Custa-me começar assim, mas estamos perante uma catástrofe sem fim à vista. A vitória da Nova Democracia, nas legislativas de domingo, na Grécia, mantém viva a ficção de que o programa de ajustamento estrutural, aprovado em março, vai ser cumprido. Ora, mesmo que o prazo de execução venha a ser alargado até 2016, ou seja, por mais dois anos, não vejo, na coligação provável, força política suficiente para o fazer. Antonis Samaras é um líder fraco, preso a uma teia de relações clientelistas, que deixam, à cabeça da Nova Democracia, um político mais preocupado com o seu estatuto pessoal do que com um sentido de Estado. Do lado dos socialistas, que ficaram bastante fragilizados, mas que são um parceiro necessário, Evangelos Venizelos é um mero líder de transição, um parêntesis na vida do partido, enquanto não surgirem dias melhores. Quanto à Syriza, o bloco que se opõe ao programa de ajustamento, já disse que prefere continuar a fazer oposição, à esquerda extrema. Nestas circunstâncias, o Governo que sai destas eleições será sol de pouca dura.

A vitória permitiu aos líderes europeus fazer aquilo em que se tornaram peritos: adiar a hora da verdade, empurrar para mais tarde a resolução dos problemas que o desastre grego provoca. Coloca, por outro lado, o FMI contra a parede: terá de escolher entre continuar a reboque da UE, fingindo que há progresso na execução do programa, ou reafirmar a sua independência, reconhecendo que a Grécia não está a cumprir os compromissos assumidos. Ou seja, é uma vitória em que todos perdem. Incluindo o povo grego que, em breve, ainda este ano, depois de um agravamento da pobreza e do desespero social, será confrontado com a verdadeira questão: como sair do poço sem fundo, do processo de subdesenvolvimento acelerado em que se encontra.

Em verdade, nas principais capitais europeias, a Grécia é hoje considerada como um caso perdido. De um ponto de vista tático, o objetivo é deixar o país em banho-maria, de modo a dar tempo para que uma barreira "sanitária" seja construída à sua volta, capaz de conter o impacto das ondas de choque. Sobretudo, no caso de um cenário, que permanece possível, de saída do Euro. Apenas uns intelectuais ingénuos e uns políticos de cabeça leve acreditam que "o berço da democracia" tem todo o direito de exigir a solidariedade incondicional dos outros. Argumentos desse tipo não levam água ao moinho europeu, sobretudo quando a Espanha e outros estão agora na calha da crise.

Estando a Grécia em lume brando, o que é, de facto, importante, para os dirigentes europeus que contam, é a situação em Espanha. Com os bancos meio falidos, as regiões autónomas endividadas até ao nariz, o desemprego fora de controlo e a economia em câmara lenta, os riscos de a derrapagem se acentuar são imensos. A tudo isto, junta-se um outro motivo de preocupação, que é sussurrado em voz baixa, nos corredores de Bruxelas e noutros cantos: Mariano Rajoy não parece estar à altura dos desafios. Se as coisas se complicarem, a Itália virá a seguir. Aqui, embora Monti seja de um calibre maior, a questão é que o Governo está a perder a batalha da opinião pública.

Voltando ao tema inicial, acrescentaria uma nota de rodapé. Os resultados eleitorais também mostraram que os blocos de esquerda desempenham um papel importante, enquanto movimentos de protesto, mas não são vistos, mesmo em casos de crise aguda, como uma alternativa de poder. Uma democracia madura sabe que a solução não pode estar nos extremos. Nem hoje nem amanhã.