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Cinco pontos para entender a "silly season"

Gonçalo Rosa da Silva

A reforma depois dos 70 dá resposta à aspiração de todos os séniores da nossa Função Pública. A começar pelo senhor Presidente da República, que completa, este ano, as suas 70 primaveras e que, se não fosse isto, corria o risco de ir parar a um lar

1 - Deixem-nos trabalhar!
O Governo prepara-se para legislar, permitindo aos funcionários públicos que assim o desejem que possam trabalhar para além dos 70 anos, e acabando com a lei que os obriga a aposentar-se nesse limite de idade. Ora aí está uma reforma de fundo pela qual o País ansiava e que vem dar expressão aos mais profundos desejos e às mais prementes reivindicações dos trabalhadores da Função Pública! Parafraseando um aposentado famoso - que, por acaso, já foi Presidente da Nação - o que dirão os trabalhadores séniores do Estado, que nunca desejaram outra coisa senão poder vergar a mola até, pelo menos, aos 90 anos? É o seguinte: "Deixem-nos trabalhar!". Esta medida, útil, necessária e mesmo urgente, vai potenciar à mais elevada eficiência a produtividade da Administração Pública e permitir aos milhares de trabalhadores com mais de 66 anos e quatro meses que desejavam prolongar a sua vida útil... fazê-lo! Obrigado, Mário Centeno, obrigado, António Costa! Para além de mostrarem conhecer profundamente as maiores necessidades para um bom desempenho dos nossos serviços públicos, vocês souberam interpretar fielmente o sentimento e a aspiração mais ardente dos funcionários públicos deste País. A começar pelo senhor Presidente da República, que completa, este ano, as suas 70 primaveras e que, se não fosse isto, corria o risco de ir parar a um lar.

2 - Cavaquismo.2
A bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, aumentou o seu próprio vencimento mensal, com retroativos ao ano de posse como bastonária, ou seja, 2016. Os 2800 euros que diz tirar ao fim do mês correspondem, segundo o Jornal de Notícias, que trouxe o tema à estampa, aos 3400 euros ilíquidos do vencimento de um enfermeiro diretor do grupo B, a que, segundo os críticos, se somam ajudas de custo e despesas de representação. Ao mesmo tempo, os enfermeiros fazem greve em luta pela valorização das carreiras e por mais uns trocos. A bastonária Cavaco mostra que o seu cavaquismo também é, de facto, sinónimo de prosperidade. E nós pedimos uma aspirina para a dor de cabeça.

3 - Tudo ao molho e fé em Deus

A secretária de Estado da Inclusão de Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, deu uma extensa entrevista ao jornal i onde, entre muitas medidas louváveis, anuncia a integração de alunos com deficiência em salas de aula comuns - não sabemos se é para poupar. Com sublinhados nossos, citamos a governante, que reconhece que se trata de "um desafio para as escolas que estão agora a perceber como vão aplicar" a medida. Desejando nós que a crueldade infanto-juvenil já não seja o que era e que o fenómeno do bulliyng tenha sido erradicado das nossas instituições de ensino, continuamos a aplaudir a secretária de Estado: "O aluno pode não estar 100% do tempo na sala de aula, porque há alunos [destes] que precisam de outro tipo de aprendizagem". A sério? Não tínhamos pensado nisso! E especifica: "Por exemplo, um aluno cego tem de aprender braille e um aluno com paralisia cerebral se calhar [vamos repetir o sublinhado] se calhar precisa de um conjunto substancial de bases de ginástica adaptada". E conclui a voluntariosa membro do Governo, com uma fé inabalável nas escolas e na capacidade de improviso de docentes e funcionários: "Isto tudo tem de ser conjugado com alguma sabedoria". Presume-se, com a boa vontade dos motivadíssimos professores das nossas escolas, que não tinham nenhum tipo de "desafios" extra, como os que poderiam enfrentar se o nosso prestimoso Ministério da Educação pós-Nuno Crato não tivesse erradicado por completo as turmas problemáticas (compostas por pessoas sem qualquer deficiência). Ou seja, esta "conjugação com alguma sabedoria" (o que quer que isto queira dizer, em termos práticos) ficará a cargo das escolas, que se hão de desenrascar e, se Deus quiser, tudo há de correr bem.

4 - Entre barreiras

Ativistas anti-tourada foram esta semana agredidos quando invadiram um espetáculo taurino, pretendendo impedir a sua realização. Teria sido preferível, claro, que os aficionados e a organização, em vez de reagirem com violência, tivessem solicitado aos manifestantes a ordem do tribunal ou qualquer outro tipo de normativo legal que pudesse justificar a sua ação moralizadora. Mas sabemos como certas pessoas têm esta "deficiência" de ferver em pouca água.

5 - Bruno de Carvalho.

E pronto, sendo o tema a silly season, não precisamos de acrescentar mais nada a este ponto. Só uma coisinha: se, ao que parece, sportinguistas, benfiquistas e portistas o querem ver à frente do Sporting, porque não deixam o homem lá ficar?...