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Um fantasma do passado

Sexto Sentido

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Dar atualidade a Marcelo Caetano é uma derrota para duas gerações

Filipe Luís

Filipe Luís

Editor Executivo

Na semana em que a troika volta a Portugal, para fazer a sua sétima avaliação, deflagra um caos eleitoral em Itália, com as consequências previsíveis: queda do euro, o recrudescer da desconfiança dos mercados (que detestam a democracia...) e o disparar da crise das dívidas soberanas. E a insegurança do cidadão. O nosso modo de vida, tal como o entendemos, é indissociável da nossa condição de europeus. Talvez de forma inconsciente, e até contrafeita, os portugueses "viciaram-se" em Europa. O lance final dessa "pedrada" foi a imposição do euro como moeda única. O problema é o do beco sem saída, uma total inexistência de alternativa à ideia europeia e, dentro dela, à moeda comum. "Para quem sabe olhar para trás, toda a rua tem saída", canta Gabriel, o Pensador. Não é o caso.

A ironia da História faz-nos regressar a uma espécie de idade das trevas, tornando inquietantemente atuais algumas palavras de Marcelo Caetano, proferidas há mais de 40 anos (em 1970): "Numa federação europeia seríamos sempre um parente pobre, esquecido, sem peso nas decisões comuns, com os nossos destinos alienados às conveniências das potências dominantes." E mais à frente: "A partir do Atlântico, somos os primeiros, mas, vistos de Paris, de Berlim ou de Moscovo, seremos sempre os últimos do Continente." Antes dele, Franco Nogueira, ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar e um dos ultras do regime, que se opunha à suposta primavera marcelista, sentenciava: "Os que dão prioridade à opção europeia sobre a opção ultramarina, são os arautos de um novo sebastianismo, o do Mercado Comum (...) A integração económica da Europa é um mito, como é um mito a sua unidade política." Franco Nogueira, Salazar, Marcelo Caetano eram os ultramontanos contra o desenvolvimento e a integração. A resistência à adesão europeia, à democracia parlamentar, à descolonização, era um anacronismo apenas possível numa "Albânia de sinal contrário" como era Portugal. O que raio andámos nós a fazer, todos estes anos, para que, de repente, sejamos incomodados por estes fantasmas do passado, homens formados no cadinho das ditaduras dos anos 30 do século XX, cuja voz, assim vista retrospetivamente, até parece a da razão? Porque é que cada vez mais portugueses são obrigados a enveredar pela "opção ultramarina" (desta vez como estrangeiros...) em vez de se agarrarem ao rincão europeu?

Tal como Portugal, depois do 25 de abril, também a Europa teve os seus três dês: Descolonizou, Desindustrializou e Deslocalizou. O que estamos a fazer é um reajustamento, uma viagem de regresso. Mas podia não ser desta maneira: convinha, neste passo, que os senhores da troika e os governantes da Europa lessem um pouco da História.

Conferir atualidade aos discursos citados é uma derrota para as duas  últimas gerações. O mesmo é dizer que regredimos e recuámos o suficiente para encontrar lógica em ideias que pareciam mortas e enterradas nos escombros da II Guerra Mundial. O ambiente na Europa, sufocante, é cada vez mais parecido com o do caldeirão dos anos trinta. Daqui a pouco, estaremos dispostos a aceitar caudilhos e a eleger demagogos (sejam eles nacionalistas ou simples comediantes, como em Itália...) e a mobilizarmo-nos para a guerra. Não, nem Marcelo nem Franco Nogueira podiam estar certos. E nós estamos a fazer tudo errado.