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Macacos de imitação

Luís Barra

O fracasso dos coletes amarelos permite retirar três conclusões principais: primeira, qualquer protesto precisa de se focar num motivo. Segunda, a comunicação social sobrevaloriza de forma desproporcionada as redes sociais. Terceira, os portugueses não correm a foguetes

Há quem diga que o fracasso das manifestações convocadas pelos coletes amarelos prova que os portugueses são “mansos”. Será verdade? Não é bem assim. Pelo contrário, os portugueses são capazes de se mobilizar e de protestar quando acham que vale a pena - e que podem conseguir resultados. Quando existe um motivo. Da marcha branca em solidariedade com Timor-Leste, à manifestação contra a TSU, que obrigou o Governo de Passos Coelho a recuar. Quanto ao mais, os portugueses mantêm nos genes uma certa manha rural que os inibe de correr a foguetes. Sobretudo, quando os foguetes do protesto surgem em contra-ciclo com o sentimento real da população e, ainda por cima, em época natalícia, quando toda a gente está concentrada na família e no consumo.

Todo o protesto precisa de um motivo. O próprio movimento francês começou por ser uma reação contra o imposto do gasóleo. Só depois foi alargado a outras reivindicações. Ora, o protesto português não tem um motivo próximo e imediato. Não se passou, de repente, nada de diferente que leve as pessoas a mobilizar-se. Só se estivermos a falar de um descontentamento difuso, que leva a dizer que tudo está mal… bem, mas esse é permanente, faz parte da própria idiossincrasia nacional. Conversa de café. Nada de novo.

Os promotores apresentaram um conjunto de reivindicações genéricas, como a do combate à corrupção, e outras contraditórias, como a da exigência de menos impostos e melhor Serviço Nacional de Saúde. Ora, os portugueses desconfiam de que, para melhorar o Serviço Nacional de Saúde, se calhar, precisam de pagar impostos... Aliás, foi um ministro das Finanças no Governo anterior, Victor Gaspar, quem alertou que era preciso saber quanto é que os portugueses estavam “dispostos a pagar para manterem este Estado Social”... O manifesto dos promotores desta manifestação não é um caderno reivindicativo: é um programa. Ora, em vez de convocarem os coletes, talvez devessem fazer um partido e submeter esse programa a eleições.

Outro problema desta iniciativa prende-se com a imitação. Em Portugal, como em qualquer outro sítio, este tipo de movimentos tem de ter um detonador – o tal motivo próximo – e deve ser genuíno. Provavelmente, os portugueses não se terão mostrado muito recetivos a servirem de macaquinhos de imitação dos franceses. Por outro lado, os manifestantes, mimetizando, de forma saloia, o fenómeno francês, procuraram disseminar o protesto por inúmeros pontos do País, o que dispersou a iniciativa. Talvez, se se tivessem concentrado num único local, pudessem encher mais o olho. Esqueceram-se de que, mesmo no caso gaulês, o protesto começou por ser muito localizado. Só depois, é que alastrou, por efeito de simpatia, a vários pontos do território.

Outra conclusão que se deve tirar é a de que o facebook continua a ser genericamente usado para partilhar vídeos de gatinhos e fotos de comida. A intervenção política nas redes continua a processar-se numa bolha, a que os meios de informação tradicionais, mostrando dificuldade em sair de um certo circuito fechado, continuam, de forma masoquista, a dar demasiada importância. É que, lá fora, o mundo real continua a existir.