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O CDS está Seguro?

Sexto Sentido

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O CDS quer a pasta da Economia elevada a 'ministério de Estado'. Assim, Portas pode transferir-se sem perder estatuto

Filipe Luís

Filipe Luís

Editor Executivo

António José Seguro está convencido de que a dívida, pelos atuais moldes de vencimento, não é "pagável". E é isto mesmo que terá dito à troika, na reunião que estava prevista para ontem, quarta-feira. Para a atual direção do PS, o País já não depende de si próprio para resolver os seus problemas. Seguro tem poucas esperanças na queda do Governo - e, na verdade, estará pouco interessado nessa possibilidade. O à-vontade que coloca no pedido de demissão do Executivo e nas eleições antecipadas é próprio de alguém que sabe que tal apelo tem poucas hipóteses de ser atendido. O líder do PS está, assim, a construir a sua estratégia para o pós 2014 (ano de saída da troika de Portugal). Seguro considera que Portugal vai ter de continuar a cumprir um programa, fora do âmbito da troika. E toda a sua atenção se vira, agora, para a negociação direta com os parceiros europeus, procurando alianças e apoios, nomeadamente, no quadro da família socialista. Mais: em último caso, Seguro não deixará de brandir a ameaça de saída de Portugal do euro, algo que pode ter vindo à baila nas conversas de ontem com os representantes dos credores. 

Mas o cenário da dissolução do Parlamento não pode ser já descartado. É verdade que Cavaco Silva já deu sinais de que nunca se responsabilizará por uma crise política. E que Passos Coelho, obviamente, não se demite. Resta Paulo Portas, o homem que, roendo a corda da coligação, poderia, no pós-eleições, viabilizar um Governo socialista. Os sinais de aproximação têm sido evidentes. Seguro reconhece que o CDS já tem uma agenda de crescimento económico, que choca contra a austeridade a todo o custo da dupla Passos/Gaspar. E Paulo Portas falou, pela primeira vez, na inclusão do PS em soluções governativas.

Ao mesmo tempo, Pires de Lima (dirigente do CDS) insiste no pedido de uma remodelação, enquanto Portas ignora o serviço mínimo de mudanças registado esta semana. Não é a primeira vez nem será a última: Pires de Lima quer uma maior aposta na Economia - leia-se a substituição do respetivo ministro - e introduziu a sugestão da elevação da pasta a "ministério de Estado". Isto significa três coisas: primeiro, o CDS quer essa pasta, que pode ser sobraçada pelo próprio Paulo Portas (o que explica a elevação a "ministério de Estado"); segundo, o CDS quer ter um ministro de Estado mais ativo na condução das políticas públicas, o que aumentará, significativamente, o seu peso político no Governo, em contraponto a Vítor Gaspar, um ministro nitidamente em perda; e terceiro, o CDS terá, neste braço de ferro, uma oportunidade de se ver ressarcido dos sapos que, desde a TSU à remodelação, passando pelo "enorme aumento de impostos", se viu obrigado a engolir, em nome da solidariedade intragovernamental. Imagina-se Portas a exigir: "Depois disto tudo, bem mereço uma recompensa. É a Economia, ou bato com a porta."

Se esta última hipótese ocorrer, Seguro estará de braços abertos para o receber. Ou, no mínimo, fica com mais uma possibilidade de entendimento pós-eleitoral - além da que está a ser sub-repticiamente construída com o Bloco de Esquerda. E é por isso que o comportamento do CDS, nas próximas semanas, será fundamental, para se perceber a evolução política em Portugal.