Convite aos Leitores: Deixe aqui a sua Opinião
Página inicial | Opinião | Ricardo Araújo Pereira

Página 1 de 20 1 | 2 | 3 | 4 | 5 |

Isto não é maneira de abominar jornalistas

Não pretendo ser o paladino da boa abominação de jornalistas, mas creio que não é assim que se abomina um jornalista
Eu abomino jornalistas. Trata-se de uma abominação digna, justa e sensata. Há vários motivos para abominar jornalistas e o mais recente talvez seja a admiração que dedicam às chamadas redes sociais. Tudo o que se diz nas redes sociais é notável, ao contrário do que se diz, por exemplo, em snack-bares. As pessoas também dizem coisas em snack-bares. Normalmente, as mesmas coisas que se dizem nas redes sociais, o que é curioso. No entanto, os jornalistas nunca tomaram o pulso aos snack-bares. Nunca noticiaram: "Tal caso está a gerar polémica nos snack-bares." Talvez porque seja impossível saber o que se diz em todos os snack-bares. No entanto, também há milhares de milhões de utilizadores de redes sociais, pelo que custa a crer que seja possível saber qual é a opinião das redes sociais. Em princípio, estão lá todas as opiniões possíveis. Provavelmente por razões de deslumbramento tecnológico, atitudes de snack-bar, quando tomadas em redes sociais, ganham, para os jornalistas, outra credibilidade. Digo que são atitudes de snack-bar porque, tal como no snack-bar, nas redes sociais também não há conversas em voz baixa - circunstância que os próprios jornalistas reconhecem. Eis um apanhado das últimas notícias sobre o que se passa nas redes sociais: "Polémica com Dolce e Gabbana incendeia redes sociais", "Está esclarecida a polémica que incendiou as redes sociais. O cachecol de Varoufakis é mais velho que a crise", "Post de assessora de congressista americano incendiou as redes sociais", "Irmã de Neymar incendeia as redes sociais", "Este é o vestido que incendiou as redes sociais", "Etiqueta de roupa da marca indonésia Salvo Sports incendiou as redes sociais", "Várias personalidades negras de Hollywood entregaram prémios nos Oscars, pormenor que incendiou as redes sociais", "'Era tudo maquilhagem', diz Uma Thurman sobre a polémica que rapidamente incendiou as redes sociais", "Gustavo Santos voltou a criticar o 'Charlie Hebdo', depois de um post no facebook que incendiou as redes sociais". Pelos vistos, um incêndio perpétuo (semelhante ao do inferno mas, provavelmente, mais intenso) lavra nas redes sociais. Uma turba agita-se para lapidar opiniões, comentários e peças de roupa. E os jornalistas vão atrás, para contabilizar o número de pedras arremessadas. Aqui está uma bonita abominação, devidamente justificada.

João Araújo, advogado de Sócrates, disse a uma jornalista que "devia tomar mais banho", uma vez que "cheira mal". Não pretendo ser o paladino da boa abominação de jornalistas, mas creio que não é assim que se abomina um jornalista. Tenho muitas dúvidas acerca da introdução de considerações olfactivas no debate público. Primeiro, porque é difícil de provar: na ausência de uma auditoria independente aos sovacos da jornalista, ficamos sem saber se João Araújo é mentiroso ou apenas inconveniente. Segundo, porque abre terreno a observações de outro tipo, baseadas em impressões captadas pelos outros quatro sentidos. "A sr.ª jornalista está muito áspera. É desagradável ao toque" ou "A sr.ª jornalista tem um sabor amargo" são declarações possíveis, a partir de agora, e não creio que enriqueçam a discussão. Terceiro, porque nada impede a jornalista de produzir apreciações do mesmo teor, a mais óbvia das quais será: "Sim, mas o sr. dr. faz lembrar um sapo." Não posso, por isso, deixar de condenar uma abominação de jornalistas baseada no seu odor, aspecto, som, macieza ou sabor. Fazê-lo é dar mau nome à abominação de jornalistas.

A propósito, escuso de dizer que este caso incendiou as redes sociais. Desconheço se incendiou os snack-bares.

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1150, de 19 de março | | 4 comentários

Agradeço o convite mas declino

Além de definir o perfil do próximo Presidente, Cavaco devia ter aproveitado para definir o perfil dos cidadãos que vão elegê-lo
De acordo com a Constituição, "são elegíveis para a Presidência da República os cidadãos eleitores, portugueses de origem, maiores de 35 anos". No entanto, de acordo com Cavaco Silva, o próximo Presidente deve ser uma pessoa com experiência em política externa. Esta revisão constitucional feita informalmente por Cavaco reduz bastante o leque de possíveis candidatos, e acaba por cingir a corrida a apenas três nomes: Durão Barroso, António Guterres e eu. O currículo dos candidatos impressiona: Barroso foi presidente da comissão europeia entre 2004 e 2014; Guterres é, desde 2005, alto comissário das Nações Unidas para os refugiados; e eu negociei, em Badajoz, na primavera de 2009, o preço de um saco de caramelos que, embora tivesse uma etiqueta indicando o preço de 90 cêntimos, assinalava na caixa o valor de um euro e meio. As negociações foram duras, mas eu soube defender os interesses de Portugal no quadro das regras definidas pelo direito internacional: mantendo presente que a carta das Nações Unidas proíbe a agressão armada excepto em caso de legítima defesa, usei de meios pacíficos para obter o acordo que melhor servisse o nosso país, e orgulho-me de poder hoje dizer que acabei por trazer o saco por apenas um euro e 20. Quem conhece a fundo o trabalho de Barroso e Guterres, só por má vontade deixará de reconhecer que nenhum deles trouxe para o nosso país, no âmbito da actividade internacional que desenvolveram, lucros que possam sequer aproximar-se do valor de um saco de caramelos.

Pelo que acabei de referir, concordo com a perspectiva de Cavaco Silva acerca do seu sucessor, mas creio que o Presidente podia ter ido mais longe. Além de definir o perfil do próximo Presidente, Cavaco devia ter aproveitado para definir o perfil dos cidadãos que vão elegê-lo. Não serve de nada apontar um caminho e depois deixar nas mãos de gente sem sensibilidade política uma escolha tão importante. Creio que os eleitores do próximo Presidente da República também deviam ser pessoas com alguma experiência em política externa. Pessoas sem experiência em política externa tendem a não compreender todo o alcance do trabalho realizado pelos especialistas em política externa, e por isso deviam ser impedidas de votar.

Uma vez que não quero alimentar tabus, e apesar do que ficou exposto acima, devo dizer que, apesar da indigitação discreta de Cavaco Silva, não serei candidato às próximas eleições presidenciais. Tal como Cavaco, eu também desdenho do valor do salário auferido pelo Presidente da República, e não tenho ainda reformas que me permitam ocupar o cargo com a dignidade que tanto eu como Portugal merecemos. E além disso já tenho coisas combinadas para 2016.

Ricardo Araújo Pereira | | 12 comentários

Ideias para comédias

Um cidadão passa cinco anos sem descontar para a segurança social. Depois chega a primeiro-ministro e manifesta grande preocupação com a sustentabilidade financeira da segurança social
Após ter votado a lei de bases da segurança social, um deputado diz desconhecer as suas obrigações legais para com a segurança social.

Após ter passado anos a dar aulas de catequese, um catequista diz ter ficado com a ideia de que a obediência aos mandamentos era opcional.

Um cidadão passa cinco anos sem descontar para a segurança social. Depois chega a primeiro-ministro e manifesta grande preocupação com a sustentabilidade financeira da segurança social.

Um cidadão passa cinco anos sem tomar banho. Depois fica incomodado quando partilha o elevador com um vizinho que acabou de chegar do ginásio.

Um primeiro-ministro admite que cometeu irregularidades mas justifica-se dizendo que são irregularidades menores do que aquelas que o primeiro-ministro anterior é acusado de ter cometido.

Um aluno falha a entrega dos trabalhos de casa mas justifica-se dizendo que não procedeu tão mal como um aluno que, no ano anterior, tinha roubado a lancheira a outro menino. A professora lembra-lhe que o facto de outros terem cometido infracções maiores não o isenta de uma nota negativa. O aluno, mesmo sendo pequenino, compreende o argumento da professora.

Um primeiro-ministro apercebe-se, em 2012, que deve dinheiro ao Estado, mas acha que é mais oportuno fazer o pagamento apenas no fim do seu mandato, para não criar confusões. Ao mesmo tempo, o seu governo recorre a penhoras automáticas para executar mais rapidamente as dívidas fiscais.

Um verdugo apercebe-se, em 2012, que cometeu um delito parecido com os que são cometidos pelas pessoas que castiga com chibatadas. Passa a dar chibatadas com mais força, para transmitir a ideia de que a sua adesão à prática delituosa não significa que a aprove.

Um primeiro-ministro decide regularizar imediatamente a sua situação fiscal depois de perceber que o jornal Público descobriu aquilo que ele já sabe desde 2012. ?O ministro da segurança social considera a postura do primeiro-ministro muito digna.

Um criminoso decide confessar um crime cometido dez anos antes, e só depois de terem surgido provas absolutamente claras e indesmentíveis de que o cometeu. O seu advogado considera a postura do cliente muito digna.

Milhares de cidadãos falham o pagamento dos impostos na data estipulada e justificam-se dizendo que o jornal Público não teve a gentileza de os incentivar a saldar a dívida.

Um cidadão acumula dívidas e não recebe a respectiva notificação. O sistema que não o notifica durante cinco anos é o mesmo que não deixa passar cinco dias sem notificar os outros cidadãos devedores. O ministro da segurança social diz que o primeiro-ministro foi vítima de um erro do sistema.

Um cidadão ganha a lotaria. Os seus amigos dizem que foi vítima de um acaso da sorte

Da sensualidade das Finanças

É difícil compreender este protagonismo do ministro das Finanças de um país tão pelintra como o nosso, quando a sensualidade de Vítor Gaspar passou despercebida na Europa

Após análise longa e cuidada do seu pensamento económico, a imprensa internacional concluiu que o ministro das Finanças grego é sensual. O estilo de Varoufakis tem sido examinado em detalhe. Houve intenso debate sobre as fraldas da camisa, reflexão sobre determinado cachecol, e discutiu-se uma eventual parecença física com um herói interpretado no cinema por Bruce Willis. Na Alemanha reconheceram-lhe "indubitável carisma" e chamaram-lhe "ícone sexual". Creio, por isso, que a má vontade do Governo português em relação à Grécia não é apenas (ou não é de todo) motivada por razões económicas.

O nosso executivo também já teve um ministro das Finanças recém-eleito, que também visitou a Alemanha para negociar. Nessa altura, a imprensa internacional não disse uma única palavra sobre a sensualidade de Vítor Gaspar, a sua masculinidade clássica, o seu magnetismo animal. Portugal não rejeita que a Grécia tenha um tratamento diferente no que diz respeito ao pagamento da dívida; Portugal leva a mal que a Grécia tenha um tratamento diferente quanto à avaliação da sensualidade dos seus ministros das Finanças.

Nós gostamos muito de reconhecimento internacional. Anotamos com alegria a opinião de qualquer borra-botas nascido do lado de lá da fronteira que elogie um português. Às vezes, nem precisa de elogiar. Aceitamos uma mera referência ao nome, ainda que mal pronunciado. E por isso é difícil compreender este protagonismo do ministro das Finanças de um país tão pelintra como o nosso, quando a sensualidade de Vítor Gaspar passou despercebida na Europa. Vítor Gaspar, à sua maneira, também era sensual. Tinha a tez esverdeada, o que lhe conferia algum exotismo, duas bolsas proeminentes sob os olhos (é sabido que as mulheres adoram bolsas), e uma voz suave. Os dirigentes alemães pareciam acreditar que ele era sensual, uma vez que lhe davam as mesmas ordens que as dançarinas exóticas costumam receber: "Ti-ra!, ti-ra!, ti-ra!" E Vítor Gaspar tirou mesmo. Tirou empregos, tirou salários, tirou reformas. E recebeu uma recompensa, não sob a forma tradicional de nota dobrada ao meio entalada na liga, mas sob a forma de um cargo de director de departamento no FMI. Por que razão não foi então referido internacionalmente o sex-appeal de Vítor Gaspar?

Quem nos impediu de ler notícias acerca do facto de o corpo pouco tonificado de Vítor Gaspar ser cobiçado internacionalmente, notícias essas que apareceriam lado a lado com outros títulos do género, tais como "Praia portuguesa considerada uma das 250 melhores do mundo por revista da qual nunca ouvimos falar mas que em todo o caso é estrangeira"? O desemprego e a pobreza ainda toleramos, mas privarem-nos do gozo de ver gente estrangeira a louvar-nos é simplesmente desumano. Para onde vais, Europa? 

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1147, de 26 de fevereiro | | 5 comentários

Tanta coisa depende de um saco de plástico

Quem tenha acumulado sacos de plástico possui agora uma pequena fortuna. Exactamente como as acções do BES, mas ao contrário
Cobrar dez cêntimos por cada saco de plástico, nos supermercados, talvez contribua para salvar o ambiente, mas a grande medida ecológica já tinha sido tomada: fazer com que os portugueses não tivessem dinheiro para comprar aquilo que depois se transporta no saco de plástico. É um facto comprovado que as pessoas usam muito menos sacos de plástico quando não têm o que pôr lá dentro. Ao longo dos últimos anos, os portugueses têm sido mesmo muito amigos do ambiente. Tendo em conta o seu poder de compra, conseguem ir às compras de pochete. E ainda sobra espaço.

Quem tenha acumulado sacos de plástico, no tempo em que eram gratuitos, possui agora uma pequena fortuna. Sacos que não valiam nada, de um dia para o outro passaram a valer algum dinheiro. Exactamente como as acções do BES, mas ao contrário.

Muitas pessoas afeiçoam-se a coisas como sacos de plástico e depois têm dificuldade em lidar com a perda. Uma medida que abale o regular usufruto dos sacos de plástico pode perturbar mais a vida destas pessoas do que um corte no salário. Refiro-me, por exemplo, às pessoas que guardam bugigangas em gavetas enquanto dizem, com uma certa volúpia, "isto pode dar jeito". Isto é alta sociologia, como o leitor bem sabe. Este tipo de pessoas existe mesmo, e há uma possibilidade grande de o leitor pertencer ao grupo. Eu, infelizmente, não pertenço - até porque sou um desses indivíduos que "nem para si é bom". Depois, apresentam-se-me situações em que me davam jeito certas coisas, mas infelizmente não tive o discernimento de, na altura própria, as guardar numa gaveta. Deve consolar-nos o facto de estas pessoas terem guardado tantos sacos, ao longo do tempo, que só terão de dar 10 cêntimos por um em 2025.

Quando eu era pequeno, a minha avó levava o seu próprio saco para ir às compras. Creio que era uma prática comum: toda a gente levava o seu saco. A minha avó não lhe chamava saco, porque era de Viana do Castelo, e do Douro para cima os sacos mudam de género e passam a ser sacas. Regressamos agora ao tempo em que se vai de saco para o supermercado. Curiosamente, em alguns aspectos o mundo foi mudando de volta para aquilo que a minha avó achava que o mundo devia ser. Espero sinceramente que o mundo pare de fazer as vontades à minha avó. Se o mundo continuar a transformar-se naquilo que a minha avó gostaria que o mundo fosse, mais cedo ou mais tarde serei obrigado a levantar-me cedo. E a arranjar um emprego a sério. Isto das sacas chega.

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1146, de 19 de fevereiro | | 6 comentários

A propriazinha

No meu tempo, contemplar fotografias de amigos era considerado um aborrecimento. Hoje, subscrevem-se contas de instagram para poder apreciar os pés de uma amiga à beira de uma piscina, o gato de um colega dormindo, ou o aspecto da sobremesa que um amigo se prepara para comer

A minha principal objecção ao cinema é esta: parece-me que ver fotografias a um ritmo de 24 por segundo é um exagero.

Acaba por não se ver nenhuma fotografia como deve ser. A única ocasião em que o visionamento de 24 fotografias por segundo se justifica é quando amigos pretendem mostrar-nos os seus álbuns de casamento ou de férias. Nessas alturas, suspiro pelo cinematógrafo. Ao que parece, hoje sou o único a achar enjoativas estas sessões de exibição de fotografias da vida pessoal.

O mundo mudou muito. No meu tempo, contemplar fotografias de amigos era considerado um aborrecimento. Hoje, subscrevem-se contas de instagram para poder apreciar os pés de uma amiga à beira de uma piscina, o gato de um colega dormindo, ou o aspecto da sobremesa que um amigo se prepara para comer. As fotos de outrora, sendo fastidiosas, eram, apesar de tudo, menos triviais. Havia amigos junto de monumentos, defronte de catedrais, perto de animais selvagens. Não ocorria a ninguém, regressado de férias, dizer aos amigos: "Olha que giro, aqui estão os pés da Clotilde junto à piscina do hotel." Ou: "Temos agora uma foto de um prato de arroz-doce que o Mário comeu." Hoje, as pessoas procuram fotos destas. Ninguém as obriga a vê-las. São elas que buscam retratos de pés alheios. Algo se passa com a humanidade.

De todas as fotografias contemporâneas, a mais perigosa é a selfie ou, em português, a propriazinha. A selfie é o equivalente moderno da PIDE. Também persegue, tortura e mata. A PIDE contava com umas dezenas de inspectores pouco espertos e alguns bufos diligentes. As selfies contam com milhões de utilizadores pouco espertos e o facebook, o instagram e o twitter. Uma selfie, para os meus leitores do século XX, é uma fotografia que uma pessoa tira a si mesma, em geral com um telefone. A PIDE, para os meus leitores do século XXI, era a polícia política do Estado Novo. Há quem morra a tirar selfies em posições perigosas.

Há quem seja torturado durante anos pela memória de uma selfie irreflectida. Cristiano Ronaldo está a ser perseguido por umas selfies tiradas na sua festa de aniversário.

Há selfies, belfies (fotografias do próprio rabo) e felfies (fotografias do próprio junto de animais de quinta). Além da pulsão de vida e da pulsão de morte, é também muito poderosa a pulsão de publicar auto-retratos.

Freud estava distraído provavelmente, a fotografar os próprios pés junto de uma piscina.

Ricardo Araújo Pereira | | 8 comentários

Introdução à linguística do caso BES

Só por má vontade pode pensar-se que Cavaco Silva estaria a falar do BES. Ainda estamos à espera que o Presidente fale do BPN

O caso BES deixou esta semana de ser apenas um problema de finanças para passar a ser também um problema de semântica. Ricardo Salgado disse que se encontrou com Cavaco Silva duas vezes, e que o alertou para os "riscos sistémicos" do BES. Tendo isto acontecido em Maio, algumas pessoas estranharam que, em Julho, o Presidente tenha feito declarações sobre o BES apelando à confiança dos portugueses no banco. Essas pessoas não têm razão para estar intrigadas, porque, de acordo com Cavaco Silva, a declaração que ele fez sobre o BES não era uma declaração sobre o BES. É aqui que precisamos de ajuda técnica. Que requisitos deve preencher uma declaração para que se possa dizer dela, com propriedade e segurança, que se trata de uma declaração sobre o BES? Estudemos a frase de Cavaco sobre o BES que não era, afinal, sobre o BES: "O Banco de Portugal tem sido peremptório, categórico, a afirmar que os portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo." Segundo o Presidente, esta declaração sobre o BES é uma afirmação acerca do Banco de Portugal. Não está ali, diz ele, nem uma palavra sobre o BES. Se os rumores que geraram as perguntas dos jornalistas fossem de outro tipo, e o Chefe de Estado tivesse pretendido igualmente invocar o Banco de Portugal como garantia de credibilidade, Cavaco poderia ter dito, por exemplo: "O Banco de Portugal tem sido peremptório, categórico, a afirmar que os portugueses podem confiar na fada dos dentes." Nessa altura, ninguém poderia dizer: "Ouve lá, o Cavaco deve estar maluco. Ouviste aquelas declarações dele sobre a fada dos dentes?" A razão pela qual isso não seria admissível é simples: aquelas declarações sobre a fada dos dentes são, isso sim, uma afirmação acerca do Banco de Portugal. Se, dois meses antes de terem sido proferidas estas declarações imaginárias, a fada dos dentes tivesse requerido uma audiência ao Presidente para lhe revelar que era, na verdade, um sujeito do Montijo chamado Alfredo, o Presidente continuaria a ter toda a legitimidade para fazer aquela afirmação, na medida em que ela se refere apenas ao Banco de Portugal.

Só por má vontade pode pensar-se que Cavaco Silva estaria a falar do BES. Ainda estamos à espera que o Presidente fale do BPN, do modo como eram negociadas acções não cotadas na bolsa e do papel de um conselheiro de Estado e de antigos membros do seu Governo na gigantesca burla. Antes de se pronunciar sobre isso, é evidente que não faria sentido que Cavaco falasse do BES. Às vezes, as pessoas desejam apenas provocar por provocar.

 

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1144, de 5 de fevereiro | | 3 comentários

Eh, toiro lindo! Olha o Tsipras

Uma coisa é esperar o aparecimento de um rei falecido há séculos, outra é contar com um heleno para nos conseguir melhores condições de vida
Portugal olha para o Syriza como o rabejador olha para o forcado da cara. Estamos com muita esperança no desgraçado que vai lá à frente e leva uma boa cornada do touro mas, com sorte, talvez consiga imobilizá-lo de modo a permitir que nós seguremos no lado do bicho que não aleija. É possível que esta metáfora tauromáquica seja injusta e não faça sentido. Não percebo o suficiente de tourada mas, agora que penso nisso, ser rabejador envolve muito mais coragem do que a que reconheço a Portugal (e a mim). Há que agarrar na ponta do boi que escoiceia. E, sem ajuda, fazer tudo para que os companheiros possam largar o toiro sem que o animal invista sobre eles. Não, Portugal não é o rabejador. Portugal é o forcado que aparece no fim da faena, já depois de o bicho estar morto, para se servir de umas fatias de acém, e que, se o animal calha a ter um espasmo, ainda faz xixi nas calças. Não sei como se chama esse forcado, mas somos nós. Angela Merkel, nesta metáfora, é o bovino. Neste ponto, não é necessária muita imaginação.

Ao que nós chegámos. Uma coisa é esperar o aparecimento de um rei falecido há séculos, outra é contar com um heleno para nos conseguir melhores condições de vida. Que é feito das fantasias tradicionais portuguesas? Onde estão as ilusões nacionais de antanho? É certo que a probabilidade de Portugal beneficiar da acção de Alexis Tsipras acaba por ser maior do que a do regresso de D. Sebastião, mas quão fracos têm de ser os nossos mitos para que um grego de 40 anos os substitua tão facilmente?

Felizmente, podemos contar com o nosso primeiro-ministro. Passos Coelho não espera nada de Tsipras. Não faz sentido combater a austeridade, porque a austeridade é nossa amiga. Dizer que a dívida é impagável é de uma desfaçatez impagável. O desemprego, o aumento da dívida e o incumprimento das metas do défice são fruto da má vontade da realidade, que se recusa a colaborar com o caminho certo. Desejar outra coisa é inútil e perigoso. Poderia gerar desemprego, aumento da dívida e incumprimento das metas do défice. Deus nos livre. De acordo com o primeiro-ministro, as ideias do Syriza são "um conto de crianças". É possível, não digo que não. Mas as ideias de Passos Coelho são, como sabemos, um filme para adultos. E o traseiro que o protagoniza, infelizmente, é o nosso.

Ricardo Araújo Pereira | | 37 comentários

Miss Líbano desfila em bikini, vestido de noite e kalashnikov

Se é para discorrerem sobre o conflito israelo-árabe, cedam o bikini ao Nuno Rogeiro
Foi uma semana muito triste para a harmonia entre os homens. A paz no mundo foi ameaçada precisamente pelas pessoas em quem mais confiamos para a defender, a saber: as candidatas a Miss Universo e o Papa. O caso mais chocante foi, claro, o das candidatas a Miss Universo. Ao longo da história da Igreja houve vários papas que talvez tenham percebido menos bem os ensinamentos de Jesus, mas creio que é a primeira vez que palavras ásperas saem da boca impecavelmente maquilhada de uma candidata a Miss Universo. Uma situação inédita que foi causada por este facto muito grave: uma menina bonita israelita tirou uma fotografia em que aparece juntamente com uma menina bonita libanesa. As pessoas indignaram-se nas redes sociais, o que está muito certo, uma vez que é por essa razão que as pessoas frequentam as redes sociais. No Líbano, exigiram explicações à menina bonita sua compatriota. O ministro libanês do Turismo anunciou que seria aberto um processo de averiguações acerca da fotografia em que aparecem meninas bonitas. Pessoalmente, tenho usado a internet para investigar fotografias em que aparecem meninas bonitas, pelo que sou sensível a esta iniciativa. Foi então que a menina bonita libanesa acusou a menina bonita israelita de a perseguir, e recusou falar-lhe. Ora, não é isto que se espera de meninas bonitas que participam nestes concursos. No meu tempo, as candidatas a Miss Universo nem sabiam onde ficava Israel. Amavam toda a gente e desconheciam profundamente a geografia. Se é para discorrerem sobre o conflito israelo-árabe, cedam o bikini ao Nuno Rogeiro.

As palavras do Papa também merecem reflexão. Disse ele que, se um amigo insultasse a sua mãe, devia esperar um soco. Não conheço o evangelho com a profundidade necessária para saber se o Messias aprova a violência quando se trata de insultos à mãe, mas acredito que sim. ?E já testemunhei várias zaragatas, tanto em bares como em casas onde decorrem reality shows, motivadas exactamente por este tipo de ofensa. O cristianismo está muito mais arreigado na nossa sociedade do que se pensa.

Há, no entanto, um ponto em relação ao qual tenho uma dúvida ética: o que fazer no caso das mães autodepreciativas? Há pessoas que, por questões de temperamento ou por se encontrarem num momento de baixa auto-estima, rebaixam a sua própria pessoa. Algumas dessas pessoas são mães. Que devem fazer os seus filhos? Seguir o preceito cristão de agredir quem insulta as mães? Ou não agredir as mães, permitindo que a ofensa passe em claro? Trata-se de um difícil dilema moral. Haja um especialista no catecismo que me ajude.

Ricardo Araújo Pereira, Crónica publicada na VISÃO 1142, de 22 de janeiro | | 31 comentários

O que somos quando somos Charlie

Não é a vida que é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, e desprovida de significado. É o facebook

Não é a vida que é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, e desprovida de significado. É o facebook. Apesar de não ter facebook, vou acompanhando o som e a fúria através das reacções das pessoas que têm. No caso do Charlie Hebdo, contei quatro fases de agitação sonora e furiosa, a saber:

1. Eu sou Charlie;

2. Eu sou mais Charlie do que tu;

3. Eu era Charlie, mas não quero ser Charlie com quem não é Charlie;

4. Eu não sou Charlie.

A primeira reacção é previsível e normal. Morreram doze pessoas por causa da publicação de desenhos satíricos. Parece--me natural que pessoas decentes se solidarizem com as vítimas de um crime destes, indo ao ponto de lhes tomarem a identidade. Até eu, que sou decente apenas se não puder evitá-lo, o fiz. Confesso que nunca comprei o Charlie Hebdo, nunca o referi como referência humorística e nem sou apreciador do jornal. Ao que tenho visto, sou o único. Ainda assim, disse - e repito: eu sou Charlie. Posso fazê-lo? Posso, posso. Não preciso de ter a assinatura do jornal em dia. De igual modo, em Setembro de 2001, quando dissemos "somos todos americanos", ninguém veio pedir-nos o passaporte. Se para ser Charlie é necessário ter a coragem dos cartunistas que morreram, então ninguém no mundo está habilitado a ser Charlie - tirando, talvez, Salman Rushdie e mais duas ou três pessoas.

Também por isso, a segunda fase foi muito divertida. Consistiu num campeonato para apurar quem é mais Charlie. Alguns auto-investidos Charlies reclamaram-se proprietários do luto, herdeiros de um legado que aliás desconhecem e porta-estandartes de uma coragem que não têm nem precisam de ter. Estes Charlies gritaram que só não eram Charlies praticantes porque os poderes instituídos não deixam, recusando-lhes o acesso aos meios de comunicação social. Não lhes ocorreu que o Charlie Hebdo não contava com os poderes instituídos para nada. E que não têm o direito inalienável ao acesso aos meios de comunicação social. E que há uma diferença bastante sensível entre não ter acesso aos media e ser executado com um tiro na nuca. E que é feio aproveitar a morte de 12 desgraçados para tentar arranjar um emprego. E que, hoje em dia, nada os pode impedir de se exprimirem e serem plenamente Charlies na internet, por exemplo.

A terceira fase foi a dos hipsters do Charlie. Isto de sermos Charlie foi giro no início, mas agora está muito visto. É uma solidariedade à condição, que vai diminuindo à medida a que a dos outros aumenta. E essa fase abriu caminho para a última, que fechou o ciclo. Agora é cada vez mais frequente a declaração "Não sou Charlie". Jean Marie Le Pen foi dos primeiros: "Não sou Charlie porque eles eram anarco-trotskistas e eu não sou." Para que Le Pen se identifique com as vítimas, temos de esperar até que os terroristas matem um cartunista idiota.

Página 1 de 20 1 | 2 | 3 | 4 | 5 |
PUBLICIDADE
Visão nas Redes