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Nós simplesmente não fazemos

Silêncio da fraude

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Crónica da secção Silêncio da Fraude. Texto da autoria de Henrique Santos

Silêncio da fraude/ Henrique Santos

Que mania temos de dizer que a culpa é dos outros. Não raras vezes somos bem capazes de dizer: "são todos iguais...", "estes gatunos, que nos andam a roubar,...", "é sempre a mesma coisa..." e por aí adiante.

Mas nós somos aqueles que, sem qualquer problema ou peso na consciência, ficam bem sentados no sofá, a criticar, a opinar, a falar mal. Mas do que de nós depender nada muda, nada acontece.

Se a vida nos corre mal, a culpa é dos outros, mas se a vida nos corre bem, de certeza que não foram os outros que nos ajudaram.

Nós acreditamos na justiça até ela se aplicar a nós ou acharmos que foi mal aplicada. Aí, aqui del-Rei que a justiça é só para os outros, só condena quem não deve, e quem deve é sempre ilibado.

Na verdade nós não fazemos nada de mal. Mas o problema é que também não fazemos nada de bem. Nós simplesmente não fazemos.

Aqueles que fazem, certamente mal, no limite ainda permitem que os advogados trabalhem, que os tribunais fiquem cheios de processos, que os jornalistas tenham sobre o que escrever e que os polícias investiguem,...

Se somos a favor do crime? Claro que somos. E quanto mais hediondo melhor. Na verdade nada fazemos e só criticamos após acontecer.

Afinal quem somos nós? É certo que existe um conjunto de fatores megalómano que nos faz tomar as decisões, mas uma coisa é certa, nós não somos culpados, e isso é bom, muito bom.

Vivemos, diz-se, num país de corruptos, vivemos, diz-se também, num país de malfeitores, vivemos, diz-se ainda, num país de ladrões, de maus políticos, de maus profissionais, de maus pais, de maus filhos,... mas que raio de gente somos nós?

Provavelmente somos o melhor país do mundo para se viver, provavelmente somos os melhores do mundo, provavelmente não somos assim tão maus, provavelmente somos uns mesquinhos, uns ignorantes, uns preguiçosos, uns aldrabões, uns seres humanos desprezíveis. Provavelmente não somos nada disso!

Escrevi, de propósito (friso, de propósito), todo o texto na primeira pessoa do plural (nós), mas quem é que se vai incomodar com isso, quem é que vai dizer alguma coisa, quem quer saber? A mim não me aflige. Até gostava de ver se alguém se incomoda com isso. Provavelmente ninguém.

E eu, que estou para aqui a escrever, qual o motivo de não estar a fazer algo diferente do que estar a criticar, a maldizer, a atacar, a rotular como todos fazemos? Boa pergunta. Acho que vou até ao sofá (ver as notícias)!

Nós somos bons no que fazemos, até na arte de defraudar.