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Avós, netos e bater no ceguinho

O principal problema é que ele foi logo buscar o exemplo dos avós, uma entidade que as nossas sociedades passaram a ver como símbolo e paradigma de ternura, respeito e bonomia - um campo sagrado

1. Um familiar meu, hoje já adulto, tem uma deliciosa história de quando tinha quatro anos. Em casa da sua avó, participava num lanche, onde a boa senhora beberricava o chá, com algumas amigas. Aflita, a criança insistia com a avó que precisava de lhe dizer um segredo. Mas a senhora manteve-se firme: "Não há segredinhos, que é falta de educação. O que o menino tem a dizer, que o diga à frente das pessoas!" Ao fim de alguma insistência, esse meu primo cedeu: "Não quero ficar sentado ao lado desta velha!"

O leitor já percebeu: a semana foi sacudida pelo furacão das declarações de um professor da Universidade Nova, Daniel Cardoso, durante o programa da RTP Prós e Contras, a propósito do movimento MeToo. Não vou bater mais no ceguinho. Até porque, ouvindo o que foi dito, é preciso concluir que algumas das suas palavras foram descontextualizadas, em comentários posteriores, sobretudo, nas redes sociais. O essencial, porém, não deixa de ser um disparate, um tanto ou quanto alucinado: o interveniente defendeu que obrigar as crianças a dar um beijo aos avós pode ser uma violência, inscrita, segundo bem percebi, numa espécie de "coação corporal" - e que isso pode produzir danos futuros em comportamentos análogos aos que são agora denunciados por aquele movimento. Não é preciso dar muito "à manivela", com a mão, junto à cabeça, para perceber quão extremo e rebuscado é este argumento, até porque muitos de nós se lembram de como era boa e reconfortante a ternura dos nossos avós, quando éramos pequenos. Beijinhos incluídos. Mas, com algum esforço e benevolência, podemos perceber onde o professor Cardoso queria chegar. Já todos nós nos vimos confrontados com situações em que os nossos filhos têm alguma repugnância em beijar adultos vagamente conhecidos, especialmente quando se trata de idosos. Digamo-lo sem hipocrisias: nós próprios, em crianças, teremos sentido essa sensação, algumas vezes. Se o polémico professor tivesse colocado as coisas nestes termos, talvez pudesse ter sido melhor entendido - embora, pelos motivos que já veremos a seguir, continuasse a não ter razão. O principal problema é que ele foi logo buscar o exemplo dos avós, uma entidade que as nossas sociedades passaram a ver como símbolo e paradigma de ternura, respeito e bonomia - um campo sagrado. Tais declarações - e não só pelas inquietantes semelhanças fisionómicas e ideológicas... - aproximariam este professor das teorias de Pol Pot, ou da Revolução Cultural chinesa, isto se eu não estivesse apostado numa tese muito mais benigna: talvez Daniel Cardoso tenha um trauma, por causa de algum buço mais áspero de uma avó que o tivesse osculado, em criança... Espero, ardentemente, que seja só isso. Ora, o cumprimento socialmente normal, expresso por um par de beijos nas faces, seja aos avós, seja a outra pessoa qualquer, não tem nada a ver com "violência corporal" mas sim com urbanidade. Há montes de coisas que as crianças devem fazer contrariadas ou de forma coerciva - e cá estão os pais para garantir que isso seja tal e qual assim: chama-se "educar". Não sei é se o conceito de "educação" será familiar ao patusco interveniente do Prós e Contras.

Aliás, ainda a propósito do MeToo, acabo de ler uma notícia em que uma autoridade iraniana reitera a proibição de as mulheres poderem assistir, ao vivo, a jogos de futebol masculinos. Alegadamente, a visão de "homens semi-nus em trajes desportivos conduz ao pecado". O leitor não se ria: por este andar, em breve, nos Estados Unidos, e entre nós, sairá a proibição da presença de público masculino em jogos de voleibol feminino...

2. Uma nota sobre a remodelação: as remodelações são como os melões, mas o timing, as circunstâncias e os nomes desta são bem demonstrativas da habilidade política de António Costa. A questão é a de saber se, aproveitando a demissão de Azeredo Lopes (já agora, o novo ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, é uma excelente aquisição...), e fazendo uma remodelação mais ampla, António Costa não estará apenas a camuflar o que poderia ser o verdadeiro motivo: um "golpe palaciano" operado pela EDP no seio do Governo. A saída do incómodo secretário de Estado Jorge Seguro Sanches da Energia não deixa de ser desconcertante. Ora, o iconoclasta João Galamba, que o substitui, tem agora uma excelente oportunidade de honrar a sua heterodoxia e proverbial irreverência, em circunstâncias mais difíceis: agora é que se quer ver se as suas bravatas são capazes de produzir alguns efeitos positivos, afrontando os interesses da poderosa elétrica, sempre que os considerar ilegítimos - ou se, de repente, se deixa de bravatas. O histórico do PS - ao contrário do de Passos Coelho, justiça se lhe faça, vide o caso BES... - não augura nada de bom, neste tipo de matéria. Das duas uma: ou Galamba dá razão ao deputado do PS Ascenso Simões - "ele sabe que todos os olhos estão postos nele, pelo que deverá fazer um grande lugar" - ou segue os princípios de Grouxo Marx. Que, como se sabe, eram apenas uns... ou outros.

PS - Afinal, em que ficamos, senhores da oposição? O Orçamento do Estado para 2019 aumenta a carga fiscal ou é eleitoralista?... Convinha que se decidissem.