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O sexto momento

Sexto Sentido

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Quebrou-se a confiança. O clima entre bancadas da maioria jamais será o mesmo. O Conselho de Ministros será glacial. Já não há um Governo

Filipe Luís

Filipe Luís

Editor Executivo

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Primeiro momento: 1.° de Maio de 1974. Gente de todos os estratos sociais, gerações e diversas áreas ideológicas sai à rua. Resultado: está legitimada a revolução e a democracia.

Segundo momento: 19 de julho de 1975. Na Fonte Luminosa, Mário Soares fala para uma multidão de todos os estratos, idades e crenças ideológicas, na área da democracia pluralista. Resultado: o fim da legitimidade popular do processo Revolucionário em Curso (vulgo PREC).

Terceiro momento: 9 de novembro de 1975: o povo apoia Pinheiro de Azevedo, no Terreiro do Paço. A Polícia Militar, controlada pelo setor revolucionário, tenta dispersar a multidão. É largada uma bomba de fumo e são disparados tiros. O primeiro-ministro assegura que é só fumaça, diz que o povo é sereno e ninguém arreda pé. Resultado: está legitimada a ação (a 25 desse mês) dos moderados, para garantir a democracia parlamentar.

Quarto momento: 8 de setembro de 1999. Um cordão humano de pessoas vestidas de branco percorre as principais artérias de Lisboa, e de outras cidades do País, a favor de Timor-Leste. Resultado: as imagens percorrem mundo e impressionam o Presidente Bill Clinton que faz uma declaração "obrigando" os indonésios a retirar de Díli.

Quinto momento: 15 de setembro de 2012. Resultado? O mote da manifestação, "Que se lixe a troika", não será cumprido. Se a troika responder "que se lixe Portugal" o nosso modo de vida, tal como o conhecemos, acaba. Ironicamente, porém, foi para defender o nosso modo de vida, tal como o conhecemos, que saímos à rua, no sábado, como o tínhamos feito em maio de 1974 e em setembro de 1999. Depurados de partidos ou sindicatos. Resultado, repito? Uma crise de Governo, um golpe na coligação e o quase certo recuo nas alterações à TSU (em troca de alternativas menos dolorosas).

A manif (curiosamente, uma abreviatura militar, captada por radioamadores durante o PREC...) deu força ao dr. Portas para cavalgar a onda. Restam algumas perguntas, a que o líder do CDS nunca responderá: porque não acautelou a sua posição a montante, no interior do Governo, impedindo uma crise política? A sinceridade com que se pronuncia agora é genuína? E que verdadeiros motivos, senão os da descolagem serôdia de medidas impopulares, o levam a pronunciar-se deste modo? Apanhado no fogo cruzado da brecha na coligação, Mota Soares foi, no CDS, a única voz - entretanto silenciada - a defender o aumento da TSU para os trabalhadores. "Único" centrista ingénuo, o ministro foi, na sua boa fé, cúmplice da medida.

Luís Filipe Menezes lembrou-o, chamando-lhe, por lapso freudiano, "ministro de Portas" - e não de Passos ou do Governo... O deslize de Menezes denuncia o ambiente: já não há um Governo. Quebrou-se a confiança. O clima entre bancadas da maioria jamais será o mesmo. O Conselho de Ministros será glacial. A oposição explorará até à náusea a brecha. Os protestos, conscientes da sua força, proliferarão. Os ministros já não saem à rua (onde está a abertura do ano escolar?...). E o País entra numa paz podre a que a urgência de um orçamento para troika ver, por agora, obriga. O chequezinho da sexta tranche da ajuda há de chegar. Ministros hão de sair e outros entrarão.

E o País espera o sexto momento.