Muito tem Pedro Passos Coelho facilitado a vida a Ricardo Araújo Pereira (R.A.P.) as metáforas a que, nos últimos tempos, tem recorrido nas suas intervenções públicas são meia crónica semanal do humorista.

A propósito do "que se lixem as eleições", por exemplo, R.A.P. discorria, na última edição da VISÃO, sobre "a soteriologia do passoscoelhismo" escrevendo que, ao contrário do que acontece na maior parte das religiões, "a salvação não depende da vontade do crente".

No PSD, o vocabulário de Passos Coelho agradou a uns (Marques Mendes considerou-o "eficaz"), desagradou a outros (Paulo Rangel achou-o "vulgar e rasteiro"). Deslizes ou faltas de jeito não parecem existir e, em tempos de descrédito da classe política, o discurso antissistema pode sempre dar votos.

Para o especialista em comunicação política, Rui Calafate, a frase é "pura", própria da "linguagem terra a terra", "muito próxima do que diz o povo".

E, nessa medida, defende o diretor-geral da agência Special One, o sound bite funciona: "As pessoas estavam habituadas ao modelo de José Sócrates em que qualquer medida vinha preparada com uma embalagem, com um pacote de comunicação, mas Pedro Passos Coelho não tem um batalhão de assessores à volta dele nem encapota as suas intervenções com técnicas comunicacionais." Também o filósofo Miguel Real analisou, a pedido da VISÃO, as declarações do primeiro-ministro. Para o autor do livro Nova Teoria do Mal, "a frase de Passos Coelho pode ser lida segundo o cruzamento de dois complexos culturais profundamente entranhados na História de Portugal". Por um lado, o "complexo pombalino", que revela "uma postura de absoluta superioridade face ao comum das gentes", com Passos Coelho a apresentar-se com "o carisma político de 'Salvador' tal como Pombal, tal como Afonso Costa, tal como Salazar, tal como Sócrates".

E, por outro lado, o "complexo de vitimização ": "Porque estatuído como 'Salvador', Passos Coelho sabe que tem de atravessar os 'passos da Cruz' para salvar Portugal, expiar o mal da incompreensão, as vaias dos adversários, as dúvidas dos ignorantes, o ceticismo dos derrotistas". Dito com a boa-disposição de R.A.P.: "Sacrifica-se duplamente por nós: perdendo eleições e incorrendo em abominável eleitoralismo." E já agora, alguém quer ser salvo?

Passos Coelho 'dixit':

 

  • "É o chamado murro no estômago."

6 de julho de 2011 À entrada de reuniões com a Confederação Empresarial de Portugal e a Confederação Espanhola de Organizações Empresariais, como reação ao facto de a Moody's ter baixado o rating de Portugal para o nível de "lixo"

  • "Nos próximos anos haverá muita gente em Portugal que ou consegue fazer formação e estar disponível para outras áreas ou, querendo manter-se como professores, pode olhar para todo o mercado da língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa."

18 de dezembro de 2011 Em entrevista ao Correio da Manhã, sugerindo aos professores excedentários que emigrem 

  • "Vamos trabalhar agora, já são horas."

6 de janeiro de 2012 Evitando as perguntas dos jornalistas, à saída do Parlamento, onde foi ouvir cantar as Janeiras 

  • "Devemos persistir, ser exigentes, não sermos piegas e ter pena dos alunos, coitadinhos, que sofrem tanto para aprender."

6 de fevereiro de 2012 Na cerimónia de aniversário do Instituto de Ciências Educativas, em Odivelas, instituição na qual deu aulas

  • "Às vezes parece que gostamos de sarna para nos coçar."

4 de abril de 2012 Em entrevista à Rádio Renascença, explicando que não existem condições para repor de imediato os subsídios de Natal e férias da Função Pública

  • "Estar desempregado não pode ser um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma. Tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida."

11 de maio de 2012 Na apresentação do Programa Estratégico para o Empreendedorismo e Inovação 

  •  "Não estamos a pôr porcaria na ventoinha e assustar os portugueses." 

11 de julho de 2012 No Parlamento, respondendo a uma pergunta de Francisco Louçã sobre um eventual aumento de impostos 

  • "Se algum dia tiver de perder umas eleições em Portugal para salvar o País, que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal."

 

23 de julho de 2012 Num jantar do grupo parlamentar do PSD, assinalando o fim da sessão legislativa 

  •  "Todas as dificuldades por que passámos servirão para alguma coisa quando mantivermos boa consciência do que se passa à nossa volta, quando não nos comportarmos como baratas tontas e soubermos bem para onde vamos." 

25 de julho de 2012 Na sessão solene de inauguração da feira Expofacic, em Cantanhede