Houve quem visse na saída de cena de Kofi Annan a confirmação de que um processo político deixou de ser possível na Síria. Este é, aliás, o ponto de partida para aqueles que apenas acreditam na lógica da guerra como solução da crise. É um erro pensar assim. Só um processo político abrangente, que inclua todas as partes em conflito e que respeite os direitos dos cidadãos e das minorias étnicas e religiosas, pode ter futuro. A insurreição armada, apesar de ganhos recentes e dos progressos em termos de organização e de preparação, não vai conseguir derrubar o regime. Precisaria, para isso, de um envolvimento bélico externo, direto e em larga escala, o que não é possível neste caso. Por outro lado, se Assad pensa que poderá esmagar a oposição, está muito enganado. A opção militar, de um lado e do outro, apenas conduz ao impasse, à ocorrência de novos crimes de guerra e ao agravamento do desastre humanitário. A complexidade da crise síria não consente respostas simplistas, nem comparações com outras situações no mundo árabe.

É verdade que o abandono de Annan fez aumentar o ceticismo e deu novas asas aos falcões. Por isso, é essencial que a nomeação do seu sucessor se faça sem demoras e que este concentre os seus esforços na criação das condições que levem a negociações. A mediação da ONU é uma carta fraca, mas é o único jogo aceitável. É urgente chegar a um acordo sobre um governo provisório, que assegure a transição constitucional e prepare eleições livres. Ao contrário do que tem sido dito, a demissão prévia de Assad não deve ser considerada uma condição indispensável para que as negociações possam começar. O seu afastamento negociado do poder deve, no entanto, ser um dos primeiros pontos de um acordo de transição. Caberá ao novo mediador demonstrar que os interesses a prazo dos grupos que sustentaram a ditadura passam agora pela exclusão política das principais figuras do regime, incluindo a família dominante.

Não vai ser fácil encontrar um mediador à altura do desafio. Os candidatos poderão ser muitos. Mas, quem tem o prestígio e a experiência necessários não vai querer expor-se, num terreno onde uma personalidade da envergadura do antigo secretário-geral da ONU não conseguiu ir além de um acumular de frustrações. Também não será fácil sair da lógica da violência. Mesmo os atores externos parecem decididos a apostar sobremaneira nessa via. Há, por isso, nas circunstâncias actuais, muito espaço para preocupações. É fundamental permanecer focalizado na questão síria.

Cabe aqui dizer que prevejo para setembro ou inícios de outubro um ataque militar israelita contra instalações nucleares no Irão. Apesar da oposição expressa e repetida da administração norte-americana, Benjamin Netanyahu parece querer levar esse plano avante. Pensa assim matar três coelhos de uma só cajadada: diminuir o potencial agressivo de Teerão, aumentar a sua base de apoio eleitoral e criar um enredo para o Presidente Obama, para tornar mais difícil a sua reeleição. Na maneira de ver de Netanyahu, os interesses estratégicos de Israel passam pela derrota de Obama. Não penso que a incursão, se vier a acontecer, tenha um impacto significativo sobre a situação interna na Síria. Mas agravaria seriamente a instabilidade de uma região que é um rastilho à espera de fogo. Digo, assim, alto e bom som, que uma acção desse tipo, inaceitável face ao direito internacional, seria ainda mais condenável numa altura em que a comunidade internacional deve, antes de tudo, estar preocupada com a resolução do impasse sírio.