Na República Checa, e sobretudo em Praga, por cada bar de cada esquina, o mais certo é encontrar-se um copo ao alto, um convidativo acorde ou um passe de mágica. Para onde quer que se vá o mais certo é esbarrarmos com um símbolo, uma mensagem ou uma alegoria. Seja numa marioneta de loja, num vitral de igreja, numa arena de hóquei, num bar ao entardecer, numa pista de dança ou numa paisagem campestre. Seja num santo que ri, no tridente de um fauno, nas ameias coloridas de um telhado a pique. Pontes, palácios, muros, janelas, a água do rio, nunca são apenas o que são. Toda a capital é um elogio do enigma, do belo e do absurdo. Um país antigo que convida à reflexão e à leitura dos seus filhos, do aclamado Franz Kafka ao tristemente desconhecido Gustav Meyrink (autor de O Golem).

Situada no epicentro da Europa, Praga desde cedo atraiu as populações. Reza a História que a primeira dinastia terá sido fundada pela mítica princesa Libuse, que juntou a sua feminilidade ao camponês Premysl. A descendência deste par lendário seria entregue ao rei Venceslau, o santo padroeiro da Boémia, assassinado pelo irmão Boleslau. No local do crime foi erguida uma capela que faz parte do conjunto da Catedral de São Vito. Trezentos anos mais tarde, é a Casa de Luxemburgo quem toma conta do reino, agora a cargo do Sacro Imperador Romano-Germânico, Carlos IV a maioria dos monumentos e instituições ficarão com o seu nome até aos nossos dias, como a ponte, a catedral e a universidade. A partir do século XVI a cidade passa a fazer parte do Império Austro-Húngaro e graças ao imperador Rudolfo II torna-se um pólo de artistas, cientistas, alquimistas e filósofos.

Rudolfo II é o último monarca a habitar o Castelo, e a cidade perderá importância até ao século XIX, altura em que o movimento "Despertar Nacional" recupera o checo como língua oficial. O poder Habsburgo mantém-se até ao final da Primeira Guerra Mundial, em 1918, data da implantação da República da Checoslováquia. Em 1939, os nazis ocupam a cidade, e poupam-na à vaga de destruição de outras cidades europeias. Após a Segunda Guerra Mundial, os checos passam a fazer parte do Bloco de Leste e da cortina de ferro, uma mão pesada comunista apenas vagamente interrompida com a iniciativa socialista de "rosto humano" do presidente Alexander Dubcek, conhecida por Primavera de Praga, e rechaçada pelas lagartas do Pacto de Varsóvia. Só em 1989 o país conhecerá a Democracia, com a Revolução de Veludo orquestrada pelo escritor e dramaturgo Vaclav Havel. A separação da Eslováquia dá-se em 1993, e desde 2004 que a República Checa é membro da União Europeia.

Escrevia James Morris, nos anos 50: "As gentes de Praga tratam-nos apenas com cortesia, e até os polícias farão tudo por ajudar ao saber-nos do ocidente capitalista. No resto do país imperam os mais adoráveis acólitos de Moscovo." Hoje todo o país mudou e tornou-se dos mais experientes na Europa a cativar turistas. Praga, ao contrário de Varsóvia, não estrepita de irreverente independência.

A cidade sente-se como dizia o Cavaleiro d' Eon após a sua metamorfose, "sensitivamente ajustada à sua nova condição". Uma das alegrias dos checos é a grandeza florida da sua História. Uma cruel mas grandiosa e extensa galeria de reis atravessa as crónicas de Praga, e para onde quer que se virem as narinas respiram-se as glórias do passado. Pode ser o bom rei Venceslau, deposto na efígie do Museu Nacional, ou a tortuosa rua das coroações dos reis da Boémia que leva à Catedral.

Podemos não ter intimidade com a História dos Taboritas ou dos Utraquistas, mas em Praga as figuras de Estado são imortais e chegam aos ouvidos do turista sopradas de qualquer esquina. Gloriosa é também a arquitectura que sobreviveu dos seus tempos opulentos, sobretudo a justaposição de obras-primas do Gótico, do Barroco e de Arte Nova, sem paralelo no mundo. Memória da Época Dourada, quando esta era uma cidade mais importante do que Paris ou Londres. Logo a seguir à Ponte Carlos, o edifício mais famoso de Praga é o seu Castelo.

Trata-se do maior castelo medieval do mundo, uma fortaleza repleta de palácios, torres, jardins, uma basílica e a catedral gótica de São Vito, a maior de Praga (datada de 1344), com as suas soberbas torres cónicas, capelas e vitrais, e onde presumivelmente se passa o capítulo 9 d' O Processo, do escritor Franz Kafka.

Esta catedral imponente, o símbolo mais distinto da Praga Gótica, foi o cenário de eleição de Kafka, que viveu e trabalhou nas imediações.

Nas suas palavras este é um edifício "na fronteira do limite do que os seres humanos podiam suportar ". Cem anos depois, as palavras não podiam ser mais avisadas... Do lado de fora do velho Hradschin, tem-se a melhor panorâmica da cidade, do rio Vltava, dos jardins e das ilhas.

Um cenário de pompa. No castelo encontra-se também o Palácio Real, antigo endereço dos príncipes da Boémia como o "Bom Rei" Venceslau, de onde, em 1618, foram defenestrados dois governadores...

que acabariam salvos por um monte de estrume, ou talvez graças à intervenção dos anjos.

Aqui, dirá o guia prudente, ocorreu o episódio conhecido por Defenestração de Praga ou de 1618, que segundo os livros se deveu "à Dieta Boémia, ou o Parlamento, ter marcado a sua posição atirando dois conselheiros das janelas do Castelo".

O acontecimento assinalou o início da Guerra dos 30 Anos. Ainda nos passos do Castelo fica a via Hradcany, ou Golden Lane. No número 22 conserva-se a casa alugada pela irmã de Kafka, e onde o escritor encontrou o retiro ideal para a sua escrita.

Das 24 moradas originais restam 11 destas casinhas de bonecas que no século XVI serviram de laboratórios para alquimistas. Muitas das mais belas páginas de Kafka, de uma arte de essência mística, foram criadas neste lugar.