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Filipe Luís

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Professores e gasolina

Sexto Sentido

Filipe Luís

Carlos César não aponta as contradições da direita, nesta questão, mas rasga as vestes perante “a irresponsabilidade dos partidos extremistas (sic)”. Onde isto já vai!...

Vamos tentar perceber, devagarinho: o Governo considera que a aprovação, pelo Parlamento, da contagem do tempo total de serviço congelado, da carreira dos professores, torna o País ingovernável e pode justificar a demisão do Governo. Ora, os efeitos orçamentais desta decisão não serão sentidos na presente legislatura, pelo que se trata de uma matéria a ser enfrentada, não por este, mas pelo próximo Governo. Em coerência com o próprio pensamento de António Costa, há aqui um equívoco: o que ele quererá dizer é que o PS não deve apresentar listas às próximas eleições legislativas. Ou, se as apresentar, e ganhar, deve recusar formar Governo. Ou, se ganhar com maioria absoluta, reverter a decisão aprovada esta quinta-feira. Será isso?...

O que se pretende, com esta dramatização, é bem claro. Acontece todos os dias, nas relações amorosas em crise, quando as pesoas não têm coragem para pôr as cartas na mesa: o membro do casal descontente arranja um pretexto para a separação, que deite as culpas ao parceiro - e respira, aliviado. Se a geringonça acabar, "aculpa foi do PCP e do BE". O presidente do PS, Carlos César, foi bem claro: “Está tudo nas mãos do PCP e, em especial, do Bloco de Esquerda”. Ou seja, apesar de tanto o PCP como o Bloco sempre terem defendido a reposição do tempo total, César acha que o voto de uns e de outros, esta quinta-feira, foi uma surpresa e uma traição ao entendimento formado no seio da geringonça. E que terão de ser eles a recuar, no momento da votação final. César não aponta as contradiões da direita, nesta questão, mas rasga as vestes perante “a irresponsabilidade dos partidos extremistas (sic)”. Onde isto já vai!...

A partir de agora, portanto, o PS ganha liberdade para criticar livremente PCP e, “em especial”, o Bloco (seu principal rival na disputa por um certo eleitorado esquerdista flutuante...), dizendo aos portugueses: “A geringonça .2 é praticamente impossível. Se não quiserem entregar o País à direita, votem maciçamente no PS.” O guião é extremamente simples, extremamente básico - resta saber se será extremamente eficaz.

E o que dizer dos campeões dos congelamentos de carreiras (PSD/CDS) e dos arautos do rigor orçamental contra as “políticas de bancarrota dos socialistas” (CDS/PSD)? Será que imaginam que ganham um único voto e que os professores, ou o eleitorado em geral, não lhes fareja, à légua, a hipocrisia da votação desta quinta-feira? Arriscam perder simpatias à direita sem as ganhar ao centro. O CDS mete os pés pelas mãos, ao dizer que nunca falou em salários, mas o que aprovou foi “o direito ao reconhecimento do tempo total”. E Rui Rio mete as mãos pelos pés, ao dizer que o impacto não vai sentir-se este ano, nem no outro e, nos seguintes, “só se o Governo quiser”. E acrescenta: “Eu não ando aqui a brincar com isto!”. Agora, fora de brincadeiras: importa-se de repetir?...

Mário Nogueira incha de contentamento. Afinal, ele acaba de provar que o sindicalismo tradicional ainda pede meças aos novos sindicatos desalinhados e agressivos, do tipo “motoristas de transportes de matérias perigosas”. Enquanto contempla a folha do calendário Pirelli na cabina do seu camião, o líder da Fenprof conversa com o espelho retrovisor: "Espelho meu, espelho meu, haverá sindicalista mais duro do que eu?"

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