Tratado de umbrologia Pelas Sombras, de Catarina Mourão O filme começa num acesso de liberdade líquida. A sede de uma espera torna tudo mais urgente. E aí vão as águas na urgência após a retenção, abertas as comportas, numa corrida sobresaltada, pelos caneiros, arrastando as folhas que se desentopem para lhe dar passagem. É um ritual quinzenal de Lurdes Castro: dar de beber ao seu jardim, no Caniço, na Ilha da Madeira. A artista das sombras que permaneceu na sombra durante anos é agora revelado no seu espaço, na sua quietude, no seu silêncio, na sua obscuridade pelas câmaras da realizadora Catarina Mourão. A ideia de filmar Lurdes Castro não surgiu de um impulso. Foi antes um processo moroso, de longa data, que envolveu anos, quase doze, de maturação, muitas conversas e encontros com a artista. Com ela aprendeu a desacelerar, "porque é as escuras e no silêncio que se trabalha", diz Lurdes Castro. Como os bolbos de jacinto que vão criando raízes em frascos guardados no escuro dos armários e debaixo do lava-louças. "Às vezes ponho-me a pensar como deve ser por debaixo da terra, as raízes todas, umas com as outras, aquele mundo às escuras", comenta ela... e sorri. Catarina Mourão não queria de todo fazer um documentário nos moldes convencionais e pedagógigos, com entrevistas a críticos de arte, etc... Queria, através das sombras, da obra da artística captar uma dimensão metafísica e abstracta. "Afinal, o grande desafio o cinema é tornar visível o invisível". Também em filmes anteriores, como a Dama de Chandor (1998), interessava-lhe o micro-cosmos, e cavar mais fundo, "ir para baixo da terra". "No fundo, este é um filme sobre uma mulher de 80 anos numa casa". Tal como os teatros de sombras a que Lurdes se dedicava, e a que Catarina um dia assistiu no CAM, aos 14 anos, - gestos lentos e delicados do quotidiano, tão efémeros, ilusórios e fugidios que fizeram Lurdes Castro perder o sentido da "arte para pendurar na parede". A sua pintura agora é o seu jardim, 12 mil metros quadrados de tela que nunca estará completo. Catarina torna-se uma espécie de cúmplice nessa forma de fazer, quando a acompanha nos pequenos gestos, e a apanha a estender a roupa lentamente, a escovar os dentes em contra-luz, a pentear o cabelo ao ar livre, a fazer um arranjo de florinhas num copo de água, a desfolhar os seus 34 volumes onde arquiva, ao longo de anos, tudo o que se relaciona com sombras, em sentido lato, desde vultos, contornos, mapas, o homem que se pulverizou em Hiroshima, mas a marca do seu corpo ficou estampada na parede... E quando deixa o tempo passar, e nos deixa a contemplar os musgos, as folhagens, a neblima, ao som de Schubert, a subir a montanha e deixar a paisagem em contornos esfumados. A sombra é isso: "Tem tudo o que tem o objecto mas o mínimo possível para ser reconhecido".