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André Macedo

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Consultor de Comunicação

Álvaro, o justiceiro

Tudo é Economia

André Macedo

Getty Images

Simpático, o nosso Álvaro. Deixou cair o secretário de Estado e agora veste-lhes as honras sem o mínimo embaraço. E como parece intelectualmente incapaz de ter uma ideia própria, salpica o discurso barato com generalidades sobre a corrupção e junta-lhe a inolvidável sugestão: a criação de uma agência nacional contra a corrupção

1 - Álvaro Santos Pereira foi ministro, saiu e foi parar à OCDE. Se já tinha chegado a ministro sem currículo – dava umas aulitas no Canadá --, também aterrou em Paris sem que nada pudesse justificar tão simpático domicílio. Teve um secretário de Estado que se opôs ao que disse serem “rendas excessivas” e que deixou o governo bastante indisposto, mas o que fez o Álvaro? Como reagiu? Também saiu? Foi solidário? Pôs-se ao lado de Henrique Gomes? Criticou Passos Coelho? Denunciou alguma coisa? Nope. Foi mais hábil, tratou da própria vida. Ficou calado. Continuou mais ano e meio no lugar até lhe atribuirem o ambicionado exílio dourado. Agora que planeia o inevitável regresso à pátria, submeteu-se a uma espécie de rebranding. O Álvaro, que antes não tinha apelido, agora tem cognome: ele quer ser o justiceiro, o mãos-limpas, o homem que, nas magníficas palavras que disse esta semana ao Expresso, está “contra a impunidade” que lavra no país. Simpático, o nosso Álvaro. Deixou cair o secretário de Estado e agora veste-lhes as honras sem o mínimo embaraço. E como parece intelectualmente incapaz de ter uma ideia própria, salpica o discurso barato com generalidades sobre a corrupção e junta-lhe a inolvidável sugestão: a criação de uma agência nacional contra a corrupção. Uma página inteira de Expresso e, tudo esprimido, sobra isto. Um miserável pedido de emprego.

2 - António Costa deu uma entrevista ao Dinheiro Vivo e à TSF. Já lá vai uma semana, sim, mas houve um detalhe que me ficou a chatear. A certa altura, o primeiro-ministro recorda o irmão, diretor da SIC e jornalista, para nos mostrar que as relações de parentesco não significam perda de autonomia crítica. Será? A referência de António Costa a Ricardo Costa demonstra, pelo contrário, que a presença de um familiar é sempre um fator que condiciona os outros. No limite, serve de argumento político, embora com um toque pessoal, para convencer alguém de alguma coisa. O primeiro-ministro usou descaradamente o currículo (sólido) do irmão para nos tranquilizar. A mim não tranquilizou.

3 - Não é falta de assunto, eu é que sou de combustão lenta. Lembra-se da visita que Mário Centeno fez há semana e meia ao Banco de Portugal? Reparou como o ministro falava alegremente com Elisa Ferreira, vice-governadora, que estava sentada, toda sorridente, do seu lado direito, e ignorava totalmente (ostensivamente, ridiculamente) Carlos Costa? E como, no fim do evento, deixou o governador plantado, em pé, e não lhe estendeu a mão, até lhe virou as costas? Eu sei, a política não é para cavalheiros, mas também não é o recreio do jardim infantil. Carlos Costa não deveria ter continuado como governador do Banco de Portugal, até pela necessária mudança depois da implosão de meio sistema bancário, mas Centeno poderia mostrar algum respeito pelas duas instituições, Governo e Banco de Portugal, tenha ele muitas e justas razões de queixa - até pessoais - de Carlos Costa. (Entretanto, recebi e fiz mais uns telefonemas. Afinal, Carlos Costa não foi receber o ministro das Finanças à entrada da conferência, como é suposto fazer, e daí a telenovela que se seguiu. Ele pode argumentar com isto ou aquilo, mas a quebra de protocolo e o destrato institucional são inqualificáveis.)

4 - E já agora que o flashback vai longo, só mais este. A monstruosa Operação Marquês é gerida por um miserável punhado de investigadores perdidos numa montanha de volumes processuais sem fim. A complexidade é imensa, a falta de direção evidente e o provincianismo chocante - já houve até uma demissão de um investigador por causa de uma viagem ( de trabalho...) aos Estados Unidos que o chefe da operação tirou a uma subalterna. O que sobra é apenas alimento para criaturas como o Álvaro, o André qualquer coisa do Chega (Ventura?) e para que a Justiça sirva para promover, pela negativa, os demagogos e indignados do regime. A nova procuradora-geral pensa alguma coisa disto tudo? O que está a mudar? E a anterior, depois de sair em ombros, não tem responsabilidade nenhuma no desvario? Daqui a uns anos, uns bons e largos anos, ainda vamos ter uma comissão de inquérito à Operação Marquês. Faço uma sugestão: pode chamar-se Operação Marquês de Sade.

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André Macedo

André Macedo

Consultor de Comunicação

Tem um percurso cheio de ex. Ex-diretor adjunto da RTP, ex-diretor do “Diário de Notícias”, “Dinheiro Vivo” e “Diário Económico”, ex-diretor-executivo do jornal “i”. Não é ex-sportinguista, embora os tempos aziagos convidem a isso. Hoje trabalha na JLM & A.