O relatório do FMI devia ser lido por todos os portugueses, desapaixonadamente e sem preconceitos. Tem verdades duras e conclusões enviesadas. Diagnósticos certeiros, que são um murro no estômago, e premissas manipuladas ou mesmo inventadas. Põe a nu as "camadas de cebola" do nosso Estado, arrasa privilégios antigos e direitos adquiridos com sofrível justificação, da mesma assentada em que propõe injustiças maiores. O problema do relatório é que não se liberta da matriz filosófica anglo-saxónica e liberal, promotora da livre iniciativa, em que as pessoas desconfiam do Estado e não o contrário. Não se prende - se calhar não tem de se prender - com considerações históricas ou culturais. Impõe um modelo económico com a mesma autoconfiança com que os americanos procuram impor a democracia em países islâmicos teocráticos. O choque entre o capitalismo triunfante, geneticamente britânico - e depois transposto para países de herança luterana ou protestante - e as conceções da Europa latina, dominada por Estados centralizadores, é evidente em cada palavra do relatório. Em 76 páginas, reduz a pó cinco séculos de hábitos políticos e sociais enraizados em Portugal. Parte, por exemplo, do princípio de que as dinâmicas da livre iniciativa absorvem os despedidos 100 mil funcionários públicos, incluindo 50 mil professores. Ignora a falta de hábitos dos portugueses de viverem  fora da asa protetora, paternalista ou repressiva do Estado, sedimentada entre nós nos últimos 500 anos. Os autores desconhecem a História, os costumes e a Antropologia. O modelo que propõem é, em cada frase, ferozmente liberal. Conclui, por exemplo, que o Sistema Nacional de Saúde é insustentável, sem se deter perante a evidência de que a sua sobrevivência depende, em primeiro lugar, de opções políticas e só depois financistas. Querem um exemplo? Cuba pode não ter mais nada, mas é famosa pelos seus cuidados de saúde...

É verdade que o relatório põe a nu muitas das nossas deficiências, dos nossos vícios e do nosso atraso. Obriga o nosso Estado a ver-se ao espelho e a não gostar do que vê. E acerta em vários dos diagnósticos. O problema está nas soluções. E essas têm de vir da política, dos decisores, e não dos técnicos. O problema é que o Governo desconhece a política e age como se a boa governança pudesse ser adjudicada à empresa que apresentasse a melhor oferta para governar. É por isso que este relatório, tal como está, é inexequível.

O Governo deve, ainda, uma explicação fundamental aos portugueses: como se chegou ao número de 4 mil milhões, indicado como meta de redução da despesa? O Executivo esconde que o País falhou as metas do défice, por causa da receita imposta, nomeadamente a nível fiscal. A quebra de receitas, que acontece por causa de uma política de impostos inadequada, e não do Estado Social, é responsável por boa parte daquele valor. Outra parte advém dos juros da dívida que é preciso pagar - e não do sobredimensionamento do Estado Social. O Governo não renegoceia os juros, algo que, como representante dos portugueses, tinha obrigação de fazer. A terceira fatia dos 4 mil milhões, mais uma vez, não está a ser mal gasta na generosidade do Estado Social, mas nas resistências à renegociação das PPP's e na solução ruinosa encontrada para o BPN - e, recentemente, para o Banif. Já agora, digam-nos uma coisa: quanto custou ao erário público este relatório?