Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Intermitências da morte

Sexto Sentido

  • 333

Porque é que, de repente, os pêsames que o PR queria manter privados passaram a ser públicos?

Filipe Luís

Filipe Luís

Editor Executivo

"A morte saiu à rua num dia assim / naquele lugar sem nome para qualquer fim." Bem sabemos que, no poema de José Afonso, o lugar sem nome tinha um nome - Rua da Creche, em Alcântara, Lisboa. E que o "pintor" que morria na sua canção era José Dias Coelho, militante do PCP, abatido a tiro pela polícia política do Estado Novo. Neste verão de 2013, sem repressão nem ditadura, o lugar sem nome bem pode ser uma mata perdida no Caramulo. A morte saiu à rua, por estes dias, e, num jogo macabro, ensombrou o final da silly season. Quatro bombeiros caídos em combate e um economista polémico, vítima de cancro, fizeram manchetes de jornais e encheram as páginas virtuais do mesmo facebook onde os mortos continuam "vivos", em murais que ninguém apaga. A morte, que, nas palavras do jornalista e escritor Fernando Dacosta, será, depois da revolução sexual do século XX, o último tabu a cair, em reality shows, com agonias em direto.

Se fosse hoje, talvez José Afonso terminasse a sua estrofe substituindo a palavra "pintor": "O pudor morreu, o pudor morreu." Raramente as mortes foram tão discutidas e um morto - no caso, António Borges - tão pouco consensual no elogio fúnebre. O cadáver de Borges foi, no charco da chicana política, e na inquisição das redes sociais, tão maltratado como o de Kadhafi, nas imagens chocantes de que todos se lembram. E, no entanto, ele era apenas um economista que tinha uma ideia e a defendia. Tão radical como os radicais de sinal contrário - e, no seu radicalismo, muito menos nocivo do que muitos que o criticavam. Nunca chegou a ser um líder político nem um governante. Era poderoso, na medida em que o são os influentes. Por sua causa, terão sido tomadas medidas que prejudicam muita gente e, ou, o País. Mas também isso é discutível, dependendo da posição política de cada um. Podia estar feito com este poder de que boa parte dos portugueses estão fartos: o poder financeiro, do ultraliberalismo e da troika. Mas o que verdadeiramente se lhe não perdoava era o desassombro e o politicamente incorreto. Era, portanto, criticado à portuguesa: por más razões.

Cavaco Silva deu o público testemunho das suas condolências. Se António Borges tivesse sido de esquerda, poucos apontariam, nestes tempos, ao Presidente, o "esquecimento" das condolências às famílias dos bombeiros mortos. E essas são, também, más razões para criticar Cavaco.

Mas há excelentes razões para o criticar. Repare-se: logo que a indignação cresceu e o PR ficou cercado pela perplexidade de grande parte da opinião pública, o fenómeno tornou-se um facto político. Nesse momento, Belém usou politicamente as condolências presidenciais, revelando que elas tinham sido prestadas, particularmente, às famílias e às corporações dos bombeiros enlutadas. Porque é que, de repente, os pêsames que o Presidente queria manter privados passaram a ser públicos? O único facto que fez com que Cavaco mudasse de ideias foi o coro de críticas de que estava a ser alvo. Ou seja, em vez de aguentar, com estoicismo e nobreza, a sua posição, Cavaco, para salvar a pele, achou, de repente, que as condolências podiam ser reveladas. Afinal, perante uma dificuldade de imagem, a discrição era descartada.

O único facto que perdura é que este é um padrão comportamental do Presidente da República, enquanto político. O pudor morreu.