Na agenda internacional, a crise síria é o assunto- chave. Mas, atenção! Depois dos vetos, russo e chinês, no Conselho de Segurança, e da eliminação de quatro dirigentes da cúpula de defesa do regime, a Europa tem de olhar para a situação de modo diferente. Insistir em apontar o dedo à Rússia, como sendo a má da fita, ou ao plano de Kofi Annan, não serve para nada. Moscovo não vai mudar de postura, nem aceitará um alinhamento com a posição ocidental. Faz parte da visão de Putin mostrar que a Rússia está de volta, na arena global, e é uma alternativa política, distinta dos EUA e dos seus aliados. Ao contrário do que alguns pensam, não estamos perante um regresso à Guerra Fria. Putin quer apenas lembrar ao mundo que o seu país é uma grande potência. E que continua a dar a primazia às questões de soberania nacional, mesmo quando o direito de ingerência humanitária poderia ser invocado. Em muitas partes do mundo uma nota política desse género soa com agrado...Quanto ao plano Annan, mantido na incubadora desde o seu aparecimento, está hoje morto. Prolongar a missão de observação militar da ONU por mais trinta dias é um gesto diplomático oco. Só visa fingir que o Conselho de Segurança ainda mexe.

É altura de ver a União Europeia (UE) pegar na problemática síria a sério. Para além das sanções contra uma centena e meia de figuras da ditadura e umas dezenas de empresas, e da retórica sem consequências práticas à volta do embargo do fluxo de armas para Damasco, urge que a política externa europeia defina uma linha coerente. Deve ser uma estratégia política, deixando as dimensões relativas aos grupos armados noutras mãos: a Turquia, a Arábia Saudita e o Qatar ocupam-se bem dos aspetos relativos ao armamento, treino, suporte logístico, inteligência. Podem, para mais, contar com os "serviços especializados" americanos, que já estão no terreno.

A Europa deve construir o xadrez da sua intervenção na base de três pilares: a proteção da população civil, o imperativo da ajuda humanitária e a transição democrática. Os civis continuam a ser o principal alvo das operações indiscriminadas das tropas de Assad. A UE precisa de tratar esse facto como um crime de guerra e repetir, sem descanso, que os responsáveis terão, mais tarde ou mais cedo, de ser julgados. Quanto às questões humanitárias, que dizem respeito aos deslocados internos, estimados em mais de um milhão de pessoas, e aos cerca de 130 mil refugiados nos países limítrofes, há que reivindicar o direito de acesso a essas pessoas e mobilizar os recursos europeus necessários. Na preparação da mudança democrática, tenha-se em conta que Assad pode cair a qualquer momento. A transição é, no entanto, uma tarefa complexa e explosiva, devido à fragmentação étnico-religiosa.

Concretamente, é preciso levar a cabo, sem demoras, um conjunto de ações que facilitem o entendimento entre os diferentes grupos de oposição. A UE deve, por todos os meios, contribuir para que um Governo provisório credível, representativo dos principais segmentos do país, surja nos próximos dias. Para isso, precisa de aprofundar o diálogo com as oposições bem como com a Liga Árabe e a Turquia. Necessita, igualmente, de tomar medidas que mostrem um reforço do apoio europeu à estabilidade interna no Líbano, Iraque e Jordânia. A UE tem, além disso, que enviar um sinal claro a Israel: uma intromissão militar israelita na crise seria contraproducente, inaceitável, susceptível de inflamar a região. E esquecer Putin, que não se ganha nada em continuar a antagonizar publicamente o Kremlin.