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Clube dos socialistas mortos

Na qualidade de socialista falecido em 2005, venho felicitar a sua federação por possibilitar a participação de mortos no processo eleitoral

Exmo. Sr. Presidente da Federação do PS de Braga,

Na qualidade de socialista falecido em 2005, venho felicitar a sua federação por possibilitar a participação de mortos no processo eleitoral. Durante demasiado tempo, só pessoas vivas eram chamadas a votar, pelo que se saúda o alargamento do espectro eleitoral a espectros eleitores. A iniciativa de V. Exa. produz efeitos ideológicos que, tenho a certeza, hão-de marcar a história do socialismo. A velha divisa cubana "Socialismo ou morte" terá de merecer actualização, na medida em que a federação socialista de Braga demonstra que socialismo e morte não são conceitos que se excluam. Talvez em Cuba os cidadãos sejam obrigados a escolher "socialismo ou morte", mas em Braga podemos ter "socialismo e morte", tudo ao mesmo tempo. É, literalmente, o melhor de dois mundos: este e o outro.

Note que não falo em nome dos mortos-vivos, mas sim dos muito mais prosaicos mortos. Os mortos-vivos, pese embora a fama de que vêm gozando, não merecem direito de voto. As criaturas lendárias já estão muito bem representadas na vida política pelos vampiros. Acrescentar os mortos-vivos seria redundante. Os mortos, em contrapartida, nunca obtiveram representação política. O falecimento, ocorrência tantas vezes alheia à vontade do cidadão, retira-lhe o direito de voto, sem que seja apresentada uma justificação válida. A ausência de actividade cerebral não serve de desculpa, uma vez que também se verifica, quer em outros eleitores, quer em boa parte dos eleitos.

Como é evidente, coloca-se a questão de saber de que modo pode o morto participar no processo eleitoral, dadas as suas limitações. Neste ponto, permita-me que lhe apresente o meu sobrinho Nelson, que é bruxo em Esposende. É a ele que estou a ditar estas palavras. Por uma verba simbólica, o Nelson está disponível para colaborar com a concelhia do PS, transmitindo aos seus dirigentes a posição política de um vasto leque de defuntos. Todos os dias, o Nelson recebe a visita de inúmeras almas de antigos socialistas, ansiosos por participar na vida partidária. O morto, hoje em dia, já não se satisfaz com as tradicionais aparições fantasmagóricas em casa dos familiares para bater com portas e abrir torneiras. O defunto moderno quer continuar a ter uma palavra a dizer na vida cívica. O meu sobrinho Nelson pode ajudar a concelhia a registar as opiniões de antigos socialistas, por apenas dois euros por alma. No entanto, o Nelson está preparado para lhe oferecer um preço especial por atacado, a saber: 15 euros por cada palete de 10 defuntos.

Creia que somos muitos, neste lado, a querer participar. E está aqui um senhor chamado Engels que quer dar uma palavrinha a V. Exa. acerca do que é, na verdade, um partido socialista.

Com os melhores cumprimentos,

Fernando Manuel T. Guedes

Defunto

Crónica publicada na VISÃO 1123, de 11 de setembro | | 1 comentário

Escatologia dos euros

O rico moderno tem menos bens em seu nome do que São Francisco de Assis 

De acordo com Jesus Cristo, é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Quem já tentou fazer um camelo passar pelo buraco de uma agulha tem a noção exacta da dificuldade da tarefa, sobretudo se usou o mesmo método que se aplica às linhas, e que consiste em humedecer-lhes a ponta. Humedecer a cabeça de um camelo exige alguma coragem, muita salivação e um bom elixir oral. Cirilo de Alexandria acreditava que as palavras do Messias tinham sido mal reproduzidas. Em grego, o vocábulo que designa camelo (kamelos) é muito parecido com o que designa corda (kamilos), e quem registou as declarações do Senhor pode ter feito confusão (já se sabe como são os jornalistas). Uma vez que uma corda também não passa facilmente pelo buraco de uma agulha, os ricos foram forçados a engendrar uma estratégia para entrar no reino dos céus, a saber: não possuir quaisquer bens em seu nome. 

O rico moderno tem menos bens em seu nome do que São Francisco de Assis. A questão, portanto, não é tanto a de saber para onde vão os ricos quando desaparecem. O que deve ocupar os teólogos é descobrir para onde vão os euros quando desaparecem. Nunca me desapareceu um rico, mas desaparecem-me euros todos os dias. Sobretudo, é difícil responder às questões que as crianças nos colocam a este respeito. "Papá, o dinheiro que tinhas no chamado banco mau para onde foi?" "Onde estão as poupanças que o avô foi convencido a investir nas empresas do grupo BES?"

"O meu dinheiro também vai desaparecer?" São inquietações para as quais não temos resposta clara. Dizemos apenas que não sabemos onde o dinheiro está. "Mas o Cavaco não tinha dito que os portugueses podiam confiar no BES, papá?" Não convém deixar as crianças assistir aos noticiários. É muito cedo para elas aprenderem a lidar com a perda. Mais tarde poderemos dizer-lhes que o desaparecimento do dinheiro é uma parte da nossa vida financeira, e que o máximo que podemos fazer é protege-lo de uns gatunos entregando-o a outros. Mas, para já, teremos de esperar que a ciência seja capaz de determinar claramente para onde vai o dinheiro que desaparece. Com a justiça, aparentemente, não contamos. Entretanto, teremos de contar às crianças as mentiras piedosas do costume. Que o dinheiro desapareceu mas vive agora num banco muito bonito, com inúmeras outras notas. Que tem uma vida de grandes investimentos que nós não lhe podíamos proporcionar. Enfim, que está no paraíso. No paraíso fiscal, evidentemente. 

Crónica publicada na VISÃO 1122, de 4 de setembro de 2014 | | 6 comentários

Santo Alves dos Reis

Julgar o antigo banqueiro não é apenas injusto, é perigoso: se pusermos Ricardo Salgado no banco dos réus, o mais provável é que o banco dos réus comece a dever dinheiro a toda a gente

Como diz Miguel Sousa Tavares, atacar Ricardo Salgado é agora uma espécie de desporto nacional. Há coisas realmente incompreensíveis, neste país. Sucedeu o mesmo com Vale e Azevedo, e também com Oliveira e Costa: só porque eram suspeitos de crimes graves e levaram à ruína as instituições que lideravam, desatou tudo a atacá-los. As duas primeiras ainda se toleram, mas à terceira Sousa Tavares não conseguiu calar o seu grito de revolta. Eu, que prezo muito a originalidade na vida pública, estou com ele. Basta de ataques a Ricardo Salgado. Que diabo, já cansa. Sousa Tavares e eu estamos fartos. É tempo, aliás, de serem desmistificadas algumas mentiras descaradas que a comunicação social tem divulgado acerca do antigo presidente do BES. Por exemplo, tem sido dito que Salgado recebeu uma prenda de 14 milhões de euros. Não é preciso investigar muito para saber que é falso. De uma vez por todas: as pessoas da classe social a que Ricardo Salgado pertence não recebem prendas, recebem presentes. Também não é verdade que a credibilidade do BES tenha ido pela sanita abaixo. Foi pela retrete. Sejam rigorosos.

A detenção de Salgado também me chocou, e espero sinceramente, para bem do país, que a justiça pare de o importunar. Julgar o antigo banqueiro não é apenas injusto, é perigoso: se pusermos Ricardo Salgado no banco dos réus, o mais provável é que o banco dos réus comece a dever dinheiro a toda a gente.

Por outro lado, e como também é costume da comunicação social, só se fala das vidas que Ricardo Salgado arruinou. Não se diz uma palavra sobre as pessoas que beneficiou. A reputação de Alves dos Reis, por exemplo, merece uma reavaliação.

Além do mais, os Espírito Santo continuam a fazer falta à banca portuguesa. O tribunal de comércio do Luxemburgo aceitou o pedido de gestão controlada feito pelas empresas do Grupo Espírito Santo. É uma mudança bastante grande relativamente ao regime de gestão descontrolada que vigorava até aqui. Receio que seja necessário um período de adaptação. Talvez a transição deva ser feita por uma administração mista, com membros da família Espírito Santo e pessoas que percebam mesmo de finanças. E só depois será possível nomear um conselho de administração mais credível do que o anterior. Por exemplo, com administradores recrutados no estabelecimento prisional do Linhó.

Ricardo Araújo Pereira | | 1 comentário

Atura-te a ti mesmo

"Conhece-te a ti mesmo", diziam os gregos. "Ama-te a ti mesmo", recomendam os actuais gurus da auto-ajuda. São dois conselhos incompatíveis, pelo menos no meu caso. Ou bem que me conheço, ou bem que me amo.
"Conhece-te a ti mesmo", diziam os gregos. "Ama-te a ti mesmo", recomendam os actuais gurus da auto-ajuda. São dois conselhos incompatíveis, pelo menos no meu caso. Ou bem que me conheço, ou bem que me amo. Considerar ambas as sugestões ao mesmo tempo é impossível, e escolher apenas uma é inútil: a primeira tarefa é desinteressante e a segunda é imoral. Posto isto, tenho optado por andar a conhecer (e, inevitavelmente, a amar) os actuais gurus da auto-ajuda. Aprendi três conceitos fundamentais: devo acreditar em mim, não desistir dos meus sonhos, e pensar positivo. Até aqui, a minha vida era orientada por três princípios bastante diferentes: desconfia de ti, deixa-te de sonhos, uma vez que não és a Cinderela, e pensa. Estava tudo errado. Pensar não me permitia pensar positivo. Punha-me a pensar (creio que de forma neutra) e concluía que o pensamento positivo, isto é, a ideia segundo a qual nos acontecem coisas boas se pensarmos em coisas boas, era ridícula. A minha experiência pessoal também não ajudava, na medida em que eu tinha passado toda a adolescência a pensar em coisas boas (seios, sobretudo) e não me tinham acontecido coisas boas (seios, por exemplo, nunca). Também não me dedicava a sonhar, porque imaginava que a minha vida não tinha sido desenhada por Walt Disney. Claro que houve momentos, durante a infância, em que fantasiei com o meu futuro, mas essas fantasias não se concretizaram, e é por isso que hoje não sou um cardiologista que cura pessoas durante o dia, combate o crime durante a noite e joga na equipa principal do Benfica ao fim-de-semana. Por fim, estava habituado a desconfiar de mim. Por azar, nasci sem saber fazer nada, e por isso desenvolvi uma suspeita muito forte de que não conseguia fazer nada. Essa suspeita levava-me a tentar preparar-me, para aprender. Tivesse eu sabido mais cedo que me bastava sonhar, acreditar e pensar nas coisas certas, e a esta hora estaria a beijar uma princesa adormecida há muito tempo, e a viver feliz para sempre. Um dos aspectos que mais me aproxima dos novos gurus é o amor pela linguagem. Vê-se que não estudaram etimologia, mas acreditam, sonham, e pensam positivo sobre todas as partes da gramática. Um dos pregadores da Igreja Universal do Reino do Empreendedorismo tinha dito que a palavra "empreendedor" acabava em "dor" porque ser empreendedor era muito doloroso. Essa observação fez-me ganhar um novo respeito pelo espanador e mesmo pelo esquentador, que partilham aquela terminação, e são objectos cujo sofrimento eu desconhecia. Um outro teórico disse há dias que a nossa mente se chama mente porque nos mente todos os dias. Suponho que, em inglês, a mente se chame "mind" porque a mente dos ingleses não é aldrabona. Má sorte ter nascido português. O mesmo filósofo disse ainda que, se dividirmos ao meio a palavra "presente", temos "pré-sente", porque o presente é uma altura em que não estamos ainda a sentir teoria que ele postula num livro a que, sem receio de cacofonias, chamou "Agarra o agora". E acrescentou que é impossível pensar e sentir ao mesmo tempo. São óptimas notícias para as vítimas de tortura. Basta que comecem a pensar e deixarão de sentir. Desde que não se esqueçam de pensar positivo.
Ricardo Araújo Pereira | | 10 comentários

Um banco dentro do toucado

A paixão do coleccionismo parece ter tomado conta do povo português. As colecções de moedas são estimulantes apenas até certo ponto, e por isso os portugueses dedicam-se agora a coleccionar bancos. É a piscina dos grandes da numismática

A paixão do coleccionismo parece ter tomado conta do povo português. As colecções de moedas são estimulantes apenas até certo ponto, e por isso os portugueses dedicam-se agora a coleccionar bancos. É a piscina dos grandes da numismática. O valor das moedas depende da sua raridade e do seu estado de conservação. Suponho que com os bancos suceda o mesmo. Até agora, os portugueses só conseguiram adquirir bancos mal conservados, mas começa a ser uma colecção que impressiona, uma vez que são todos muito raros. O BPN foi o primeiro, e por isso será sempre especial, mas o coleccionismo é um vício, e por isso vamos comprando outros, devagarinho. Esta mega-numismática requer alguns cuidados. O cidadão que deseje continuar a comprar bancos fará melhor se tirar o seu dinheiro dos bancos. É mais fácil comprar os bancos a prestações, através dos impostos, do que investir as poupanças todas de uma vez, ficando sem elas. O melhor método, e o mais seguro, parece ser o mais antigo: guardar o dinheiro no colchão. O meu colchão tem várias vantagens. A primeira é que sou eu quem lhe faz a supervisão, e tenho mais tempo para lhe dar atenção do que o Banco de Portugal. Todos os dias, verifico se o meu colchão abriu offshores nas ilhas Caimão, ou se perdeu milhões em Angola. Até agora, nada. Tem sido um bom colchão, não só a gerir os meus activos como a proporcionar suporte lombar o que os bancos, aliás, sempre negligenciaram. A segunda vantagem é o rigor e a estabilidade que o colchão me proporciona. Todos os dias saem novas notícias sobre as desavenças e dívidas da família Espírito Santo. Mas a família Molaflex mantém o recato e a discrição próprias dos grandes banqueiros de antigamente.

O poeta Nicolau Tolentino escreveu um soneto divertido sobre a moda da sua época. As senhoras usavam penteados muito volumosos, e o poema contava a história de uma moça que tinha um colchão escondido no toucado. Hoje, a moda já não ameaça os colchões. E, embora os banqueiros usem, quase todos, o cabelo bem aparado, muitos conseguem levar um banco inteiro escondido na algibeira. Mais um ponto a favor dos colchões.

Ricardo Araújo Pereira | | 5 comentários

A sorte de Carlos do Carmo

Na mesma semana, o cantor teve duas alegrias: recebeu um prémio internacional pela sua carreira e não recebeu os parabéns do Presidente da República. Isto, para mim, é a definição de prestígio

A comoção que provocou o facto de Cavaco Silva não ter endereçado votos de parabéns a Carlos do Carmo é injustificada. Que se lixe Carlos do Carmo, esse sortudo. Na mesma semana, o cantor teve duas alegrias: recebeu um prémio internacional pela sua carreira e não recebeu os parabéns do Presidente da República. Isto, para mim, é a definição de prestígio. Desconfiamos que alguma coisa está mal na nossa vida quando Cavaco Silva nos distingue. Recordo que Cavaco distinguiu Dias Loureiro com a sua amizade e Oliveira e Costa com o lugar de secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. A recusa de fazer chegar um parabém a Carlos do Carmo acrescenta honra à semana já honrosa do fadista. Foi dos mais belos ultrajes que já vi, uma das mais dignificantes desconsiderações que o Presidente já concedeu.

Há um poema de Bertolt Brecht (que também nunca foi felicitado por Cavaco Silva) em que um escritor descobre, horrorizado, que as suas obras não constam da lista de livros que os nazis pretendem queimar em público, e escreve uma carta indignada ao governo a exigir que o queimem também. Suponho que haja, neste momento, várias pessoas condecoradas ou parabenteadas por Cavaco a passar por uma indignação semelhante. Porque é que Carlos do Carmo e José Saramago merecem o menosprezo do Presidente e elas não? Que mal fizeram elas ao País para terem caído nas boas graças de Cavaco?

O que nos leva a uma reflexão mais profunda sobre o mérito de Carlos do Carmo. Sim, é um excelente cantor e um nome cimeiro do fado. Mas fez assim tanto para ser abominado por Cavaco? Cristiano Ronaldo e o ciclista Rui Costa também parecem ser pessoas decentes, e no entanto foram felicitados pelo Presidente, quando ganharam, respectivamente, uma Bola de Ouro e uma Volta à Suíça. Há filhos e enteados, nisto dos desdéns que enobrecem?

Talvez Cavaco não tenha agraciado Carlos do Carmo com o seu desprezo propositadamente. Há outros factores que podem ter levado o Presidente a distinguir o fadista com esta ausência de congratulações. Uma chamada local custa 0,0861€ no primeiro minuto e 0,0391€ por minuto nos minutos seguintes, já com o IVA incluído. A factura de um telefonema de felicitações a Carlos do Carmo poderia ascender a cerca de um euro, porque todos sabemos como são estes fadistas quando a gente os saúda pelo telefone: nunca mais se calam. É isto, e aquilo, e os tempos da Severa, e quando damos por ela estamos ao telefone há mais de cinco minutos. Um telegrama tem a vantagem de não fazer falar o fadista, mas custa à volta de três euros. Ora, Cavaco já disse que o dinheiro não lhe chega para as despesas, e no fim do ano passado já felicitou o tenista João Sousa pela vitória no torneio de Kuala Lumpur: "Não posso deixar de dirigir uma felicitação muito, muito sincera e com um grande sublinhado porque projecta o nome de Portugal para o 'top' daqueles que se destacam na prática do ténis". Deve ter sido uma felicitação dispendiosa, porque era muito, muito sincera e incluía um grande sublinhado. Até 2015, não deve ter orçamento para mais parabéns. 

Ricardo Araújo Pereira | | 39 comentários

A Bordalolândia

Em vez dos bonecos da Disney, teríamos o Zé Povinho, que aparece a pagar as obras, fazendo uma figura mais pateta que o Pateta.

Mais um motivo de orgulho para o nosso país, já tão rico em recordes: a garagem mais cara do mundo fica em Portugal. Chama-se Aeroporto Internacional do Alentejo, e fica em Beja. Podia ter sido o aeroporto mais barato do mundo, porque foi construído a partir de uma base aérea já existente, mas felizmente, e porque seria um pouco pindérico termos infra-estruturas baratas, neste momento é a garagem mais cara do mundo. O projecto de explorar o turismo alentejano e algarvio falhou. Não foram construídos os acessos necessários nem criadas condições para atrair as companhias aéreas low-cost. Esta semana, o aeroporto perdeu o seu único voo comercial e transformou-se, então, numa formidável garagem para aviões.

O processo de construção da estupenda garagem cumpriu todos os trâmites da burocracia clássica portuguesa. Houve atrasos na construção, na certificação e na inauguração. Entre o fim da construção e a inauguração passou tanto tempo que o aeroporto teve de ser submetido a obras. Foram feitas previsões divertidíssimas. Em 2007, responsáveis pelo projecto previram que o aeroporto teria 178 000 passageiros em 2009. O aeroporto só seria inaugurado em Abril de 2011, pelo que os 178 000 passageiros que estavam ávidos de o frequentar em 2009 devem ter tido uma desilusão grande. O mesmo responsável estimava que, em 2020, o aeroporto atingisse 1,8 milhões. Não sei se já disse que o aeroporto perdeu esta semana o seu único voo comercial. Recordo que estamos em 2014. Por causa deste pequeno desfasamento entre as projecções e a realidade, o Governo criou outro clássico: o grupo de trabalho que tenta perceber de que forma se resolve o assunto.

É a este e a outros grupos de trabalho semelhantes que eu gostaria de fazer uma proposta. Trata-se da criação da Bordalolândia. Assim como os americanos têm a Disneylândia, inspirada nos bonecos desenhados por Walt Disney, também Portugal poderia ter a Bordalolândia, inspirada nas criações de Rafael Bordalo Pinheiro. Todos os projectos semelhantes ao Aeroporto de Beja seriam convertidos em grandes parques temáticos, com diversões para encantar miúdos e graúdos. Em vez de comboios que percorrem o mundo das histórias infantis, como a da Branca de Neve, teríamos um comboio parecido que percorreria a história da construção do empreendimento. Não sendo histórias de fantasia, têm partes que parecem mentira, como creio ter ficado claro. Em vez dos bonecos da Disney, teríamos o Zé Povinho, que aparece a pagar as obras, fazendo uma figura mais pateta que o Pateta. Parece-me que é assim que podemos recuperar o nosso dinheiro. A menos que o projecto da Bordalolândia seja planeado e executado por quem planeou e executou o do Aeroporto de Beja.

 

Ricardo Araújo Pereira | | 3 comentários

Arte a meia haste

Se o artista queria criar uma boa metáfora sobre o estado do país, colocava a corda na garganta de um funcionário público ou de um reformado, como faz o Governo, e não incorreria em qualquer crime

A criminalidade em Portugal está a atingir níveis preocupantes: aumentam os assaltos à mão armada, crescem os crimes violentos e, esta semana, foi julgado, no Algarve, um criminoso que enforcou um pano. O bandido montou um patíbulo, pendurou um baraço e estrangulou o pano indefeso. O pano, embora exibisse cor verde numa metade (provavelmente, devido à falta de oxigénio) e vermelha na outra (talvez por causa daquela concentração sanguínea que precede a gangrena), foi resgatado e encontra-se a recuperar bem.

O criminoso é um perigoso estudante de arte chamado Élsio Menau, o enforcamento era um trabalho artístico que recebeu 17 valores na Universidade do Algarve, e o pano era a bandeira nacional. O conjunto chamava-se Portugal na forca e, de acordo com o criminoso, pretendia ser uma metáfora sobre o estado do País. A desculpa não é plausível, evidentemente. Se o artista queria criar uma boa metáfora sobre o estado do País, colocava a corda ao pescoço de um funcionário público ou de um reformado, como faz o Governo, e não incorria em qualquer crime. Sabemos que não temos futuro no meio artístico quando percebemos que Passos Coelho é melhor artista do que nós. Uma lição para Élsio Menau.

Não é a única lição que este delinquente precisa de aprender. A bandeira nacional não serve para fins artísticos. A bandeira nacional é sagrada, e destina-se apenas a propósitos mais altos, como vender cerveja em anúncios televisivos, ser desfraldada em varandas em apoio de jogadores de futebol, ou enfeitar lapelas de governantes enquanto eles desempenham a nobre missão de confiscar salários. Intervenções artísticas com o estandarte nacional estão exclusivamente a cargo do Presidente da República, que o pendura às avessas como metáfora da circunstância de não o saber pendurar como deve ser.

Há um único pormenor que poderia redimir este carrasco de bandeiras. O estado fisiológico que, a fazer fé no mito, sobrevém ao enforcado, poderia ser interessante para Portugal. Cito o poeta Al Berto: "dizem também / que um duende dança na erecção do enforcado". Se estamos a definhar, ao menos que o nosso último entusiasmo sirva de piso de dança. O que não falta para aí é gente pequenina para fazer o papel de duende. Só entre os autores do processo judicial a Élsio Menelau deve haver vários.

Ricardo Araújo Pereira | | 5 comentários

O futuro é um país distante

De duas, uma: ou a economia anda a zombar do Presidente da República ou eles, na Universidade de York, dão doutoramentos a quem não percebe nada do assunto

Primeiro, Cavaco Silva previu uma espiral recessiva. E a economia começou a crescer timidamente. Agora, Cavaco Silva disse que o medo devia dar lugar à esperança. E a economia dá sinais de recuo e estagnação. De duas, uma: ou a economia anda a zombar do Presidente da República ou eles, na Universidade de York, dão doutoramentos a quem não percebe nada do assunto.

O único motivo de esperança é o facto de, segundo creio, estarem agora reunidas condições para passar a haver menos notícias acerca de desemprego - mas apenas porque os jornalistas começam também a ser despedidos em massa e, por isso, dentro de pouco tempo, passará a haver menos notícias acerca de quase tudo. Esta é a minha opinião sobre a conjuntura económica e, por incrível que pareça, é tão válida como a do Presidente.

A economia é a área de estudos mais democrática que existe. Eu só li o livro do Samuelson, e mal (passei à frente o capítulo sobre política fiscal e pleno emprego, que era especialmente aborrecido - e Passos Coelho, aparentemente, fez o mesmo. Les beaux esprits...), e mesmo assim as minhas previsões são tão más quanto as do Presidente, que é um especialista. Se me nomeassem ministro das Finanças, talvez eu levasse o País à bancarrota, como fez Teixeira dos Santos, que se doutorou nos Estados Unidos. Os economistas não fazem ideia do que estão a falar, o que é ao mesmo tempo tranquilizador e preocupante. É tranquilizador porque podemos discutir economia em pé de igualdade com eles. Para saber a razão pela qual é preocupante, basta ler o jornal ou olhar para o recibo do ordenado.

Estou a chegar àquela idade em que as pessoas da minha geração começam a chegar a cargos de poder. Estudaram economia, a maior parte, e vão mandar no País. Eu conheço alguns, e não sei como evitar o constrangimento quando os encontrar, por acaso, na rua ou num restaurante. Vai ser muito embaraçoso para eles. Dedicaram-se ao estudo dos grandes nomes da teoria económica e agora dirigem o País; eu estudei duas ou três coisas sem grande préstimo e dedico-me à tarefa muito mais nobre de fazer pouco deles. Vou apiedar-me desses desgraçados e tentar que a soberba não tome conta de mim.

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Diz que principia uma competição desportiva

A humanidade é culturalmente diversa, mas é muito belo constatar que existe um traço que une a espécie humana inteira: há construtores garganeiros em toda a parte

A escandalosa escassez de informação sobre o assunto leva a que, provavelmente, o leitor não saiba que começa hoje o Campeonato do Mundo de futebol. Trata-se de uma competição entre equipas compostas pelos melhores jogadores de 32 países, e disputa-se no Brasil. Os jogadores portugueses têm feito várias deslocações, a bordo de um autocarro, mas os jornalistas persistem em ignorá-las. Ao que parece, nesta altura a equipa portuguesa já se encontra numa unidade hoteleira do Brasil, mas tirando a exacta localização geográfica, a descrição pormenorizada das instalações e o nome e morada de todos os funcionários do hotel, são muito poucas as informações que nos chegam.

Para receber o Mundial, o Brasil renovou e construiu vários estádios, incluindo o estádio nacional, em Brasília - uma cidade em que as equipas de futebol não têm grande expressão. O recinto tem capacidade para cerca de 73 mil pessoas e, curiosamente, chama-se estádio Mané Garrincha - e não estádio do Algarve, o nome que se costuma dar a estádios que, depois de acolherem dois ou três jogos, deixam de ser usados. A humanidade é culturalmente diversa, mas é muito belo constatar que existe um traço que une a espécie humana inteira: há construtores garganeiros em toda a parte. É sob o signo do construtor garganeiro que a humanidade dá as mãos e constrói o futuro. E depois o futuro nunca mais fica pronto, porque estes empreiteiros prometem sempre o fim da obra para uma determinada data mas adiam sistematicamente o fim da construção.

De acordo com os jornais brasileiros, alguns estádios ainda não estão prontos, o que representa um motivo de orgulho para Portugal. Significa que os brasileiros retiveram algumas das nossas características mais encantadoras. O destino deste mundial começou a ser traçado em Tordesilhas, há 520 anos. É comovente ver as marcas mais representativas da cultura portuguesa um pouco por todo o lado, testemunhando a nossa presença nos quatro cantos do mundo. Alguns dos estádios não passaram nos testes de segurança, pelo que podem registar-se incidentes dentro dos recintos. Fora dos recintos vão certamente registar-se incidentes, devido às manifestações de boa parte da população brasileira contra a realização do Mundial no seu país. Parece que os manifestantes preferem hospitais e escolas para acolher condignamente os cidadãos a estádios para acolher condignamente o Bósnia Herzegovina-Irão. Confesso que não sei a quem é que eles saem assim. Alguma coisa correu mal na nossa colonização.

Ricardo Araújo Pereira (crónica publicada na VISÃO 1110, de 12/06, dia em que começou o Mundial 2014) | | 11 comentários
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