De calças de ganga rasgadas e T-shirt, acompanhada de uma senhora bem vestida e três crianças, uma mulher jovem desembarca no aeroporto de Lisboa. Um amigo aguarda, há algum tempo, o seu voo, proveniente de Luanda. Embora ela seja célebre e o seu nome cintile em todas as parangonas dos jornais económicos do nosso país, para não falar da revista Forbes, onde figura como uma das maiores fortunas de África, ninguém, a não ser ele, a reconhece. Camuflada na indumentária simples - embora de marca - deixa o brilho para a acompanhante, na verdade a "babá" das crianças (com 4, 7 e 8 anos). A rapariga das calças rasgadas, todavia, é que é a patroa... e a mãe.

Talvez Isabel José dos Santos, 39 anos, feitos, presumivelmente, em abril último, venha apenas às compras. Coisas simples: uma participação na Galp, um reforço da posição na ZON ou uma dentada numa grossa fatia do BPI... A "princesa", como é conhecida no seu país, filha primogénita do Presidente José Eduardo dos Santos e de uma russa de nome Tatiana, tirou o curso de engenharia mecânica eletrónica no King's College, em Londres, e exibe uma desconcertante discrição, avessa a festas e a vernissages, a entrevistas ou fotografias e ao espalhafato do colorido africano. Completamente ocidentalizada, anglófila, mas senhora de um português, de um francês (que usa nas conversas com o marido, o congolês Sindika Dokolo) e, presumivelmente, de um russo impecáveis, ela é uma mulher do mundo.

Por estes dias, Portugal precisa de investimentos como o seu deserto azeri natal (nasceu em Baku, Azerbaijão) precisa de gotas de chuva. Isabel dos Santos tem sido o aguaceiro angolano de serviço: através da holding Santoro, detém 25% do Banco BIC, agora dono do BPN,  e 19,4% do BPI. Através da Esperanza Holding (como Esperança Sagrada, poema de Agostinho Neto, emblemática figura do nacionalismo angolano...), em parceria com a Sonangol, 33,34% da Galp (45% da Amorim Energia). E, através da holding Kento, 15% da ZON. São cerca de 1,4 mil milhões de euros de valor nas posições acionistas em empresas cotadas portuguesas. Banca, Energia, telecomunicações - eis as áreas de interesse, a par dos cimentos, da distribuição alimentar e da arte. E, no entanto, quem diria que a menina dos seus olhos é o sofisticado restaurante Oon.dah, em Luanda, onde uma refeição custa uma média de 100 euros?...

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