Blindness é o título da edição americana de Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. Andou pelas livrarias com visibilidade, motivo de gáudio para um lusitano como eu, pouco habituado a deparar com autores patrícios nas livrarias dos States. E foi bastante lido, a julgar pela nada rigorosa amostra de ecos que daqui e dali me foram chegando. Dos mais inesperados quadrantes. Uma delas, a minha filha Tatyana, que eu desconhecia interessada no nosso Nobel. Numas férias em que se embrenhou também pela Odisseia. E depois por Fountainhead, de Ayn Rand, que Saramago desprezaria e, vá lá, eu mesmo desdenho. Perguntei-lhe se gostou.Não, nada. (Ainda bem, respirei fundo, em surdina). Mas leste tudo? -perguntei-lhe pensando nas 900 páginas do calhamaço.

Sim, porque sabes que nunca desisto de uma leitura mesmo que não goste. (Explicação ao leitor: Não foram os meus genes que lhe passaram semelhante espírito masoquista!) Perguntei-lhe se com Blindness acontecera o mesmo. Não, de modo nenhum -garantiu-me convincentemente. Tinha gostado de mais.Blindness anda agora até nas livrarias dos aeroportos. Como se sabe, a National Federation for the Blind protestou e os barulhos redundam sempre em excelente publicidade a ponto de haver quem acredite que as máquinas publicitárias não raro recorrem à invenção de descontentamento para colarem o título de um filme ou livro na mente do público. (Claro que é absolutamente injusto supor a gente que uma agência de publicidade seja capaz de inventar tão pouco ético estratagema!) Estão escarrapachadas pelos media as frases principais do documento que o director da Federação, Marc Maurer, alardeou, sendo a mais sensacional: "Blindness transformou pessoas decentes em monstros". E a seguir: "São apresentadas como criaturas incompetentes, sujas, viciadas e depravadas". Um naco de adjectivos que, convenhamos, não deixam o leitor na dúvida sobre a fúria que vai naquelas hostes de não poucos membros. (Na verdade, nos EUA há sempre um milhão de qualquer minoria e um simples congresso pode juntar 20 000. Até mesmo um congresso de bruxas consegue reunir duas mil sem problema, com a vantagem de em caso de greve de aviões não serem afectadas, já que podem sempre ir de vassoura). Mas nunca falta um grupo de descontentes a protestar contra seja o que for. Eu pertenci mais do que uma vez a alguns deles. Ainda muito recentemente fiz barulho por escrito quando George W. Bush, ignorante sobre a existência de portugueses nos EUA, mandou uma boca sobre a ridicularia de uns magros dólares no orçamento nacional para apoio de um Instituto de Português numa universidade aqui em Rhode Island. Agitou-se a opinião pública luso-americana e o orçamento não foi alterado. Mas no caso havia uma razão óbvia: visível a olho nu, só a cegueira de G. W. Bush explicava a gaffe.

Regressando a Blindness, ainda não vi o filme. Outras prioridades, como o W., de Oliver Stone. E hoje à noite será a vez de a Leonor escolher, por isso ignoro ainda o que na rifa me sairá. Mas hei-de ir.

Quero julgar pelos meus próprios olhos e ver que razões haverá para uma instituição respeitável fazer such a big deal sobre o filme de Fernando Meirelles, com o Gael García Bernal, gente à partida não merecedora de pancada.Não me assiste qualquer vontade de implicar. Desconheço se o senhor Maurer é cego. Sei, por exemplo, que num alto posto da Associação Nacional de Surdos-Mudos está um antigo aluno meu, o Eric Shapiro, oficialmente surdo-mudo, mas que consegue falar sem poder ouvir rigorosamente nada. Não imagino como seja lá pela NFB, mas seria bom se o senhor Maurer tivesse explicado ao público em nome de quem falou e se recolheu essas opiniões entre os membros da sua Federação porque, se assim for, seria de toda a conveniência informar-nos como conseguiram os membros da mesma ver o filme.Roberto Vecchi contou recentemente, no Congresso de Eduardo Lourenço, aquela do cego a perguntar ao paralítico: Como tem andado? E este a responder: Como vê. Como se vê, a lógica do non-sense afinal sempre tem paralelos.