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Ai que eu caio!… Segurem-me que eu caio!

Trata-se de pessoas que nitidamente precisam de uma “baixa” para fazerem uns “biscates” fora da sua atividade profissional

Recentemente tive um problema de saúde relacionado com dores no braço e no pescoço e necessitei de recorrer a um ortopedista. Na segunda consulta, depois dos cumprimentos habituais e após análise dos exames solicitados inicialmente, o médico disse-me que eu tinha um pequeno problema, mas que não lhe parecia nada de grave e começou por me aconselhar algum repouso.

Naquele momento, considerei o diagnóstico um pouco simplista e manifestei-me de imediato: - Doutor, acredite que tenho mesmo dores e preciso de resolver este problema para cumprir com as minhas obrigações profissionais. Ao ver a minha reação, o ortopedista adiantou: - Vejo através dos exames que tem efetivamente dores. Quando me referia que não parecia nada de grave era porque, na verdade, o seu problema é, aparentemente, de fácil resolução e não é parecido com o de outros pacientes que me aparecem aqui com frequência a dizer que têm dores – muitas dores – e que não podem trabalhar. Pedem-me que lhes passe um Certificado de Incapacidade Temporária para o Trabalho por Doença, a vulgar “baixa”.

O médico continuou: - Depois de lhe solicitar alguns exames vejo que não têm qualquer problema e não passo a “baixa”. Não quer saber que passada uma ou duas semanas voltam cá e dizem-me que têm muitas mais dores e precisam mesmo que lhes passe a referida “baixa”? Muitas vezes, como já sei o que se passa, tento confirmar se compraram a receita que lhes prescrevi anteriormente e que supostamente com esse tratamento resolveriam o problema. Contudo, e como hoje isso é possível de verificar, confirmo que a receita que lhe prescrevi não foi adquirida. Trata-se de pessoas que nitidamente precisam de uma “baixa” para fazerem uns “biscates” fora da sua atividade profissional. Esta situação acontece muitas vezes nas zonas rurais próximo das épocas da colheita da castanha, azeitona, amêndoa e da vindima. Em alguns casos, após várias insistências dos pacientes e caso tenha algumas dúvidas, acabo por lhe passar a famigerada “baixa”. Como desconfio, para não dizer que tenho quase a certeza que o paciente não tem qualquer problema, aviso a entidade em causa. Na verdade, quase sempre estou certo. Basta, por exemplo, o Serviço de Verificação de Incapacidade Temporária da Segurança Social ir a casa do doente e verificar que este não se encontra lá. Pergunta por ele e acaba sempre por o encontrar a trabalhar em alguma coisa que supostamente não deveria.

Ao ouvir o que o ortopedista acabara de mencionar, não resiste a contar-lhe que em tempos, numa determinada localidade da nossa zona, se comentou que os Inspetores da Segurança Social se dirigiram à casa de um senhor, considerado incapacitado para o trabalho, e apenas encontraram a esposa, a qual lhe terá indicado um terreno ali perto onde o marido se encontrava. Chegados ao terreno, os Inspetores da Segurança Social encontraram o senhor em cima de uma árvore a efetuar a poda da mesma e perguntaram-lhe: - É o Sr. Joaquim? - Sim, sou eu mesmo. – Nós somos Inspetores da Segurança Social e gostaríamos de conversar consigo. De repente, o Sr. Joaquim começou a gritar: - Ai que eu caio, ai que eu caio! Segurem-me que eu caio!

Como estas, muitas outras situações infelizmente acontecem. Há pessoas que são consideradas incapacitadas e realmente não o são. Enquanto outras o deveriam ser e não o são. Sejamos todos honestos e responsáveis.

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