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Está alguém aí?

Sexto Sentido

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Só nos faltava descobrir que Vítor Gaspar é um perigoso estalinista...

Filipe Luís

Filipe Luís

Editor Executivo

Há cerca de um ano, Passos Coelho saiu-se com uma tirada enigmática: que "alguns" não se entusiasmassem "com as redes sociais e com o que veem lá fora, esperando trazer o tumulto para as ruas de Portugal". E acrescentava: "Não confundiremos o exercício das liberdades constitucionais com aqueles que pensam que podem incendiar as ruas e ajudar a queimar Portugal." À luz do que se passou nos 12 meses seguintes, somos levados a relacionar tais afirmações com uma reserva de consciência de quem sabia muito bem o que estava a preparar. Os tumultos estão, para já, afastados. Mas as vaias constantes aos membros do Governo - e ao Chefe de Estado -, de cada vez que põem o nariz de fora, bem como as manifestações fora do enquadramento partidário ou sindical são o retrato do estado a que chegou a República. Uma república que mantém os seus mecanismos formais mas que perdeu, entretanto, toda a moral. A melhor metáfora deste cenário foi a chegada dos conselheiros de Estado ao Palácio de Belém, em carros de alta cilindrada, ocultos por vidros foscos, debaixo dos apupos dos manifestantes. Não houve um só que, imbuído de um abalo republicano súbito, se tivesse deslocado de elétrico, ou a pé, circulando como um cidadão por entre os seus concidadãos, enjaulados a 100 metros de distância. D. Carlos, que era um monarca, circulava de landau aberto, e sem segurança. Assim foi morto, mas nunca lhe passou pela cabeça esconder-se. O seu pai, D. Luiz, vestido de jaquetão, bebia ginjinhas, com os amigos, na baixa lisboeta. Mas a República, que se fundou no princípio da igualdade e da cidadania universal, na qual as funções de Estado são encaradas como missão, acessíveis a qualquer cidadão eleito, e limitadas a períodos de tempo pré-definidos, esconde-se atrás de vidros foscos. Longe da ralé.

Embora simbólica, a cena de Belém define uma tendência: num país sem terrorismo nem ameaças, os representantes da República não aparecem, nem se assumem. São mais guardados do que os plenipotenciários da ditadura. Recusam-se a enfrentar os portugueses. E comemoram os 102 anos da República em espaços inacessíveis. Está alguém aí? Volta, D. Carlos, estás perdoado.

 

O divórcio entre o poder e o povo já não pode ser medido por simples sondagens. O que se coloca, neste momento, é uma questão de legitimidade. O problema não está nas medidas da troika ou no seu memorando: o problema é que o Governo, e Vítor Gaspar, estão a impor um programa rejeitado pelo povo, nas ruas, e nas urnas, durante e depois do PREC. Senão, vejamos: impostos que asfixiam pessoas e matam empresas, portagens e taxas que anatematizam o transporte individual e, agora, o novo IMI, que diaboliza a propriedade privada, estão a empurrar-nos para a coletivização forçada da economia e para o assistencialismo miserabilista do Estado revolucionário! Só nos faltava descobrir que Vítor Gaspar é um perigoso estalinista, a beber dos ensinamentos da 3.ª Internacional! Mas não: a proteção à banca, os améns aos grandes empórios económicos e as privatizações selvagens livram-no, felizmente, dessa suspeita.

E, entretanto, que faz o PS? No momento em que o país agoniza com o maior aumento de sempre da carga fiscal, o PS entretém-se a pedir... a redução do número de deputados! Ora aqui está uma oportunidade de acabar uma crónica com uma nota de humor...