eu escrevo para não pintar porque não vejo o que pinto mas penso pintando o que não vejo nem nunca vi senão não pintaria para ver e crer sem querer e há quem pinte para não pensar e eu não busco mas rabisco com o rabo do desejo a fugir à angustia rabuda à almofada refastelada que imita a gorda trombuda

 

é bom casar-se muitas vezes - aprendemos a ter muitas cabeças para aturar e transformar outras cabeças - depois de nos mudarem o guarda roupa e a dieta e a cabeça com o sol a ressuscitar da podridão outra vez e os testiculos de escabeche no sonho do lavagante a maneira como os outros entram na vida muda-nos a arte como um arrepio - a pintura resiste como um idioma que não se deixa expropriar pelas ideias, resiste aos resumos em lume brando e escolhe as cores erradas para cobrir as ideias incertas até estas desaparecerem e depois as ideias reaparecem nos rodapés dos milagres como uma incerteza ao quadrado, como um agente secreto que sabota as ideias dos outros

 

a arte é a mentira que primeiro ajuda a ver a mentira como mentira e a desconfiar da verdade como verdade e põe arrepios onde o senso comum põe perceitos e traz as ganas de levar uma vida para além dos consentimentos e ao mostrar a mentira da mentira mostra a sinceridade verdadeiramente explendorosa do que não se deixa mentir, desvario ao lado das imposturas da verdade, dissemelhança feita de semelhanças, ver que ajuda a mentirar, ajuda que verdadeira as mentiras

 

desconfias de Horácio que não te deixa colar coisas para encontrares a monstruosidade, as imagens que designam as ganas, a inconsolável disformidade da figura que ncontras num beco pestilento, as coisas que se fazem segundo a ordem errada, que se acertam na pseudo-desordem da disponibilidade itenerante das coisas para se dizerem de outra maneira

 

o que o Picasso diz sempre contra a Adília com a voz trágica de quem não adia, porque Adilia é a que adia lendo, como se esse idilílio da leitura não fosse o contrassenso das sublimações eterna - as ganas são o substituto do possível, a inspiração por cima do quilo de bife do lombo crú e da pata de galinha assada - o destino é um adiamento e a pintura designa o inadiável enquanto a arte que questiona a arte ao pôr bigodes às suas arrumadas reproduções é a pose muito vestida de quem nem sequer dá o cú pela arte nem por coisíssima nenhuma - é preciso ir à praça e conhecer a sensualite de quem lida com o ruído das vendedoras de hortaliça e das peixeiras - as sinfonias selvagens do mercado - a acção como dissimulçação da inação, a constância incendiária de quem se constroi através de sucessivas pseudo-auto-destruições, acabas por dizer o lugar do gato através da andaluza deprimida, do açoite no cão malvado, da beata do mendigo e da maldade porca da menina suja a limpar-se nas cuecas a cheirar a alfazema e cona da menina limpa não é aninhas?

 

leva-se muito tempo a lavar-se das velhices que nos ficaram encardidas à nascença - nascemos para velhos precoces, e andamos a aprimorar as conformidades das senilidades - falta-nos a memória quando nascemos para perceber a variedade dos apetites que a vida permite - as artes fazem com que as memórias se multipliquem como uma implatação de algo que parecia prestes a eclodir como fulminação raivosa, ou simpática, do presente, os dias a fazerem-se dias sem a eternidade de espanador a dar lustre, não podes renunciar aos apetites, não podes pôr o amor na prateleira nem deixar os ovos moles eternamente no frigorífico à espera que o Gandhi a feder a alho para não se excitar fique consternado com a sexualidade das adolescentes que contempla nú resistindo-lhe todo excitadinho

 

as ruínas regressam às ruas, quando queres traduzir com ganas não deixas que o poema te escalde nem o texto te a aperte a cintura, as ruínas arrumam as ruas, as paredes de uma casa enchem-se de coisas e as pinturas estão lá para se encontrarem com as vidas sem museu, irrespeituosas nos seus desígnios sem maçonarias alcoviteiras ou tipos que vendem o verde - o negócio é a adjacência de uma vida escaldante e escarlate que desfaz teoremas

 

Picasso vive numa implosão pornoecológica, no trabalho trepidante e fantasmagórico, ideia vaga que se instala na cabeça do bezerro de ouro, com Moisés a palitar os dentes e as formigas a acertarem os relógios pelos mandamentos, e as bilhas partem-se em cacos na beleza de quem se permite ser a bela a infringir as regras domiciliárias de não dar nas vistas nem oferecer as mamas à janela - o adorável Pablo que procurava o òdio catita das invejas e que tanto atormentou gerações que o imitavam na ida ejaculativa ao urinol publico a picassar com fantasmas, a ser selvagem nos copos como um boxeur a seduzir uma moça de provincia e a ignorar-lhe os brincos e a dar muita sova aos putos e a por-se na mulata junto aos cortinados depois de vê-la a esfregar o chão tantas vezes a cantar melhor músicas foleiras brejeiras e ele a comer caramelos e a limpar os dedos besuntados nas calças por engomar

 

as fábulas fazem a lida da casa - gestão liliputiana que te torna maduro ou fresco - não aturas poetisas que não descasquem fruta, que olham para a nudez suposta das estátuas gregas e não vêem os orgãos internos, nem os aspectos devassos por detrás das nádegas polidas, nem o que leva a babar para além das considerações e ideias de vivermos num tempo que é um desvio apocalipitico ao apocalipse, que já habita num afecto tragicamente paradísiaco para lá das saladas messianicas com pepineiras do género de quem não sabe como cozinhar nem mudar fraldas - o mestre zen sabe que a iluminação pode estar na puericultura, no tormento que a criança inflinge, no tirar os nabos da púcara, mudar cócozinhos, sortes madrastas de gerir adolescências a afinar modos de obsolescências, sinais fatais de senilidades

 

lutar com os poemas e escrever com os anjos contra os impecilhos angélicos - sexualizar o anjo, na luta esperneante com o parvo do poema, no luto dos poemas naufragados em buscas de salvações que resgatem o que é imponderável em Homero nas idas autodestrutivas a Troia e regressos ao conforto sexuado de Penélope a espremer limões na cozinha a assar porcos cá fora, a fazer um arroz com o sangue da lebre e piolhos navegantes - o luto inscreve-se onde o angélico desfaz - a poesia salva-se na natação de Camões que era tão abstracto no ser concreto, no mostrar através de si a linguagem que se fabrica na mastigação, na disposição sem pestanejar das epopeias a posarem para as academias, e da repetição ritual vaqueira, gritos pânicos, gritos cómicos a domar os gritos pânicos, gritos sem significação e que presenteiam o som como um banho imenso que faz entrar a policromia dos frescos nilóticos nas nossas possibilidades de extase lento e nesse sentido Picasso é o egipcio que desfez das pirâmides mas que regista para a eternidade cada hora inconsolável -será que os mortos se consolam através da pintura e do cinema - ou será que apenas se consolam ao participarem nas imperfeições da vida, na solidão sentada do atelier quando o artista se dispõe a começar e agarra numa coisa que faz, ou junta, ou rasga, ou desfaz, ou cobre, até que as tradições fiquem tapadas, e que os mortos envelheçam rejenuvescendo connosco - quando a vida é madrinha a arte definha - entre a pata na poça e o pús na puta os cavalos abatem-se e os maestros batutam