VISÃO 1164, de 25 de junho) | | 39 comentários

Governocar: o maior 'stand' da Europa

Adquirir dezenas de carros novos para o Governo ao mesmo tempo se viaja de avião em turística e se vai à praia de saco de plástico na mão é o equivalente ao método dietético daquelas pessoas que colocam adoçante no café enquanto comem um pastel de nata

Segundo o Jornal de Notícias, Cristiano Ronaldo tem 17 carros. Segundo o Correio da Manhã, Passos Coelho tem cinco. No dia 11 deste mês, o CM noticiou que chegaram 34 carros novos para os membros dos gabinetes do Governo, dos quais cinco para o gabinete do primeiro-ministro. A 24 de Agosto do ano passado, no entanto, o CM noticiava, citando fonte governamental, que o Governo tinha gasto um milhão de euros a renovar a frota de 56 chefes de gabinete dos ministérios. Mas a 18 de Outubro de 2013, o jornal i informava que, segundo um relatório da Entidade de Serviços Partilhados da Administração Pública, o Governo gastara 160 milhões de euros numa frota de 13.653 automóveis, que servia o Executivo e outros organismos estatais. Oito meses antes, a 25 de Fevereiro desse ano, o DN noticiava, citando outro documento da mesma entidade, que o Estado tinha 27.533 automóveis, incluindo veículos das forças de segurança. Ao serviço do Governo estavam 444 veículos, dos quais 186 para membros do Executivo e 258 para as secretarias-gerais. Mas menos de três anos antes, a 12 de Julho de 2010, o Sol dizia, citando a Presidência do Conselho de Ministros, que o Governo de Sócrates tinha renovado a frota do Estado comprando 922 automóveis, incluindo um Mercedes no valor de 134 mil euros para transportar altas individualidades estrangeiras e convidados.

Começa a ficar clara a razão pela qual há tanto trânsito em Lisboa. Ao domingo há a voltinha dos tristes, durante a semana há as voltinhas dos altos dignitários. As rubricas de trânsito, na televisão e na rádio, deviam incluir a rota dos membros do Executivo, para o cidadão poder escapar aos engarrafamentos. "Evite o eixo norte-sul porque há 17 secretários de Estado que moram em Telheiras e utilizam essa artéria. Trânsito complicado também na A5, devido ao elevado número de assessores residentes em Cascais, e no IC 19, por causa da comitiva do primeiro-ministro, vindo de Massamá."

Normalmente, esta atenção aos carros do Governo tem o seu quê de demagógico. Mesmo constatando que, ao que parece, a frota automóvel se renova com frequência semestral e esgota a produção de cinco Autoeuropas. Mas adquirir dezenas de carros novos para o Governo ao mesmo tempo se viaja de avião em turística e se vai à praia de saco de plástico na mão é o equivalente ao método dietético daquelas pessoas que colocam adoçante no café enquanto comem um pastel de nata. Passos Coelho precisa de um nutricionista de Estado.

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica e ilustração de João Fazenda publicadas na VISÃO 1163, de 18 de junho) | | 1 comentário

Onze para cada lado e no fim suborna a Alemanha

É uma vergonha que haja escândalos no futebol internacional e nós não participemos. Portugal: é a hora

Tudo o que sei sobre imoralidade, devo-o à FIFA. Não sei se o leitor reparou no que eu fiz aqui. Parafraseei a conhecida frase de Albert Camus: "Tudo o que sei sobre a moral, devo-o ao futebol." Está bem apanhado, não está? É pena que Camus já cá não esteja, para completar a sua educação: aprendia moralidade com o futebol e imoralidade com o organismo que manda no futebol.

As pessoas que não se interessam por futebol perderam esta semana, além de mais um curso completo de ética, aulas importantes de economia, geopolítica e direito internacional. Se o leitor deseja cultivar-se, devia assistir a um Paços de Ferreira-Marítimo. Para começar. Depois poderá ir evoluindo, devagarinho, para jogos mais complexos, até estar apto a acompanhar o processo de organização de um mundial. Nessa altura, poderá compreender a investigação que o jornal alemão Die Zeit divulgou esta semana. Parece que, há dez anos, a Alemanha enviou armas para a Arábia Saudita como forma de garantir que aquele país daria o seu voto aos germânicos para que estes pudessem organizar o campeonato do mundo de futebol, em 2006 - o que veio a suceder. Além disso, a Volkswagen e a Bayer prometeram fazer investimentos avultados na Coreia do Sul e na Tailândia se estes países votassem, igualmente, na Alemanha. Repare que o assunto é interessante e digno, uma vez que se trata de futebol e democracia, dado que o objectivo é ganhar uma eleição. Infelizmente, o voto de Portugal na FIFA não parece ser apetitoso e, pelo menos até agora, não há notícia de que nos tenham oferecido armas nem dinheiro. É uma pena, porque isso faria mais pelo desenvolvimento sustentado da economia portuguesa do que vários governos. Creio que Portugal deveria aplicar-se na exportação de votos. País que desejasse organizar o mundial poderia candidatar-se ao nosso voto favorável, mediante a apresentação de um caderno de investimentos. Além do voto, Portugal pode oferecer ainda uma ou outra infra-estrutura, caso o país interessado possua meios para desmontar e transportar estádios às peças, podendo para o efeito escolher entre o de Aveiro, o de Leiria e o do Algarve, por exemplo. Se a FIFA organizar um mundial de futebol de seis em seis meses, podemos livrar-nos da crise já em 2018. Se há coisa que não nos falta é gente com experiência em conspirar nos bastidores do futebol. Temos as competências, temos o chamado know-how, temos a experiência. É uma vergonha que haja escândalos no futebol internacional e nós não participemos. Portugal: é a hora.

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica publicada na VISÃO 1162, de 11 de junho) | | 7 comentários

Somos felizes e não sabemos

A confirmar-se que estamos felizes, talvez os portugueses queiram experimentar um pouco de sofrimento, para desenjoar de tanto nirvana

Quando Pedro Passos Coelho disse, esta semana, que a história dos últimos anos tinha tido um final feliz, muita gente discordou por considerar que isto que vivemos não é felicidade. Eu discordo porque acho que isto não é um final. O que é infeliz.

Cada um terá a sua noção de felicidade, mas é mais difícil divergir naquilo que é ou não um final. Podemos discutir se o copo está meio cheio ou menos vazio (embora, no que me diz respeito, seja raro ter inquietações filosóficas deste tipo, na medida em que bebo quase sempre pela garrafa), mas creio que ninguém hesita acerca do momento em que o copo está completamente vazio. Um final não costuma deixar dúvidas. Mas o FMI continua a vir cá periodicamente, o que parece indicar que isto ainda não acabou. Além de que costuma vir com propostas que não trazem grande felicidade.

No entanto, como já tive oportunidade de observar, com muita perspicácia, o conceito de felicidade muda de pessoa para pessoa. Os fetichistas de pés ficam felizes com a mera contemplação de pés. Talvez o primeiro-ministro seja um fetichista de desemprego. Ou de dívida. Ou de pobreza. Por outro lado, a felicidade do final de uma história depende de quem a conta. Uma história em que o Drácula consegue ferrar o dente no pescoço de um desgraçado não tem, em princípio, um final feliz. A menos que seja o Drácula a contá-la. Para nós, o governo de Durão Barroso não teve um final feliz. Até porque redundou em Santana Lopes. Mas, para Durão Barroso, foi das mais lindas histórias que já se escreveram.

Talvez o problema esteja no próprio conceito de felicidade. É possível que Passos Coelho se satisfaça com pouco (recordo que ele apreciava a companhia de Miguel Relvas). Mas, para o resto do País, creio que a notícia de que isto é felicidade foi recebida com desilusão. De duas, uma: ou a felicidade não é isto ou tem sido muito sobrevalorizada. A confirmar-se que estamos felizes, talvez os portugueses queiram experimentar um pouco de sofrimento, para desenjoar de tanto nirvana.

Há ainda outro problema no conceito de final feliz de Passos Coelho (tão diferente do de certas casas de massagem): para o primeiro-ministro, temos sido todos muito virtuosos. Temos feito sacrifícios, pago dívidas, trabalhado a dobrar (os que têm trabalho). Ora, de acordo com a minha experiência, não é possível ser virtuoso e feliz ao mesmo tempo. A maior parte das coisas que me fazem feliz não são virtuosas, e vice-versa. Ou bem que se é virtuoso, ou bem que se é feliz. Temos de optar. E Passos Coelho também.

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica e ilustração de João Fazenda publicadas na VISÃO 1161, de 4 de junho) | | 8 comentários

Anéis de ouro a um tostão

O 'Momento Mastóideo', que me orgulho de ter cunhado, ocorre sempre que uma tia da província se deixa impressionar pela erudição de um rico filho

Assistiu-se esta semana, na imprensa portuguesa, a mais um "Momento Mastóideo". O "Momento Mastóideo", que eu assinalo sempre que posso, é inspirado naquele passo do filme "A Canção de Lisboa" em que Vasco Santana, já reformado da vida boémia, responde a todas as questões do exame de medicina, incluindo à última, e mais difícil, sobre o esternocleidomastóideo. "Rico filho! Ele até sabe o que é o mastóideo!", comenta uma das tias da província, muito impressionada. O "Momento Mastóideo", que me orgulho de ter cunhado, ocorre sempre que uma tia da província se deixa impressionar pela erudição de um rico filho.

Esta semana, a tia da província foi o jornal Público. Três quartos da primeira página de domingo eram dedicados a um trabalho sobre linguagem corporal. O título era: "Os gestos que traíram os protagonistas do caso BES". Por baixo, dizia: "Um especialista em linguagem corporal analisou os depoimentos na comissão parlamentar de inquérito ao caso BES e chegou a conclusões surpreendentes." As conclusões surpreendentes são, em resumo, estas: todos, ou quase todos os inquiridos mentiram à comissão ou, pelo menos, não disseram tudo o que sabiam. Peço ao leitor que contenha a surpresa. Imagino os espasmos violentos que experimenta nesta altura. A culpa foi minha, que não o preveni para o assombro que ali vinha.

O rico filho é Rui Mergulhão Mendes (RMM), "especialista em apurar a veracidade de testemunhos através da linguagem corporal", a quem o Público pediu para analisar os depoimentos de Ricardo Salgado, Carlos Costa e outros. O jornal avisa que o especialista é "formado no Body Language Institute, de Washington". (Rico filho! Ele até estudou num instituto localizado no estrangeiro!) Quem desejar saber mais sobre este instituto deve dirigir--se ao site de Janine Driver, chamado "Lyin' Tamer" ("A Domadora de Mentirosos"), que é a fundadora, presidente e proprietária do prestigiado instituto. O site inclui um vídeo de um talk-show diurno em que Driver é convidada para dar conselhos acerca da linguagem corporal de senhoras que pretendem engatar cavalheiros em bares. E tem também uma ligação para o Body Language Institute, que promete "Cursos certificados para potenciar a confiança, o carisma e a carreira". Vê-se que RMM concluiu o curso com aproveitamento, porque apresentar-se como "especialista formado no Body Language Institute, de Washington" gera muito mais carisma do que dizer que se frequentou umas aulas ministradas por uma autora de livros de auto-ajuda. De acordo com o Público, os especialistas em linguagem corporal são tão importantes que "os canais de televisão norte-americanos convocam regularmente peritos na análise da linguagem não-verbal para comentarem, em horário nobre, os casos mediáticos". (Ricos filhos! Eles até são convidados para falar nas televisões da América! E em horário nobre!) Não admira, por isso, que a análise de RMM tenha detectado, segundo o Público, "muitos indícios de mentiras, inverdades, omissões, lapsos linguísticos e incongruências". Como é evidente, eu, que ainda hoje não sou capaz de distinguir uma mentira de uma inverdade, quis saber mais sobre o estudo do especialista.

O método de detecção de mentiras (e também de inverdades) consiste na análise de "micro-expressões". RMM observou "assimetrias nas sobrancelhas" de Álvaro Sobrinho, "desaparecimento corporal" em Ricardo Salgado, um "leve levantamento do lábio superior" em Carlos Tavares, um "fechar mais prolongado dos olhos" em Zeinal Bava, um "microtoque no nariz" de Paulo Portas e um "levantamento assimétrico de um dos cantos da boca" em Granadeiro. Quase todos os inquiridos recorreram ao igualmente suspeito "acto de ventilar". No entanto, o especialista dedicou a maior parte da sua atenção a comichões. Neste ponto, o Público pergunta, e bem: "Como distinguir uma simples comichão, normal, de um sinal emocional?" RMM tem experiência em destrinçar comichões e não se atrapalha: "Não há comichões por acaso. Os micropruridos que aparecem na cara surgem por indicação do nosso cérebro. Pica-nos ali e não é sem querer. Porque é que tocar no nariz está tão associado à questão da mentira? Porque irrigamos mais sangue e a extremidade do nariz é mais sensível e o sangue jorrou ali ou faltou (...). E faz comichão. (...) Quando ocorre um pico de comichão e nós coçamos, geramos uma sensação de acalmia, é uma forma micro de nos pacificarmos (...)." Para uma pessoa que, como eu, passa grande parte do dia a coçar-se, esta revelação é perturbadora. Eu minto quando estou a ler, minto a ver televisão, por vezes minto até a dormir.

RMM avança ainda com uma descoberta que escapou a todos, incluindo aos deputados da comissão que, distraídos com insignificâncias como o conteúdo dos testemunhos, também já tinham deixado passar em claro a maior parte das comichões: "Há um pormenor curioso: Portas e Salgado iam rigorosamente vestidos da mesma forma, com a mesma gravata, o mesmo casaco, a mesma camisa. O que nada nos diz sobre linguagem corporal, mas não deixa de ser interessante." Muito, muito interessante. Acabo, aliás, de fundar o Instituto da Indumentária Equivalente, cujo objecto de estudo é, precisamente, a influência da alfaiataria nas comissões de inquérito. Fico à espera do telefonema do Público. Temos primeira página para o próximo domingo.

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica publicada na VISÃO 1160, de 28 de maio) | | 7 comentários

Precisa-se: arguido

Depois do encarceramento de um Sócrates, não sei se Portugal aguentaria a prisão de um Marco António. Uma coisa é sermos um país de gente corrupta, outra coisa é sermos uma revista à portuguesa passada na antiguidade clássica

 


 

Marco António Costa, vice-presidente do PSD, está a ser investigado pelo Departamento de Investigação e Acção Penal do Porto. Espero, sinceramente, que seja inocente. Depois do encarceramento de um Sócrates, não sei se Portugal aguentaria a prisão de um Marco António. Uma coisa é sermos um país de gente corrupta, outra coisa é sermos uma revista à portuguesa passada na antiguidade clássica. A ignomínia aguenta-se melhor que o ridículo. Por sorte não existem, na política portuguesa, Anaximandros nem Dioclecianos, pelo que, em princípio, bastará manter Marco António fora da cadeia para evitar um enxovalho embaraçoso.

Admito que faz falta um bom arguido do PSD para equilibrar as contas com o PS. Os socialistas têm Armando Vara, um ex-ministro, a aguardar recurso de uma condenação a cinco anos de prisão; os sociais-democratas têm Duarte Lima, um antigo presidente do grupo parlamentar, a aguardar recurso de uma condenação a 10 anos de prisão. Fica quase ela por ela. Mas agora os socialistas têm um ex-primeiro--ministro preso, a aguardar acusação, e os sociais-democratas têm todas as suas grandes figuras em liberdade - o que se lamenta e estranha. Não contabilizo aqui, até por razões de espaço, outros dirigentes políticos, de ambos os partidos, sobre os quais recaem suspeitas de crimes de vários tipos. Desejo dedicar-me apenas à Liga dos Campeões dos sarilhos jurídicos, onde o PS se encontra em vantagem, com dois elementos proeminentes contra apenas um do PSD. Esta questão é muito importante porque, não havendo equilíbrio no número de potenciais trafulhas, a campanha eleitoral irá centrar-se no problema acessório de saber qual dos partidos tem mais bandidos, em lugar de servir para discutir vários outros problemas acessórios. Tendo apenas um tema acessório para debater, os partidos correm o risco de ficar sem assunto antes do fim da campanha, e podem ver-se forçados a debater as questões essenciais, embora ninguém saiba exactamente quais são. Mas, nestas coisas, é melhor não arriscar.

Se o filho de uma pessoa for preso por homicídio, o seu vizinho passa a poder gabar o seu próprio filho, que apenas furta auto-rádios. A detenção de José Sócrates teve um impacto tão grande na vida política que Passos Coelho sentiu que até podia elogiar Dias Loureiro numa queijaria. ?Ou se encarcera um alto dignitário do PSD depressa, ou nos arriscamos a ver Valentim Loureiro receber um doutoramento honoris causa.

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica e ilustração de João Fazenda publicadas na VISÃO 1159, de 21 de maio) | | 10 comentários

Porque é que todos os motoristas de táxi são de direita?

Deve ser difícil e até opressivo viver num país sem humoristas de direita. Imagino que o facto de o governo ser de direita, a maioria parlamentar ser de direita e o presidente da república ser de direita seja um muito magro consolo

Na abertura da sua História do Riso e do Escárnio, o historiador Georges Minois escreve: "O riso é um assunto demasiadamente sério para ser deixado aos cómicos." É possível. Mas talvez também não seja sensato deixá-lo aos historiadores. No jornal em linha Observador, o historiador Rui Ramos (RR) escreveu um texto intitulado: "Porque é que todos os humoristas da rádio e da televisão são de esquerda?" Faltam-me instrumentos para saber se essa particularidade sócio-profissional se verifica na realidade. Sei apenas que Herman José, o maior humorista português, nunca revelou se era de esquerda ou de direita - o que, aliás, tem todo o direito de fazer. Mas admito que o problema, a existir, intrigue cientistas sociais em geral e irrite pessoas de direita em particular: deve ser difícil e até opressivo viver num país sem humoristas de direita. Imagino que o facto de o governo ser de direita, a maioria parlamentar ser de direita e o Presidente da República ser de direita seja um muito magro consolo.

RR descobriu o esquerdismo dos humoristas portugueses assim: "Quando o Observador teve o atrevimento de debater a Constituição, ficou mais uma vez à mostra a regulamentação política do piadismo rádio-televisivo." E apontou 1 (um) exemplo de crítica humorística à iniciativa do jornal: um texto de Bruno Nogueira e João Quadros na TSF. Na verdade, o que o Observador fez foi um pouco mais do que isso: avançou com uma proposta de revisão constitucional. RR lamenta: para os humoristas portugueses, "a Constituição não é para rir". É uma conclusão difícil de tirar, uma vez que o Observador não está a rir da constituição e Bruno Nogueira e João Quadros estão a rir da proposta de revisão constitucional levada a cabo por um sítio da internet: "Há jornais que oferecem serviços de jantar (...), o Observador está a dar uma revisão constitucional (...)", dizem eles. Isto tem graça (uma observação que escapou a RR).

De acordo com RR, este esquerdismo enviesa os temas escolhidos pelos humoristas: "Pode-se gozar com Cavaco Silva, mas não com Francisco Louçã". Surpreendentemente, a divisão ideológica, em Portugal, faz-se entre Cavaco e Louçã. RR não diz: "Pode-se gozar com Cavaco Silva, mas não com José Sócrates", porque a realidade não o permitiria, e não se deve deixar que a realidade estrague um bom argumento. Não, a direita é Cavaco e o seu contraponto, a esquerda, é Louçã. Na qualidade de humorista de esquerda, devo confessar, com muita vergonha, que, de facto, já fiz muito mais piadas acerca de Cavaco do que sobre Louçã. A minha desculpa é, evidentemente, esfarrapada: eu pensava que era mais interessante fazer humor sobre um homem que esteve no poder 20 anos, dez como primeiro-ministro e outros dez como Presidente da República, do que sobre um que, durante sete anos, foi coordenador de um partido que nunca chegou a atingir 10% dos votos.

Para RR, há duas razões para o esquerdismo unânime dos humoristas. Uma são "as vantagens que uma máscara de esquerdismo tem para um humorista". RR dá o exemplo de Justine Sacco, que foi despedida depois de ter posto uma piada no Twitter. Um homem chamado Sam Biddle chamou a atenção para a piada e incentivou ao enxovalho público global da autora na internet, e desse clamor resultou o despedimento. RR identifica os protagonistas da história como "a directora de relações públicas de uma das maiores empresas americanas da internet" e "um activista das redes sociais". Na verdade, Biddle era um jornalista de outra das maiores empresas americanas da internet, a Gawker Media (lema: "Today's gossip is tomorrow's news", ou "Os mexericos de hoje não as notícias de amanhã"), um conglomerado multimilionário de empresas de comunicação sediado nas ilhas Caimão. O episódio não teve rigorosamente nada de ideológico. Foi apenas mais um caso de concorrência entre gigantes da internet que beneficiou do facto de as pessoas que frequentam as redes sociais terem uma famosa incapacidade para reconhecer a ironia.

A segunda razão é esta: "À esquerda, parece dar-se uma tremenda importância a este tipo de profissões." RR avança com outro exemplo: durante a campanha das eleições inglesas, o trabalhista Miliband foi falar com o humorista Russell Brand "como a uma espécie de velho guru". Na verdade, Miliband foi ser entrevistado por Brand. A resposta à primeira pergunta começa com a frase "Você está totalmente errado", o tipo de comentário reverente que se faz a velhos gurus. RR acrescenta: "Ninguém imagina um episódio análogo à direita. (...) David Cameron não tem um humorista com dezenas de milhares de seguidores nas redes sociais para falar com ele, mas mesmo que tivesse, talvez não estivesse no topo da sua agenda de campanha". Cameron disse o mesmo. E, talvez por ninguém conseguir imaginar um episódio análogo à direita, a imprensa inglesa entreteve-se a publicar fotografias de encontros de Cameron com os conhecidos humoristas David Walliams (do programa Little Britain) e John Bishop, por exemplo, para que as pessoas conseguissem imaginar melhor.

Allison Silverman, guionista do programa The Daily Show, escreveu uma vez um artigo para a revista Slate em que identificava os cinco tipos de piadas que não entravam no programa de Jon Stewart. Um deles era este: piadas que recebem um aplauso em vez de uma gargalhada. Qualquer pessoa recebe palmas se subir a um palco e disser: "Isto é tudo uma cambada de bandidos." Fazer rir é mais difícil.

Em 2007, a Fox News exibiu um programa de sátira política inclinado ideologicamente para a direita, para combater o The Daily Show. Chamava-se The 1/2 Hour News Hour. Durou apenas 17 episódios, por uma razão bastante prosaica: não tinha graça. É o que costuma acontecer quando quem pretende fazer sátira política dá mais atenção à política do que à sátira. O negócio dos humoristas é o riso.

Pessoalmente, rio-me com P. J. O'Rourke ou José Diogo Quintela, mesmo quando eles estão a fazer pouco do que eu penso. Também acho graça a Stephen Colbert ou Jon Stewart, independentemente de muitas vezes concordar com eles. Serei um rústico, mas estou-me borrifando para a orientação política de um humorista (assim como para a orientação sexual, religiosa, ou o facto de preferir peixe grelhado a chanfana). A única coisa que me interessa na comédia é: tem graça? Logo por azar, é a única questão que não interessa a Rui Ramos.

Ricardo Araújo Pereira | | 30 comentários

Adendas ao código deontológico do jornalista, por António Costa

O jornalista tinha dito apenas que entregar a elaboração do programa do partido a um grupo de independentes revelava falta de coragem política. Isto, para Costa, é um insulto reles. O que significa que este candidato a primeiro-ministro nunca foi a uma feira, nunca esteve 20 minutos no trânsito, nunca foi ao futebol. Alguém precisa de conhecer o mundo.

O primeiro ponto que deve ser esclarecido, no caso da mensagem enviada por António Costa a João Vieira Pereira, jornalista do Expresso, é o seguinte: diz-se um sms ou uma sms? Julgo que há bons argumentos a favor de ambas as opções mas, como não existem estudos sérios sobre este problema, com muita pena minha terei de me dedicar, ao contrário do que é meu hábito, à questão essencial, que é a substância da mensagem de António Costa. Talvez seja importante situar esta rabugice no contexto mais amplo de indisposições de Costa com a Imprensa. Todos recordamos o episódio ocorrido há alguns meses, quando uma jornalista da SIC teve a ousadia de fazer uma pergunta ao secretário-geral do PS. Na altura, António Costa considerou infamante que a jornalista lhe tivesse aparecido "detrás de um carro". A objecção parece admitir que há sítios detrás dos quais é legítimo que um jornalista saia, mas que um carro não é um deles. É um ditame ético um pouco vago e incompleto, mas fica registado.

Desta vez, Costa não argumenta com a localização a partir da qual o jornalista se apresenta, embora, tendo em conta o modo como o Expresso chega aos seus leitores, o pudesse ter feito: "Então o sr. vem de dentro de um saco de plástico para criticar o meu programa económico para a década?" Não, desta vez o problema é outro. Costa começa por dizer: "Senhor João Vieira Pereira. Saberá que, em tempos, o jornalismo foi uma profissão de gente séria, informada, que informava, culta, que comentava." Creio que este tempo é o chamado antigamente. Esta dificuldade não é exclusiva do jornalismo. Antigamente era tudo melhor do que agora. E o pior é que este agora vai ser o antigamente de amanhã.

Costa prossegue: "Hoje, a coberto da confusão entre liberdade de opinar e a imunidade de insultar, essa profissão respeitável é degradada por desqualificados". As pessoas que, ao contrário de António Costa, não fizeram estudos superiores, costumam exprimir a mesma opinião mas com uma formulação ligeiramente diferente: "Andam para aí a confundir liberdade com libertinagem. Ao menos, antigamente havia respeito."

E António Costa acrescenta: "(...) que têm de recorrer ao insulto reles e cobarde para preencher as colunas que lhes estão reservadas." Esta, para mim, é a frase mais importante da mensagem, na medida em que desmente os que acusam Costa de pretender domesticar as opiniões publicadas na Imprensa. Nada mais falso. António Costa não é contra insultos. É apenas contra o insulto reles e cobarde. O secretário-geral do PS desafia o jornalista a dirigir-lhe insultos elevados e corajosos. Deseja injúrias sofisticadas, o que só lhe fica bem. Mas o jornalista tinha dito apenas que entregar a elaboração do programa do partido a um grupo de independentes revelava falta de coragem política. Isto, para Costa, é um insulto reles. O que significa que este candidato a primeiro-ministro nunca foi a uma feira, nunca esteve 20 minutos no trânsito, nunca foi ao futebol. Alguém precisa de conhecer o mundo.

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica e ilustração de João Fazenda publicadas na VISÃO 1157, de 7 de maio) | | Comente

Belém correspondents dinner

Considero um escândalo que o anterior primeiro-ministro, apesar de já não se encontrar em funções há cerca de quatro anos, continue a viver numa habitação paga pelo Estado português, com direito a alimentação

 


 

[Todos os anos, por esta altura, o presidente dos Estados Unidos organiza um jantar com os jornalistas que fazem a cobertura da Casa Branca e profere um discurso humorístico em que faz pouco dos jornalistas, dos outros políticos e de si mesmo. Esta é a minha proposta de discurso para o nosso presidente, se cá houvesse tradição semelhante. E se Cavaco fosse dotado da capacidade de rir.]

Boa noite. É um prazer estar na presença de jornalistas, especialmente em eventos como este, nos quais não podem fazer perguntas. Há uns anos fui mal interpretado, quando disse que perdia apenas cinco minutos por dia com os jornais. De facto, se perco cinco minutos a lê-los, por outro lado invisto bastante mais tempo a tentar colaborar colocando notícias, como ficou claro quando o meu assessor inventou aquela divertida história acerca de escutas no meu gabinete. A propósito, relembro o meu pedido para que se deixem de lado as tricas partidárias, porque isso afasta os cidadãos da política.

Aproveito a vossa presença para esclarecer também que, quando disse que havia limites para os sacrifícios que podiam ser pedidos às pessoas, tive o cuidado de não definir que limites eram esses. Foi por isso que não intervim quando o governo continuou a procurar esses limites. Trata-se de uma curiosidade científica, e a ciência, no nosso país, precisa muito de incentivo.

Gostaria também de dizer aos senhores jornalistas que vou propor algumas medidas de moralização da vida política. Por exemplo, considero um escândalo que o anterior primeiro-ministro, apesar de já não se encontrar em funções há cerca de quatro anos, continue a viver numa habitação paga pelo Estado português, com direito a alimentação. Estes privilégios têm de acabar.

Um pouco mais a sério, posso dizer-vos que considero absolutamente esfarrapada a desculpa avançada pela defesa de José Sócrates, segundo a qual o ex-primeiro-ministro pedia dinheiro emprestado em envelopes por não confiar nos bancos. Eu sou a prova viva de que se pode confiar até no BPN, onde as minhas acções valorizaram 150%.

Quero finalizar apelando uma vez mais aos compromissos. A estabilidade governativa é fundamental para o crescimento, como pode ser comprovado pelos últimos anos. Com uma maioria absoluta estável cresceu o desemprego, cresceu a dívida e cresceu o risco de pobreza.

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica e ilustração de João Fazenda publicadas na VISÃO 1156, de 30 de abril) | | Comente

Balança de candidatos

É preciso explicar que, de acordo com a lei, podem ser candidatos à Presidência da República todos os cidadãos portugueses maiores de 35 anos, mas não convém que se candidatem todos ao mesmo tempo

Alguém tem de fazer alguma coisa. Talvez a Comissão Nacional de Eleições (CNE) devesse emitir um comunicado. É preciso explicar que, de acordo com a lei, podem ser candidatos à Presidência da República todos os cidadãos portugueses maiores de 35 anos, mas não convém que se candidatem todos ao mesmo tempo. A nove meses das eleições, já temos uns dez candidatos declarados e outros tantos ponderando candidatura. No meu tempo não era assim. Normalmente, havia dois candidatos fortes apoiados pelos partidos do centro, um ou outro independente, um apalermado e o do PCP. Neste momento, há uma grande abundância de apalermados e independentes. É cedo para perceber quem são os candidatos apoiados pelos partidos do centro. E ainda falta o do PCP.

O facto de a Presidência da República atrair cada vez mais candidatos apalermados é muito difícil de compreender. Historicamente, o candidato apalermado nunca ganhou a eleição (se excluirmos as vitórias irrepetíveis do Almirante Américo Thomaz), pelo que a candidatura parece condenada à partida. Não digo que não seja útil haver um candidato apalermado, até para que se respeite a tradição. Mas um palerma faz mais efeito a solo. Acompanhado de outros palermas, vê a sua palermice diluída na dos outros. É por isso que eu ando quase sempre sozinho, ou acompanhado de pessoas claramente não-palermas. A CNE devia chamar à parte os candidatos apalermados e ter com eles uma conversa franca. Dizer-lhes que, sem menosprezar a palermice de cada um, que é realmente vasta, talvez devessem fazer uma reflexão e desistir em favor do mais apalermado.

Creio que seria mais vantajoso para todos se o actual modelo de eleição do presidente fosse substituído por um sistema de cupões. Não há nenhuma prova que indique que as escolhas produzidas por uma tômbola são menos acertadas do que as decisões tomadas em consciência pelo povo português. E é um tipo de sufrágio em que a sorte desempenha um papel importante. Já vai sendo altura de termos sorte numa eleição.
O grande benefício da profusão de candidatos é este: o Presidente da República sai-nos mais barato. Um superavit de candidaturas significa, segundo a lei da oferta e da procura, que o preço do candidato tende a cair. Com o Presidente que termina o mandato em Janeiro já não gastámos dinheiro em salários. É possível que, ao próximo, nem a reforma tenhamos de pagar.

Ricardo Araújo Pereira, (Crónica publicada na VISÃO 1155, de 23 de abril) | | 1 comentário
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