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Poderá a televisão estar relacionada com a corrupção?

Silêncio da fraude

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Como explicar a relação entre o visionamento de televisão e a percepção de corrupção?

Silêncio da fraude/ Manuel Castelo Branco

No seu mais recente livro, com o sugestivo título "O preço da civilização" [1], Jeffrey Sachs, reputado professor de Economia e diretor do Instituto da Terra (Earth Institute) da Universidade de Columbia (EUA), sugere a existência de uma relação entre níveis de visionamento de televisão num país e o respetivo posicionamento no índice de perceção de corrupção. De acordo com o seu argumento, quanto mais elevado o tempo de visionamento de televisão dos cidadãos de um país, maior é a perceção de corrupção nesse país. Sachs apresenta alguma evidência estatística, de acordo com a qual enquanto países onde o tempo médio de visionamento de televisão é relativamente baixo apresentam níveis de perceção de corrupção mais baixos (por exemplo, os países nórdicos), países nos quais o tempo médio de visionamento de televisão é relativamente elevado apresentam níveis de perceção de corrupção relativamente mais elevados (por exemplo, países do sul da europa). Há, no entanto, uma exceção importante, os Estados Unidos da América, país relativamente ao qual um elevado nível de visionamento de televisão, o mais elevado entre os países considerados por Sachs, não se traduz em equivalente nível de perceção de corrupção. Sachs sugere como explicação o facto de muita da corrupção nos EUA se encontrar legalizada, dando como exemplos os casos da atividade de lóbi e do financiamento de campanhas de partidos políticos por parte de empresas.

Como explicar a relação entre o visionamento de televisão e a percepção de corrupção? Uma parte da explicação poderá residir na relação entre o visionamento de televisão e a confiança mútua dos cidadãos de um país. Ora, de acordo com Jeffrey Sachs, há também evidência estatística de uma relação negativa entre confiança social e tempo de visionamento de televisão. Nos países com tempo de visionamento de televisão mais baixo, de que são, mais uma vez, exemplos os países nórdicos, os níveis de confiança social são mais elevados. Pelo contrário, países que apresentam níveis relativamente mais baixos de confiança social são também aqueles onde se ocupa mais tempo a ver televisão. Retomando os argumentos de Robert Putnam, influente cientista político norte-americano, Sachs sublinha o efeito negativo da televisão no envolvimento dos cidadãos em atividade cívicas e na sua participação política. Esta perda de participação cívica e política dos cidadão tem consequências óbvias não só em termos de estímulo à e aceitação da corrupção, como também em termos das próprias perceções sobre esse fenómeno. Obviamente, a televisão é apenas um dos fatores a considerar na análise destas realidades. Elas são determinadas por uma rede complexa de fenómenos sociais, os quais são também por elas influenciados. Não obstante, estes impactos da televisão são significativos o suficiente para merecem algum destaque.

O exemplo do Butão é o que de forma mais dramática ilustra os efeitos negativos do visionamento de certo tipo de televisão. Este país mereceu uma referência por parte de Jeffrey Sachs no livro referido acima por ser aquele onde se tem tratado de forma mais séria a tarefa de medir e aumentar o nível de felicidade nacional, tendo sido pioneiro no desenvolvimento de um indicador de Felicidade Nacional Bruta e na reorientação das políticas para a sua promoção. Mas o Butão é também conhecido por ter sido o último a introduzir a televisão, o que ocorreu apenas em 1999.

Em 2003, Cathy Scott-Clark e Adrian Levy, dois reputados jornalistas, publicaram no The Guardian um artigo no qual davam conta da primeira onda de crime ocorrida no Butão [2]. "Os butaneses sempre se orgulharam de seus funcionários públicos incorruptíveis", escreveram estes dois autores, "até que Parop Tshering, o tesoureiro-chefe de 42 anos da Empresa Estatal de Comércio, foi acusado em 5 de abril de desviar de 4,5 milhões de ngultruns (£ 70 000)". Segundo um editorial do Kuensel, o jornal nacional, referido por Scott-Clark e Levy, começaram a surgir "famílias desfeitas, evasão escolar e outros casos de delinquência juvenil", para além de "crimes associados ao consumo de drogas", como "pilhagem de lojas, roubos e violência". Estes e outros acontecimentos similares foram por muitos imputados ao aparecimento da televisão.

Como afirmaram Scott-Clark e Levy, o isolamento do Butão tornou o impacto da televisão ainda mais claro. Entre os resultados de um estudo sobre o impacto da televisão, mencionado pelos dois jornalistas, referiam-se os seguintes: "mais do que 35% dos pais preferem ver televisão a falar com os seus filhos"; "quase 50% dos filhos veem até 12 horas por dia". Ou seja, houve uma alteração radical dos relacionamentos.

Apesar do ocorrido no início deste século, o Butão continua a ser conhecido como um país que se caracteriza por um elevado nível de capital social, o qual está intimamente relacionado com o nível de confiança entre os seus cidadãos. Este país mereceu até, por este motivo, uma referência de Joseph Stiglitz, recipiente do Prémio do Banco Central da Suécia de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel em 2001, no seu mais recente livro, intitulado "O preço da desigualdade" [3]. Este elevado nível de confiança social estará intimamente relacionada com um índice de perceção de corrupção nesse país relativamente baixo. Relembre-se que no Índice de Perceção da Corrupção (IPC) de 2012, da Transparência Internacional, o Butão apareceu com posição, 33.º lugar (entre 176 países), e pontuação, 63 (de 0 a 100, correspondendo 100 à melhor situação possível), idênticas às de Portugal. Entre os países do sul da Ásia, o Butão é o que se encontra melhor colocado no IPC.

Referências:

[1]Sachs, Jeffrey (2012), The Price of Civilization: Reawakening Virtue and Prosperity After the Economic Fall, Vintage.

[2] http://www.guardian.co.uk/theguardian/2003/jun/14/weekend7.weekend2

[3] Stiglitz, Joseph E. (2012), The Price of Inequality: How Today's Divided Society Endangers Our Future, W. W. Norton & Company.