"E Aarão porá ambas suas mãos sobre a cabeça do bode vivo, e sobre ele confessará todas as iniquidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões segundo todos os seus pecados: e os porá sobre a cabeça do bode, e enviá-lo-á ao deserto pelas mãos de um varão emparelhado. Assim aquele bode levará sobre si todas as iniquidades deles à terra apartada (...)".

Levítico, cap. VI, vs. 21-22,

Tradução de João Ferreira Annes d'Almeida; fixação do texto de José Tolentino Mendonça, edição Assírio&Alvim, 2006

 

Porquê começar falando de bodes?
O primeiro entendimento que um blogue chamado Pharmacia provavelmente obterá é a sua associação a tudo o que releva da farmacêutica: fármacos, farmacologistas, botequins, mezinhas, poções, drogas, medicamentos, médicos, doenças, hospitais, saúde, morte, dor, remédio, tratamento, falta dele, cuidado, sofrer, evitar sofrer, resolver, adiar, terapia, alegria, força.

Este primeiro e óbvio entendimento não vincula nenhum caminho discursivo. Eu começo esta escrita falando de bodes. E falo de um bode em particular, com presença bíblica. O bode que aqui me interessa tem tudo a ver com Pharmacia, diria mesmo que é a metafísica da farmacêutica, a transcendência de qualquer remédio. O bode em causa, o chamado bode expiatório, pode mesmo ser o remédio santo, o remédio dos remédios, o remédio acima dos remédios.

O bode, aquele que transporta as culpas, é  fármaco essencial de qualquer sociedade. Nas sociedades, todos somos culpados de alguma coisa (ou, pelo menos, acreditamos na culpa dos outros). Sem o bode, não se resiste à maldição - uma sociedade que não se distancia da culpa merece a morte, a sociedade que vive na culpa é suicidária. Só quando o bode se afasta para o deserto, carregado (como nos descreve o Levítico), podemos viver leves, saudáveis, e aspirar a vida longa.

Que  remédio melhor para os males do corpo e da alma que a sua transferência para um corpo de sacrifício, que viva por nós a dor, que viva a nossa dor, que se transforme na catarse da dor?

O bode que transporta os males do mundo há-de falecer nas mãos do deserto e na sua consumação serão  devorados os pecados e culpas todas. No ódio carregado na cabeça do bode se afastará a pestilência, todas as pestilências.

Bem se vê que os remédios não curam, os remédios são um sortilégio que afasta mas não resolve definitivamente. O ritual da expiação sobre a cabeça do bode é uma necessidade periódica, pois a sua realização singular não basta para apaziguar os deuses - amiúde,  os homens voltam a "cair" e a precisar de expulsar as suas dores.

A procura incessante da fonte da juventude, da pedra filosofal, a alquimia da transformação da pedra em ouro são tentativas de possuir o remédio santo. A pedra que se pretende transformar em ouro são uma metáfora para o corpo e a alma. A alquimia é outro nome para a procura da vida eterna - e a vida é eterna para os que acreditam na transcendência e para os que nela não acreditam: todos queremos que a vida perdure em saúde e não se degrade seja o sempre físico ou metafísico.

Com o bode expiatório afasta-se o pânico -  o remédio santo para todas as dores (todos os remédios são uma resposta ao pânico).

 

E hoje, como se escolhe um bode expiatório?

O cornudo contemporâneo segue o ritual costumeiro - é identificado e nomeado ao acaso. A partir do momento da escolha aleatória, é o emissário destinado ao lugar do sacrifício: Obama é o bode dos Republicanos (que acaso o fez Presidente?), do Tea Party, da indústria petrolífera; a  Grécia é o bode da União Europeia (que acaso a fez assim?), do capitalismo financeiro, do sistema bancário; os ministros que saem do Governo de Dilma são o bode da corrupção brasileira (por que acaso?);  todos eles, ao carregar as culpas todas são remédio santo? E o que acontece quando o bode enviado, carregado das culpas, retorna à origem sem cumprir a missão sacrificial? Quem carregará então as culpas?

Por acaso não guardamos poções de rejuvenescimento, unguentos contra os males possíveis e imaginários, por baixo da mesa, nas nopssas gavetas, nos armários? Por acaso não compramos ou admiramos quem possui remédios tantos para o corpo e para a alma? Por acaso não consultamos os oráculos nas entranhas dos media e das redes sociais, estivesse o remédio santo, o Santo Graal oculto atrás de um código começado, porventura por www? Por acaso não colocamos em palhaços, heróis e atores, homens e mulheres visíveis no altar das televisões, rádios, jornais, revistas, sites, o peso das culpas a expiar? Políticos, sacerdotes,  árbitros,  autarcas, milionários,  tecnocratas, carregam para nós os pesos das culpas, por vezes não por serem bodes expiatórios, por vezes são os próprios responsáveis, mas serão sempre os responsáveis? O bode expiatório que vai para o deserto carregado de pecados e nos deixa, na cidade, leves como os anjos, também é parte de nós, também somos nós.

O remédio santo, o fármaco,  não cura. A corrupção do corpo e da alma precisam de outras respostas para a dor que provocam. A corrupção que nos aproxima da morte a cada dia que passa tem de conter culpa e sofrimento?

Talvesz precisemos de novos heróis, super-heróis, que carreguem por nós e para nós os pesos que não queremos reconhecer. Em Seattle, há quem tenha a pretensão de ocupar esse lugar. Trata-se de  Poenix Jones, líder do Rain City Superhero Mouvement, homem com certezas - o bode são os males que afligem a juventude: droga, violência, crime. Para os combater, Benjamin Fodor, de 23 anos, munido de spray pimenta, transformou-se em Phoenix Jones, herói mascarado, na qualidade de remédio cidadão. Talvez a máscara possa erradicar o Mal. Phoenix Jones é uma espécie de proteína urbana, um fármaco que substitui a polícia, o Pan americano, o efeito placebo na Baixa de Seatlle. Será Phoenix Jones uma alternativa farmacológica viável para aliviar as doenças urbanas?

Ou talvez já não precisemos ou queiramos remédios e terapias fundamentais na nossa sociedade "libertada" do pecado e da culpa (por decreto mundano). Talvez só precisemos de caminho pela frente e respiração. Mas, por estranho que pareça, respirar não é um ato co-natural à pessoa, respirar é um exercício de sabedoria que se aprende.