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Banho de piscina e banho de mar

“Banho” é o dinheiro dado pelos políticos, nos dias anteriores às eleições, aos cidadãos como garantia do voto num determinado partido

Por motivos profissionais, tenho-me deslocado a um país africano de língua oficial portuguesa, onde tenho tido o privilégio de conversar com quadros superiores da Administração Pública, gestores, administradores de empresas e população em geral. Muitas vezes oiço a expressão “banho”, que isto ou aquilo é fruto do “banho”.

Como é evidente, quis saber que significado tinha essa expressão. Comecei por perguntar às pessoas com quem lidava mais diretamente. Explicaram-me que “banho” é o dinheiro dado pelos políticos, nos dias anteriores às eleições, aos cidadãos como garantia do voto num determinado partido. Questionei também se o valor era significativo, ao que me referiram que era considerável face ao nível de vida no país.

Mais recentemente, coloquei a mesma questão a pessoas conhecedoras do sistema político do país, os quais me deram a mesma resposta. Curioso, tentei obter mais detalhes sobre a forma como é dado o “banho”. Nos últimos dias de campanha os políticos dirigem-se aos principais aglomerados da população para fazerem campanha. Aí, são recebidos por um representante da população, o qual começa por perguntar se há “banho”. Caso a resposta seja negativa, o responsável informa que não haverá qualquer assistência a um eventual comício e que as restantes pessoas não estão disponíveis para dar ouvidos aos políticos. Se a resposta for positiva, o responsável faz nova pergunta relacionada com o tamanho do “banho”: - Vão dar “banho” de mar ou de piscina? Se o montante oferecido for baixo, ou seja, “banho” de piscina, também não haverá comício porque existe a expetativa de receber um valor superior ou porque um outro partido já se comprometeu em dar “banho” de mar. Caso o montante oferecido seja significativo, isto é, “banho” de mar, então o responsável pede aos políticos para aguardarem e vai chamar outros elementos da população.

Em função das explicações dadas pelas pessoas conhecedoras do sistema político do país, continuei a questionar os mesmos sobre a importância dos programas eleitorais dos diferentes partidos políticos. Estes referiram-me que os programas não têm grande importância nos resultados eleitorais. O que interessa é ter dinheiro e o partido que conseguir mais dinheiro para os últimos dias de campanha ganha as eleições. Voltei a colocar nova questão: - Então para que servem as eleições? Para eleger o partido que conseguiu mais dinheiro e que no poder usará mecanismos para o recuperar, evidentemente com uma boa majoração.

Outras questões se impõem e relativamente às quais também tentei obter resposta. Por exemplo, procurei saber qual a proveniência das grandes quantias de dinheiro que aparecem no país no período eleitoral. As respostas a esta questão não foram tão espontâneas como as dadas às questões anteriores. As pessoas referem que uma parte significativa do dinheiro vem de outros países africanos, mas não avançam com grandes pormenores.

E entre nós, será que também há “banho” nas eleições? Em eleições legislativas ou presidenciais não creio que tal aconteça. Contudo, em eleições autárquicas já me parece ser mais exequível a existência de situações que fazem lembrar as relatadas anteriormente. Há alguns anos a esta parte, comentou-se que um candidato a presidente de câmara do norte do país oferecia eletrodomésticos à população em troca de votos. Na verdade, há muitas formas de dar e tomar “banho”.

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