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Saber o que não sei (sobre a fraude)

Silêncio da fraude

Carlos Pimenta

Saber o que não sabemos e pode ser importante, seleccionar com base na experiência, imaginação e inovação, aprender e aplicar

Num inquérito a médios empresários bem-sucedidos, pela longevidade da empresa, sua lucratividade e ambiente social, um deles respondeu como o tinha conseguido: “saber o que não sabemos e pode ser importante, seleccionar com base na experiência, imaginação e inovação, aprender e aplicar”.

É certo que esta afirmação genérica aplica-se a quase todos os ramos de actividade, sendo a empresarial um deles. É esta abertura ao mundo, esta capacidade de diálogo, que nos mostra o quanto somos justificadamente ignorantes e que devemos mudar o nosso prisma de olhar a realidade.

Se sempre é de fazer um análise de risco da actividade empresarial ꟷ conscientes de que alguns minutos podem bastar para destruir o trabalho de uma vida ꟷ a mundialização da actividade económica, a grande diversidade de riscos e o frequente surgimento de novos, o desenvolvimento tecnológico, a intensificação da fraude nas últimas décadas e o impacto das suas diversas ondas, e o mundo opaco e «desconhecido» da criminalidade económica transnacional ꟷ resiliente e sempre aberto a novos ramos de tráfico, entre o sorriso e amabilidade das elites sociais e políticas e a violência das armas, com mil e um canais de lavagem de dinheiro e penetração profunda na actividade empresarial legal ꟷ, essa sistemática área de trabalho pode ser decisiva.

Nesse terreno vasto de acção, comparando custos de implementação e riqueza de mais segurança, também são decisivos considerar o risco de fraude: as fraudes internas contra as empresas, numa vasta variedade, e as ondas de choque das fraudes noutras entidades ꟷ sociais, empresariais e políticas ꟷ podem atingir valores importantes. Mais, muitas podem existir, correr a empresa e não serem conhecidas. A fraude é um logro intencional que só é visível quando detectada.

Sabemos que para muitos «a fraude sempre existiu», «é inerente à essência humana», «é um produto da cultura» pelo que nada há a fazer. Para muitos outros o fundamental é conseguir «repercutir» o que não se conhece no preço do produto. Ainda para muitos outros «tudo está bem na sua empresa, contrariamente ao que pode acontecer no seu vizinho» E provavelmente outras ignorâncias e pequices humanas manifestar-se-ão de outras formas.

Contudo os dados são concludentes. Numa amostra de 2690 empresas, apesar de organizadas contra a fraude ꟷ o que significa que nas outras é certamente pior ꟷ as perdas resultantes de aquelas ultrapassa os 7.000.000.000 de dólares; o valor mediano das fraudes é de 130.000 dólares (e 22% delas tem um valor superior a um milhão) e o tempo decorrido até uma fraude ser detectada, e parada, tem uma mediana de 16 meses.

Eis alguns comentários provocados pela ignorância de quem devia saber do assunto.

Para terminar alguns comentários de Joseph Wells, fundador da ACFE (Association of Certified Fraud Examiners):

ꟷ "O combate à fraude é um processo contraditório. Tenta provar que alguém fez algo errado. Ninguém se oporá a si mais intensamente que alguém que vai perder a sua liberdade. Se não tem coragem para tal procure outro emprego. Esta não é uma profissão para fracos"

ꟷ "Se houver uma acusação de fraude, nunca vá falar com o suspeito sem antes ter feito o seu trabalho de casa."

ꟷ "Uma das características dos novatos é ver grandes conspirações por detrás de cada pedra, fazer um caso complicado, quando o não é. Isto não quer dizer que não haja conspiração, mas na maioria dos casos a fraude é cometida por uma pessoa, agindo sozinha, encobrindo-a a todos, incluindo a família."

ꟷ "Muitos investigadores inexperientes pretendem resolver um caso muito rapidamente. Cometem então erros que comprometem fatalmente o caso e que também os fragiliza legalmente. Se não sabe o que fazer a seguir pare, tome folgo. Discuta com os seus colegas ou com a assessoria jurídica. Depois recomece."

ꟷ "Não ultrapasse os limites da sua autoridade. Não pode coagir, obter secretamente informações a que não tem direito, ameaçar."

ꟷ "O seu trabalho é descobrir pistas, pessoas para conversar, documentos para examinar, locais para observar. Se desenvolver pistas suficientes, as explorar e as interligar adequadamente o caso vai ser resolvido. Caso contrário será insolúvel."

ꟷ "No mundo da contabilidade não faltam opiniões. Não é assim na análise da fraude. Atendendo aos factos deve evitar de todo dar opiniões. Estas são um campo legalmente minado. Se considerar que alguém cometeu actos ilegais, tal deve resultar dos factos."

ꟷ "Se tem uma formação contabilística pode empolgar-se com os números. Certamente que são indicadores de uma possível fraude. Mas também pode ser um engano ou um erro. A diferença é a intenção. Raramente consegue provar só com números. (…). Recorde-se que os registos não cometem fraude, são as pessoas que o fazem."

ꟷ "Os examinadores de fraude muitas vezes ficam frustrados quando não conseguem resolver um caso. Mas isso faz parte da natureza do jogo."

Carlos Pimenta

Carlos Pimenta

Professor emérito da Universidade do Porto. Coordenador das Pós-Graduações em Gestão de Fraude. Autor e coordenador de artigos e livros sobre a fraude económico-financeira. Em 2012 foi-lhe atribuído o prémio «Outstanding Achievement in Outreach / Community Service» da Association of Certified Fraud Examiners. Sócio fundador do Observatório de Economia e Gestão de Fraude. O OBEGEF é uma associação, sem fins lucrativos, para a aquisição de novos saberes sobre a fraude e a corrupção, contribuindo, pela formação e informação, para a sua deteção e prevenção.