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O mundo ao contrário

Sexto Sentido

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São agora os mais velhos a prover ao sustento dos filhos, e não, como devia ser, o contrário. E fazem-no com o dinheiro dos filhos dos outros

Filipe Luís

Filipe Luís

Editor Executivo

"Embora falar da arte/ Da arte de sobreviver /Daquela que se descobre /Quando não há que comer /Há os que roubam ao banco /Os que não pagam por prazer /Os que pedem emprestado /E os que fazem render", cantam os Xutos & Pontapés, no popular tema Dia de São Receber. Palavras atualíssimas para cada vez mais camadas da população: os novos pobres saídos diretamente da classe média para as estatísticas do desemprego e que deixaram, assim, de... receber.

Como em todas as guerras, avançaram os reservistas. São agora os reformados chamados a sustentar filhos e netos, servindo de almofada contra situações dramáticas de falta de trabalho. Sem medo das palavras, reconheçamos, neste amargo acordar para a realidade, que as garantias dadas pelo Estado Social trazem lá dentro sementes de perversão com que não contávamos. E que estão a incubar no interior do sistema de Segurança Social, fazendo-a implodir, num prazo muito curto. Vejamos porquê.

Durante milénios, ter filhos foi a segurança social de cada um. Quando os pais já não podiam trabalhar, os filhos passavam a sustentá-los. O que era tido não como um favor mas uma obrigação. Afinal, os filhos também tinham sido sustentados pelos pais. Isto funcionava como uma lei da vida ou uma lei natural, interiorizada pelas sociedades. Fazia parte do instinto humano de sobrevivência. Em muitas sociedades, como as orientais, cultivava-se, deliberadamente, a família numerosa. Mais bocas para alimentar significava, é certo, mais sacrifícios - mas também uma melhor garantia de proteção na velhice.

Com o advento, no século XX, do Estado Social, esta obrigação familiar foi delegada no Estado. Passava a ser a sociedade a provir ao sustento dos mais velhos. Cada geração ativa descontava, não para a sua reforma, como por vezes erradamente se pensa - o dinheiro não é colocado num mealheiro à espera que nos aposentemos... - mas para as pensões dos que já tinham deixado de trabalhar. E assim sucessivamente. Um ovo de Colombo que jamais poderia partir-se.

 

Mas houve um pequeno senão: para manter este sistema, as famílias teriam de continuar a gerar filhos a um ritmo que garantisse a substituição de gerações. Ora, como os filhos já não seriam precisos no futuro, não valia a pena fazer sacrifícios por eles, no presente. E deixou de ser necessário ter filhos. Esta mentalidade, associada ao alargamento do tempo de lazer, fomento do trabalho feminino e aumento de esperança de vida, tudo combinado com a libertação sexual originada pela proliferação dos contracetivos e com o advento do planeamento familiar, originou, em todas as sociedades promotoras do Estado Social, sucessivas crises de natalidade. A crise financeira de 2008 serve, entre nós, como uma espécie de detonador: os poucos braços disponíveis para trabalhar - e para contribuir para as reformas dos que já se retiraram - foram atingidos pelo desemprego. Consequência: são agora os mais velhos a prover ao sustento dos filhos, e não, como devia ser, o contrário. Fazem-no com dinheiro que já não existe, ou o dinheiro dos filhos dos outros - os que ainda têm emprego e ainda contribuem. É O mundo ao contrário, citando o título de outra música dos Xutos & Pontapés.