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Filipe Luís

Filipe Luís

Editor Executivo

As unhas de Cristas, a cama à espanhola de Rio e a filha adolescente de Costa

Sexto Sentido

Filipe Luís

SOPA Images/ Getty Images

O que nos dizem os resultados eleitorais das europeias. E porque é que, perante tal abstenção, ainda há partidos que cantam vitória

Custa ver partidos a cantar vitória, após conhecerem este nível de abstenção. Festejarão o quê? A marcha triunfal para o abismo? Dançam ao som da orquestra do Titanic? Por momentos, e por dever de ofício, façamos uma leitura dos resultados, tendo em conta a clássica tabela de vencedores e vencidos. Mas que fique claro: com esta participação eleitoral, foram 17 contra 17 - e no fim perderam todos.

Dito isto, e numa análise imediata, a direita repete a derrota estrondosa de há quatro anos e o PS volta a ganhar por poucochinho. O PAN emerge, sem surpresa, com a eleição de um deputado - o que, em 21, é obra mais difícil do que eleger alguém em 230... - mas beneficia claramente do efeito da abstenção, e nem sequer consegue herdar os dois do MPT de há cinco anos. O Bloco é o grande vencedor da noite, por ter suplantando, por KO técnico, a CDU, galgando-lhe vários passos, no curioso jogo do macaquinho chinês travado no seio da geringonça.

Por falar nisso, estes resultados, somados ao banho levado pelos comunistas nas autárquicas de 2017, trazem más notícias para uma eventual re-edição da geringonça: mesmo com a secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, a tocar violinos e a disfarçar - "o resultado do conjunto de partidos que apoia o Governo foi muito positivo" -, o PCP sai muito mal tratado destes quatro anos de parceria parlamentar com os socialistas e muito dificilmente vai querer meter-se noutra. Tirando o CDS, que, segundo as primeiras projeções, teria resultados aproximados dos do PAN, ninguém terá mais razões para ficar de costas para a turma, com umas orelhas de burro agarradas à testa.

Neste quadro de verdadeiro massacre à direita (e à esquerda comunista), António Costa vê virado contra si, precisamente, o mesmo argumento de que se socorreu para surrupiar a liderança do PS a António José Seguro: como é que, perante o pior resultado de sempre da direita (ou aproximado), o PS não capitaliza uma grande vitória? Foi isto que Costa disse em 2014, esquecendo-se dos fatores abstenção em europeias, ausência de pressão do voto útil, dispersão pelos pequenos partidos e desmobilização do eleitorado. Tudo isto pode invocar agora - mas permita-nos que sorriamos... A estes argumentos, pode juntar, isso sim, a apresentação de um cabeça de lista que, embora muito esforçado, resultou num jogo de soma negativa: um desastre de candidato e uma intrigante falta de killer instinct de Costa, na sua escolha. A celebração da vitória do PS só se justifica pela distância que mantém relativamente ao PSD. E um eventual challenger de Rui Rio poderia inverter os argumentos de Costa de há cinco anos: perante um resultado tão poucochinho do PS, como é que o PSD não sobe?

Bem, uma das razões, para além da falta de élã de Rui Rio e da argolada cometida no dossiê/professores (o que estragou tudo!), pode estar na dispersão de votos à direita, pelo Aliança, pela IL e pelo Basta. Santana Lopes, já agora, que podia acrescentar, se se tivesse candidatado ele próprio... afinal dividiu. E, sem ganhar nada, ajudou a comprometer o resultado do seu PPD/PSD. Podia, ao menos, ter-se candidatado ele próprio, como cabeça de lista. Mesmo que não fosse eleito, ao menos tinha tirado a limpo qual o valor do Aliança, evitando o stresse de ter de estar a roer as unhas até outubro.

No final do dia, António Costa pode até ter esperanças de conseguir governar, no futuro, só com o PAN, já que a maioria absoluta ficou mais longe. Mas deve desenganar-se: com uma abstenção na casa dos 40% (e não quase 70%) o PAN perde expressão e não vai chegar. Poderá atrelar-se ao Bloco, metê-lo no Governo e passar a aturar Catarina Martins e companhia como se tivesse um filho adolescente a dar bitaites sobre a economia do lar - e, ao mesmo tempo, esperar a firme oposição da CDU, desejosa de se ver livre disto.

Já a direita, com estas lideranças, não vai lá: o sonho de Assunção Cristas de chegar a primeira-ministra, firmado pelo seu irrepetível resultado em Lisboa, em 2017, esfumou-se algures no couval por onde andou a estragar as unhas. E Rui Rio tem já uma cama feita à espanhola, à sua espera, para estrear na noite eleitoral de 6 de outubro. Se não for antes.

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