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Conto de Natal

Sexto Sentido

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'Por favor, troika, não!...', gritou Vítor. Nesse momento, acordou

Filipe Luís

Filipe Luís

Editor Executivo

"Dê aí uma moedinha, 'sôr' Vítor!" Desde que o Governo dispensara os motoristas, medida enquadrada no vasto programa de rescisões na Administração Pública, a frase repetia-se, noite após noite. O arrumador, ex-motorista adstrito à Presidência do Conselho de Ministros, tinha escolhido precisamente aquela esquina, nas Olaias, para mostrar a sua capacidade de "empreendedorismo". Os motoristas constituíam o último grupo dos 100 mil funcionários públicos dispensados nesse ano. As viaturas oficiais eram, agora, uma frota de Smarts, conduzidas pelos próprios titulares. Para além de disponibilidade para trabalhar ao fim de semana, dinamismo e espírito de iniciativa (com admissão imediata), ter carta de condução passara a ser uma exigência para alguém se tornar membro do Governo. Desde então, Vítor sempre execrou o novo-riquismo do grupo parlamentar do PS, que se pavoneava no seu reluzente Clio cinzento, extravagantemente adquirido no mercado de usados. Carlos Zorrinho chegava a ir acelerar, de propósito, para a Gomes Teixeira, só para criticar o "miserabilismo do Governo". E, fazendo guinchar os pneus, era ouvi-lo bradar para um atarantado Álvaro Santos Pereira, encolhido dentro do seu Smart amarelo, da cor do pastel de nata: "Sai da frente, ó palhaço!"

O Natal de 2012 foi duro. Subitamente, deixara de se ouvir o ressonar vindo do Palácio de Belém. O mau presságio foi confirmado pelo veto presidencial do Orçamento. Passos desistiu de se demitir, depois de perceber que não tinha emprego cá fora. Ângelo Correia andava esquivo e não lhe atendia os telefonemas. Miguel Relvas ainda se ofereceu para lhe arranjar qualquer coisinha em Angola, mas o PM recusava tornar-se retornado naquele país. Paulo Portas (que, para evitar ser remodelado, andava, agora, a tirar a carta...) prometeu que o deputado João Almeida apresentaria ao ministro das Finanças, em poucos dias, um segundo Orçamento "de chave na mão". Os acontecimentos precipitaram-se: Passos Coelho prestou contas ao Conselho Nacional do seu partido, queixando-se de que "a voz do PSD não tinha sido ouvida" e afiançando que a situação "não se repetiria da próxima". 

A Consoada de 2013 ameaçava ser ainda pior. Era difícil chegar ao bacalhau, com o modesto ordenado de ministro: 495 euros e 35 cêntimos, mais senhas de refeição. Valia aos governantes o facto de poderem receber na moeda antiga - as folhas de ordenado tinham passado a ser processadas em Berlim - e não em escudos, como as da generalidade dos portugueses. (A entrega do OE ao CDS tivera as suas consequências...) Em finais de janeiro, um tabloide insinuou que o ministro Relvas fora apanhado a vender euros no mercado negro, depois de gorado o negócio em que o sr. Efromovich prometera fornecer a despensa do ministro com as sobras do catering da TAP.

Vítor abriu o porta-moedas de carneira, comprado na loja do chinês instalada nas arcadas do piso térreo do Ministério, e tirou uma moeda de cinco cêntimos. Afinal, era Natal. Pelo câmbio atual, aquilo valia para cima de 100 mil réis e dava para um pacote de cartão de vinho, dos pequenos, para a ceia do pobre homem. Na mesa da Consoada de Vítor havia uma cebola crua, às rodelas, e um copo de água, para amenizar o sal da sarda cozida com batatas. Mas, de um canto, saltaram três figuras, vestidas de Pai Natal. Uma delas levou-lhe a cebola. A outra a água. E a outra o peixe. "Por favor, troika, não!...", gritou Vítor. Nesse momento, acordou.

Olhou em redor, a transpirar. O telemóvel marcava: Ter 25-12-2012  4:22. Não voltou a adormecer. Pesadelo por pesadelo, o melhor era entreter-se a fazer umas contas.