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O Défice da Mensagem

Silêncio da fraude

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Nenhum português terá permissão para morrer enquanto não trabalhar o tempo suficiente para pagar a sua quota-parte da dívida pública.

Silêncio da fraude/ João Pedro Martins

De repente, o país entrou em festa com o regresso aos mercados. Sente-se a alegria das pessoas que não têm emprego e rejubilam os que ficaram com o salário reduzido. A crise acabou, pelo menos na alegre mensagem do ministro das Finanças.

Parece que um raio de luz divina penetrou nas densas trevas das finanças públicas e tudo resplandece perante o sucesso da colocação de dívida soberana na mão de soberanos credores. Será que 23 de janeiro será um novo feriado nacional?

A mensagem publicitária pode transformar uma mentira numa verdade de histeria coletiva. Pode até fazer-nos acreditar que um cego vê com nitidez o arco-íris. Pode enganar todas as pessoas ao mesmo tempo, mas não consegue iludir todos durante todo o tempo.

Uma campanha de marketing político pode ser gerida pelos melhores publicitários e transmitir-nos a ilusão de que estamos no caminho certo. No fundo somos atraídos para uma armadilha que nos faz pensar que mais recessão é igual a permanência nos mercados financeiros. E estar lá é como entrar no céu com uma auréola de santidade.

A demagogia nunca nos diz como é que alimentamos o futuro dos nossos netos e a barriga dos nossos filhos. Enganar os eleitores não é muito diferente de um assalto a um banco. Na prática, desviar o dinheiro dos contribuintes para salvar um banco, apenas inverte a ordem entre um benfeitor público que auxilia um privado e um ladrão que assalta a caixa-forte. Ambos usam dinheiro dos contribuintes, seja o governante, o ladrão ou o banqueiro. A única diferença reside na legalidade do ato. Apenas o ladrão (o da caixa-forte) é o infrator da lei.

O que sabemos é a que dívida por pagar representa mais de 120% do PIB.

Significa que nos próximos quinze meses toda a riqueza gerada no país teria de ser usada para pagar aos nossos credores.

Significa que durante este tempo ninguém estaria autorizado a comer. Todos teríamos de ir a pé para o trabalho e ninguém poderia comprar um par de sapatos novos.

Significa que nenhum português teria permissão para morrer enquanto não trabalhasse o tempo suficiente para pagar a sua quota-parte da dívida.

Significa que os nossos governantes preferem abrir uma garrafa de champanhe e celebrar com os investidores agiotas do que olhar para as insignificantes misérias do povo.

Isto já não é falta de ética política. É malandrice. É um assalto aos nossos bolsos, enquanto levantamos as mãos com a fanfarra do regresso aos mercados. Que alegria transbordante é pagar juros aos investidores estrangeiros.

Confesso que o excesso de análises políticas e gritaria demagógica me causam vómitos, enquanto a família do português anónimo continua sem emprego, sem dinheiro e sem comida.

Esta tortura que permanentemente nos diz que é imprescindível apertar o cinto e que o único caminho é saltar para o abismo, é uma fraude.

É impossível saltar sem paraquedas e ficar preso numa nuvem. A lei da gravidade não permite tamanha demagogia. Da mesma forma que as leis imorais, feitas por gente imoral, não podem trazer justiça e moralidade a uma sociedade onde abunda a corrupção.

A verdade sussurra-nos a todo o instante, e na injustiça ela grita. E quando o grito se transforma num clamor coletivo, o medo desaparece.