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Quem tem medo do lobo mau?

Sexto Sentido

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Um político travestido de analista é mais insidioso

Filipe Luís

Filipe Luís

Editor Executivo

Se tudo isto fosse uma fábula setecentista, António José Seguro, Pedro Passos Coelho e Cavaco Silva andariam por aí a tocar flauta e a cantarolar nervosamente, como os três porquinhos: "Quem tem medo do lobo mau?" Sim, que motivações esconde José Sócrates para reaparecer, em horário nobre, na televisão pública? Virá para se vingar - e vingar-se dos três? Ou apenas para limpar a imagem? Vai contribuir para crispar ainda mais o País? Ou tornou-se uma espécie de Sá Pinto da política e, à custa de muito autocontrolo induzido, aparece como um patriarca calmo, contido e conciliador? E que caldeirão de água a ferver lhe está preparado, para quando descer pela fibra ótica de nossas casas?

A chegada, com estrondo, de José Sócrates ao "mercado do comentarismo político", bem como o terramoto de reações em cadeia que provocou, dizem muito sobre o subdesenvolvimento da nossa democracia. Mas também são reveladores sobre o novo tipo de relação que se está a criar entre agentes políticos e eleitores, mais doentia, esquizofrénica e conflituosa. A originalidade portuguesa de colocar políticos em espaços televisivos, como comentadores, é um sinal de pouca maturidade democrática que afeta, por igual, os políticos e os seus "empregadores". Mas é também um jogo perigoso, que condiciona o processo de formação de opinião. Um político travestido de analista é mais insidioso. A simulação do distanciamento permite-lhe ser mais eficaz, na transmissão da mensagem. A notoriedade torna-o óbvio, no processo mental que conduz à escolha. Tudo isto acontece de forma camuflada e não às claras. Com dissimulação e não com transparência. Foi assim, aliás, que Pedro Santana Lopes e José Sócrates chegaram a primeiros-ministros. Num mundo ideal, ao menos a estação de serviço público nunca teria políticos a ocupar espaço de comentário ou análise, sem contraditório.

Dito isto, o mundo é como é. O escarcéu formado contra o regresso de Sócrates só pode ser explicado pelo alto grau de emotividade que a personagem ainda provoca e pelo baixo grau de consciência democrática que o País ainda revela. Embora crescentemente contestatários do atual Governo, muitos portugueses ainda veem Sócrates como o "culpado". Para estes, "se não fosse o Sócrates, não tínhamos de aturar o Passos e as suas medidas!" É esta simples equação que o ex-primeiro-ministro devia fazer, antes de começar a abrir a boca, na RTP... Por outro lado, assinar petições para mandar calar alguém não é aceitável, num regime democrático. E mesmo o argumento de que o problema reside no facto de Sócrates ingressar no canal público, pago por todos nós, não tem qualquer sentido, à luz das regras atuais. Primeiro, porque a RTP anunciou que não haverá honorários. Depois, porque o canal público continua, mal ou bem, num mercado de concorrência, em que as audiências contam. É como no futebol: a SIC "roubou" Marques Mendes à TVI e contratou Jorge Coelho. A TVI respondeu com a aquisição de Manuela Ferreira Leite (há cinco ex-líderes do PSD a fazer comentário político, um dos quais ex-primeiro-ministro, e ainda não se ouviu um protesto...). E a RTP vai buscar uma espécie de ás de trunfo das audiências, como veremos em breve...

No final de tudo isto, a dúvida é a de saber se o edifício do Largo do Rato, sede do PS, onde se abriga Seguro, é capaz de resistir, ou não, ao sopro do lobo mau...