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Quatro personagens para um congresso

Marcos Borga

Se Luís Montenegro cumprir a promessa de continuar, cá fora, o combate ao Governo da “geringonça”, abstendo-se de criticar a liderança do seu partido, torna-se ainda mais perigoso, para Rui Rio, do que se fizer o contrário

Personagem 1: Alberto João Jardim

O antigo presidente do PSD Madeira e do Governo Regional daquela região autónoma regressou seis anos depois como um exotismo do passado. A sua intervenção, que parecia ter saído da RTP Memória, fez-se sem o brilho de outras eras. Parecia Mats Magnusson a regressar ao Benfica, num recente jogo de velhas estrelas. Tanto tempo parado fez-lhe mal: fora de forma, sem qualquer discurso articulado, teve a benevolência do congresso que o tratou com o respeito devido a uma antiga “glória do clube”. Mesmo a sua missão de entretenimento, que tantas palmas lhe rendiam antigamente, se limitou à chocha graça final sobre “bengaladas”. Mas se perguntarem a algum congressista se se recorda de alguma frase ou ideia de Alberto João, um chiste, uma farpa, uma ironia ou um recado… ninguém se lembra. Lembramo-nos nós de uma sugestão para que o Presidente da República, imagine-se, convoque um referendo sobre a Constituição… Mesmo que pudesse fazê-lo… Perdeu a noção. Dêem-lhe uma bengala.

Personagem 2: Pedro Santana Lopes

O adversário de Rui Rio nas diretas levava para o palanque uma ideia – que era, ao mesmo tempo, uma justificação. A expressão “sentido de responsabilidade” justifica tudo. O golpe de rins, a reconciliação, o dito por não dito. Por outras palavras, disse a Rio que “sempre fomos amigos”. Um congressista crítico comentou connosco: “O vira-casaquismo, agora, chama-se ‘sentido de responsabilidade’…” Mas é muito mais do que isso. Santana procura o consenso e pretende voltar a pairar por cima, recuperando o estatuto de senador que tinha antes de se meter nisto. A pensar, claro, no apoio do PSD a uma candidatura presidencial. Ou em 2021, se Marcelo, como alguns querem adivinhar, se tornar o primeiro Presidente a enjeitar um segundo mandato, ou mesmo em 2026, quando tiver 70 anos, o que, com saúde e lucidez, é ainda uma ótima idade para ocupar Belém.

Personagem 3: Luís Montenegro

Protagonizou o grande momento do Congresso, roubando o palco ao próprio líder, que estava a ser entronizado. Foi uma daquelas raras vezes em que um crítico feroz é apaludido de pé pelos que confirmam, na liderança, o criticado. E não é só porque o PSD esteja pouco seguro da sua escolha nas recentes eleições diretas: o que acontece é que o partido respira de alívio, por saber que terá, para o futuro, uma alternativa credível, forte, disponível e ali à mão. Vale ouro. Montenegro, saindo do Parlamento, fica livre. Jamais continuaria a apodrecer na Assembleia, na última fila, a levantar o braço e a aplaudir, quem sabe, algumas ideias com as quais poderia vir a não concordar. Se cumprir a promessa de continuar, cá fora, o combate ao Governo da “geringonça”, abstendo-se de criticar a liderança do seu partido, torna-se ainda mais perigoso, para Rio, do que se viesse a fazer o contrário. Como bem sabe António Guterres, quando viu o Presidente Mário Soares a fazer “oposição” ao primeiro-ministro Cavaco Silva; ou António José Seguro quando levava com José Sócrates, todos os domingos, a dar-lhe a tática na RTP. Uma personalidade forte que fale ao lado só menoriza e condiciona aquele que é suposto liderar a agenda da oposição.

Personagem 4: Rui Rio

Justiça. Educação. Segurança Social. Saúde. Eis quatro áreas em que a substituição da “geringonça” não chegará para mudar. Nestas, é preciso chegar a entendimentos. Esta foi a baliza colocada, ainda que indiretamente, para as futuras eventuais conversas com o PS. O novo líder do PSD, o presidente da Câmara do Porto que conquistou a cidade contra Pinto da Costa e que nunca recebeu o Porto campeão na varanda dos Paços do Concelho – e que apesar disso ganhava eleições – é o mesmo que entra a matar, no PSD, com a designação de Elina Fraga para uma das vice-presidências do partido. É Rui Rio a ser Rui Rio, o osso difícil de roer que gosta de desconcertar. O seu estilo pouco comicieiro, no discurso de encerramento, estilo que não costuma render nos palcos partidários, pode dar-lhe trunfos no País, cansado de mais do mesmo – políticos enfáticos/chefes de claque. Essa racionalidade, frieza, ausência de emoção e tendência para a postura de explicador torna-o chatíssimo, primeiro, e “homem sério”, a seguir. O desafio de Rui Rio, nos próximos dois anos, é dar alma ao slogan inventado por Fernando Pessoa para a Coca-Cola em Portugal: primeiro estranha-se, depois entranha-se. Missão (im)possível?