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A luta de galos

Alexander Koerner/ Getty Images

O ocidente não gosta da forma de organização da sociedade chinesa, e isso conduz a muitos temores. Temos receio do desconhecido e sentimo-nos confortáveis com o conhecido. Mas não é o fim das coisas, não é uma saga de espiões. Isso é o que nos fazem crer. Espiados somos todos os dias

1. O garnisé fez-se galo. E não é recente, apenas leva tempo para que se possa ter uma perceção clara sobre o facto. A mais recente luta entre os E.U.A. e a China é uma luta de galos. E é mais isto do que o papão da perigosa tecnologia do segundo face à segurança nacional do primeiro.

Os E.U.A. colocaram a Huawei na lista negra das empresas que ameaçam a sua segurança e forçou os seus maiores colossos tecnológicos a cortar relações com esta empresa. A China estará (ou estaria antes do último bilateral no G20) a preparar também uma lista para retaliar. É que os dois países detêm componentes fundamentais de que as empresas de ambos dependem: software, hardware e matérias primas. Isto é a economia global.

2. A luta pode ser apenas por domínio comercial. Como todas as principais empresas de tecnologia ocidental estão localizadas nos E.U.A, são as empresas chinesas as únicas que podem desafiar os gigantes americanos.

A Huawei atingiu uma dimensão que por si só é uma ameaça comercial a muitas das empresas tecnológicas ocidentais e impacta uma ameaça do seu próprio país. A quantidade de dados gerados pelos produtos e serviços oferecidos pela empresa é inacreditável. Os dados são recolhidos desde os dispositivos móveis, às redes, cabos submarinos, fibra ótica e sistemas de internet das coisas. É hoje líder mundial em tecnologia 5G que permitirá a obtenção de ainda mais e melhor informação e tornando o seu uso mais eficaz pela velocidade de transferência de dados quase em tempo real, levantando, portanto, questões sérias de estratégia e segurança.

É claro que a Huawei recolhe dados. Todas as companhias na área da tecnologia da informação o fazem e retiram largos proveitos disso. E é claro que os governos querem ter acesso a estes dados. Fundada em 1987 por um ex-engenheiro militar do Exército de Libertação Popular da China, a Huawei é hoje detida na sua quase totalidade por um conselho sindical dos seus funcionários chineses. É a companhia chinesa mais internacional, valendo 180 mil funcionários espalhados pelo mundo e as suas vendas ultrapassaram, o ano passado, os 100 mil milhões de dólares, prestando serviços a 3 mil milhões de utilizadores em mais de 150 países. Muito relevante é que a sua internacionalização sofreu um grande impulso com a contratação da IBM no final dos anos 90,

para sua consultora na reestruturação e projeção da empresa no mercado global. Um país dois sistemas …

3. Mas a luta é também pela hegemonia mundial. Assim como os E.U.A. ultrapassaram a superpotência anterior (o império britânico) a China ameaça o hegemónico atual e é considerado por muitos como superpotência emergente. Estima-se que já na próxima década seja mais influente na região asiática do que os E.U.A.

De qualquer forma a hegemonia dos E.U.A. está comprometida – nada é eterno. Estaremos numa nova fase de poder bipartido, ao qual os E.U.A. se haviam desvinculado desde a implosão da U.R.S.S. É verdade que os E.U.A. têm sido os polícias do mundo, dominando-o. A língua, a informática, sistemas operativos, novas tecnologias, redes sociais, vendas on-line, têm sido dominadas, por larga margem, pelos E.U.A. Associado a isto, tem uma capacidade militar superior a qualquer outro país quer nos meios quer na sua capacidade de projeção. A ex-U.R.S.S. era o grande adversário, competindo em poderio militar. Mas nesta era da informação a atual Rússia não tem o nível e desenvolvimento dos E.U.A.

A China desde há muito que se tem vindo a desenvolver e a uma velocidade vertiginosa, pautando a sua revolução com assertividade sem olhar a falhanços ou custos. De reles imitador a temido criador tecnológico, a China foi controlando os seus cidadãos, mesmo ao nível do crescimento da população, mantendo-os focados no crescimento do país.

Tem vindo a crescer de forma unitária e centralmente dirigida. Tem excesso de meios humanos e com capital humano crescente. Grandes cérebros chineses foram estudar e contribuir para o desenvolvimento científico no ocidente, particularmente nos E.U.A., onde vastas somas de dinheiro são investidas em investigação e desenvolvimento. A China foi estendendo a sua influência pelo mundo, aumentando a sua presença comprando empresas de alto valor estratégico, e comprando dívida pública de vários países, entre eles os E.U.A. Com o tempo, muitos cérebros passaram a ficar no país e outros regressaram. À sua intelectualidade juntam a capacidade de trabalho. O tempo e a concentração que dedicam ao seu trabalho é inatingível por qualquer outro ser humano, muito menos ocidental.

4. O ocidente não gosta da forma de organização da sociedade chinesa, e isso conduz a muitos temores. Temos receio do desconhecido e sentimo-nos confortáveis com o conhecido. Mas não é o fim das coisas, não é uma saga de espiões. Isso é o que nos fazem crer. Espiados somos todos os dias. As nossas conversas são analisadas sempre que tal se justifique pela polícia. Esta recorre aos operadores de telecomunicações para lhes facultarem esses dados. Os fabricantes tecnológicos são quem permite o fluxo da informação e, portanto, aqueles que também a ela podem aceder. As empresas querem ser dominantes, e sem informação sobre as outras terão maior dificuldade em o conseguirem. Os governos para lidarem com as ameaças e vulnerabilidades procuram informação. E todos o fazem, sobretudo todos aqueles que conduzem o mundo ou que pretendem ser atores e não meros espectadores num mundo de interesses.

O garnisé já é galo e o galo sabe muito bem disso. É apenas uma luta pelo domínio da capoeira.

Paulo Vasconcelos

Paulo Vasconcelos

Licenciado em Matemática Aplicada, doutorado em Ciências da Engenharia. É investigador no Centro de Matemática da Universidade do Porto nas áreas de análise numérica, matemática computacional e economia computacional. Tem dirigido também a sua atenção para a investigação e a divulgação das grandes questões da Defesa Nacional e Segurança Internacional. É Auditor dos Cursos de Defesa Nacional. É sócio fundador do Observatório de Economia e Gestão de Fraude (OBEGEF). O OBEGEF é uma associação, sem fins lucrativos, para a aquisição de novos saberes sobre a fraude e a corrupção, contribuindo, pela formação e informação, para a sua deteção e prevenção.