Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Por uma pele de boi

Sexto Sentido

  • 333

Nenhum banco português encostaria a barriga ao balcão...

Filipe Luís

Filipe Luís

Editor Executivo

1. Na Eneida, de Vergílio, a fugitiva Dido obtém, dos indígenas norte-africanos, permissão para tomar posse de toda a terra que conseguir reunir dentro de uma pele de boi. Dido corta uma pele de boi em tiras muito finas e, com ela, tece um fio comprido, capaz de envolver um vasto território. Os atónitos indígenas são obrigados a cumprir a sua palavra e assim nasce a cidade de Cartago. O mito foi testado, com êxito, pelos navegadores espanhóis, quando, no final do século XVI, se estabeleceram nas Filipinas. Em Manila, pedem ao rei muçulmano Solimão que lhes conceda um pedaço de terra do tamanho de uma pele de boi. A história de Dido repete-se. Mais tarde, os novos colonos desembaraçar-se-ão do estupefacto Solimão. O facto foi registado, por académicos chineses, como exemplo da má fé dos europeus nas relações comerciais. Ainda contemporaneamente, um ditado chinês alertava contra os riscos nos negócios, devido ao perigo de "perder o país por uma pele de boi".

A EDP é a pele de boi com que os chineses entraram na nossa economia, aproveitando a venda forçada do património empresarial do Estado num prazo curto e os ventos liberais das privatizações compulsivas. Do ponto de vista empresarial, o empréstimo de mil milhões de euros, pelo China Development Bank, à EDP, é uma vitória para António Mexia. Do ponto de vista dos centros estratégicos de decisão, constata-se que nenhum banco português teria, nesta rodada, capacidade para encostar a barriga ao balcão. Atenção: os chineses fazem negócios legítimos e o seu investimento é bem-vindo. Mesmo assim, não deixa de ser irónico pensar que podemos estar a perder o país por uma pele de boi.

2. E se fosse uma pele de touro? A associação Prótoiro insiste em organizar touradas em Viana do Castelo, onde elas, aparentemente, ferem a sensibilidade de boa parte da população. Foi o que aconteceu, esta semana, na freguesia da Areosa, o que só não resultou em tumultos, porque a polícia conseguiu intervir a tempo. Parece-me uma estratégia muito pouco inteligente, a da Prótoiro. A publicidade aos protestos pode muito bem potenciar outras ações, encorajando mais ativistas contra a festa brava. Declaração de interesses (e vão chover cartas): não sendo aficionado, eu até gosto de touradas. Não pelo espetáculo, de que aprecio a pega, porque me parece uma luta com probabilidades repartidas, e onde admiro a coragem do toureio a pé. Mas bocejo durante a lide a cavalo. Do que gosto mesmo, porém, é da iconografia, do cheiro a gado, dos grandes espaços da lezíria, da adrenalina - e do papel que a tourada representa na identidade ibérica, na sua pintura, música e literatura. Sobretudo por isto, irrita-me o fundamentalismo higienista e ignorante de muitos ativistas. Concordo com eles no que se refere à barbaridade de molestar animais para divertimento público. Mas também sei que a viabilidade económica da criação de touros depende da existência da economia taurina. Sem touradas, estes nobres bichos serão quase extintos, confinados a reservas ou, mesmo, ao jardim zoológico. E os objetivos que os defensores dos animais pretendiam atingir - proteger os touros - terão sido invertidos. Mesmo assim, não deixa de ser irónico pensar que, com ou sem touradas, é sempre o touro quem arrisca... a pele.