Dois viadutos para circulação de trânsito automóvel, que distam pouco mais de um quilómetro entre si, nas localidades de Taveiro e Ribeira de Frades, Coimbra, estão desde Janeiro de 2010 acabados, mas sem uso. A obra, da responsabilidade da Rede Ferroviária Nacional (Refer), custou 3.868.800 milhões de euros e o objetivo era eliminar as passagens de nível que atravessam a movimentada Linha do Norte.

Era, porque, até hoje, as autoridades competentes - Rede Ferroviária Nacional (Refer) e Câmara Municipal de Coimbra, que por sua vez dialoga com as juntas de freguesia locais - não se entenderam quanto à abertura das novas estruturas e o encerramento das antigas.

Em 2005, ambas celebraram um protocolo acordando os termos em que seriam suprimidas 21 passagens da Linha do Norte no concelho. Nesse documento estão definidas as responsabilidades de cada parte: à primeira projetar e construir, à segunda gerir e conservar a obra feita.

O problema é que os viadutos dos quilómetros 210,256 (Taveiro) e 211,328 (Ribeira de Frades) foram construídos só a pensar em veículos, não em peões. A Refer não autoriza a abertura das novas vias sem o encerramento das passagens de nível. A câmara municipal e as juntas de freguesia de Taveiro e Ribeira de Frades nem querem ouvir falar em fechar os caminhos velhos sem uma solução que permita aos habitantes atravessar a linha de comboio de forma mais cómoda e segura que a atual. 

O projeto foi elaborado pela Refer e teve aprovação da autarquia de Coimbra, mas só quando estava quase concluído os autarcas locais notaram que não tinha passeios para os habitantes. É aqui que está o busílis da questão: ninguém se entende quanto às soluções para resolver  este "lapso". Enquanto os presidentes de junta querem caminhos desniveladas ou elevadores no mesmo sítio das passagens de nível, a Refer pretende rampas metálicas que liguem a velha ligação à nova estrutura. 

Jorge Veloso, 58 anos, presidente da Junta de Freguesia de Ribeira de Frades, já no quinto mandato, é o mais indignado. Não concorda com a construção das rampas e diz que a Refer "não quer construir a passagem inferior para peões, que foi o combinado. As rampas são inestéticas e pouca práticas para os velhotes". O colega José Maria Barroca, 48 anos, presidente da Junta de Freguesia de Taveiro - em tempos candidato à presidência do PSD - luta pelo mesmo e considera "uma vergonha a fortuna que se gastou numa obra inútil".

Já Paulo Leitão, 31 anos, o vereador do município com o pelouro das obras públicas, quer uma solução intermédia: que se abram os viadutos aos carros e se coloquem labirintos para peões nas passagens de nível antigas, enquanto não se constroem novos acessos. "Não podemos encerrar as passagens de nível sem uma solução para as pessoas. A Refer não quer colocar os labirintos porque diz que depois vai ser ainda mais difícil encerrar aquilo", lamenta o autarca.

Da parte da empresa pública a resposta é clara: "Tendo a REFER satisfeito todas as obrigações (...) tem a legítima expectativa que o município ultrapasse, tão breve quanto possível, eventuais dificuldades (...) de modo a poder colocar ao serviço as passagem superiores e dar cumprimento ao objecto da sua construção - o encerramento das passagens de nível".

Quem tiver a solução que avise alguma das entidades competentes. Até lá, os quase 4 milhões de euros investidos nas obras continuarão sem ter qualquer utilidade.