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Filipe Luís

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Editor Executivo

Good Bye Lenine

Sexto Sentido

Filipe Luís

José Carlos Carvalho

É irónico, para Passos Coelho, que o seu derradeiro discurso tenha sido o melhor

No filme de Wolfgang Becker, Good bye Lenine, a alemã Christiane (Kathrin Sass), casada com a “pátria socialista”, sofre um ataque cardíaco e entra em coma. Quando desperta, oito meses depois, já após a queda do Muro de Berlim, o seu filho, para prevenir novos ataques, cria à sua volta um mundo virtual que a faz acreditar que a RDA ainda existe. O mundo criado pelo PSD, pelo seu aparelho e militantes mais acérrimos, à volta de Pedro Passos Coelho, nos últimos dois anos, fê-lo acreditar que ainda era “primeiro-ministro”. Na noite eleitoral de domingo, o líder social-democrata, chocando de frente contra o espelho de enganos em que a sua estratégia se enredou, descobriu que não.

O seu discurso de despedida, na reunião do Conselho Nacional, foi surpreendentemente claro, sereno, fluente e até inspirado. É irónico, para Passos Coelho, que o seu derradeiro discurso tenha sido o melhor. Não tenho dúvidas de que ele conseguiu um lugar na História, mais por boas razões do que por más. Se pensarmos bem, em 2011 ele era apenas um político imberbe, sem qualquer experiência de administração, sem currículo nos lugares públicos, completamente virgem do ponto de vista da alta política e da condução dos negócios do Estado. As expectativas eram as piores: o primeiro-,ministro mais impreparado da História iria conduzir o País num dos períodos mais difíceis do último meio século. Pois bem: essa inocência pode ter sido um trunfo. De forma cândida, que às vezes pareceu insensível, ou mesmo brutal, conseguiu inverter a ordem das coisas e deixar um país pronto para a recuperação. Paradigma do que afirmo, a coragem com que lidou com o caso BES, deixando cair Ricardo Salgado, só se pode entender à luz de uma certa inconsciência criativa ou falta de cálculo político, o que permitiria ao País desmascarar o elefante que tantos estragos já fizera na sua loja de porcelana.

Os portugueses deram-lhe o merecido benefício da dúvida, através de uma maioria relativa, tendo conseguido ganhar eleições em circunstâncias em que congéneres seus europeus, vítimas de agruras similares, eram varridos do mapa político e eleitoral. E é absolutamente incrível como, em dois anos, desbaratou completamente o capital de créditos acumulados. Primeiro, por recusar reconhecer méritos à receita alternativa que, tão importante como a sua, mas agora adaptada a novos tempos, ajudou aos sinais de recuperação do País. Depois, dando aos portugueses a sensação de que toda a sua energia estava concentrada no ressentimento e no desejo de que tudo corresse mal, só para que, no final, lhe reconhecessem razão. Paulatinamente, acreditar nas suas previsões ou diagnósticos foi-se tornando uma questão de fé. E os seus "apóstolos",sobretudo nas bases de uma parte do PSD, pareceram - e parecem - imbuídos de uma espécie de fervor religioso, com pouco contacto com as dinâmicas da realidade.

Essa estratégia anquilosada em muito contribuíu para que chegasse às autárquicas em estado de confrangedor isolamento. Candidatos como Teresa Leal Coelho, em Lisboa, ou Álvaro Almeida, no Porto, só foram escolhidos por não haver melhor. E de quem é a culpa? Dos barões do PSD, que lhe andaram a fazer a cama - ou também dele que não mostrou ideias ou uma estratégia que os mobilizasse? Exemplo de alguma hipocrisia reinante foi a tirada de Pedro Santana Lopes, esta semana, na SIC, quando se referiu - apenas nuns décimos de segundo, porque deve ter percebido o que estava a dizer... - às "recusas" que Passos terá ouvido, ao longo do processo autárquico. Pois, a começar pela do próprio Santana, em Lisboa. Pelos vistos, ao ponderar uma candidatura à presidência do partido, o seu empenho na liderança da Santa Casa já terá deixado de ser um apelo mais forte do que o do regresso à política...

Passos não sai por demérito das suas ideias para o País - que não foram a votos. Sai por não ter revelado, na oposição, a mesma competência que revelara no Governo. Competência para fazer crescer o partido, ou pelo menos, fazer com que o partido resistisse. Às vezes, teria sido preferível um recuo tático - apoiar Cristas em Lisboa ou Rui Moreira no Porto, por exemplo - em prol de um objetivo maior no futuro.

2 . O filme Good Bye Lenine também se aplica ao PCP. Do mesmo modo, também os comunistas acordam desorientados. O pior resultado de sempre desmente o mundo ideal construído à volta da virtuosidade da “geringonça”, que terá redundado, para os comunistas, num negócio de “soma negativa”. A perda de dez câmaras, nove das quais para o PS, circunstância aliada à mais do que anunciada queda de Passos, não são, paradoxalmente, boas notícias para a estabilidade. No PSD, deixou de haver o perigo do regresso do papão da direita. E o PCP, na pele de uma fera ferida, vai ter de fazer prova de vida junto do eleitorado que se lhe escapa por entre os dedos.
Os comunistas estão no seu labirinto, no sentido de escolherem entre a capacidade de se afirmarem na órbita do poder, procurando resistir ao abraço de urso do PS, ou voltarem para o conforto da franja do protesto, entrincheirados na irrelevância parlamentar face a uma maioria absoluta de Costa

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